Seguidores

Se quiser ser informado sobre os novos textos publicados no blogue, coloque o seu email

sexta-feira, agosto 29, 2014

Uma confissão diplomática

Estávamos no início dos anos 90. Eu era diplomata em Londres. Uma das regras de ouro da condição diplomática - como, aliás, de qualquer outro serviço público - é não utilizar as funções que se ocupam em interesse próprio. Por isso, devo dizer que hesitei um pouco em usufruir do cargo que conjunturalmente exercia, como "encarregado de negócios" (o diplomata que exerce a chefia da embaixada, na ausência do embaixador), para lidar com aquele assunto. A questão, porém, não era estritamente pessoal. Em bom rigor, tinha mesmo uma dimensão nacional, quiçá patriótica. Dependia da perspetiva com que fosse encarada. Assim, arranjei coragem perante mim mesmo e decidi passar à ação, tanto mais que aquela era excelente oportunidade para tratar de um tema que há muitos anos me perturbava.

Preparei uma série de cartas, todas idênticas, com os timbres necessários da embaixada, identifiquei bem os destinatários a quem deveria dirigir-me no grande número de jornais, em Londres e em outros locais do Reino Unido, que pretendia influenciar e enviei-as. Nelas dava conta, ambiguamente em meu nome - cuidei em não dizer que o fazia por instruções do governo que representava -, do facto dessa publicação (tal como todas as outras), com uma insistência que se revelava maçadora e desagradável, identificar por sistema uma determinada instituição portuguesa por um nome que não correspondia à designação correta da mesma. Deixava em aberto a possibilidade desse flagrante erro ser produto de um hábito enraizado, eventualmente inspirado por entidades internacionais, mas pedia a melhor atenção do jornal para o problema, confiando no seu juízo prudente. Enviei, em anexo, documentação em apoio à tese defendida. Fiz o mesmo para a Reuters, para a BBC e para alguns outros canais, de televisão e rádio.

Pelo menos nesse tempo, os ingleses ainda levavam as embaixadas estrangeiras relativamente "a sério" e, talvez por isso ou talvez pela justeza objetiva da diligência, o "minister counsellor" que eu então era, revestido das funções de "deputy chief of mission", recebeu nas semanas seguintes várias respostas amáveis, umas mais positivas do que outras, quanto à promessa de irem ser tomadas medidas retificativas da tal reiterada prática que incomodava a embaixada, mas todas sempre muito compreensivas quanto à razoabilidade do meu pedido. E, de facto, pelo menos num bom punhado de casos, o assunto foi corrigido.

Mas que "diabo" de questão era essa?, perguntar-se-á legitimamente o leitor, nesta fase do texto. Pois bem, era o pedido para que as habituais referências a um tal "Sporting Lisbon" passassem a ser corrigidas pela utilização do nome correto da prestigiosa agremiação desportiva portuguesa - Sporting Clube de Portugal. Na minha missiva, antecipando a dificuldade da utilização do nome por extenso, eu sugeria mesmo a utilização de "Sporting Portugal" ou simplesmente de "Sporting". Creio que não havia ninguém de Braga ou da Covilhã, lá pela embaixada...

As coisas entretanto evoluíram. Julgo que por justa insistência das direções leoninas junto da UEFA, esta organização deixou de recorrer ao aberrante "Sporting Lisbon" e quase toda a imprensa internacional mudou de prática. Ontem, nas mãos de Casillas, na abertura do sorteio da "Champions", lá estava, bem à vista, o nome correto e completo do clube. As designações geograficamente mais redutoras, marcadas por nomes de localidades, foram na ocasião utilizadas para duas outras agremiações, cujo nome não vem ao caso referir.

Terá sido abuso de poder? Foi utilização indevida de uma posição? Será. Mas, mesmo que houvesse consequências disciplinares, já prescreveu. Ah! E fez-se justiça, que é o mais importante.

Seguidores

Quem quiser receber os post publicados neste blogue basta inserir o seu email onde, em cima, figura a palavra "seguir".