O meu amigo JP Garcia "desafia-me" a escrever sobre o que se passa na Ucrânia. Que posso dizer que já não tenha aqui escrito, há semanas atrás? Nada do que está a passar-se me surpreende, desde a atitude russa à reação dita ocidental, com relevo para o esbracejar patético da Europa e o franzir de sobrolho do SG da NATO.
Se eu disser - como penso - que a UE está "a colher aquilo que plantou", ao ter apoiado o derrube de um presidente legitimamente eleito e ter estimulado uma "escolha" estratégica por Kiev que um mínimo de razoabilidade política assumiria sempre como inviável, sem cuidar minimamente do estatuto das minorias russas (como também faz dolosamente em alguns Estados bálticos), serei considerado um "agente ao serviço de Moscovo".
Se eu disser - como penso - que Putin mantém a tradicional estratégia de destabilização do "near abroad" ex- soviético, que passou já algumas "red lines" que justificam plenamente as sanções que a Rússia está a sofrer e que devem ser agravadas e que, com o seu comportamento dúplice, mostra que a Rússia deixou de ser um parceiro fiável e que é necessário rever rapidamente o conceito estratégico da NATO, para não deixar os acontecimentos correrem à vontade do seu autoritarismo, vou ser crismado de "agente do imperialismo americano".
Se eu disser - como penso - que ainda não percebi bem o que pensa Portugal (na UE e na NATO) sobre tudo isto, salvo que me parece que segue uma linha de "Maria vai com as outras", mandando uns soldadinhos e um C-130 para que lhe não marquem falta, fugindo entre os pingos da chuva da política europeia e euroatlântica, esperando que não se lembrem muito de nós, são capazes de me chamar anti-patriótico e de estar a pôr em causa a nossa "tradicional política de alianças" - que é, as mais das vezes, uma mera coreografia seguidista, sem opinião nem rumo próprio, rogando aos céus que não nos peçam para fazer muito.
Nestas condições, para que vale a pena eu estar aqui a "chover no molhado"?