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segunda-feira, agosto 04, 2014

Uma história pouco exemplar

Não sou investidor do BES (nem de coisa nenhuma, a sério!). Porém, se acaso o fosse, qual seria agora o meu sentimento em face das repetidas declarações recentes do governador do Banco de Portugal, que nos foram assegurando que "estava tudo bem com o BES" e que "o problema era o grupo", que havia uma "almofada financeira" suficiente? Quantos milhares de pessoas, que legitimamente haviam colocado os seus bens no maior banco privado português, decidiram não alienar as suas ações, no auge desta crise, apenas porque confiaram que a palavra de Carlos Costa face ao BES valia tanto quanto a de Draghi face ao euro? Isto não pode ser como no futebol, em que o treinador é o melhor do mundo até à véspera de ser corrido...

Sei que é fácil falar de fora, mas os responsáveis estão sujeitos a escrutínio. A minha opinião é que o comportamento do governador do Banco de Portugal, ao longo deste processo, esteve muito longe de ser o adequado - e digo isto como alguém que tem uma forte consideração pessoal por Carlos Costa, com quem me cruzei profissionalmente na vida. Está hoje provado que o Banco de Portugal tinha na sua posse, há muito tempo, dados comprovativos de fortes irregularidades no mundo BES/GES, que lhe permitiam desqualificar a administração do banco, pelo que é incompreensível que se tenha deixado arrastar, por perigosas longas semanas, num improfíquo diálogo com Ricardo Salgado e a sua gente. Foi o medo de comprometer a "saída limpa"? Foi o "peso" da família dos banqueiros? Isto deveria ser bem explicado, porque acabou por ter uma desmesurada consequência no saldo (até ver) de tudo isto.

Neste contexto, nem me apetece falar do governo. A sua atuação neste processo foi de "toca e foge", de quem se dá ao luxo de entender que a vida do maior banco privado português, aquele que tem uma mais íntima relação com o mundo das nossas PME, é algo que escapa ao interesse público. Como se não fôssemos todos nós a ter de vir a arcar com as responsabilidades, se acaso tudo isto vier a correr mal. O comportamento do governo, em especial o seu "mantarrótico" silêncio neste decisivo fim de semana, foi inacreditável! E tem um nome muito feio.

E Vitor Bento? Se a nomeação de alguém com o seu perfil tinha como objetivo encontrar uma "cara" para dar segurança às soluções de futuro, então não se entende esta sua postura escondida por detrás de comunicados escritos. Imagino que esta atitude possa fazer parte da estratégia de querer ser apenas a face do "good bank". Mas, no mínimo, não foi uma atitude corajosa, e volto a ser eufemista.

Resta agora desejar toda a sorte possível ao "Novo Banco", esperando, desde logo, que tenha sido obtido o acordo do BCP* para a utilização desta sua conhecida marca, lançada já há algumas décadas. Foi esta a primeira ideia que me ocorreu, ao ouvir o anúncio de ontem.

* para quem não tem boa memória ler aqui.

"Da Guerra e da Paz"