sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Economia e diplomacia

Desde que, há mais de três décadas e meia, entrei para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, foram raros os períodos em que não tive a meu cargo temas de natureza económica. Essa, aliás, é a sina regular de muitos diplomatas portugueses, cujo caráter eclético da função obriga, as mais das vezes, a cobrir todo o espetro de atividades em que sua ação se desdobra.

Há uns anos, surgiu por aí, no "mercado" fácil da política para vender títulos e aparecer como "market-friendly", a ideia da "reconversão" da diplomacia portuguesa à vertente económica. Isso foi feito de um modo que interpretei  como quase ofensivo para a minha profissão, como se os diplomatas portugueses devessem acordar, pela primeira vez, para uma coisa que há anos vinham fazendo. Fui dos poucos a expressar publicamente o meu desagrado por esse triste episódio, como aqui já havia deixado expresso.

Ontem, na Universidade de Coimbra, falei sobre o tema "Diplomacia e Economia", a convite da respetiva Faculdade de Economia, de cujo Conselho Consultivo passei agora a fazer parte, por um convite que me foi transmitido pelo diretor daquela Faculdade. Honroso convite que talvez dê ainda mais razão à ideia que transmito neste post.

3 comentários:

Anónimo disse...

"Psicologia do despeito também ajuda a explicar".

Se ajuda...

Basicamente a economia e diplomacia do pensamento lúcido de que cada profissão é profissão pela inerência da sua individuação de autonomia de conhecimento e papel social reconhecido face ás demais, senão além da complementaridade passa a ser apêndice cego de interesses.

Ao défice de sentido de autocrítica e auto avaliação revitalizadora uma areia noutra engrenagem desvia a atenção do terceiro triste argumento a profissão dos outros é sempre mais fácil, o conteúdo funcional das outras profissões exige quase sempre conhecimento menor e menor dispêndio de esforço valorizável(Por quem não o exerce claro) e terceiro porque sim...
O trabalho dos outros a nós não custa, desconhecemos a essência.

Isabel Seixas

José Martins disse...

Senhor Embaixador,

Vai apresentando, no seu blogue, temas tão interessantes não posso deixar de comentar aqueles em que estou dentro da matéria.
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Afectivamente estou ligado à diplomacia, durante duas dezenas de anos e algo fui aprendendo com 6 embaixadores que servi.
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Houve embaixadores interessados em divulgar o que Portugal possuía para colocar no mercado e outros mais dados a ter, junto ao expediente na mesa de trabalho, os recortes dos jornais que durante o pequeno almoço marcaram com o bico da caneta os que deveria ser tesourados, por mim ou sua secretária e deles plagiar/cozinhar um telegrama e seguir, pelo fim da tarde, para o Palácio das Necessidades.
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Por vezes voltava numa prosa tão enfadonha e emendada (o temor das críticas, dos colegas, aos erros) que me colocava os nervos em franja da fraca mercadoria e enganadora a ser expedida para o ministério.
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Houve, apenas, em seis embaixadores os que servi, dois que se interessaram em divulgar o comércio de Portugal no país acreditados.
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Com o primeiro aprendi algo (1982) e me viria a marcar para o resto da minha carreira de “amanuense” em que por anos e anos a parte comercial esteve a meu cargo, inclusivamente, por mais de um ano, espião da Marconi (antes de inserida na PT) como seguiam as novas tecnologias das comunicações no país para venderem ou comprarem mais acções em cima dos investimentos dos “pikeis” e “phonecards” numa empresa que se associara.
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Porém, fui analisando, que muitos diplomatas que seguiram a carreira (não servi só embaixadores) não estavam vocacionados ou assimilarem a cultura de vender o que Portugal tinha para oferecer, mas dados à vaidade do estatuto, como que os recursos do nosso país lhe valesse a proa aquirida.
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Foi isso a rotina que fui verificando e ao ponto de me travarem a minha actividade de vender/oferecer e passar a “bater” telegramas nas máquinas, velhas, com mais de 20 anos de “fado” corrido.
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Em 1997 e de quando aconteceu a recessão económica da Ásia, o ministério dos negócios Estrangeiros de um país, solicitou a todos chefes de missão e cônsules que viessem À secretaria de Estado para receber novas ordens.
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A missão para cumprir era a seguinte: “os senhores são os caixeiros viajantes do nosso país, e vão ter, de futuro, que vender aquilo que temos para oferecer”.
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A comunicação social, esteve presente e saiu o “boneco” de família, com mais de uma centena de diplomatas e publicado nos jornais.
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Passado uns meses saiu uma notícia nos jornais: “ao embaixador acreditado em Tóquio foi-lhe solicitado que regressasse ao seu ministério, porque não estava a cumprir as instruções que lhe foram dadas, vender o que havia para oferecer”
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Saudações de Banguecoque
José Martins
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P.S. – Velho “amanuense”, ao serviço da diplomacia, reformado, com 75 anos e 9 meses de idade.

Helena Oneto disse...

Parabéns Senhor Embaixador por esta (mais uma)honrosa nominação e por este (mais um) excelente artigo. Mais uma belíssima lição de diplomacia!

Imagino como deve ser difícil, para alguns diplomatas, defender os nobres interesses do pais com a boca cheia de croquetes...:)