1.4.14

Meu Caro

Longe vão esses dias de 2010 em que você, aqui por Paris, me revelava, entre duas “demi”, a angústia matinal que sentia ao verificar, no Financial Times, o contínuo alargamento dos “spreads” dos “bonds” portugueses. Conhecemo-nos numa operação de “charme” que as suas autoridades por essa época organizaram, para explicar as medidas que tomavam para controlar os indicadores macro-económicos. Para si, eu fazia parte dos “mercados” que era necessário convencer. Para mim, você era o embaixador de um país simpático que lutava para se manter à tona, numa tormenta que não controlava e que revelava cruelmente algumas das suas fragilidades endémicas. Passámos a ver-nos com alguma regularidade.

As coisas complicaram-se, entretanto. A “troika” chegou aí e vi o seu lamento em face da “injustiça” das agências de notação, quando elas “puniam” Portugal porque fazia exatamente aquilo que lhe tinham pedido para fazer. Recordo-me de lhe ter dito que os diabolizados “mercados” não eram uma entidade a que fosse possível exigir racionalidade, muito menos justiça, porque a sua lógica era apenas fazer ganhar dinheiro.

Portugal passou, entretanto, por uma cura de rigor financeiro nunca antes vista. Lembro-me de lhe ter dito da minha admiração pelo caráter estoico do seu povo. Você fornecia-me números sobre o ajustamento já feito, na secreta esperança que eles pudessem animar a perspetiva dos “mercados” sobre o seu país. Pelas conversas que então teve comigo, imagino o que outros seus colegas devem ter feito pelo mundo, para mostrar o vosso esforço nacional.

Antes da sua partida de Paris, e quando lhe notei, a uma mesa do Flore, que ia regressar à “cidade branca”, nome que Alain Tanner chamara a Lisboa, você reagiu: Tanner estava errado, Lisboa era a cidade das cores e eu teria oportunidade de verificar isso, quando o fosse visitar. Tinha razão. Confirmei-o consigo, na semana passada, entre duas “imperiais”, na esplanada “cliché” da Brasileira, sob um sol quase obsceno em Março. Frente a uma loja simbolicamente chamada “Paris em Lisboa”, dei-lhe nota da leitura que, pela Europa, se vai fazendo do vosso processo de ajustamento, das perplexidades que subsistem quanto à sustentabilidade do “retrato” que hoje apresentam e quanto tudo dependerá, no essencial, da estabilização de uma resposta europeia institucionalizada.

Você falou-me, preocupado, da quase impossibilidade de manter o país, por muito mais tempo, sob o peso sobre-humano de austeridade. A propósito, pediu a minha opinião – ironizou, a opinião “dos mercados” – sobre um “manifesto”, que entre vós tinha tido grande impacto, subscrito por gente relevante, que ia desde a direita à extrema- esquerda, sobre a necessidade de encontrar meios de aligeirar o modo de pagamento da vossa dívida pública. Traduziu-me mesmo o essencial do texto.

Agora, de volta a Paris, tendo refletido sobre o assunto, quero felicitá-lo: o “manifesto” é “música” para os ouvidos dos mercados. Quando muitos esperariam que a esquerda portuguesa, e eventualmente alguma direita soberanista, defendessem, pura e simplesmente, o não pagamento de parte da dívida, conseguir juntar todos esses setores numa solene posição comum, que apenas disputa as taxas de juro e as maturidades, constitui um ato de grande responsabilidade. Parabéns! Eu não posso falar pelos “mercados”, mas posso garantir-lhe que eles estarão agora muito mais serenos sobre o que poderão ser as consequências de uma mudança política em Portugal. Ou uma mudança de “cores”, como você diria!

Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

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