Felizes quantos são tocados pela fé. No meu caso, como humilde sportinguista, modestizo-me à "fèzada". Pode ser menos excitante, mas reduz taquicardias. E evita o ridículo.
sábado, julho 06, 2013
As cidades e o poder
Ontem e hoje, em Guimarães, discutimos as cidades. O pretexto é, como não podia deixar de ser, a experiência da Capital Europeia da Cultura.
Dei a minha contribuição com uma memória reflexiva, algo irónica para aligeirar o ar dos tempos, sobre o diferenciado peso das cidades em Portugal. Quem quiser, pode lê-la aqui.
Dei a minha contribuição com uma memória reflexiva, algo irónica para aligeirar o ar dos tempos, sobre o diferenciado peso das cidades em Portugal. Quem quiser, pode lê-la aqui.
sexta-feira, julho 05, 2013
Espanha (e nós)
Um exercício que sempre tive por interessante é cruzar testemunhos de personalidades que se combateram politicamente e que, em escritos, se citam mutuamente de forma crítica. Acho graça a este "voyeurisme" político, porque ele nos ensina muito sobre as culturas comportamentais dos agentes públicos de cada país.
Anteontem à noite, ao passar por Barajas, comprei a biografia "definitiva" de Alfonso Guerra, "Una página dificil de arrancar". Guerra foi uma personalidade chave e ultra-polémica no seio dos socialistas espanhóis e, durante nove anos, a segunda figura do governo do país. Simultaneamente, adquiri "Les voy a contar", uma espécie de diário de José Bono, que foi ministro da Defesa e presidente do parlamento. Nas duas horas que passei no aeroporto e na viagem já dei "uma vista de olhos" a ambos os volumes. Por essa leitura, constatei, como já presumia, que Guerra detesta Bono e que Bono arrasa Guerra. De qualquer forma, em matéria de anti-guerrismo, constatei que Bono não chega aos calcanhares do brilhante "assassinato" político que Jorge Semprún lhe faz no seu "Federico Sánchez se despide de ustedes".
Tenho alguma pena em não ter vivido, em algum tempo da minha carreira, em Madrid. Uma vez, tive essa oportunidade e, por razões que não vêm para o caso, desperdicei-a. Digo isto porque a história política do nosso vizinho, em particular no século XX, sempre me fascinou e teria um grande gosto em aprofundar o que dela sei. A guerra civil, a subsequente barbárie franquista, a lucidez desenvolvimentista dos anos 60, a sabedoria da transição para a democracia e a luta democrática contra o terrorismo são tempos sobre os quais mantenho uma incessante curiosidade. Acresce que, em todo esse cenário, a história das esquerdas e das direitas espanholas é de uma impressionante riqueza.
Nesta noite em que procurei evitar as televisões, para não me aborrecer, refugio-me agora nestas leituras sobre a vida política da Espanha nos anos 90. E por ela confirmo que as lutas, por lá, tal como as touradas, são de morte. Por cá, já só há novilhadas, os grandes "diestros" foram substituídos por bandarilheiros, com alguns peões de brega à ilharga. Até as pegas (leia-se, claro, "pégas") já se não fazem de caras, dando praça e citando corajosamente de longe, aguentando depois os derrotes até chegarem as ajudas. Agora, elas fazem-se, e cada vez mais, apenas de cernelha. Com tudo isto, começo a ficar convencido de que o "inteligente" da corrida, a quem, na lide espanhola, se dá o nome de "presidente", deveria mandar entrar as chocas, tocar para recolha aos curros e preparar, logo que possível, a "sorte" seguinte.
quinta-feira, julho 04, 2013
Sozinhos em casa
Foi já há alguns anos. Aquele casal nosso amigo, depois de muito discutir, chegou à conclusão de que não havia condições para se manterem em conjunto. O problema era a casa: não havia dinheiro para irem cada um viver para uma habitação separada. E decidiram, por algum tempo, manter-se a viver juntos. Ainda tivemos esperanças de que, com a habituação, acabassem por se reconciliar. Nada feito! Meses mais tarde, folgadas um pouco mais as bolsas, foram cada um para seu lado. E lá seguem com a sua vida. Este é uma história verdadeira.
Demissões
Com naturalidade, toda a gente fala da demissão de Paulo Portas.
Mas parece que todos se esqueceram já que a crise começou com a demissão de Vitor Gaspar. Isto é, se o ministro das Finanças se não tivesse demitido, esta crise não teria sido iniciada.
Talvez convenha ter isso presente.
Mas parece que todos se esqueceram já que a crise começou com a demissão de Vitor Gaspar. Isto é, se o ministro das Finanças se não tivesse demitido, esta crise não teria sido iniciada.
Talvez convenha ter isso presente.
quarta-feira, julho 03, 2013
Spas
Hoje, um amigo local ironizava, num grupo,
sobre o sistema de transportes da Tunis. E sublinhava algumas
dificuldades: "os nossos autocarros fazem uma concorrência que é tida por
desleal por parte dos "spas" da cidade. De facto, eles oferecem, sem
um custo acrescido, sauna, massagens e até uma particular forma de aromaterapia..."
Rir é o melhor remédio, como diziam as
"Seleções do Reader's Digest". Também entre nós, não havendo opçāo,
talvez valesse a pena tentar essa solução terapêutica.
Guimarães e as cidades
As "Cidades 20 20" é o tema geral de um ciclo de palestras e debates no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, que decorrerá nos dias 5 e 6 de julho, ainda no âmbito de "Guimarães - capital europeia da Cultura".
Cabe-me ser "keynote speaker" no dia 5 e, no dia seguinte, intervir no encerramento deste exercício que procura relevar o cada vez mais insubstituível papel das cidades nos processos de desenvolvimento cultural e promoção de uma cidadania ativa.
terça-feira, julho 02, 2013
Finanças
Há qualquer coisa de trágico no destino dos ministros das Finanças.
Há dias, Fernando Teixeira dos Santos ressurgiu de uma auto-decidida discrição para colocar os pontos nos is da História, para, finalmente, contrariar a "narrativa" (continuo a detestar a palavra) criada pela nova maioria, que abriu caminho ao modelo político-económico em vigor nos últimos dois anos. À época, havia ficado no ar a ideia de que o ministro e o antigo chefe do governo haviam terminado o mandato em terrenos algo opostos. Agora, fica a ideia que as convergências superavam as divergências e era talvez o método aquilo em que divergiam.
Ontem, Vitor Gaspar, o protagonista desta nova orientação, saiu de cena, visivelmente desgastado, talvez mais com as divergências no seio de um executivo que parece estar a perder os "nervos de aço", que a execução da sua agenda ideológica radical exigiria, do que com a constatação de que são os factos que não estão à altura da qualidade e justeza das ideias propostas.
No hall do hotel de Hammamet, na Tunísia, onde me encontro, ouve-se, um pouco alto, música de Vangelis.
PS - ... e logo hoje é que havia de dar-me para andar pelas "primaveras árabes"!
PS - ... e logo hoje é que havia de dar-me para andar pelas "primaveras árabes"!
Exportar ensino
Pode soar estranho o título "Exportação do Ensino Superior", mas é esse mesmo o nome de um seminário em que intervirei no dia 4, na Universidade Nova de Lisboa, que se debruçará sobre os ganhos efetivos que uma promoção no estrangeiro de um ensino universitário português de qualidade pode trazer para o país.
Analisaremos várias e bem sucedidas experiências e procuraremos ligar isso à nossa ação diplomática externa na área económica.
Analisaremos várias e bem sucedidas experiências e procuraremos ligar isso à nossa ação diplomática externa na área económica.
segunda-feira, julho 01, 2013
Juventude
Estou num aeroporto, a aguardar um voo para a Tunísia, onde o Centro Norte-Sul organiza uma "universidade" dedicada à juventude europeia e magrebina, sobre cidadania global. Há muitas mais coisas úteis a serem feitas, por esse mundo fora, com vista a favorecer o diálogo entre pessoas com origens culturais diferentes do que se pode presumir.
É muito curiosa esta sensação de trabalhar, no dia-a-dia, com gente muito mais nova do que nós. Às vezes, interrogo-me sobre se a experiência que transmito não estará datada, se não tendemos a valorizar em excesso o que aprendemos nos tempos em que o tempo corria mais devagar. E, com alguma diversão interior, fico a imaginar o que realmente pensa de nós quem nos ouve, por detrás da educada paciência com que atentam nas ideias que lhes transmitimos.
Teremos nós a capacidade para entender o mundo novo à nossa volta? E, quando aceitamos esses estímulos que não resultam necessariamente da nossa época, não estaremos a assumir algum artificialismo no comportamento? Estaremos a tolerar o "jeunisme" ou apenas a ser paternalistas?
Há meses, um grande empresário português, homem bem mais velho que eu, a quem a idade física não atenua a estamina, fazia-me um curioso comentário: "Eu faço um esforço permanente para aceitar o novo, para tomar riscos e decisões como se tivesse 30 anos. Mas, às vezes, pergunto-me se todo este meu voluntarismo não estará a privilegiar uma busca obsessiva da novidade, em detrimento de algum ponderado bom-senso".
Fiquei a pensar nisto.
O novo futebol do Brasil
A memorável e justíssima vitória do Brasil sobre a Espanha, na final da Taça das Confederações, consagrou, não apenas o surgimento internacional de Neymar, mas também a definitiva adoção de um novo tipo de futebol brasileiro, que liga a sua tradicional genialidade técnica com um ritmo que - posso estar enganado, mas é o que eu penso - deve muito à cultura do futebol europeu, onde muitos dos seus jogadores atuam. É que, para quem não saiba, o brilhantismo do futebol brasileiro a nível de seleções nada tem a ver com a qualidade, bem inferior, do seu campeonato interno, onde só muito raramente surgem equipas de grande nível. Foi uma das minhas grandes surpresas, quando vivi no Brasil.
Devo dizer que me agrada imenso ver este regresso do Brasil às grandes vitórias internacionais. E, em especial, gostei de ver esta vitória ter lugar pela mão de Luiz Filipe Scolari, a quem o futebol português muito deve e que, como há pouco o ouvi dizer, também se considera "um pouco português".
Nesta noite de alegria brasileira, deixo aqui um particular abraço a Aldo Rebelo e a Luiz Fernandes, respetivamente ministro e (equivalente a) vice-ministro do Desporto do Brasil, dois amigos pessoais e dois grandes amigos do nosso país (no caso do Luiz, também um português).
Nesta noite de alegria brasileira, deixo aqui um particular abraço a Aldo Rebelo e a Luiz Fernandes, respetivamente ministro e (equivalente a) vice-ministro do Desporto do Brasil, dois amigos pessoais e dois grandes amigos do nosso país (no caso do Luiz, também um português).
Portugal...
Faz hoje precisamente cinco meses, passei a dirigir, em Lisboa, o Centro Norte-Sul do Conselho da Europa.
No dia em que assumi funções, dei-me conta de que, em frente do edifício, havia dois lugares de estacionamento, sob uma placa com a sigla "CPLP". Metros adiante, existia uma outra zona privativa de estacionamento, com uma placa que dizia "Conselho da Europa". A placa "CPLP" dizia respeito ao antigo ocupante das instalações, o Secretariado Executivo da CPLP, que dali se mudara há mais de meio ano, para outro local. A placa "Conselho da Europa" era a nossa.
Porque era injusto estar a obrigar a vizinhança, numa zona já de si com fortes dificuldades de estacionamento, a respeitar um espaço livre para uma instituição que já por ali não existia, dei instruções para se fazerem, de imediato, diligências para retirar a placa. Bastavam-nos os lugares atribuídos ao Conselho da Europa.
Começou a "saga". Falou-se com a CPLP, contactou-se o serviço do Protocolo do MNE, ligou-se à Câmara Municipal de Lisboa, informou-se a PSP. Meteram-se mesmo algumas "cunhas"! Cheguei a receber um "mas por que raio você se preocupa com isso? e um "mas isso prejudica-vos alguma coisa?"
Começou a "saga". Falou-se com a CPLP, contactou-se o serviço do Protocolo do MNE, ligou-se à Câmara Municipal de Lisboa, informou-se a PSP. Meteram-se mesmo algumas "cunhas"! Cheguei a receber um "mas por que raio você se preocupa com isso? e um "mas isso prejudica-vos alguma coisa?"
Ao final da tarde de domingo, ao sair do Centro, olhei em frente: lá continua a placa "CPLP".
Portugal tem mesmo de continuar a ser assim? Ou sou eu que sou um "chato"?
domingo, junho 30, 2013
O diabo sobre o "Tour"
A Volta à França iniciou ontem a sua centésima
edição. Aquilo que devia ser um momento de feliz comemoração de uma data
histórica, hoje mais não é senão um tempo de dúvida e suspeita, fruto da
inapagável sombra introduzida pela confirmação, a um ritmo incessante, dos
casos de "doping" ocorridos no passado. A "contabilidade"
de vitórias do "Tour" já praticamente se perdeu, tantas são as
eliminações retroativas entretanto ocorridas. A entrevista dada ontem por Lance
Armstrong ao "Le Monde", na qual afirma que ninguém ganha um
"Tour de France" sem recorrer a meios ilegais de ajuda química, dá
bem a medida do nível de credibilidade a que esta modalidade chegou. É o diabo!
O "Libération" trazia a
resposta de um velho "routier" do "Tour", quando perguntado
sobre quem é o favorito da prova deste ano: "Daqui a quinze anos logo
saberemos..."
sábado, junho 29, 2013
O especialista
Com um amigo, diplomata português, passei há pouco pela magnífica Kléber, a mais completa livraria de Estrasburgo. Como ambos teremos de ir, no início de setembro, em representação do Conselho da Europa, a um pouco vulgar país euro-asiático, comprámos um guia turístico sobre esse destino remoto. Só havia na prateleira os dois exemplares que adquirimos e, por isso, ironizámos com a circunstância de, com grande probabilidade, ninguém, nessa delegação do Conselho da Europa, vir a ter acesso a tanta informação sobre esse Estado como aquela que o livro nos iria proporcionar. Ainda a brincar, comentámos que, se lêssemos com cuidado alguns aspetos mais bizarros da história daquele país, até poderíamos fazer um "brilharete" durante a visita, dando aos restantes delegados uma ideia magnificada da imensa "profundidade" da cultura dos diplomatas portugueses.
Esta conversa trouxe-me à memória uma historieta que um saudoso colega, há muito já desaparecido, o embaixador Luís Martins, me contou um dia, passada na nossa embaixada em Washington, nos anos 60, onde ele era então um jovem secretário.
O ministro-conselheiro da embaixada, um homem bastante mais velho que a generalidade dos colegas, decidia organizar, de quando em vez, um almoço com todo o pessoal. Nesses repastos, acabava sempre por puxar para a conversa um tema de política internacional muito específico, sobre o qual revelava um conhecimento invulgar. Todos os colegas passaram a admirar a cultura político-diplomática desse diplomata, o qual, a avaliar pela amostragem revelada nessas conversas, era seguramente das pessoas da carreira com uma mais vasta sabedoria.
Até um dia. Alguém, uma vez, deu-se conta da regular coincidência entre a data da organização desses almoços e a publicação da última edição da "Foreign Affairs". É que, invariavelmente, os respastos eram convocados para os dias seguintes à publicação de um novo número dessa famosa revista de relações internacionais, no qual, não por acaso, vinha sempre publicado um especioso artigo sobre o tema que o ministro-conselheiro escolhia para desenvolver e deslumbrar os seus interlocutores. Sem citar a fonte, claro.
Climas
Na madrugada de ontem, saí de um Porto abafado, a prenunciar um dia que se anunciava bem quente. Cheguei a Paris, "vestido de verão", e deparei com 12 graus. Agora, aqui em Estrasburgo, chove "que Deus a dá" (como se diz na minha terra) e faz frio. Só espero que, hoje à noite, quando a Ryanair me pousar na "invicta", a tempo de um belo cabrito no "Fernando", em Pedras Rubras, volte a recuperar o calor ibérico. É que tenho de me aclimatar - o que também farei em Lisboa, durante todo o dia de domingo - para não estranhar o caloraço que irei encontrar em Hammamet, na Tunísia, na 2a feira, e, com toda a certeza, aquele que, na 4a feira seguinte, me espera em Madrid, onde tenho de ir por umas horas.
Confesso que saltitar entre climas não era bem a ideia que eu fazia da minha aposentação.
sexta-feira, junho 28, 2013
Porto 2
Era precisamente meia-noite de ontem quando encerrei o debate na Fundação de Serralves. Mas nem eu nem as dezenas de pessoas que assistiram às excelentes conferências feitas pelo embaixador Rubens Ricupero e pelo professor Marcio Pochmann deram por perdido o seu tempo. O modo atento como as seguiram e as reações suscitadas foram uma boa prova disso mesmo.
O papel e estatuto futuro dos países emergentes na ordem económica e de governança global esteve no centro das prestações de ambos os oradores, que se interrogaram sobre a diversidade desses atores, sobre as suas singularidades e desafios especificos e, muito em especial, sobre o peso que os seus diferentes modelos poderão vir a ter numa nova ordem internacional futura. Sem colocarem em questão a expectável preeminência da China (e da Ásia, em geral) nesse contexto, ambos os oradores refletiram, embora com tonalidades diversas, sobre o papel central que cabe aos Estados Unidos no processo global. As questões energéticas e ambientais estiveram também em foco, tendo o caso brasileiro, sem surpresas, merecido uma atenção particular, atentas as novas realidades que afetam o curso recente do seu desenvolvimento.
Como moderador, provoquei os oradores sobre a ausência da Europa nas suas considerações. E foi curioso vê-los a concordarem, no essencial, com a imagem de hesitação que o processo integrador do continente hoje projeta pelo mundo. Rubens Ricupero, com a autoridade de quem foi embaixador em Itália e em Genebra, mas, muito em especial, como antigo diretor-geral da UNCTAD, fez um balanço muito crítico sobre as lideranças recentes na União Europeia, com uma agudeza e frontalidade que, nós próprios, europeus, raramente somos capazes de assumir.
O papel e estatuto futuro dos países emergentes na ordem económica e de governança global esteve no centro das prestações de ambos os oradores, que se interrogaram sobre a diversidade desses atores, sobre as suas singularidades e desafios especificos e, muito em especial, sobre o peso que os seus diferentes modelos poderão vir a ter numa nova ordem internacional futura. Sem colocarem em questão a expectável preeminência da China (e da Ásia, em geral) nesse contexto, ambos os oradores refletiram, embora com tonalidades diversas, sobre o papel central que cabe aos Estados Unidos no processo global. As questões energéticas e ambientais estiveram também em foco, tendo o caso brasileiro, sem surpresas, merecido uma atenção particular, atentas as novas realidades que afetam o curso recente do seu desenvolvimento.
Como moderador, provoquei os oradores sobre a ausência da Europa nas suas considerações. E foi curioso vê-los a concordarem, no essencial, com a imagem de hesitação que o processo integrador do continente hoje projeta pelo mundo. Rubens Ricupero, com a autoridade de quem foi embaixador em Itália e em Genebra, mas, muito em especial, como antigo diretor-geral da UNCTAD, fez um balanço muito crítico sobre as lideranças recentes na União Europeia, com uma agudeza e frontalidade que, nós próprios, europeus, raramente somos capazes de assumir.
Porto 1
O cenário foi o Forum da FNAC no
Norte-Shopping, ao final da tarde de ontem. Fazia-se o lançamento do livro de
Alexandra Marques, "Os segredos da descolonização de Angola".
Coube-me apresentar a obra a quantos se deslocaram ao evento.
O livro é o resultado de um minucioso
trabalho de investigação, nomeadamente em arquivos documentais, alguns dos
quais revelados pela primeira vez, que permite lançar uma luz nova sobre o
processo decisório - hesitante, contraditório, por vezes irresponsável, por
vezes inevitável - que foi assumido pelas estruturas político-militares
portuguesas em Portugal e Angola, desde o 25 de abril até à declaração de
independência da colónia. Trata-se de um relato trágico, quase impotente, de um
poder político-militar sem capacidade, às vezes também sem vontade, de se
exercer em defesa da posição de quantos, como era o caso dos colonos
portugueses, eram os evidentes perdedores da História. Podia ter sido feito
mais? Houve descaso? Ao leitor cabe decidir.
O relato de Alexandra Marques, escrito
num registo que poderíamos qualificar de bom jornalismo, lê-se com o ritmo de
um filme, tanto mais que alguns dos extratos documentais que transcreve são
relatos vivos e factuais. A autora não deixa de mostrar uma empatia com
quantos, nesse complexo processo, assumiram atitudes, por vezes quixotescas,
para tentar evitar o curso que os acontecimentos acabaram por ter.
Na apresentação que fiz, procurei,
essencialmente, contextualizar os acontecimentos ocorridos em Angola na situação
política e militar que Portugal então atravessava. É que uma coisa não pode ser
compreendida sem a outra.
Faltar ao trabalho
Ontem, senti uma solidariedade muito grande com quem faltou ao seu trabalho pela simples razão de que o não tem.
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