Como não vejo televisão há vários dias, desconheço se alguém perguntou já a António José Seguro ou a António Costa se acaso discordam, numa vírgula que seja, do discurso de Arnaud Montebourg sobre a necessidade do fim da austeridade e dos seus apelos a políticas europeias promotoras do crescimento e do emprego. É que, à parte as tradicionais tiradas de nacionalismo económico protecionista gaulês, e para além das críticas abertas a Angela Merkel, o que ouvi de Montebourg leva diretamente, quase linha por linha, àquilo que ambos os candidatos à liderança socialista, aliás como o PS português no seu todo, têm vindo a defender nos últimos anos.
Ora foi a persistência pública nesse discurso, com o apoio expresso de dois outros ministros, que levou ao respetivo afastamento do governo de Manuel Valls. Porque a lógica não deveria ser uma batata, seria legítimo concluir que a política que Valls procurará imprimir ao seu governo deveria contrariar as posições de Montebourg - caso contrário este não teria saído. Isto significa, para fechar o círculo, que os socialistas portugueses estariam hoje em contraciclo com os seus camaradas franceses.
Pois isso! A política é o que é: Hollande e Valls dirão que o que os separava de Montebourg eram apenas meras "nuances" no prosseguimento de uma mesma política e talvez discordâncias no modo de a explicitar. Por cá, Costa e Seguro dirão que não querem imiscuir-se na vida interna do partido-irmão francês e que continuam a contar (e aqui improviso) "com a já afirmada determinação dos socialistas franceses para se aliarem a quantos, como é o caso do PS português, se batem na Europa pelo fim das nefastas políticas de austeridade, que não só aumentaram exponencialmente as dívidas soberanas nacionais, mas igualmente agravaram as fraturas sociais, afetaram gravemento o tecido das políticas públicas, arruinando largos setores da economia e destruindo, a prazo, as hipóteses de um crescimento sustentado, ao mesmo tempo que potenciaram o desemprego e, no caso português, provocaram uma onda de emigração qualificada que descapitalizou fortemente os recursos humanos do país".
E não é que tudo isto - digam Montebourg ou Costa ou Hollande ou Seguro o que entretanto disserem - é pura verdade?! Mas então, se as diferenças não são assim tão grandes entre todos, por que diabo Montebourg foi obrigado a demitir-se? Pela mesma razão que, por cá e naquilo que os socialistas portugueses digam ou possam vir a dizer e que se ouça na Europa, o peso das palavras e da sua oportunidade tem de ser sempre muito bem medido. Seguro e Costa deviam olhar bem para esta crise governamental francesa e dela tirarem algumas lições para o cuidado a ter na formatação do seu discurso futuro "para fora". E nós não somos a França, não se esqueçam!
