quarta-feira, 15 de julho de 2020

Mistura de sentimentos


Não há expressão consagrada em português para “mixed feelings”. E, no entanto, é isso que sinto, uma mistura contraditória de sentimentos, face à saga que marca os dias do antigo rei espanhol, Juan Carlos.

As moscambilhas financeiras em que o rei emérito se envolveu, recebendo chorudas comissões de nababos medievais que dirigem países do Golfo, em troca de influência junto de empresas espanholas, colocam-no numa situação de extrema delicadeza, fragilizando a própria monarquia. Agora se percebe melhor o inusitado anúncio, feito há semanas, pelo filho, Filipe VI, de que renunciava a qualquer herança do pai. Pelo meio da história, para lhe dar mais picante e colorido, surge a figura de uma bela amiga do velho rei.

Juan Carlos tinha já saído do trono muito debilitado na sua imagem, por gestos insensatos, à revelia da sobriedade de costumes que os tempos exigiam.

Os reis são hoje uma “raça” ameaçada de extinção. Os escassos que sobrevivem, em ambiente democrático, afastados de qualquer poder executivo, são obrigados a observar um comportamento que atenue o risco dos seus “súbditos” poderem vir a optar por uma chefia eleita do Estado.

Como muitos portugueses, criei, no passado, uma forte admiração pelo rei espanhol, que aqui viveu e nunca desmentiu a grande simpatia que tem pelo nosso país. Franco usou-o para uma transição política cujos contornos, no entanto, fugiram à ideia de que tinha deixado tudo “atado y bien atado”. Juan Carlos soube então “ler” os dias, estruturou, com legitimidade histórica reconhecida pelos militares, uma autoridade que lhe permitiu pilotar a mudança, correndo riscos mas ganhando um país democrático, não obstante as tensões regionais centrífugas. Por muitos anos, a Espanha, salvo nas suas expressões mais extremistas, rendeu-se à sua dialogante autoridade e simpatia.

E não se diga que foi tarefa fácil! Não eram apenas as “duas Espanhas”, do tempo do seu pai, que, por vezes, ameaçavam aflorar, foram jogos partidários complexos, para os quais ele conseguiu, sob uma nova constituição, estruturar um terreno hábil de diálogo.

Depois, as coisas começaram a correr mal, não obstante algum cuidado na sucessão. Mas seria ele próprio quem contribuiu, em grande parte, para a perda da “magia” da monarquia espanhola.

Não se sabe agora o que aí vem. Por mim, republicano que sou, com sentimentos contraditórios face ao antigo rei, desde que ficassem devidamente acertadas as suas contas com a Espanha, não me importaria de vê-lo acabar os seus dias em Portugal.

14 comentários:

jj.amarante disse...

Os "sentimentos contraditórios" do seu último parágrafo parecem-me o equivalente ideal dos "mixed feelings". Se não estão já consagrados pouco falta.

Anónimo disse...

Sim, Portugal até já tem tradição como lar de antigos reis (ou pretendentes a tal). Por mim, tudo bem: é apenas o reforço da nossa vertente de Florida europeia, lar para reformados de outras paragens.

Depois, claro, seguir-se-iam as devidas homenagens, ruas com o nome do homem - que o tuga mostra-se sempre agradecido pela preferência de gente fina -, um auditório, porventura. Venha a criatura. Só falta dizerem que lhe devemos muito e é um favor que ele nos faz. E, se puder trazer o espanto da amante alemã, ainda melhor, que a mulher é coisa digna de se ver em qualquer lado.

APS disse...

O título de uma novela de 1927, de Stefan Zweig, foi traduzido em Portugal por "Confusão de Sentimentos". Que me parece, indiscutivelmente, a melhor opção.

Anónimo disse...

Bonito era ele entregar-nos o o arquivo que dizem ter dado à sua mais que tudo e que supostamente contém informação comprometedora sobre um milhão de personalidades espanholas.

Mas, por outro lado, se isso acontecesse, passado dois dias já estava nas mãos dos espanhóis...

Com a Corina talvez fique mais seguro.

Luís Lavoura disse...

não me importaria de vê-lo acabar os seus dias em Portugal

Que perspetiva horrorosa! Para quê? Para que Portugal lhe ficasse com a herança, a tal que foi rejeitada pelo seu filho?
O tipo está emporcalhado pelo que fez, é bem melhor que fique lá pelo país dele... ou que emigre para as Arábias em que tem amigos.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro JJAmarante. “ Mixed” não são necessariamente contraditórios, podendo, no entanto, sê-lo.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro APS. É capaz de ter razão

Anónimo disse...

“Me estou confundida” (in Novelas brasileiras)

Lúcio Ferro disse...

Só quem nunca ficou hospedado no Vila Itália, em Cascais, paredes meias com a Residência dos Espírito Santo, ali à Boca do Inferno, e antes de ser um fabuloso hotel a moradia do rei exilado de Itália, Humberto II, poderá desdenhar da possibilidade de recebermos em solo pátrio Juan Carlos de Espanha. Traz prestígio e, ao contrário do que se julga, remete não para um turismo à la Florida, que é de massas, vulgar, algarvio, mas sim para um turismo diferenciado, sofistacado, à la Cannes, à la Cote d'Azur, que é algo de que precisamos agora mais do que nunca.

Lúcio Ferro disse...

On a side note: Luís Lavoura, ¿Por qué no te callas? ^_^

Anónimo disse...

A absoluta e intragável pesporrência de quem começa uma publicação com...

"Só quem nunca ficou hospedado no Vila Itália, em Cascais (...)"

Como se diz no Brasil "Tem gente que não se enxerga"

Anónimo disse...

"Engenheiro agrónomo contra Lavoura" - isto parece-me um bocado estúpido...

Lúcio Ferro disse...

Ó anónimo das 08.01 e 08.17: Ironia, sei que é um conceito novo mas, já ouviu falar? ^_^

Anónimo disse...

Já ouvi, sim, ó Lúcio. Aliás, irónico foi o meu segundo comentário :)
Tontos, foram os seus dois.