O Reino Unido, que historicamente começara por recusar a integração europeia, rendera-se, com íntima relutância, a ter de dele fazer parte, pelas desvantagens que resultavam da sua ausência. Fugiu, depois, a todos os compromissos que pôde evitar. Até um dia. Thatcher teria rejubilado, se tivesse assistido ao Brexit.
Lembrei-me ontem dela. As cinzas não riem, mas dei-me ao luxo de imaginar algumas gargalhadas a saírem do sítio onde as de Thatcher repousam, no Royal Hospital, em Chelsea. Mas teria ela razão para rir?
Ao assistir à feroz barganha das últimas horas, em especial à multiplicação dos “cheques” para compensação de alguns parceiros que mais avessos se tinham mostrado ao compromisso, lembrei-me do célebre “I want my money back!” (Quero o meu dinheiro de volta!), que sintetizava a sua postura reivindicativa dentro da Europa.
O processo financeiro europeu embrulhou-se ontem num modelo da maior complexidade, com algumas incoerências, induzindo dúvidas sobre a racionalidade de algumas soluções.
Mas isso importa para alguma coisa? Ontem, a Europa foi capaz, com todos esses defeitos processuais, de levar à prática exatamente aquilo para que foi criada: resolver os problemas dos cidadãos.
Há uns meses, falar da mutualização da dívida era um tabu. O tabu desfez-se. Por anos, era inviável a criação de “novos recursos”, isto é, novas fontes de financiamento orçamental. Agora, são inevitáveis.
A Europa é lenta no processo, hesitante nas decisões, complexa nos mecanismos. É defeito? Talvez seja, mas é um defeito democrático. Quem se senta à roda daquela mesa tem um mandato a cumprir. Uns foram votados para serem avaros, com a solidariedade no fundo das prioridades. Outros clamam por compensações pela abertura dos seus mercados, arrostando com a imagem de pedinchões. Cada um tem a sua legitimidade. Discutem e resolvem.
Thatcher pode ter-se rido, ontem. Mas, na Europa, ri melhor quem ri no fim.
