Por que dizemos "Marcelo"? Por que não dizemos "Rebelo de Sousa"? O que é que criou esta designação, algo intimista, que se colou à imagem do novo presidente?
Se olharmos para a política portuguesa, apenas muito raros líderes masculinos com uma relação afetiva com os seus apoiantes conseguiram ser chamados, com naturalidade, pelos seus nomes próprios: Vasco (Gonçalves) e Otelo (Saraiva de Carvalho), goste-se ou não deles, foram disso exemplo. Dos restantes, de Sá Carneiro a Soares, de Eanes a a Cunhal, de Sampaio a Barroso, de Cavaco a Sócrates, nunca o nome próprio de um político relevante se impôs no imaginário público. Até Maria de Lurdes Pintasilgo ficou conhecida pelo seu apelido.
Posso estar enganado, mas creio que o verdadeiro "criador" desta designação, que "pegou" na linguagem comum do país, deve ter sido o primeiro locutor (da TSF? da TVI?) que o designou como "professor Marcelo" e não como "professor Rebelo de Sousa" - como se diz "professor Sampaio da Nóvoa" ou se disse, por muito tempo, "professor Cavaco Silva". É claro que, nos meios públicos, todos já dizíamos, há muito, "Marcelo" e isso não terá sido sem efeitos.
Com esta expressão nominativa simplificada, em que o "professor" nos remete para a escola, para o educador que avalia e "dá notas", Marcelo Rebelo de Sousa acabou por tornar mais próxima dos portugueses a sua figura. Só se chama pelo nome próprio quem nos está (ainda que virtualmente, como foi a televisão) próximo, mas também quem tem uma imagem de bonomia que seja compatível com essa designação. Ninguém está a ver Cavaco Silva ser apelidado de Aníbal... Ora Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu isso por via mediática e, dessa forma, ganhou o "Marcelo" que lhe pode facilitar a ligação aos portugueses. Está nas mãos dele conseguir isso. Ou não.