No "lounge" da Lufthansa onde me encontro, no aeroporto de Munique, estamos, à vontade, mais de meia centena de pessoas. Não se ouve uma mosca, ou melhor, poder-se-ia ouvir alguma, se acaso as houvesse por aqui. O ruído das rodas das malas, toques de talheres ou de loiça, passos no soalho de madeira e o folhear de jornais é quase tudo o que surge como fundo. Estou aqui há quase uma hora e, acreditem!, nem um único telemóvel tocou alto. A esmagadora maioria dos olhos não encara os outros, concentra-se nos laptop, nos tablet ou no visor dos smartphones. Quem fala, fala baixo, como se estivesse numa biblioteca, condicionando os outros a proceder de forma idêntica. Até duas crianças se silenciam em frente de dois iPads. Há minutos, uma japonesa deu uma leve gargalhada e logo suscitou teutónicos sobrolhos. Não sei se gosto disto, mas imagino que quem gosta dificilmente deve aceitar o que nós somos.
terça-feira, abril 01, 2014
Paulo Barbosa (1945-2014)
Quando somos novos, a diferença de idades conta muito. Lembro-me do Paulo Barbosa, nos tempos de juventude em que Viana do Castelo era destino invariável dos meus agostos. Mas nunca falámos, por essa época, separados pela lógica etária dos grupos de amigos.
Só vim a conhecer o Paulo já na "carreira", para onde havia entrado sete anos antes de mim. A geografia nunca nos aproximou muito, mas tínhamos uma relação pessoal muito agradável. O Paulo era um homem sereno, elegante, com uma ironia fina, decantada de uma leitura amena da vida, que compatibilizou com um percurso profissional seguro e de mérito.
O Paulo Barbosa morreu no passado sábado. Sabia-o bastante doente, mas não esperava vê-lo desaparecer tão cedo.
A escolha de Valls
Há um novo tempo na política francesa. A nomeação de Manuel Valls, o enérgico ministro do Interior, que vinha a seduzir alguns setores da direita pela frontalidade do seu discurso securitário, traz para a linha dianteira da ação governativa um "outro" Partido Socialista. Alguns lembrarão, nos próximos dias, que Valls chegou a propôr a mudança do nome do partido, por considerar que o rótulo "socialista" podia ser inconveniente...
Desde logo, fica confirmada, com esta designação, a recente mudança de direção levada a cabo por François Hollande, ao escolher o empresariado como o seu parceiro para o relançamento da economia francesa. Valls tem um pendor liberal (embora estas coisas, em França, devam ser contextualizadas) e sentir-se-á seguramente confortável com esta linha de ação. Assim, na economia, não deve esperar-se muito de novo.
Mas se esta escolha pode "cair bem" num eleitorado mais conservador, ela também poderá vir a ter efeitos divisivos no seio do PSF, cuja ala esquerda já tinha reagido com desagrado ao pacote de medidas anunciado, tido como demasiado "social-democrata" e que, de certo modo, confronta a memória socialista tradicional. Por isso, vai ser interessante perceber que "compensações" estarão preparadas para a esquerda do partido, de que a composição do novo governo será a resposta. Havia a sensação de que Valls tinha feito com algumas figuras deste setor uma aliança tática para a aproximação de uma nova geração ao poder. Veremos como este passo sobrevive. A questão do "nacionalismo económico", que inclui a temática europeia, vai estar, com certeza, em alguma evidência. Valls pode encontrar por aqui um terreno para uma certa ligação à esquerda, tanto mais que o seu entusiasmo pelo tema europeu nunca foi excessivo. Curiosamente, isto está longe de ser contraditório com a prioridade a dar ao mundo das empresas, dada a matriz protecionista do país.
Resta saber qual o futuro papel de Hollande. Com a saída de Ayrault e a nomeação de um primeiro-ministro "a pedido" do país, o presidente perde muito do pouco espaço de manobra que já tinha. Valls vai ser um primeiro-ministro enérgico e visível, o que quase sempre se tem mostrado menos compatível com o presidencialismo da V República. Se tiver sucesso, será ele, com toda a certeza, a tentar a ascensão ao Eliseu em 2017, em nome dos socialistas. Se falhar, depois de experimentada esta que era a cartada mais à direita que os socialistas tinham na mão, o caminho para o regresso ao poder dos conservadores franceses fica definitivamente aberto.
Meu Caro
Longe vão esses dias de 2010 em que você, aqui por Paris, me
revelava, entre duas “demi”, a angústia matinal que sentia ao verificar, no
Financial Times, o contínuo alargamento dos “spreads” dos “bonds” portugueses.
Conhecemo-nos numa operação de “charme” que as suas autoridades por essa época organizaram,
para explicar as medidas que tomavam para controlar os indicadores
macro-económicos. Para si, eu fazia parte dos “mercados” que era necessário
convencer. Para mim, você era o embaixador de um país simpático que lutava para
se manter à tona, numa tormenta que não controlava e que revelava cruelmente algumas
das suas fragilidades endémicas. Passámos a ver-nos com alguma regularidade.
As coisas complicaram-se, entretanto. A “troika” chegou aí e
vi o seu lamento em face da “injustiça” das agências de notação, quando elas
“puniam” Portugal porque fazia exatamente aquilo que lhe tinham pedido para
fazer. Recordo-me de lhe ter dito que os diabolizados “mercados” não eram uma
entidade a que fosse possível exigir racionalidade, muito menos justiça, porque
a sua lógica era apenas fazer ganhar dinheiro.
Portugal passou, entretanto, por uma cura de rigor financeiro
nunca antes vista. Lembro-me de lhe ter dito da minha admiração pelo caráter
estoico do seu povo. Você fornecia-me números sobre o ajustamento já feito, na
secreta esperança que eles pudessem animar a perspetiva dos “mercados” sobre o
seu país. Pelas conversas que então teve comigo, imagino o que outros seus colegas
devem ter feito pelo mundo, para mostrar o vosso esforço nacional.
Antes da sua partida de Paris, e quando lhe notei, a uma
mesa do Flore, que ia regressar à “cidade branca”, nome que Alain Tanner
chamara a Lisboa, você reagiu: Tanner estava errado, Lisboa era a cidade das
cores e eu teria oportunidade de verificar isso, quando o fosse visitar. Tinha
razão. Confirmei-o consigo, na semana passada, entre duas “imperiais”, na
esplanada “cliché” da Brasileira, sob um sol quase obsceno em Março. Frente a uma loja simbolicamente chamada “Paris em Lisboa”, dei-lhe
nota da leitura que, pela Europa, se vai fazendo do vosso processo de
ajustamento, das perplexidades que subsistem quanto à sustentabilidade do
“retrato” que hoje apresentam e quanto tudo dependerá, no essencial, da
estabilização de uma resposta europeia institucionalizada.
Você falou-me, preocupado, da quase impossibilidade de
manter o país, por muito mais tempo, sob o peso sobre-humano de austeridade. A propósito,
pediu a minha opinião – ironizou, a opinião “dos mercados” – sobre um “manifesto”,
que entre vós tinha tido grande impacto, subscrito por gente relevante, que ia
desde a direita à extrema- esquerda, sobre a necessidade de encontrar meios de
aligeirar o modo de pagamento da vossa dívida pública. Traduziu-me mesmo o
essencial do texto.
Agora, de volta a Paris, tendo refletido sobre o assunto, quero
felicitá-lo: o “manifesto” é “música” para os ouvidos dos mercados. Quando
muitos esperariam que a esquerda portuguesa, e eventualmente alguma direita
soberanista, defendessem, pura e simplesmente, o não pagamento de parte da
dívida, conseguir juntar todos esses setores numa solene posição comum, que
apenas disputa as taxas de juro e as maturidades, constitui um ato de grande
responsabilidade. Parabéns! Eu não posso falar pelos “mercados”, mas posso
garantir-lhe que eles estarão agora muito mais serenos sobre o que poderão ser
as consequências de uma mudança política em Portugal. Ou uma mudança de
“cores”, como você diria!
Artigo que hoje publico no "Diário Económico"
Hermano Sanches Ruivo
Hermano Sanches Ruivo foi reeleito Conselheiro na "Mairie" de Paris. Conheci-o em 1996, quando Eduardo Prado Coelho me convenceu a ir a Paris para apoiar uma iniciativa da "Cap Magellan", uma estrutura de jovens portugueses que dava os primeiros passos no complexo mundo do associativismo em França, que Hermano já então liderava.
Com uma forte determinação, Hermano Sanches Ruivo tem feito um caminho muito interessante na defesa da especificidade portuguesa no quadro do sistema político francês. É hoje a mais relevante figura dentre os cidadãos de origem portuguesa envolvidos na política francesa.
Com uma forte determinação, Hermano Sanches Ruivo tem feito um caminho muito interessante na defesa da especificidade portuguesa no quadro do sistema político francês. É hoje a mais relevante figura dentre os cidadãos de origem portuguesa envolvidos na política francesa.
Um forte abraço, Hermano!
França
Manuel Valls foi ontem nomeado primeiro-ministro de França. Recordo um texto que aqui publiquei há cerca de ano e meio:
Ontem, com um grupo de colegas, almocei com o novo ministro do Interior francês, Manuel Valls. Nasceu em Barcelona há 50 anos e tinha já 20 anos quando adquiriu, por naturalização, a nacionalidade francesa. Ocupa hoje um dos postos mais delicados do executivo da França, precisamente aquele que tem a seu cargo a questão dos direitos dos estrangeiros e a gestão dos fluxos migratórios.
Dei comigo a pensar se isto seria possível entre nós, se um estrangeiro que se tivesse naturalizado português no fim da adolescência seria aceite para ocupar um cargo de ministro, em especial numa pasta com esta sensibilidade específica. Como, já há meses, me tinha interrogado quando à facilidade com que a França conviveu com a candidatura à presidência da República de Eva Joly, uma norueguesa que, com 18 anos, veio trabalhar como "au pair" para Paris. Ou como os franceses acham natural que um cidadão como Daniel Cohn-Bendit, nascido em França mas apátrida até aos 14 anos, que, depois, optou pela nacionalidade alemã, deliberadamente para não cumprir o serviço militar neste país, tendo posteriormente dirigido a subversão estudantil no maio de 1968, seja hoje deputado europeu eleito nas listas francesas e uma das figuras cimeiras do partido ecologista.
Esta abertura da França àqueles que enriquecem a sua diversidade é uma das mais nobres marcas desta sociedade.
segunda-feira, março 31, 2014
Coisas de casal
Tinhamos convidado o casal para jantar. Ele era bastante mais velho do que ela, mas ambos eram muitos divertidos. Tinham feito um simpático jantar quando chegámos àquele posto diplomático, que nos permitiu conhecer, numa só ocasião, uma imensidão de gente interessante. Tinham uma moradia deslumbrante e recordarei para sempre as dezenas de convidados à volta de uma piscina interior iluminada, com uma vista magnífica sobre a cidade. Eram gente desafogada na vida, ambos profissionais com carreiras estabilizadas, cada um vindo de anteriores casamentos.
Para o jantar de retribuição que organizámos convidámos alguns amigos que sabíamos comuns e outros que com eles eram compatíveis. Mas a ocasião era em honra desse casal. Por isso, não foi sem alguma insatisfação que, na antevéspera, recebemos a indicação de que ele viria sozinho ao jantar. Mas, como há muito aprendi, "o que não tem remédio remediado está".
À hora do jantar, o convidado de honra não aparecia. Não era o estilo habitual dele, homem rigoroso, educado e muito atento a pormenores. Chegou, finalmente, com mais de meia hora de atraso.
- Então, já sei que a sua mulher não pôde vir, lancei eu para início de conversa, quando o fui receber à porta.
- Pois é! Aliás, é precisamente por causa dela que chego atrasado, pelo que lhe peço desculpa.
E, antes que eu lhe dissesse que isso não tinha a menor importância, "deixou cair", em tom de nota lateral, secundária:
- É que me atrasei a assinar os papéis de divórcio, papeladas, você sabe como é...
Não sei, mas imagino.
domingo, março 30, 2014
Os encontros da política
Ontem, passei grande parte do dia em "trabalhos" de uma estimável Confraria de enófilos e gastrónomos. Como sempre acontece nestas ocasiões, na mesa onde abanquei fiz conhecimento com pessoas que nunca antes tinha cruzado. A conversa foi solta, como não podia deixar de ser, mas teve a saudável caraterística de fugirmos, com naturalidade, às temáticas potencialmente mais conflituais: não se falou de política.
Evitar abordar temas de política e de religião - noutros meios acrescentar-se-ia à lista a saúde, questões de dinheiro e opinar sobre pessoas ausentes - é um ato de bom senso a qualquer mesa, quando na presença de gente que não conhecemos ou conhecemos menos bem. Há pessoas mais sensíveis face às suas convicções e uma ocasião pode ficar estragada se não soubermos preservar o respeito estrito pelo que os outros pensam. Já assisti a cenas bem desagradáveis neste domínio e, em duas ou três ocasiões, eu próprio cometi erros de que me arrependo.
Outras ocasiões, contudo, convocam precisamente a identificação social da opinião politica. Imediatamente após o 25 de abril, cruzei, numa rua de Vila Real, um colega de liceu que já não via há muitos anos. Demos fortes abraços, lembrámos algumas histórias antigas e perguntámos por conhecidos comuns. Foi uma daquelas conversas típicas destes reencontros, que têm substância para os primeiros 10 a 15 minutos, mas que se esgotam depois rapidamente, por falta de temas, devido ao facto dos mundos de cada um terem quase sempre limitados pontos de contacto.
Convém lembrar que se viviam, por esses dias, tempos ideológicos muito intensos. Muitos portugueses tinham despertado subitamente para a coisa política, assumindo-se face ao vasto leque de opções partidárias que a Revolução abrira. Esse meu amigo não escondeu a sua curiosidade sobre o lugar ideológico onde eu "estaria" e perguntou:
- Olha lá! E nas políticas, por onde andas? Mais às esquerdas ou mais às direitas?
Achei divertida a "fórmula" utilizada, tendo respondido com a verdade. De facto, logo concluímos que não andávamos pelas mesmas lateralizações ideológicas. Mas continuámos bons amigos.
sexta-feira, março 28, 2014
Tua
A mim, como embaixador junto da UNESCO, cabia-me defender naquela reunião, com base nas instruções recebidas, a continuidade da construção da barragem. Para tal, muni-me de todos os elementos técnicos disponíveis, tendo solicitado à empresa proprietária da barragem que enviasse à reunião um especialista qualificado, que me pudesse apoiar nas "alegações", durante o longo debate que então teve lugar. Era importante podermos ser totalmente transparentes sobre os trabalhos a executar.
Na altura em que a questão começou a ser discutida, pedi a esse técnico para se sentar a meu lado. Ao longo das minhas intervenções, solicitei-lhe esclarecimentos que me permitissem responder a questões colocadas, algumas delas de elevada tecnicidade. O ambiente era tenso, nada estava adquirido à partida, a posição de algumas entidades da UNESCO, bem como de certas delegações nacionais, por mais de uma vez ameaçou levar o sentido final da decisão para áreas distintas daquelas que eu tinha a obrigação de preservar.
É nessas ocasiões negociais que o bom humor nos ajuda a "dessetressar". A certo ponto, uma das questões suscitadas prendia-se com o impacto visual da barragem. As alternativas não eram muitas, para além da possível modulação da cor da barragem. Foi então que, com um ar sério, e como se quisesse jogar essa hipótese no terreno negocial, me voltei para o qualificado técnico que me acompanhava e perguntei:
- Diga-me uma coisa, senhor engenheiro: e se avançássemos com a hipótese da barragem ser em vidro grosso, transparente, com a possibilidade de se verem os peixes?
O engenheiro achou que eu tinha ensandecido, arregalou os olhos, temeroso que a minha "loucura" se transformasse em proposta, e balbuciou:
- Em vidro, senhor embaixador?! Isso não pode ser! O vidro não aguenta a pressão da água, a barragem tem de ser em cimento!
Lá expliquei que não falava a sério... Com a graça, diminuí a tensão que nos atravessava e continuei a "batalha", que acabou por "sorrir às nossas cores", como se diz na bola.
A verdade mutável
Quantas pessoas, ao ouvirem ontem o ministro da Presidência afirmar que "não haverá reduções adicionais do rendimento dos reformados em Portugal", acreditaram, por um segundo, que isso pudesse corresponder à realidade?
A palavra do Estado está hoje gasta, como nunca esteve, em Portugal. Ninguém, com um mínimo de bom senso, concede o menor crédito a uma garantia dada pelo primeiro-ministro ou por qualquer ministro, porque o justificativo da urgência financeira tem as costas largas para os transformar, dia após dia, em seguidores fiéis de Pimenta Machado, o antigo presidente do Vitória de Guimarães, que consagrou a expressão "o que é verdade hoje pode ser mentira amanhã".
Não sei se este governo se dá conta de quanto isso prejudica a imagem de seriedade do Estado, que lhe cumpre gerir. Podemos imaginar que isso lhe importe pouco, porquanto tem dado mostras de que a integridade da palavra pública não lhe interessa muito. Mas os efeitos deste comportamento, a prazo, são altamente danosos na relação de confiança que é essencial existir entre o Estado e os cidadãos. Hoje, todos nos "defendemos" do Estado, que sentimos ocupado por pessoas que detestam a máquina pública e, por essa razão, não têm o menor pejo em contribuir para o seu desprestígio.
Se pensarmos bem, chegou-se ao cúmulo de uma relação contratual entre dois privados, tutelada pela lei e gerida pela força dos tribunais, ser hoje bem mais sólida do que a relação que o Estado, suposto defensor do interesse comum, mantém com os seus cidadãos. Se há um objetivo que uma qualquer alternativa política deve impor a si mesma será tentar restituir aos cidadãos um mínimo de seriedade, de respeito pela palavra dada, enfim, de ética pública.
Se pensarmos bem, chegou-se ao cúmulo de uma relação contratual entre dois privados, tutelada pela lei e gerida pela força dos tribunais, ser hoje bem mais sólida do que a relação que o Estado, suposto defensor do interesse comum, mantém com os seus cidadãos. Se há um objetivo que uma qualquer alternativa política deve impor a si mesma será tentar restituir aos cidadãos um mínimo de seriedade, de respeito pela palavra dada, enfim, de ética pública.
Diplomacia irónica
A discussão ia tensa, naquela reunião na União Europeia, nos anos 90. O embaixador belga, colocado em minoria numa questão que considerava essencial, reagiu com firmeza:
- Tant que la Belgique soit la Belgique, on n'acceptera pas ça!
O sorriso com que aquele seu colega, de um país vizinho, useiro da mesma língua, ouviu a frase, prenunciava uma resposta à altura. E ela veio, mordaz, jogando implicitamente com a conflitualidade interna belga, que ciclicamente ameaça a unidade do país:
- Alors, c'est pas grave, ça va pas prendre beaucoup de temps...
quinta-feira, março 27, 2014
A notação das agências
Há pouco, enquanto redigia um texto para um jornal, lembrei-me de uma história, que tinha esquecida na minha memória. Ela aí vai.
Estávamos em julho de 2011. O novo governo português havia tomado posse há cerca de duas semanas. O "memorando de entendimento" com a "troika" estava no início do seu processo de implementação. As agências de notação, reagindo ao anúncio das primeiras medidas, haviam, umas após as outras, e para surpresa de muitos, levado a cabo um "downgrading" de Portugal.
Um dia, na minha qualidade de embaixador em Paris, "puxei da pena" e decidi publicar no mais importante diário económico francês, o "Les Echos", um artigo (leia aqui a versão original e aqui a tradução) em que contestava as agências e procurava, entre outras coisas, sublinhar o que me parecia ser a contradição entre o início do processo de ajustamento e a sua decisão de, nesse momento, baixar a classificação do país, precisamente na véspera de uma ida aos mercados para "reciclar" a nossa dívida. Era uma época algo angustiante, em que eu ia dizendo mais ou menos o mesmo a todas as televisões e rádios a que conseguia fazer chegar a voz oficial portuguesa em França. Sem pedir quaisquer instruções a Lisboa, diga-se.
Num desses dias, fui desafiado a debater numa importante rádio e televisão noticiosa - já não sei se foi a BFM ou a LCI - com um representante da "Standards & Poor's". Por um instante, hesitei em aceitar o convite, dada a dúvida de estar à altura da tecnicidade do debate. Mas aceitei o risco, porque temia que a "falta de comparência" deixasse o homem da agência sem contraditório. O debate acabou por ser sereno e civilizado. A certo passo, confrontado por mim com a questão do facto de Portugal estar a cumprir precisamente aquilo que a comunidade internacional lhe pedira e a estranha atitude das agências de notação, o meu interlocutor foi muito claro: "É evidente que nós achamos positivo que Portugal esteja a corresponder, desde a primeira hora, àquilo que o memorando exige. Mas não nos compete avaliar a vossa vontade política e mesmo os eventuais efeitos, a prazo, da "receita" que vai ser aplicada ao longo dos próximos três anos. Nós avaliamos as consequências imediatas das medidas que agora vão ser postas em prática na vossa economia. E essas medidas, indo ou não no caminho certo, têm agora um efeito recessivo, porque contraem o mercado interno e afetam o crescimento económico. Esse é o mercado que avaliamos".
A partir desse dia, passei a perceber melhor as agências de notação e a fazer uma leitura um pouco mais sofisticada dos seus "humores".
quarta-feira, março 26, 2014
A diplomacia do Brasil
O "Público" insere hoje um artigo de Adriana Erthal Abdnur sobre a política externa brasileira, que julgo deveria merecer alguma reflexão. Nesse texto, é sublinhado que o Brasil se afasta cada vez mais de uma agenda "ocidental", de que o caso mais recente é a sua rejeição das sanções à Rússia, por virtude da intervenção na Crimeia. Essa posição, na perspetiva da articulista, culminaria uma deriva "sulista" que, cada vez mais, marca a agenda do Itamaraty.
Há muitos anos que reflito sobre isto e digo aos meus amigos brasileiros que eles estão a cumular dois obstáculos à sua mais do que justa reivindicação para acederem a um lugar de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.
O primeiro obstáculo vem dos países do Norte. O alargamento do CSNU a novos países do Sul (consideremos "do Sul" a China e a Rússia) só poderá ter lugar se e quando tal inclusão se fizer de molde a não desequilibrar o atual sentido tendencial de voto no seio do Conselho. Para ser mais claro: só entrará para o CSNU um país do Sul que, no limite, dê garantias sólidas de que manterá uma orientação pelo menos neutral face à conjugação "ocidental" de interesses representada pelos EUA, Reino Unido e França. É injusto? É, mas é assim. Ora, a "excessiva" coreografia da diplomacia brasileira, que já deu sinais "negativos" quanto à questão nuclear no Irão e agora se indicia crítica na sensível questão ucraniana, funciona em claro desfavor das ambições do Brasil.
Mas o Brasil tem também "amigos de Peniche" nos restantes membros do Conselho. Rússia e China estão muito pouco interessados em deixar de ser os únicos a "representar" o Sul neste âmbito, com tudo o que significa de influência junto do "grupo dos 77" - para simplificar, os antigos "países não alinhados". Moscovo pode ter ficado grata com o gesto de Brasília, mas isso nem sequer lhe garante a boa vontade de Pequim. Talvez antes pelo contrário.
Não obstante o esforço voluntarista feito na elevação da sua voz diplomática um pouco por todo o mundo, o trabalho notável na Organização Mundial de Comércio e outras agências multilaterais, a sua constante atenção às operações de paz da ONU, o seu cuidado com as diversas agendas regionais (América do Sul, mas também Médio Oriente e outras), creio que o Brasil tem hoje à sua frente alguns obstáculos sérios nesse seu objetivo de ganhar a consagração institucional suprema à escala global.
Um amigo diplomata brasileiro, muito crítico da atual linha política, dizia-me, já há anos, que o Brasil mantinha uma "diplomacia adolescente" - pela sua excessiva ambição, pela sua frequente precipitação, pela ânsia de pretender "ir a todas". Ele era capaz de ter alguma razão, embora eu considere que a "juventude" não é nada que se não cure com o tempo.
E, já agora, uma nota de sentido egoísta: Portugal tem tudo a ganhar e nada a perder com uma "subida" do Brasil na escala global das nações. Um dia posso explicar isto com mais pormenor, mas parece-me uma evidência.
E, já agora, uma nota de sentido egoísta: Portugal tem tudo a ganhar e nada a perder com uma "subida" do Brasil na escala global das nações. Um dia posso explicar isto com mais pormenor, mas parece-me uma evidência.
Um debate europeu?
Em tese, percebe-se a ideia há dias adiantada pelo presidente da República no sentido da campanha para o Parlamento europeu dever ser aproveitada para um debate sereno sobre os caminhos futuros da Europa. Num mundo ideal, assim seria. Mas o chefe do Estado não desconhecerá que a temática europeia, em muitos aspetos, faz já hoje parte da política "interna" e que há uma imbricação quase inevitável entre aquilo que é do debate europeu e aquilo que releva da nossa política nacional. Eu diria mesmo mais: nunca como hoje as duas coisas estiveram tão ligadas e, entre nós, o processo de ajustamento ajudou a "meter tudo no mesmo saco". Se acaso os partidos da oposição à atual maioria se resignassem a seguir o conselho do presidente, estariam a desperdiçar um ensejo para contestar, precisamente, o que tem sido a atitude (e reparem que eu não digo "a política") dessa mesma maioria no terreno europeu, com consequências de grande monta no plano das políticas públicas internas. Ora isto é impensável, pelo que a campanha para as eleições europeias não pode senão ser um capítulo mais da luta política interna, tentando dar ao eleitorado uma primeira perspetiva daquilo que terá de ser decidido em 2015. Ou mesmo antes desse ano, se o chefe de Estado quiser entender dever tirar ilações, também elas extensivas mas porventura clarificadoras, daquilo que se vai passar no dia 25 de maio. O país do pós-troika ficaria bem melhor servido se os nossos credores externos pudessem beneficiar, desde já, de uma clarificação, que se torna urgente, do nosso quadro político. Para ser mais claro: deveria haver eleições legislativas tão cedo quanto possível. Recorde-se que o argumento da importância do cumprimento da legislatura foi quebrado pelo próprio presidente em julho do ano passado, quando estimulou a patética "semana do consenso", com a ideia de eleições antecipadas em meados deste ano. Se os resultados de 25 de maio mostrarem que há uma inversão clara na vontade dos portugueses, a atitude mais saudável seria a convocação de eleições legislativas. Digo eu, não sei!, como se diz na minha terra.
terça-feira, março 25, 2014
"Ni-ni"
A maioria dos observadores das eleições municipais francesas coloca o bom resultado obtido pelo Front National como o mais preocupante sinal do estado de espírito do eleitorado.
Não considero irrelevante esse facto, mas acho muito mais perigosa a deriva que se está a verificar no seio da direita democrática, representada pela UMP, que expressamente rejeita respeitar a "regra republicana" de aconselhar o voto, nos círculos onde os seus candidatos não possam ser eleitos, no candidato da área democrática que melhor colocado estiver para derrotar o representante da extrema-direita.
A direita francesa confirma assim que passou definitivamente a não respeitar uma regra não escrita da política democrática desse país, que vigorou desde o fim da ocupação nazi e que, pela primeira vez, foi posta em causa pela liderança da UMP, titulada por Jean-François Copé, nas eleições legislativas de 2012. Para a direita, passa a valer uma linha já conhecida por "ni-ni" ("ni Front National, ni "front republicain" "). E não deixa de ser significativo que Copé seja agora seguido nesta orientação pelo antigo PM François Fillon, que, em 2012, usou uma formulação menos "neutral". Ao colocar-se numa equidistância entre a esquerda e a extrema-direita, como que equiparando-as em dignidade política, os conservadores franceses demonstram estarem crescentemente reféns de um eleitorado cujo "mainstream" se deslocou bastante para a direita. E isto não é uma boa notícia.
Termino lembrando duas coisas: que a esquerda apelou, em 2003, ao voto maciço no candidato da direita às eleições presidenciais, com vista a derrotar Jean-Marie Le Pen, e que também, no próximo domingo, a mesma esquerda apelou já a que o seu eleitorado vote nos candidatos da UMP, sempre que essa seja a forma de afastar candidatos do Front National.
Impostos
A doutora Teodora Cardoso sugeriu a possibilidade de vir a ser criada uma nova imposição fiscal, desta vez sobre os levantamentos bancários, como fator estimulador da poupança. Soma-se assim à ideia de Vitor Bento sobre o assunto, embora este apenas limitasse o imposto aos levantamentos no Multibanco.
E que tal um imposto sobre a circulação de pessoas físicas, a cobrar por cada vez que saiamos à rua? Ou um selo anual de circulação? Que tal um concurso de ideias sobre novos impostos possíveis? Com a atribuição de automóveis aos mais criativos?
Em tempo: a "caricatura" da proposta da doutora Teodora Cardoso que acima fiz simplifica demasiado a substância daquilo que, de facto, foi por ela sugerido. Mea culpa.
Em tempo: a "caricatura" da proposta da doutora Teodora Cardoso que acima fiz simplifica demasiado a substância daquilo que, de facto, foi por ela sugerido. Mea culpa.
Nação rebelde
Ao final da tarde de ontem, numa sala pejada, José Manuel Félix Ribeiro lançou o seu livro "Portugal - a economia de uma Nação Rebelde". Jorge Sampaio fez a apresentação.
Foi bonito que a data de 24 de março tenha sido escolhida para este lançamento. Trata-se de um dia que diz muito a uma certa geração portuguesa que lutou contra a ditadura. Em 1962, foi a tentativa de comemoração desse "dia internacional do estudante" que lançou as bases para a "crise" que incendiou a universidade portuguesa, sendo líder da RIA (Reunião Inter-Associações) Jorge Sampaio. Anos mais tarde, em 1969, José Manuel Félix Ribeiro seria uma das figuras mais em evidência nas lutas académicas de então. Foi bom vê-los juntos, numa sala onde estavam muitas caras comuns a ambos os tempos.
O livro é excelente, com leituras inovadoras sobre a inserção internacional de Portugal, dissecando sem meias palavras a situação que vivemos e lançando perspetivas, por vezes ousadas, sobre as saídas que o país deve escolher.
segunda-feira, março 24, 2014
José Sócrates na TV
Só há pouco vi a entrevista feita a José Sócrates por José Rodrigues dos Santos, que altera de forma muito substancial o modelo plácido e de mero "compère" que vinha sendo utilizado pela sua parceira habitual de programa - modelo esse, aliás, similar àquele que é utilizado para os espaços de intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, de Marques Mendes, de Morais Sarmento, de António Vitorino, de Manuela Fereira Leite, de Augusto Santos Silva, de Francisco Louçã ou de Bagão Felix.
Acho que a RTP merece ser felicitada pela introdução do contraditório na conversa, que a torna muito mais animada, mais viva, mas também mais exigente para o entrevistado e interessante para o espetador. É claro que alguns dirão que aquele espaço não é, em rigor, um espaço de entrevista, mas um mero contraponto para um comentário político, pelo que a fixação da agenda discursiva é da responsabilidade essencial do titular do programa. Pode ser que assim seja, mas acho que todos têm a ganhar muito mais com o prosseguimento deste modelo. Desde logo, o jornalismo, que está praticamente ausente dos outros momentos de comentário. E, depois, o próprio José Sócrates, que é estimulado a prestações mais afirmativas e menos complacentes com a sua "narrativa", o que lhe oferece uma oportunidade para mostrar o seu espírito combativo.
Resta-me uma dúvida: como vão passar as ser as "conversas" com Morais Sarmento, que a RTP "inventou" para equilibrar politicamente a contestada presença de Sócrates? E será que os outros interlocutores televisivos de políticos "na reserva" vão aprender com a excelente lição dada por Rodrigues dos Santos?
Em tempo: tinha-me "esquecido" que, neste país de "prós e contras", o tema Sócrates é um catalizador de comentários contrastantes, como o Acordo Ortográfico, as touradas ou a República.
Em tempo: tinha-me "esquecido" que, neste país de "prós e contras", o tema Sócrates é um catalizador de comentários contrastantes, como o Acordo Ortográfico, as touradas ou a República.
Gastronomia
O leitor deste blogue não deve fazer ideia do que é a Agavi, mas é pena. Trata-se de uma interessante associação empresarial sem fins lucrativos, criada no Porto, destinada à promoção da gastronomia e vinhos, produtos regionais e biodiversidade. Desde a fundação da Agavi, em outubro de 2010, que integro o seu Conselho Superior, presidido pelo Doutor Daniel Serrão. Reuniremos no próximo dia 27 a sua assembleia geral.
Nesta jornada nortenha em prol das atividades do gosto, irei, dois dias depois, estar presente como "confrade de mérito", no "capítulo da Primavera" da Confraria dos Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Carrazeda de Ansiães, cuja exigente "agenda de trabalhos" acabo de receber, subscrita pelo respetivo "Diretório de Notáveis".
Em contraponto com o post anterior, fica feita a prova de que o trabalho não é incompatível com atividades cuja dimensão lúdica se cruza com a promoção de valores de manifesto interesse cultural.
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O minilateralismo
Não tenho a certeza do ano, mas recordo bem a cara indignada daquela minha assessora, entrando-me pelo gabinete dentro, ao anunciar, escanda...



















