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quinta-feira, julho 09, 2020

Melros e coisas assim


Neste tempo de confinamento, passei a notar mais nos melros que pousam no meu jardim. 

Sou um insuperável nabo quanto às coisas da natureza: reconheço uma pereira ou um pessegueiro, mas apenas quando neles estão pendurados peras ou pêssegos; se lá estivessem ameixas ou cerejas, a minha conclusão seria outra e já se imagina qual. 

Não identifico um pardal ou uma águia, não me atrevendo, como é óbvio, a chamar pardal àquilo que pode ser uma águia, embora fique na dúvida sobre se trata de uma águia ou de um milhafre ou de qualquer outra coisa parecida. Mas, a sério!, fico sempre na dúvida sobre se o pardal não será uma andorinha...

O meu pai era um imbatível ás em questões de passarada: conhecia-lhes os nomes, identificava as aves mais diversas. Até pela forma de voar! E, então, em matéria de árvores, era um perito, delas sabendo mais do que muita gente que vivia no campo. Como, no caso dele, sempre habitou em cidades, ficou-me a dúvida eterna sobre a origem dessa ciência. Que, como se vê, não passa pelas gerações.

Voltando aos melros. Até à pandemia, andei convencido de que aquelas aves de bico amarelo que me visitavam eram (acreditem!) corvos! Disse isso a um amigo e ele deu-me um berro amesquinhante: “Estás maluco?! São melros, homem! Se tiverem bico amarelo são machos, se o bico for mais escuro são fêmeas”. Há dias vi um que tinha um bico que não era bem amarelo nem escuro, mas tive receio de mandar um bitaite politicamente incorreto, nos tempos que correm...

Arquivei a sapiência e, um destes dias, fui mesmo honrar a memória poética de Guerra Junqueiro, relendo “O melro”, um poema que o meu pai “recitava” em família (imagino agora que só uma parte, porque aquilo é longo e, aqui entre nós, bem chato). O meu pai adorava a arte do criador da bandeira da República e ficava furioso quando eu o qualificava de “poeta menor”. (Tinha idêntica reação quando eu me atrevia a dizer o mesmo sobre Pedro Homem de Mello. A nossa sintonia nunca foi lírica). 

Às tantas para me absolver da minha ignorância sobre os melros (ou por ter pouco que fazer), passei a alimentá-los, diariamente. Dava-lhes pão, bolachas e o que estivesse à mão. Por bastantes dias, tudo correu bem. A escada para o jardim passou a estar cheia de melros, que se aproximavam bastante, à hora das refeições. Depois, eles começaram a pousar dejetos, o que levantou objeções familiares sobre a justeza da minha generosidade alimentar. Um dia, chegaram os pardais, sempre aos pares (os tais que eu não sabia se eram andorinhas). Constatei então que os melros, naquele seu porte simpático e frágil, eram afinal egoístas e lhes davam bicadas, para eles se não aproximarem das vitualhas, embora elas chegassem para todos. Até que, finalmente, vi surgirem as pombas, avisadas da fartura da zona, sabe-se lá por quem. Comecei mesmo a temer a chegada das gaivotas (sempre as confundi com as pombas, confesso!). Depois, li na net que havia o risco do surgimento de gatos da vizinhança. E decidi então fechar o “restaurante”. 

Ontem, deu-me para pôr no meio do jardim uma ave metálica que, há muitos anos, comprei no sul de França, e que tem estado, desde então, a criar patine de ferrugem. Coloquei-a na relva. Mas os melros não lhe ligaram peva, nem se aproximaram, não se deixaram enganar. Cheguei à conclusão de que eles sabem muito mais de aves do que eu. O que já terão percebido que não é difícil.

É a vida!

Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semana...