A propósito da recente morte de Canais Rocha (1930-2014), um nome de que a esmagadora maioria dos portugueses nunca ouviu falar, veio ao de cima uma história antiga, relacionada com esse grande dirigente sindical e antigo militante do PCP.
Era um episódio conhecido nos meios políticos, ao tempo do 25 de abril: Canais Rocha, que se tornara na grande figura do sindicalismo português no início do período democrático, ao ser eleito o primeiro coordenador geral da CGTP, desapareceu de cena poucas semanas depois. Aparentemente, através da consulta da documentação interna da PIDE/DGS, o Partido Comunista veio a constatar que Canais Rocha havia revelado, sob tortura durante uma anterior prisão, nomes de militantes comunistas que, por essa razão, seriam presos. O PCP não perdoou, obrigou-o a renunciar ao cargo e afastou-o da sua militância. Anos mais tarde, Canais Rocha apareceu ligado ao MDP-CDE, uma espécie de partido "genérico" onde os comunistas colocavam os seus "compagnons de route".
A história das ditaduras está cheia de casos de militantes políticos, de todas as cores, que acabaram por "fraquejar" sob pressão da tortura - e a PIDE/DGS era particularmente violenta, com o uso da "estátua" e outras formas de tortura do sono. Victor Serge, um revolucionário mítico, tem sobre esse tema um livro muito curioso, que li há muitos anos, onde fala destes processos: "Ce que tout révolutionaire doit savoir sur la répression". O PCP tem também um pequeno manual intitulado "Se fores preso, camarada..."
Nunca na minha vida consegui condenar alguém que, sob tortura, tivesse "falado". Sei lá como me portaria se tivesse de suportar idênticas circunstâncias!. Tenho amigos que "falaram" e outros que "não falaram" na cadeia. Não tenho menor ou mais apreço por eles, por essa razão. Acho assim miserável que o PCP nunca tivesse reabilitado este seu antigo militante. Um partido também se mede pela sua humanidade.
