O tempo estival, com as conversas na praia, entre a "Flash" e a 'Gente", é o pasto social certo para a alimentação daquilo a que os anglo-saxónicos chamam "urban legends". São historietas bizarras que se repetem ("estou a contar-ta como ma contaram!) de boca em boca e que, nos últimos anos, encontraram nas redes sociais um terreno excelente para divulgação.
Alguns desses "mitos urbanos" ficaram clássicos. Há a do tipo cuja sogra teve um ataque de coração e morreu, em Espanha. Para evitar burocratices, a família trouxe o cadáver da senhora "sentado" no carro, passou a fronteira, parou numa bomba de gasolina, saiu por um minuto e... roubaram-lhes o carro (com a sogra dentro!). E quem conta a história acrescenta: "Até hoje!". Na internet, enviada por amigos reformados, quem é que não recebeu já os "avisos" clássicos para não se aceitar uma bebida oferecida por estranhos, logo apimentado com o caso de alguém que, depois disso, adormeceu e, quando acordou, tinham-lhe tirado um rim, para venda de órgãos?
Às vezes, os "mitos" são políticos. Durante anos, muita gente tinha visto (ou tinha-lhe contado uma prima que tinha um colega que tinha visto) uma fotografia com o Otelo a levar aos ombros o caixão de Salazar. Nunca soube bem o que isso provaria, se acaso fosse verdadeiro, mas corria nos meios "anti-25 de abril" como facto indesmentível. Outro, de idêntico jaez, era a célebre fotografia (que também ninguém viu, mas que alguém tinha um afilhado de um primo de uma tia que jurava "a pés juntos" que lha tinham mostrado) de Mário Soares a pisar a bandeira nacional, numa manifestação em Londres. Um dia, Soares, confrontado diretamente por uma miserável repetidora da canalhice, colocou-lhe um processo em tribunal, que naturalmente ganhou, e o boato esmoreceu.
Agora, desde há umas semanas, anda por aí outro "mito urbano" (sobre o qual não dou o menor dado, para não ajudar "à festa"), envolvendo uma figura pública. Já ouvi três versões, cada uma mais pateta do que a outra. Nem o facto de ser totalmente inverosímil faz com que algumas pessoas se coíbam de repeti-lo, às vezes distanciando-se ("foi o que me disseram..."), mas deixando ainda um toque se segurança: "mas não há fumo sem fogo..."
