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sexta-feira, julho 10, 2020

A esperança europeia


Quando falamos de Europa, referindo-nos à atual União Europeia, tendemos a esquecer que as instituições do processo integrador são uma realidade mutante com o tempo - desde as políticas à sua própria abrangência geográfica. Se a ambição última - paz, liberdade e desenvolvimento – permanece, basicamente, a mesma, o modo de a materializar e de lhe conferir densidade mudou imenso.

Também o olhar dos europeus sobre esse processo passou a ser outro, e isso explica muitas coisas. Quando a Europa iniciou o seu percurso de integração, vinha de uma guerra que deixara o continente devastado. A recuperação das economias, com a ajuda do Plano Marshall, fez muito pelo bem-estar dos integrantes do projeto e o óbvio sucesso deste constituiu-se como o seu melhor cartão de apresentação. A melhor prova disso foi, aliás, o interesse do Reino Unido de se juntar aos países fundadores, superando as suas reticências e a sua óbvia relutância de se inserir num processo de partilha de soberanias, bem contrário à sua arraigada matriz institucional.

Os trinta anos “gloriosos” trouxeram um prestígio imenso à ideia europeia, com uma forte adesão a um modelo consubstanciado em bem-estar, num contexto de liberdade e democracia.

Com a vitória ocidental da Guerra Fria, a Europa integrada acabou por ser vítima do seu sucesso e da ambição que este desencadeou. Os Estados saídos da tutela soviética vieram bater à porta do projeto que lhes tinha sido mostrado, do lado “de cá”, como miragem a que então já podiam aspirar. E a euforia da conjuntura levou os Estados mais integradores à ideia de que um salto de aprofundamento era compatível com a absorção do Centro e Leste do continente. Maastricht foi a tradução institucional dessa ambição – moeda, política externa, união política.

Muita água correu depois sob as pontes, com sucessivas reformas dos tratados a tentarem conferir funcionalidade a uma Europa simultaneamente alargada e mais densa de políticas. Um espaço que, não obstante a sua excecional vitalidade, como potência comercial e expoente económico, estava a perder competitividade e a ficar para trás na corrida global.

O contexto, não sendo de estagnação, passou a não ser já de euforia. Em muitos Estados, o crescimento reduziu-se, o desemprego subiu, as deslocalizações foram incompreendidas, algum recuo soberanista começou a fazer o seu caminho.

As novas gerações, frustradas com a falta de oportunidades já não olham hoje o pós-guerra desolador, como os seus pais haviam feito. Ao invés, passaram a comparar as suas limitadas expetativas com os tempos fartos que tinham, entretanto, deixado de existir.

A globalização converteu-se no bode expiatório dessas frustrações, os choques com o estrangeiro que ameaça os empregos e fere a identidade cultural passou a ter um terreno fértil, com o terrorismo e as pulsões securitárias daí derivadas a provocarem tropismos nacionalistas. A falência ou a rotura do projeto europeu, como se recordarão, chegou então a ser anunciada.

Ora a Europa, não obstante todas as suas clivagens, foi bem resiliente. Conseguiu superar a crise financeira de 2007, acabou por resolver, “tant bien que mal”, a crise das dívidas soberanas, uniu-se para afrontar o fantástico desafio que é o Brexit, suportou estoicamente a pressão da crise dos refugiados e dos migrantes económicos e, no fim da linha, mostra agora uma insuspeitada vitalidade para contrariar, com imaginação económica e vontade política, os embates da crise pandémica. Tudo isto, nos anos mais recentes, sem poder contar com o tradicional “amigo americano”, que põe em causa o sistema multilateral que é a sua matriz de ação internacional.

O vírus maligno que por aí anda vai ser um desafio imenso para a estabilidade do projeto europeu. Contudo, se este souber encontrar os anti-corpos, em matéria de políticas, para lhe fazer face com algum êxito, a Europa pode acabar por sair reforçada, à escala global, deste desafio. E, no plano interno, pode ter encontrado um novo sopro de estamina e coesão política. Será isto “wishful thinking”? Talvez, mas não há futuro sem esperança.

Bom nome?

Acho lindamente que os dirigentes dos clubes de futebol se insultem entre si, que "cortem relações" com a imprensa e coisas assim....