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quinta-feira, janeiro 28, 2016

Por detrás do nevoeiro


É conhecida a graça jornalística britânica segundo a qual era o continente, nunca a Grã-Bretanha, que ficava “isolado” quando o nevoeiro se levantava na Mancha. O cultivo deliberado de uma identidade própria, bem como a capacidade para sustentar um frequente isolamento, foi algo que o Reino Unido sempre se habituou a fazer ao longo da sua presença nas instituições europeias. Por muito que as atitudes britânicas às vezes nos choquem, não podemos deixar de reconhecer que, a grande distância, o Reino Unido foi o país que melhor conseguiu que a sua ideossincrasia fosse respeitada e afirmada na Europa, ao longo das últimas décadas.

Por muitos anos, foi o laço transatlântico que deu o tom à especificidade britânica no quadro da integração continental. Sem chegarmos à teoria conspirativa francesa segundo a qual o Reino Unido funcionava como uma espécie de uma “quinta coluna” americana, é uma evidência que os britânicos usavam a special relationship para alimentar essa atitude distanciada. E, há que dizê-lo, fizeram-no muitas vezes com sucesso e viriam a encontrar, nesse tabuleiro de entendimento privilegiado com o “amigo americano”, uma espécie de elemento compensatório para as crises europeias.

Em muitos anos de convívio próximo com a excelente diplomacia do “Foreign Office”, nunca vislumbrei o menor embaraço da sua parte em sustentarem algumas posições “impossíveis”, às vezes com algum cinismo, outras vezes recorrendo a uma realpolitik quase obscena – como aconteceu no caso de Timor-Leste. Certos ou errados, com governos de várias colorações, os britânicos mantiveram-se sempre muito determinados na defesa da sua agenda nacional. Esta passava, sinteticamente, por três pilares: defesa dos direitos adquiridos em várias dimensões da vida institucional europeia, preservação de autonomia estratégica no plano externo, assente na preeminência do vetor transatlântico e da defesa da sua posição na ONU, e, last but not least, conservação dos privilégios da praça londrina, associada à permanente defesa de uma postura liberal no comércio internacional.

Os tempos mudaram para todos, e também para o Reino Unido. A relação transatlântica passa hoje por uma época menos “entusiasmada”, a capacidade britânica de projeção de influência e força já está muito longe de se poder sentir num mundo “onde o sol não se punha”, o seu tecido social interno sofre tensões que não só suscitam legítimas interrogações sobre a bondade do seu potencial integrador como induzem novos reflexos soberanistas que condicionam, a um grau nunca antes atingido, a gestão da sua política para a Europa.

David Cameron, o primeiro-ministro britânico, fez uma “fuga em frente” ao propor um referendo interno sobre a permanência na Europa. Perante uma opinião pública cultivada na diabolização de Bruxelas, uma operação desta natureza acarreta um elevadíssimo risco, que Cameron agravou agora ao colocar sobre a mesa uma agenda reivindicativa onde, a par de coisas de meridiana sensatez e passíveis de algum acordo, colocou alguns temas inegociáveis, que vão desde um “droit de regard” sobre a evolução da zona euro até uma derrogação dos direitos sociais dos migrantes. Os portugueses seriam aqui gravemente afetados e Londres sabe bem que isto, para nós, é inaceitável.

Foi um antecessor de Cameron, o lorde Palmerston, quem um dia afirmou que o Reino Unido “não tem amigos, só tem interesses”. Talvez os tempos tenham entretanto ensinado aos britânicos que podem ter algum interesse em ter amigos, mas que esses amigos – como é o nosso caso – não poderão estar com eles quando é o próprio Reino Unido quem se obstina em afetar os seus interesses.

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