segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A nova emigração

O novo surto migratório originário de Portugal é um fenómeno de que, só muito recentemente, começa a traçar-se um perfil mais rigoroso. Os dados estatísticos existentes assentam apenas em estimativas e têm um elevado grau de incerteza, pela inexistência de referências absolutamente seguras. Mas fica evidente que estamos já perante um movimento quantitativamente significativo, com uma dispersão geográfica bastante maior do que a das vagas migratórias de um passado mais recente.

Globalmente, e como não será de surpreender, os novos migrantes que procuram a Europa têm uma qualificação académica média bastante superior à de quantos, nos anos 60 e 70 do século passado, saíram pelos caminhos de França, da Alemanha e do Luxemburgo, ou mesmo dos que, de forma sazonal ou mais permanente, procuraram depois a Suíça e o Reino Unido*. Os dados e as informações disponíveis mostram-nos que muitas dessas pessoas saem acompanhadas pelas famílias, o que altera significativamente o modelo de outros tempos e, naturalmente, induz outros impactos nas exigências do seu quotidiano.

Há um ponto que me parece importante registar, porque dele resultam consequências comportamentais muito particulares: a maioria desses novos emigrantes portugueses obtém ocupações profissionais que se situam, quase sempre, abaixo daquelas que, legitimamente, o seu nível académico poderia justificar, o que constitui um natural elemento de frustração pessoal, com efeitos no seu estado de espírito. A crise e o aumento do desemprego em muitos dos seus países de destino faz com que, uma vez mais, apenas lhes sejam oferecidas tarefas profissionais que os nacionais desses países procuram menos e, frequentemente, com um elevado grau de precariedade no vínculo laboral. Daqui resulta, muitas vezes, uma tendência para uma fixação breve nos postos de trabalho obtidos, na busca incessante de outras oportunidades entretanto vislumbradas. Alguns empresários portugueses em França, que para aqui vieram em gerações anteriores e perseveraram muitos anos em tarefas modestas antes de descobrirem os caminhos do seu sucesso pessoal, referem essa instabilidade como um fator que, por vezes, os desmotiva ao acolhimento dos novos migrantes portugueses. Mas os casos de solidariedade neste domínio são cada vez mais frequentes e louváveis.

Como por aqui tenho dito, ser obrigado a emigrar por razões económicas é a triste constatação de que o país não é capaz de criar condições para a plena realização, no seu seio, dos cidadãos nacionais. As pessoas que saem, não apenas são forçadas a esse sacrifício como, muitas vezes, acabam por ser elas a contribuir, com aquilo que ganham no exterior, para o aumento da riqueza nacional. Só podemos desejar que, deste novo ciclo da viagem dos portugueses pelo mundo, acabe por resultar um futuro mais feliz para a sociedade portuguesa, com o retorno de muitos dos que agora são obrigados a partir, depois de novas experiências e de qualificações adquiridas, que possam ajudar a reforçar a modernidade e o desenvolvimento do país.
* Em tempo: e Espanha e Andorra, claro.

16 comentários:

olinda silva disse...

Desta vez não concordo com o Senho embaixador.
Infelizmente, acho que esta nova emigração não vai voltar nem vai contribuir para um país melhor num futuro próximo.
É uma geração mais consciente e por isso mais orgulhosa e sai muito ferida, a maioria até vai deixar a família em situação muito precária.
Voltar, para fazer o quê? Não há ensino, não há cultura, não há desporto, não há investigação, não há saúde…não há emprego, só trabalho precário!?
E voltar para quem?? Para casar os nossos filhos com filhos de imigrantes??
Lamento mas é o que sinto, eu própria tenho vontade de ir construir o futuro do meu filho fora daqui.
Olinda

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Olinda: eu escrevi "só podemos desejar"...

Anónimo disse...

O meu filho emigrou há dois meses para Angola simplesmente porque os ordenados dele e da mulher não chegavam para os compromissos assumidos e porque têm uma filha de cinco anos a quem querem proporcionar um futuro diferente do que se vislubra por cá.
Mãe e filha segui-lo-ão já em Novembro.
Embora com bastante "jogo de cintura" e muito trabalho espero que consigam o que Portugal lhes tirou.

Anónimo disse...

Pois é.... Já nem a emigração é o que foi anteriormente. Espero que esta emigração perceba o que é trabalhar por esse mundo fora adquirindo novas metodologias de trabalho que são ainda desconhecidas em Portugal, com dedicação e honestidade. Quando voltarem ao país que tragam novos conhecimentos e façam com que se trabalhe sem se pensar nem partidos nem em inteiros.Espero que lhes sirva como se fosse uma "post" graduação. Mas.... de facto ando a percber cada vez menos

Anónimo disse...

"As pessoas que saem, não apenas são forçadas a esse sacrifício como, muitas vezes, acabam por ser elas a contribuir, com aquilo que ganham no exterior, para o aumento da riqueza nacional."

Em muitos casos isto não será verdade. Todos os que conheço que saíram ou pensam fazê-lo saem zangados e com o sentimento de serem escorraçados depois de, muitas vezes com sacrifício, terem alcançado níveis de habilitação superiores aos de pessoas que até têm cargos de governação.

Enquanto a chamada "geração de Abril" pôde beneficiar de 30 anos de desenvolvimento, as duas gerações que se lhe seguiram não viram cumpridas as suas legítimas expectativas. São forçados a sair do seu próprio país, saem revoltados e com o sentimento de terem sido enganados. Se não fosse possível emigrar as coisas seriam diferentes. Sempre é um escape para muita gente que está muito revoltada.

DL

Anónimo disse...

Palavras para quê? Fico-me com os vossos exemplos e as minhas tentativas de ajudar os que me estão mais próximo. Nem todos têm vontade de partir. Aí é que estão alguns dramas maiores. Pois é.

Helena Oneto disse...

Meu caro Embaixador,
Por muito triste que seja, contrariamente ao “wishful thinking”* expresso no ultimo paragrafo, a maioria dos portuguêses pensa, agora, como Olinda Silva e o anonimo das 14:47. Sem presente nem futuro, os que ainda podem e nada perdem, deixam a patria madrasta com a benção interesseira dos governos que contam com os milhões das remessas dos emigrantes para equilibrar a balança externa. Por este andar, Portugal exportara, no futuro proximo, mais mão-de-obra qualificada e/ou academica que toneladas de tomates.
*(o Senhor deve ser dos raros portuguêses que ainda os tem...)*

patricio branco disse...

a emigração em verdade nunca parou, sobretudo a do trabalho sazonal, suiça, espanha. o grafico que vem desde os anos 50 tem agora um novo e alto pico, quantos centos estarao a sair por dia não se deve saber exactamente. conheço alguns casos concretos de emigração da madeira para o ru nos ultimos meses, gente jovem, não especialmente qualificada, com escassos conhecimentos de inglês, ou gente na casa dos 50 que já lá tinha estado e agora volta pra lá. há a europa como destino, continua, há outros destinos tradicionais que voltam a ser procurados, venezuela, brasil, ou destinos não tradicionais que crescem, angola, moçambique.
creio que a maioria já não regressará a não ser de férias, sabem que aqui as perspectivas serão escassas ou nulas durante muitos anos. e uma vez lá estabelecidos e estabilizados não regressarão só por patriotismo que não dá para comer.
como foi o próprio primeiro ministro que sugeriu/aconselhou a emigação como uma forma de conseguir o emprego que cá não há, presumo que a saida de gente funcionará exactamente como nos anos 50-60, uma valvula de escape da pressão demografica interna favoravel aos indices macroeconomicos, menos consumidores de s s, o desemprego não cresceerá tanto como se cá continuassem, etc.
como diz um escritor
"Solitário por entre a gente eu vi o meu país. Era um perfil de sal e abril.
Era um puro país azul e proletário.
Anónimo passava. E era Portugal que passava por entre a gente e solitário nas ruas de Paris.
Vi minha pátria derramada
na Gare de Austerlitz. Eram cestos
e cestos pelo chão. Pedaços do meu país. Restos."
1962 ou 2012, as coisas infelizmente repetem-se.

Anónimo disse...

somos galegos de novo
nunca o deixamos de ser

Rubi disse...

Pois eu, senhor embaixador, que faço parte da nova geração com formação superior que deixou o país (em 2004), duvido que algum dia vá voltar. E não acredito que as muitas dezenas de jovens que conheço na mesma situação que eu queiram voltar. Não há condições, nem ordenados, nem perspectivas em Portugal para nós. E quando passamos essa fase do 'aceitar qualquer coisa' para efectivamente trabalharmos na nossa área de formação, e com ordenados desse patamar, ainda mais difícil se torna. Quer dizer, se calhar voltamos para gozar a reforma... Se a tivermos!

Portugalredecouvertes disse...


Na minha opinião os que partem não sentem que exista na classe dirigente qualquer orgulho em apresentar ao mundo um país com bons níveis de igualdade entre os cidadãos, com uma sociedade mais fraterna, com mais justiça na distribuição dos rendimentos,e que
enquanto a situação de grande desigualdade continuar a ser considerada "normal", então
continuarão a fazer do povo gato sapato.

André disse...

Como emigrante, posso dizer que só voltarei a Portugal enquanto ainda lá tiver família (os amigos quase todos habitam já outras paragens), apenas de férias - e o menos possível. O «meu» país já não é Portugal. Não sei se alguma vez foi «meu».

Anónimo disse...

Os emigrantes dos anos 60 viveram os 
primeiros anos de emigração na certeza do regresso. Depois outros anos vieram que desgastaram as certezas. Finalmente foi uma quase indecisão que levou a maioria a resignar-se a ficar. 
Os que agora emigram podem tirar algumas lições dos outros e não ficarem tanto tempo indecisos. É claro que se concluirem mais rápido que o regresso pode estar comprometido, o envio de devisas não terá a mesma frequência...
José Barros     

Isabel Seixas disse...

"Triste constatação de que o país não é capaz de criar condições para a plena realização, no seu seio, dos cidadãos nacionais." In FSC

EGR disse...

Senhor Embaixador: com o claro intuito de disfarçar a esssencia do problema há,neste momento, em Portugal,um certo discurso que tende a confundir as saídas para o estrangeiro,por razões de valorização profissional,com as ditadas por motivos da inextisencia de trabalho.
Donde me parecer bem necessário que se reflicta sobre o post de hoje.
Entretanto, por mero acaso, vi citada no facebook uma frase do Papa Bento XVI que afirmou ser "o direito a não emigrar" como direito fundamental.
Ignoro o contexto,mas independentemente disso,parece-me um pensamento poderoso.

Anónimo disse...

No Brasil ainda vivendo a era Lula, que nunca deu nenhuma importância a educação, que nunca leu um livro, apenas a cartilha, mas desistiu no 3º ano fundamental. Carecemos de gente especializada.
Uma multinacional acaba de "importar" 60 engenheiros portugueses.
Do Brasil