O “Expresso” perguntou-me, na sua edição de sábado, se faz sentido não impor um controlo sanitário na fronteira com Espanha. Respondi isto:
”Há um registo de otimismo que é imanente a todo o discurso do poder. As dúvidas, mesmo que intuídas, passam quase sempre para segundo plano, porque elas não devem poluir o objetivo de criação de confiança que é pretendido com a mensagem.
Lembrei-me disto ao ouvir os responsáveis políticos, dos dois lados da fronteira do Caia, no anúncio da reabertura da passagem entre Portugal e Espanha. Pelo que foi dito, perpassou a ideia de que o pior já passou, que caminhamos para um tempo novo, exigente mas superável.
Por razões óbvias, Portugal nunca foi adepto da invocação reiterada de excecionalidades na livre circulação europeia. Mas adotámo-las, com indiscutível lógica, no auge da pandemia, numa modelar articulação pública com o nosso único vizinho terrestre. Na “exit strategy”, a consonância foi menos brilhante, mas a recente cerimónia com os poderes de Estado tudo acabou por disfarçar.
Agora, vive-se o dia seguinte. Terá sido prudente adotar uma abertura de fronteiras sem prever, ao menos temporariamente, controlos de segurança sanitária?
Percebo bem o sentido estratégico do risco assumido, pelo dramatismo das consequências económicas desta crise. Não estou seguro, contudo, de que a solução adotada tenha sido a melhor, esperando poder vir a ser convencido pelos factos.
A situação sanitária que se vive em Portugal e em Espanha está bastante longe de estabilizada. Confie-se ou não nas estatísticas que nos chegam de Madrid, a verdade é que o curso da pandemia, na península, continua preocupante. E que uma segunda onda não pode ser descartada.
Neste contexto, nos últimos meses, aprendemos que os sinais públicos são de extrema importância. Não quero fazer chover no molhado, mas é mais do que óbvio que as imagens do 1° de Maio ou a manifestação contra o racismo foram momentos infelizes que ajudaram a potenciar algum laxismo, que todos estamos a pagar.
Em matéria de luta contra a pandemia não podemos continuar a viver numa espécie de “banho escocês”, em que tanto nos dizem que é possível ter fronteiras abertas como ouvimos, das mesmas autoridades, que temos de recuar em algumas aberturas do desconfinamento. Dir-me-ão: uma coisa não é contraditória com a outra, desde que haja cuidados. Para a generalidade da opinião pública as coisas não são lidas assim. E, em política, como diria alguém que curiosamente tinha da relação com a Espanha uma visão desencantada, o que parece é.”
