O "New York Times" aborda hoje o estado das relações entre os governos americano e israelita e, muito em particular, o momento menos bom que o entendimento entre Obama e Nethaniahu estará a atravessa, face à inédita reação pública negativa de Washington perante a carnificina em Gaza. Este tipo de notícias tem sempre de ser lido com extremo cuidado, porque nada é menos inocente na imprensa americana do que o tratamento de tudo quanto se prenda com Israel.
Em contraste com a suposta tensão que se vive entre as duas administrações, o jornal nota que a opinião pública americana está esmagadoramente a favor da ação musculada de Telavive, o que levou mesmo o PM israelita a considerá-la "terrific" (para quem seja menos versado em inglês, o termo significa "magnífica" ou coisa assim). Foi sempre assim: os EUA foram quase sempre "mais papistas do que o papa" nesta matéria.
A este propósito, lembrei-me de repetir um episódio que testemunhei em Nova Iorque e que aqui contei há uns anos.
Na primeira metade de 2001, estive presente num jantar anual organizado por uma associação de amizade Estados Unidos-Israel, cujo nome exato não posso precisar. Por uma qualquer razão, um grupo restrito de embaixadores junto das Nações Unidas era convidado para esse evento. A cada um competia a presidência de uma das mesas, com cerca de uma dúzia pessoas, pelas quais se desdobrava o imenso repasto, num local luxuoso de Nova Iorque. A bandeira portuguesa, tal como a americana e a israelita, figurava no centro da mesa em que eu me sentava.
O convidado de honra desse jantar era Shimon Peres, então vice-primeiro ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros de um governo israelita chefiado por Ariel Sharon. Peres teve uma intervenção de grande sensatez, com elevado sentido de compromisso, sublinhando os riscos que havia se se viesse a provocar o isolamento de Yasser Arafat e da Autoridade Palestiniana. O futuro, aliás, veio a dar-lhe completa razão.
O ambiente que recebeu as palavras de Peres, nesse encontro que juntava uma elite da comunidade judaica americana, foi de um progressivo gelo. Passados os primeiros minutos do discurso, as palmas que tinham começado por sublinhar algumas das suas frases esmoreceram, até desaparecerem por completo. No final, notei que, na minha mesa, eu tinha sido o único a aplaudir. Na cara e nos comentários secos dos meus vizinhos senti a rejeição profunda da mensagem de Peres. Ouvir alguém falar de perspetivas de negociação com os palestinianos, com cedências na política de expansão dos colonatos, na lógica do "land for peace", era um visível sacrilégio para aquelas pessoas, que aparentemente consideravam que, das suas "trincheiras" de Manhattan, defendiam melhor os interesses de Israel do que um seu líder histórico. Nessa noite, confirmei muito do que pensava sobre o papel da comunidade judaica americana na questão israelo-palestiniana.
