Fui ontem, de casaco e gravata, ao Chiado. Com a caloraça que tinha estado durante o dia, havia gente que olhava para mim como se eu fosse um ET. Adoro andar de gravata e o local e a cerimónia (chamemos-lhe assim) a que eu ia exigia (e bem!) o seu uso. Nem imaginam o prazer que tive e o bem que me senti!
Tenho de comprar mais gravatas, concluí. Em minha casa, atrás de duas portas, foram inventados dois armários, cada um com mais de dois metros de altura e uma profundidade que não chega a um palmo, onde jazem, por tons, algumas das muitas centenas de gravatas que fui acumulando na vida. De quando em vez, ofereço umas dezenas, mas cada vez tenho menos a quem. Chego sempre à conclusão de que me faltam ainda alguns padrões essenciais. A gravata é um sinal de civilização. Melhor: é um sinal de que ainda há civilização.
Três histórias de gravatas.
Há não muito tempo, fui com um amigo, diplomata inglês de passagem, jantar a um restaurante em Lisboa. Na televisão, essa praga que marca alguns locais feitos para se comer em descanso (“é por causa do futebol, shôtor!), passava uma cena de um debate parlamentar. O inglês inquiriu: “Não é obrigatório o uso da gravata no vosso parlamento?” Respondi que não. A certa altura, perante um deputado em traje bem simplificado, teve esta frase cruel: ”Aquele parece um sem abrigo!”. Calei-me, por respeito à instituição. E à verdade.
Há uns anos, vai para uma década, saiu na imprensa que, num determinado ministério, tinha sido abolido o uso da gravata (vá lá!, tinha deixado de ser obrigatório). Escassos dias depois da notícia, tive de ir ver o titular desse ministério e, claro, apresentei-me de fato e gravata. E perguntei, à entrada do gabinete: “Não se importa que eu venha de gravata, pois não?”. A senhora ministra não se importou.
Outra vez, em Chipre, nos anos 90, um ministro local contou-me uma história curiosa. Vou repeti-la, com todo o politicamente incorreto que ela comporta: “Durante alguns anos, após a saída dos britânicos, houve no país uma tendência para “abandalhamento” (não sei como ele disse isso, mas era essa a ideia) do vestuário. Estávamos a ficar tão levantinos como a nossa geografia apontava, com as nefastas consequências disso na nossa atitude. Porém, a partir de certa altura, o uso de ar condicionado passou a ser regra nas repartições públicas. As pessoas começaram então a vestir de forma mais cuidadosa, a usar fato e gravata e, quer acreditar?, a nossa atitude oficial mudou, para melhor. Mas, felizmente, não ficámos iguais aos ingleses, “thank god”!”
Dito isto, daqui a uns dias inaugura-se o belo mês em que o meu traje “de rigor”, de manhã à noite, serão jeans ou coisas parecidas, sapatos Timberland com idade para irem para o museu do fabricante e velhas camisas largueironas ou t-shirts. Se, nesse período, me surgir alguém de gravata à frente, estrangulo-o, como fazem na Fox Crime.
(Creio que morre bastante mais gente na Fox Crime do que na pandemia, mas não parece ser de bom gosto dizê-lo. Eu faço-o, porque este é um texto desengravatado, que tem quase tantas mentiras como escassas verdades).
