domingo, 5 de julho de 2020

Fim do dia


Sempre apreciei os dias de verão em que, depois do jantar, sentadas as cadeiras confortáveis, as pessoas têm conversas sem agenda, com a luz a desaparecer, numa varanda ou numa sala de janelas largas. O dia ainda lá estava quando se sentaram e vai desaparecendo, quase sem darem por isso, até entrarem numa quase escuridão.

Na casa das minhas tias, nas Pedras Salgadas, no belo terraço arredondado com cadeirões de verga ou de madeira, com largos braços, guardo a imagem dos mais velhos a porem a conversa em dia, comentando os casos da vida.

Na varanda que torneia o pátio da casa dos meus avós maternos, não muito longe, em Bornes, com as pessoas no escano ou nas muitas cadeiras que por lá havia, formava-se um cenáculo de belas conversas, com gente da família ou amigos a juntarem-se, vindas de outras casas, a quem era oferecido um cálice de “vinho fino”.

Eram também assim as noites em Viana do Castelo, nas férias grandes, em torno da minha avó paterna, na casa do largo Vasco da Gama, com os filhos no ritual da visita diária. Recordo-me que a claridade declinava, quase subitamente, e, se alguém, inesperadamente, entrasse na sala, ficaria com a ideia de que todos tinham para ali ido às escuras.

Esse é o segredo desses momentos. Se uma luz se acende, e cedo ou tarde isso acontece, toda a magia de penumbra desaparece. As conversas já não voltam a ser as mesmas.

7 comentários:

Anónimo disse...

Muito bonito!

Falcāo disse...

Imortalidades !

C.Falcao

" R y k @ r d o " disse...

Nas cidades nem tanto. Mas nas aldeias ainda se vê pessoas a conversar sentadas nos bancos de pedra ou outros ou cadeiras juntos às portas. Vizinhos com vizinhos conversam pela noite dentro. É bonito de se ver.
.
Bom início de semana
Abraço

Dulce Oliveira disse...

Também guardo memórias doces dos fins de tarde da minha infância.
Ainda hoje é a hora de que mais gosto.

AV disse...

A descrição que fez destes momentos é encantadora. São momentos em que afectos são sentidos, entendimentos tácitos se constroem, e valores se desenvolvem e são partilhados.

Anónimo disse...

E quem é que fazia o jantar?

António Moreira disse...

Nasci nas Pedras Salgadas e sou natural da freguesia de Bornes de Aguiar. Belos tempos em que o verão nas Pedras era animado por um mundo de "veraneantes " como então chamávamos aos turistas que lotavam os vários hotéis da terra.