sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Que bela vida, António!


Caramba, que bela vida, António, aquela que tu tiveste! Ainda há semanas, falávamos de Moçambique, em que tu recordavas uma infância feliz. Essa África que voltaste a reencontrar na Guiné, a esquina da vida onde esbarraste com a tua felicidade, sob o nome de Paula, para sempre. Antes, tinha sido a Lisboa das avenidas que só foram novas quando nós também o éramos, o teu Vává, o Cénico de Direito, a barra do Gambrinus, a Tilt (ainda alguém se lembrará?). E, claro, o “eme-erre” que nunca deixavas cair, face às minhas teimosas ironias. Só te conheci no MNE e, a partir daí, no teu trajeto pelo mundo - um mundo a que um dia ambos demos uma volta completa, para inveja de muitos (essa ninguém nos tira!). Tu, António, eras um viciado em amigos - muitos, diversos, bons e alguns assim-assim - para quem tinhas uma tolerância que, às vezes, me parecia que não rimava com a tua extrema exigência contigo mesmo. Logo tu, que rimavas tão bem. Qualquer dia, prometo que faço uma antologia do “Malta da Rima”, esse efémero e secreto blogue a três em que tu e um amigo que agora está ministro me davam abadas de qualidade poética, que me levaram a sair de cena, cabisbaixo de modéstia. Ainda antes, lembras-te?, falhámos o projeto de criar um site sobre trívia, uma arte nobre a que, por uns anos, nos dedicámos e em que trocámos boas descobertas, pelas livrarias que lá fora cruzávamos. No dia de hoje, acho que já podemos revelar que éramos só nós os dois o irreverente “Luís da Cunha”, o “coletivo de diplomatas” que, no fechar dos anos 80, assinou no “Expresso” dois artigos que criaram fúrias no terceiro andar das Necessidades (o do poder de turno, para quem não saiba). Resta muito, resta quase tudo, restam os livros e os filmes, resta o que foi o Procópio, a “dois”, o imenso Nuno, a festa noturna, o “Espírito de Xabregas”, o poder da tertúlia, as conversas em cacho, pela madrugada dentro e, claro e sempre, a política, onde muitas vezes divergimos no que me parecia acessório. E quantos jantares nossos pelo mundo (Brazzaville, Cantão, Honolulu, Viena, Bangkok, Estrasburgo, Sidney, Maurícias, Paris, Fidji, Serajevo, Los Angeles, sei lá bem onde mais!) e um longo almoço nosso em Lisboa, que guardo para sempre, com o Zé Correia Pinto, ouvindo o Carlos Antunes a pintar as suas romagens clandestinas com o Cunhal pelos idos de Leste. Para o mundo e para a história irónica do nosso grupo, ficará nos anais do YouTube a tua imagem televisiva, o teu colete bege (o Nuno teimou sempre que “lhe cheirava” a Armani, eu achava que era apenas Coronel Tapioca), no tornear elegante do carro em que, lá por Bissau, levaste um dia o Nino Vieira para porto seguro. Agora, só para mim, caro António, ficará para sempre aquela chamada que me fizeste, dois minutos após as badaladas da entrada em 2018. Um telefonema que me alegrou tanto quanto me entristeceu profundamente, porque a tua voz revelava que este ia ser o ano em que a tua bela e extraordinária vida iria ter a longa e eterna pausa.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O Portugal de Leste


Há dois dias, estive em Castelo Branco, num debate promovido pela Caixa Geral de Depósitos, em articulação com a Rádio Renascença, em que foram debatidos os temas da interioridade, trazidos à realidade próxima pela tragédia dos incêndios.

Lembrei-me então de um artigo que escrevi, vai para dois anos, no saudoso “Diário Económico”. Chamava-se “O Portugal de Leste”. Reli-o e acho que representa muito do que continuo a pensar. Aqui o deixo, de novo:

Há dias, numa conversa com alguém com responsabilidades políticas, fui surpreendido pelo raciocínio de que "o interior é hoje um mito", de que "com as acessibilidades agora existentes, em menos de duas horas qualquer pessoa se desloca das zonas de fronteira até ao litoral e vice-versa", pelo que é "um imenso erro estar a despejar dinheiro em áreas onde ninguém quer viver".

A regionalização é um tema divisivo na sociedade portuguesa e eu próprio nunca me senti muito seguro sobre a bondade da criação de um modelo organizativo que implica novas e dispendiosas estruturas, cuja relação custo-eficácia está ainda por estabelecer. Mas tenho de reconhecer que o preço da "não regionalização" é hoje também muito elevado, no que isso significa em termos de expressão da vontade e interesses de certas regiões do país.

Foi A.H. de Oliveira Marques quem fez notar que, já desde antes da criação da nacionalidade, se estabeleceram no território do que é hoje Portugal redes viárias que vieram a favorecer a divisão vertical do país. Com os séculos, foi-se criando cada vez mais no país um "muro", em termos de desenvolvimento, que hoje separa o "Portugal de Leste" do litoral desenvolvido. Um tanto surpreendentemente, a democracia e a integração europeia não contribuíram para contrariar esta realidade, que também não foi alterada, como se esperava, pela cooperação transfronteiriça.

Quando passei pelo governo assisti, com algum espanto, à explanação de propostas estratégicas que tinham no seu centro modelos de desenvolvimento exclusivamente assentes no litoral, na criação de uma espécie de "metrópole" ao longo da costa, concentradora das atenções, dos recursos e, naturalmente, de pessoas. O interior, se não era "só paisagem", não ficava muito longe disso.

O modelo das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional hoje existentes é uma aberração que favorece o prolongamento desta discriminação, que traz consequências trágicas em termos de ordenamento do território.

Que tem a zona industrial do Porto a ver com a desertificação do nordeste transmontano, qual é a similitude de abordagem das questões que afetam Aveiro e Coimbra com as zonas fronteiriças das Beiras? Não estará a região transmontana muito mais próxima, em matéria de interesses, da Beira interior (ou mesmo, no limite, do Alentejo oriental)? Precisamente porque hoje existe uma multiplicidade de evidentes interesses comuns, não seria de estabelecer uma Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Interior Norte e Centro, amputando para tal as duas CCDR dessas áreas?

Mais difícil do que lutar contra interesses instalados é combater mentalidades enquistadas em modelos mentais que alguns se obstinam em não abandonar. É preciso lutar para derrubar o “muro” que separa internamente o nosso território, é necessário lutar pelo "Portugal de Leste" e, de uma vez por todas, caminhar para a unificação do país.“

Sexo e diplomacia


Acabo de ler uma notícia num “site“ francês referindo-se à representante diplomática americana nas Nações Unidas como “l’ambassadrice de Trump”. 

Isso trouxe-me à memória um episódio e dá-me oportunidade de clarificar alguns conceitos básicos.

Um dia, em Paris, no final de um almoço em que estive presente, no período de perguntas e respostas, um secretário de Estado francês dirigiu-se a uma embaixadora de um país da União Europeia tratando-a por “madame l’ambassadrice”. A minha colega foi “aos arames”, interrompeu o governante e disse-lhe que considerava menos correto ser chamada de “ambassadrice”, termo que designa a mulher de um embaixador. “Madame l’ambassadeur” era como exigia ser tratada. O ministro replicou que aquela era a sua língua e que, ao utilizar essa palavra, sabia que estava a utilizar a expressão correta. A embaixadora sentiu-se ofendida e deixou a sala.

O ministro tinha razão... mas a embaixadora também. Na língua francesa, é vulgar designar as figuras femininas que desempenham cargos de chefe de missão diplomática por “ambassadrice”, expressão exatamente idêntica à que se utiliza para as mulheres dos embaixadores. Mas também há muito quem considere que devem utilizar-se palavras diferentes para as duas funções, o que implica não feminizar a palavra “ambassadeur”.

Na língua portuguesa, as coisas são bem mais simples. A mulher do embaixador é designada por “embaixatriz” e a diplomata que exercer a chefia de uma embaixada é designada por “embaixadora”. Não há, contudo, nenhum termo que possa identificar o marido de uma embaixadora ou de um embaixador. E refiro isto porque, desde há semanas, há um embaixador português casado com uma pessoa do mesmo sexo, facto já bastante comum em várias carreiras estrangeiras mas que julgo ser a primeira vez que acontece na diplomacia portuguesa.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O mar das Necessidades


Gosto dos livros de cerca de 128 páginas. Nem são "pesados" demais, neste tempo em que ninguém tem tempo, nem curtos de menos, como uma espécie de sumários desenvolvidos que por aí pululam. Fazem-me lembrar a coleção "Que sais-je?", que acompanhou a minha formação e que, ainda hoje, constitui um elemento permanente de consulta. Pode mesmo ser que, em breve, eu escreva um livro desse tamanho...

Duarte Bué Alves, um diplomata nascido nesse ano glorioso de 1974, teve a ousadia inspirada de escrever sobre um dos mais importantes capítulos do nosso futuro como país: o mar e o modo como o devemos tratar, no quadro da promoção externa dos nossos interesses. Chamou-lhe, quase poeticamente, "Diplomacia Azul", embora esclareça, logo a abrir, que estava a falar de política externa e não do seu modesto braço executor.

O livro é refrescante, como o próprio mar. Não é uma obra académica, muito embora não fuja a esse paradigma referencial, como o assinala o presidente da República na nótula com que honrou o trabalho. Para além de um enquadramento histórico rigoroso e útil, nomeadamente no que respeita à ligação de Portugal ao mar, em especial aos quadros reguladores multilaterais que hoje norteiam o tema, o autor avança pela importantíssima "economia azul", que, com toda a certeza, acabará por ser a alavanca do interesse futuro neste domínio. Aborda também, embora de forma menos consensual, a questão da NATO e do (por ora "falecido") TTIP nesse contexto, tomando posição, como convém ao debate de ideias.

Com total franqueza, gostei muito de ler este livro e gostei, especialmente, de ver um jovem colega (ele devia dar os primeiros passos quando eu já andava pelos claustros da casa) ter a iniciativa de se embrenhar, com a necessária profundidade, numa das áreas a que as Necessidades devem, cada vez mais, prestar a maior atenção. Quanto mais não seja porque muitos estão já a prestar grande (e preocupante) atenção ao mar português.

Que pena tenho que Duarte Bué Alves, que felicito vivamente por este seu trabalho, já não tenha podido contar, com a ajuda, para a construção do seu livro, dessa figura magnífica que foi Mário Ruivo, a maior personalidade que Portugal teve, até hoje, neste domínio, amplamente reconhecida pelo mundo multilateral e que nos deixou faz agora um ano.

Bacalhau das eleições


Alguns atos eleitorais partidários têm sido bons exemplos de como se deve combater a abstenção. 

Ao que consta, para além do “voluntarismo” na inscrição de novos militantes, somado à “generosidade” do pagamento maciço de quotas, há por ali um mundo de empenhamento “cívico”, nomeadamente na “facilitação” dos transportes, que a democracia só pode agradecer. 

Não se pense, porém, que há partidos inocentes no nosso mundo político. A luta pelo poder político tem fronteiras éticas bastante flexíveis...

A propósito disto, lembrei-me que, em casa do meu avô materno, sempre que se servia uma caldeirada de bacalhau, todos se referiam a esse prato como o “bacalhau das eleições”.

Nesse tempo, que era o da minha infância, eu mal sabia o que eram eleições - aliás, a exemplo da maioria dos portugueses, a quem a ditadura apenas prodigalizava uma espécie de “genéricos” falseados do verdadeiro sufrágio.

Mas, se assim era, por que diabo se falava no “bacalhau das eleições”?

Uns anos mais tarde, um tio esclareceu-me. Aparentemente, durante a Primeira República, a luta eleitoral em certas áreas de Trás-os-Montes passava pela atração para a mesa de voto, através da oferta de uma “bacalhauzada” em forma de caldeirada. Os escassos inscritos tinham assim um estímulo mais para se deslocarem para exercer o seu direito cívico. Desde que votassem no candidato que oferecia o “bacalhau das eleições”, bem entendido! 

À época, devia ser barato: não se dizia então que “para quem é, bacalhau basta”?

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Portugal no Mundo


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Estranho


Passei três dias em Arraiolos. Regressei ontem. No regresso a Lisboa, escrevi um post no meu blogue Ponto Come a promover a gastronomia da região. Hoje, Arraiolos foi o epicentro do mais forte sismo no continente nos últimos vinte anos. O que é isto?

domingo, 14 de janeiro de 2018

Alentejo à mesa



No meu blogue Ponto Come, podem ser lidas algumas sugestões gastronómicas na zona próxima de Arraiolos.

O discurso do Aleijadinho




- Em qual das igrejas será? 

Havia tantas, em Ouro Preto, onde estávamos a chegar, num escuro final de tarde, nesse ano de 2005. O avião que nos trouxera de Brasília a Belo Horizonte tinha-se atrasado três horas. Alugar carro, sair do aeroporto de Confins e, sem GPS, descobrir e fazer a estrada para Ouro Preto não fora tarefa fácil. Era a primeira vez que eu guiava em estradas brasileiras e estava sob uma imensa pressão de tempo. Era já seguro que ia chegar atrasado à cerimónia em que ia receber a “medalha do Aleijadinho”.

Na confusão, deixara na mala as indicações sobre a igreja em que a cerimónia se ia passar. Mas, perguntando aqui e ali, lá conseguimos chegar à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, onde está o túmulo do António Francisco Lisboa, o “Aleijadinho”, o genial artista que é a glória da estatuária do Brasil.

- O Francisco é que sabe, mas eu, no seu lugar, não dizia à Lusa que ia receber a “medalha do Aleijadinho”. Já estou mesmo a ver o modo como alguns dos seus “amigos” no MNE irão explorar o assunto...

O alerta tinha sido do nosso conselheiro cultural na embaixada, o pianista Adriano Jordão, com um largo sorriso. Tinha razão. O Boletim de Informação Diplomática (o célebre BID) iria titular “Medalha do Aleijadinho para Seixas da Costa”... Dei, por isso, instruções ao nosso conselheiro de imprensa, o jornalista Carlos Fino, para fazer um “black out” à notícia. 

Contudo, era para mim uma grande honra ter direito à medalha que, anualmente, a prefeitura de Ouro Preto concedia a uma personalidade. Fora informado de que era a primeira vez que um embaixador de Portugal tinha essa distinção. Isso ocorreria durante a cerimónia solene em que seria celebrada a memória desse artista de exceção (nascido num ano impreciso, entre 1730 e 1738, e que morreu em 1814). Cerimónia para a qual eu estava atrasado...

- O embaixador traz motorista?, perguntara-me a chefe do Cerimonial (nome brasileiro para Protocolo) quando a contactei pelo telefone, de Belo Horizonte, informando do atraso. Deve ter ficado muito surpreendida, quiçá desiludida, quanto lhe disse que “eu era o meu próprio motorista”. 

Mas lá consegui chegar. Estacionei o carro “tant bien que mal” e entrei disparado na igreja, à pinha, com uma plêiade de religiosos no altar, como eu jamais vira. Fui conduzido para junto do Prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo, que recebeu com um sorriso compreensivo as minhas desculpas pelo atraso, que lhe transmiti em voz baixa, para não prejudicar o desenrolar do evento. Mal eu sabia então que o Ângelo se iria converter num grande e eterno amigo.

- Vem muito a tempo. O importante é que já cá está connosco, disse-me, sossegando a minha tensão, fruto do atraso e da condução nervosa.

Ângelo Oswaldo explicou-me a “coreografia” que se iria seguir, depois da missa que estava a decorrer (afinal, “aquilo” era uma missa e eu não me apercebera, pensando ser uma outra cerimónia - fruto da minha rara convivência com os atos religiosos). 

Iria receber, das suas mãos, a “medalha do Aleijadinho” e, caber-me-ia atravessar depois toda a nave da igreja, por entre a multidão, e depositar no túmulo do Aleijadinho uma coroa de flores que, previamente, havíamos encomendado. Depois, regressaria perto do altar e, de um pequeno palanque, faria a minha intervenção.

- Quanto tempo acha que devo falar?, perguntei. 

No avião, tinha lido partes de um livro sobre o Aleijadinho e preparava-me para agradecer a atribuição da medalha, a que somaria umas referências ao artista, cujo pai nascera em Lisboa (dizia-se ser essa a razão do apelido), abrindo-me assim espaço para uma evocação cultural luso-brasileira. Pensei que um improviso de 7 a 10 minutos chegaria.

- Acho que pode falar aí uns 45 minutos..., disse-me o Prefeito.

Na minha profissão, aprendi a ficar facialmente impávido em face da surpresa, mas dessa vez foi-me difícil. Retorqui: “45 minutos?!”. Ângelo Oswaldo reagiu à minha interrogação com uma concessão: “Sendo o orador do ano, pode ir até uma hora...”. 

Eu era o “orador do ano”! Lera mal a carta de convite! 

Os religiosos já estavam a dar por terminada a sua parte na cerimónia, acomodando-se, bem como às suas saias, num longo banco ao lado do altar. Eu iria entrar em cena quase de imediato. O Prefeito tomou então a palavra. Fez o meu elogio, entregou-me a medalha e lá fiz eu, sob o silêncio sepulcral da multidão, a colocação da coroa de flores, regressando ao palanque. 

E aí arranquei, sem um minuto para pensar, para uma peça oratória, de improviso, que, perante o olhar espantado da minha mulher (a quem eu tinha falado nos sete a dez minutos), durou quase uma hora. 

Não me perguntem o que disse, mas aparentemente até terá corrido bem. No final, muitas palmas e um belo jantar oferecido pelo Ângelo Oswaldo no Ópera, um excelente restaurante de Ouro Preto, cidade de que, anos mais tarde, eu viria mesmo a fazer um roteiro gastronómico...

Às vezes, na vida diplomática, os discursos não preparados são os mais bem sucedidos. Aprendi à minha custa!

sábado, 13 de janeiro de 2018

Um ano com Trump


Há sábados assim...


A propósito de nada


Um amigo generoso dizia-me ontem da sua “admiração” pelo facto de, a propósito do quotidiano, eu conseguir recuperar por aqui muitas histórias. E verídicas. Com efeito, salvo algumas anedotas bem identificáveis, faço questão de tentar relatar apenas episódios que não sejam contestáveis no domínio dos factos, estando aberto a reconhecer o meu erro, no caso disso involuntariamente alguma vez não vir a acontecer. E, as mais das vezes, essas historietas surgem ligadas a algo do dia que passa.

Hoje, em homenagem a esse amigo, vou contar uma história que não vem propósito de nada, que simplesmente me veio à memória, há pouco.

Há muitos anos, no defunto “Diário de Lisboa” (ainda estou em estado de choque pela notícia, de há horas, de que o “Diário de Notícias” pode desaparecer também), li um texto muito curioso do seu jornalista e brilhante escritor Luís de Sttau Monteiro, sobre a sua infância em Londres.

Sttau Monteiro era filho do embaixador português na capital britânica, Armindo Monteiro, um político que Salazar ali colocara para defender a sua linha de neutralidade “habilidosa” e que, com o tempo, veio a afastar-se do ditador (não por dissidência ideológica, porquanto Monteiro continuou a ser um radical conservador da escola corporativa) e a colar-se às posições internacionais britânicas. Mas isso são outros contos.

No seu texto no DL, Sttau Monteiro referiu que, no período ainda anterior à guerra, costumava ir brincar com o filho do embaixador do Reich alemão, Joachim von Ribbentrop, que seria da sua idade, numa casa que o embaixador alemão tinha um pouco fora do centro de Londres. Julgo que nele se recordava de um terraço e da bela vista que daí se disfrutava, tendo notado outros pormenores que agora me escapam.

Um filho de um embaixador ir brincar com os filhos de outro não é facto digno de registo. Já a circunstância desse diplomata ter vindo a ser, anos depois, ministro dos Negócios Estrangeiros de Hitler, co-autor do pacto germano-soviético que também leva o seu nome (e que o nosso PCP então apoiou, num gesto menos glorioso para o seu historial de luta contra o nazi-fascismo) pode tornar o episódio de infância do escritor português um pouco mais interessante.

Li o artigo de Sttau Monteiro nos anos 70 e fiquei com o seu relato na minha memória.

Um dia dos anos 90, quando vivia em Londres, fui convidado para jantar uma noite na casa de uma amiga portuguesa, casada com um cidadão britânico. (Ela não levará, com certeza, a mal que diga aqui o seu nome: Graça Abreu). A casa era, julgo eu, em Dulwich, na zona sul da cidade. Ficou-me inclusivamente na ideia (mas, passado um quarto de século, posso estar errado) que, para chegar ao prédio se passava por uma espécie de portagem paga. 

Durante o jantar, comentámos o belo traço modernista da casa e, a certo passo, o marido da Graça revelou o curioso historial do local: ali tinha vivido Ribbentrop. Foi então que a história de Sttau Monteiro me surgiu, porque se tratava de uma coincidência curiosa. Lá fui ao terraço olhar para Londres, como Sttau Monteiro e o sinistro nazi haviam feito. Devo ter prometido tentar encontrar-lhes o texto do escritor. E não devo ter conseguido, pela certa.

Aqui fica a historieta (com os retratos de Sttau e de Ribbentrop). A propósito de nada. Boa noite.



sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O futuro do passado


Se acaso fosse simpatizante do PSD, estaria bastante preocupado com o saldo da acrimoniosa campanha eleitoral para a sua liderança, quem quer que amanhã venha a ser o vencedor do sufrágio interno. O voto será dos militantes, mas o confronto foi observado por todo o eleitorado que julgará o partido nas legislativas de 2019. E o tom dos debates não terá contribuído para reforçar o prestígio do universo social-democrata, com vista ao seu putativo regresso ao poder. 

Há muito quem pense que o combate fratricida para a liderança socialista, em 2014, não foi por completo alheio à derrota do PS nas eleições legislativas de 2015, que se acreditava que tinha todas as condições para vencer, depois do austericídio titulado por Passos Coelho. 

Uma coisa me parece evidente: nem Rui Rio nem Santana Lopes sobreviverão a uma eventual derrota nas eleições legislativas de 2019, as quais, recordo, serão antecedidas, meses antes, pelas eleições europeias, onde é tradicional os partidos na oposição terem melhor resultado do que os que ocupam o poder. 2019 será um ano muito exigente para o PSD, em que também se aferirá se há ou não um fenómeno Cristas em crescendo, no mesmo espaço político. Mas, ironicamente, mais do que a sua própria “performance”, será o sucesso ou insucesso de Costa que ditará o seu futuro.

O que se ouviu do PSD nos debates para a escolha de um novo líder foi pouco galvanizante. Rui Rio mostrou um pensamento mais estruturado e realista, com uma genuinidade que às vezes deu ares de ingenuidade. Santana Lopes foi um político “à antiga”, cheio de chavões de estudada assertividade, recorrendo a uma agressividade que, em semanas, destruiu o perfil maduro e senatorial que andou a cultivar na última década. 

Há que reconhecer que a situação económica desfavorece hoje fortemente a oposição: o país cresce, o desemprego desce, as metas europeias são cumpridas, alguns rendimentos são devolvidos. Além disso - apesar dos fogos, de Tancos e de algumas “trapalhadas” – os portugueses mostram nas sondagens não esquecerem quem esteve no poder nos quatro anos anteriores. A tarefa de Rio ou Santana será sempre muito difícil.

Este é um tempo de travessia no deserto para o PSD. Não foi por acaso que a nova geração social-democrata evitou “ir a jogo”, dando assim oportunidade a dois “seniores” que quiseram testar as suas adiadas ambições. No caso de Rio, havia uma espécie de sebastianismo que só o teste da realidade faria aparecer no nevoeiro. Quanto a Santana, nota-se um esforço desesperado para fazer esquecer 2004, em busca de um “remake” regenerador. 

Na esquina seguinte, há gente à espera: Luis Montenegro, Carlos Moedas, Morais Sarmento. Isto vai ter graça.

Interioridade


A segunda vitória de Marcelo


No auge do “infamous” governo de Santana Lopes, em 2004, quando as “trapalhadas” se sucediam na residência oficial de S. Bento (já depois dos “históricos” discurso de posse e da entrada em funções dos secretários de Estado), o então “retirado” Aníbal Cavaco Silva, que fazia tirocínio para regressar à política através de Belém, escreveu, creio que no “Expresso”, um artigo em que falava da “lei de Gresham”, uma teoria económica que defende que uma má moeda, colocada no mercado, afasta qualquer boa moeda. 

Só os ingénuos não entenderam então que Cavaco queria, naquela específica conjuntura, atacar abertamente a “governação” de Santana Lopes, que diariamente divertia, ao mesmo tempo que ridicularizava, o país. Se outro efeito não teve, o artigo de Cavaco (que sempre foi parco em textos, mas que, recordo, subscreveu, em 1982, com Eurico de Melo, outro artigo, também “assassino”, para o governo de Pinto Balsemão, quando fazia a “rodagem” para a Figueira da Foz), a atitude de Cavaco deu então uma preciosa munição mais a Jorge Sampaio para se ver livre de Santana Lopes.

Por que trago isto à colação? Porque achei estranho, nos debates entre Rui Rio e Santana Lopes, quando o primeiro aflorou as “trapalhadas” do efémero e calamitoso governo Santana, não ter visto esgrimida, como argumento de autoridade, uma frase do género: “até Cavaco Silva, com o artigo da “má moeda”, colocou o teu governo em causa”. Ainda pensei que Rio, à época, sendo vice-presidente do PSD, tivesse reagido contra o artigo. Mas verifiquei que não.

Coloquei então a questão a alguns amigos do PSD: por que razão Rio não usou o argumento? Sem exceção, todos coincidiram na interpretação: porque trazer Cavaco Silva a terreiro, no seio dos militantes social-democratas, está longe de ser, nos dias de hoje, um argumento positivo para quem quer que seja... A morte política é muito cruel, em especial se pensarmos nos fantásticos resultados que Cavaco deu ao seu partido.

Esta é assim como que uma segunda vitória de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a memória do mais bem sucedido líder do seu partido originário.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Obrigado, Fernando Pinto!


Tenho uma profunda admiração pelo trabalho feito na TAP por Fernando Pinto e a sua equipa. Se a TAP superou graves crises, que chegaram a ameaçar a sua própria existência, foi muito graças à coragem e ao saber de Fernando Pinto e da sua gente. 

Como embaixador de Portugal, tive o privilégio de acompanhar, e de dar o meu modesto contributo, para aquilo que foi uma extraordinária expansão da ação da TAP no Brasil, feita de visão e grande profissionalismo. 

Como português, sinto que devo um agradecimento muito sincero a Fernando Pinto por tudo quanto fez pela TAP. Já o escrevi uma vez, aquando do processo de privatização. Quero repeti-lo agora, no dia em que se confirma a sua substituição. Ou eu me engano muito ou a TAP e a sua gente ainda vão ter muitas saudades de Fernando Pinto.

O futuro do passado

Hoje, vou ter por aqui o meu momento Maya.

Neste sábado, Rui Rio vai vencer Santana Lopes. E a margem vai ser relativamente confortável. Rio vai fazer alguns gestos para recuperar o “passismo” que esteve com Santana, cooptando alguns dos quadros da nova geração de liberais Católica/Observador. O futuro de Santana passará a ser incerto, porque terá de “disputar” com Passos Coelho a futura liderança da lista para o Parlamento Europeu, tanto mais que, ao contrário do que esteve (quase) para acontecer em 2011, já não haverá agora para ele a perspetiva de uma embaixada multilateral em Paris no fundo do túnel, alternativa que então recusou em face da apelativa Misericórdia (que também já se foi). Rio vai ter de agravar fortemente o discurso contra o governo de António Costa, potenciando qualquer erro deste e a mínima distanciação que vier a detetar no Presidente da República face ao governo, porque essa é a única maneira de se legitimar dentro do partido. Se vier a perder em 2019, hipótese mais provável (a menos que “trapalhadas” imprevisíveis, internas ou na ordem financeira externa venham a ocorrer, o que não é de excluir, em absoluto), “saltará” no dia seguinte às eleições, com Luis Montenegro a suceder-lhe, quase pela certa. Isso limitará muito as chances de Carlos Moedas, que em 2019 sairá da Comissão Europeia (onde será seguramente substituído por Mário Centeno) e cujas hipóteses de vir a suceder a Rio seriam maiores se a derrota do PSD nesse ano fosse titulada por Santana Lopes, porque os “passistas” (e Montenegro) seriam disso co-responsabilizados.

As coisas vão correr assim? Vão, tal como o (meu) Sporting vai ganhar o campeonato (já a “Champions” está um pouco mais difícil) e eu o Euromilhões.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A procuradora-geral


Este país é tão “obviozinho” que até mete pena. 

Quem não gosta da procuradora-geral da República acha que o “espírito da lei” aponta “naturalmente” para um único e não renovável mandato.

Quem gosta da senhora e daquilo que a PGR tem vindo a fazer sob a sua direção é de opinião de que a “letra da lei” é clara e que permite a renovação, a qual deve ser feita.

O resto - isto é, a “reflexão” do pequeno “constitucionalista” que cada português traz dentro de si, quando lhe dá jeito - são apenas truques de cada um a fingir que não tem viés ideológico. E se acaso se tratasse do procurador-geral Pinto Monteiro? Não estavam todos com posições diametralmente opostas? 

Não nos tomem por parvos, está bem?

O conceito



“Conhece o nosso o conceito?” Foi já há alguns anos. Não percebi o que é que a jovem que me recebia no restaurante queria dizer com aquela pergunta. Devo ter feito uma cara de espanto, o que a levou, generosamente, a elucidar-me: “Gostava de lhe explicar o conceito do nosso restaurante”. 

O ”conceito”, na novilíngua restaurantista, é o modelo que marca a forma, necessariamente atípica, como se vai passar a refeição: ou há uma compra do vinho numa loja à parte, ou somos conduzidos através de espaços geográficos diferenciados da casa onde se passam “tempos” restaurativos ou beberricais diferentes, ou a ordem dos pratos segue um ”percurso” que o “chef” desenhou para diferenciar a sua “assinatura” na obra-de-arte que vamos ser convidados a “experienciar” (um vocábulo que abomino) - e a pagar com língua de palmo, claro.

O mundo dos restaurantes com “conceito” anda aí com força. Deve haver quem goste, imagino.

Secretos


A hierarquia de confidencialidade das comunicações que os postos diplomáticos trocam com o Ministério dos Negócios Estrangeiros (que formalmente se designava nas comunicações por “secretaria de Estado”, em memória da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, criada em 1736) tem vários graus, de acordo com a delicadeza daquilo que é transmitido, que igualmente se reflete no âmbito de distribuição da informação.

Um dia, quando estava embaixador em Paris, enviei um “telegrama” (como se designam as comunicações remetidas dos postos, enquanto as recebidas da “secretaria de Estado” se chamavam tradicionalmente “despachos telegráficos”) a que decidi atribuir a classificação de “secreto”. 

As regras diplomáticas aconselham a que deva haver alguma parcimónia no uso da classificação de “secreto” (e muito mais de “muito secreto” e ainda mais de “telegrama pessoal para Sexa Ministro”), mas houve sempre na carreira colegas que usaram e abusaram dessa classificação, talvez porque achavam que assim eram mais lidos...

Já agora, diga-se que todas as comunicações com classificação de confidencialidade são “cifradas” (através de métodos técnicos que variaram muito ao longo do tempo, destinados a dificultar a sua leitura por curiosos exteriores), enquanto que os “telegramas” sem classificação seguem “em ostensivo”, isto é, sem serem sujeitos a “cifra”. Enfim, liturgias da casa...

Mas voltemos ao meu “secreto” de Paris. Já não faço ideia sobre que assunto era. 

Havia a regra de nunca falar do conteúdo de “telegramas” pelo telefone (para não “quebrar a cifra”), mas sempre me pareceu não haver grande inconveniente em telefonar a chamar a atenção para uma determinada comunicação, sem tocar no conteúdo, destacando-a na avalanche de “telegramas” que diariamente inundam a “secretaria de Estado”. Assim, liguei a um colega que tinha um lugar elevado na hierarquia do MNE e disse-lhe, simplesmente: “Chamo a tua atenção para um “secreto” que enviei esta manhã”.

A resposta do meu interlocutor, com quem já não falava há bastante tempo, apanhou-me desprevenido: “Secreto?! Ó meu caro! Eu saí do serviço ativo há quase um mês. Para mim, agora, “secretos” só de porco. Olha! Ainda há dias comi uns excelentes no Galito. Quando é que vens cá a Lisboa para uma incursão alentejana?”

Lembrei-me disto há pouco, ao combinar, com um outro amigo, uma almoçarada nesta quarta-feira, precisamente no Galito. Já por lá não está a Dona Gertrudes, mas sei que o meu amigo Henrique seguramente que nos vai assegurar uma refeição “à maneira”.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Angola e nós

O novo presidente angolano pronunciou-se sobre o processo que envolve, na justiça portuguesa, o antigo vice-presidente, Manuel Vicente. Utilizou os seguintes termos: “Não estamos a pedir que ele seja absolvido, que o processo seja arquivado, nós não somos juízes, não temos competência para dizer se o engenheiro Manuel Vicente cometeu ou não cometeu o crime de que é acusado. Isso que fique bem claro”.

Toda a comunicação social portuguesa “agarrou” a questão essencialmente pelo prisma da eventual retaliação angolana no caso do processo não vir a ser transferido para Luanda. É uma questão interessante, relevante, mas do domínio da futurologia especulativa, porque os eventuais passos futuros de Luanda só a Luanda competem.

Penso - mas esta é apenas uma perspetiva pessoal - que a comunicação social portuguesa deveria atentar bem no significado daquelas declarações de João Lourenço. Porque se trata de uma posição nova e da maior importância, porquanto altera, a meu ver muito substancialmente, aquilo que, durante muito tempo, parecia ser a perspetiva de Angola sobre o assunto. Porque, pela primeira vez, fica admitida a hipótese teórica da culpabilidade, lado a lado com a da inocência.

No que a Portugal toca, a questão está agora, exclusivamente, nas mãos do poder judicial - como as autoridades angolanas bem sabem e é importante que a opinião pública portuguesa também disso tenha consciência. Tal como já estava no momento em que a Procuradoria-Geral da República não soube garantir a privacidade de um processo que, até pelo seu melindre, devia ter sido mantido em estrito segredo de justiça, mas foi deixado “sair” para a comunicação social, naquilo que constituiu uma quebra profissional e deontológica tanto mais grave quanto afetou seriamente as nossas relações políticas com um parceiro com a importância de Angola. Se a PGR portuguesa tivesse sabido tratar o processo atempadamente, sempre com o máximo rigor na investigação mas também com todo o sigilo que a lei impõe e o bom senso recomenda, talvez não tivéssemos chegado onde chegámos.

O Estado português é um todo, mas existe uma separação de poderes que faz com que cada instituição responda individualmente à luz das suas competências constitucionais. Nem o presidente da República nem o governo são atores institucionais nesta questão - e Luanda sabe isto bem. Os olhos do país devem assim estar concentrados exclusivamente no sentido de justiça e de responsabilidade do poder judicial português. E de Estado, já agora.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Mário Centeno


Há erros de facto. Há lapsos de avaliação. Há perspetivas de opinião. Há ousadia jornalística. Há luta política.

E também há pura e miserável canalhice. É o caso.

Um forte e solidário abraço ao Mário Centeno.

Diplomacia lírica


O estatuto familiar tinha, no passado, um imenso peso na profissão diplomática. Várias carreiras se fizeram, imerecidamente, à sua sombra. Com a democracia, essa influência, longe de ter desaparecido por completo, atenuou-se bastante e a meritocracia tende hoje a prevalecer na gestão da casa. 

Alguns funcionários mais antigos e conservadores eram, contudo, muito condicionados pela sonoridade de certos apelidos, em especial se a eles tivessem associadas conotações aristocráticas, a que certos setores da casa sempre manifestaram uma patética reverência.

Conta-se uma história passada no pátio de entrada das Necessidades. Numa certa manhã, o embaixador secretário-geral do ministério, ”chefe da carreira”, foi surpreendido, ao sair do carro e preparar-se para se dirigir ao seu gabinete, por um canto lírico, bem alto, que saía de uma das janelas das repartições que davam para o pátio. A cena era, pelo menos, insólita. As Necessidades não eram propriamente S. Carlos e não era curial que uma ária se soltasse do lado dos serviços.

O embaixador, que tinha um ar antipático e carrancudo, que se pretendia intimidatório, perguntou ao Matos, o porteiro que, por décadas, geriu a entrada no MNE, se sabia quem era o “cantor”.

Conhecendo o Matos, creio que terá respondido, com a formalidade que lhe era própria: “Saiba V. Exª, senhor secretário-geral, que se trata do senhor doutor (...)” e disse o nome de um colega, que julgo era detentor de um título nobiliárquico, com um nome de família relativamente sonante.

O embaixador, cuja vontade, no instante, talvez fosse de mandar dar uma “rabecada” ao inconveniente intérprete lírico, rendeu-se aos “powers that be” da sociedade e terá comentado, à medida que se afastava, naquele andar enrolado que era o seu: “Bela voz! Tem uma bela voz!”. E saiu para o claustro.

Nunca ouvi cantar aquele nosso colega, pessoa aliás bem estimável. Mas a menos que seja pela graça do trocadilho, posso presumir que a sua qualidade lírica não deveria ser assaz notável, porque, com a crueldade típica da casa, era conhecido nas Necessidades pelo “tenor maligno”...

domingo, 7 de janeiro de 2018

Gall


Hoje é o dia em que o “Les sucettes”, talvez mais do que o “Poupée de cire, poupée de son”, vai ser recordado nas rádios e televisões francesas. É que France Gall, neste que é o ano certo para se fazer 70 anos, decidiu partir. E Serge Gainsbourg, lá onde estiver, deve estar com o seu sorriso de sátiro, o mesmo que sempre usava quando interrogado sobre a intencionalidade escondida no genial elogio aos chupa-chupas que decidiu escrever. Recordemos a música aqui.

No dia da morte de Mário Soares


Em 25 de janeiro de 1969, vi, pela primeira vez, Mário Soares. Foi no cemitério dos Prazeres, no funeral de António Sérgio, um ato reprimido pela polícia da ditadura. Soares estava no centro da manifestação sobre a qual a polícia de choque carregou violentamente.

Mário Soares morreu a 7 de janeiro de 2017. Hoje, quase 48 anos depois daquela data (e, por coincidência, 48 anos durou também a maldita ditadura), regresso aos Prazeres para uma homenagem a Mário Soares, no local onde está sepultado.

Ao eventual leitor que esteja em Lisboa e que reconheça que a liberdade e a democracia de que usufrui algo devem a esse homem, que por elas lutou quase até à hora da morte, pediria um pequeno esforço e faço um convite: venha juntar-se a nós, às 16 horas deste domingo, no Cemitério dos Prazeres.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Carlos Heitor Cony


Acabo de saber que morreu Carlos Heitor Cony. Durante todo o tempo em que vivi no Brasil, e muitas vezes depois disso, fui leitor das suas curtas mas “sumarentas” crónicas no “Estadão”. Li, além disso, alguns dos seus livros. Era um magnífico contador de histórias, num português de lei, com humor e ironia culta. Um imenso cronista, na escola de Nelson Rodrigues ou de Luiz Fernando Veríssimo.

Um dia, no Rio de Janeiro, numa das minhas visitas à Academia Brasileira de Letras, fui-lhe apresentado. Ele era um dos 40 "imortais" daquela casa.

Por coincidência, uma semana antes desse encontro, tinha acabado de ler a sua autobiografia, intitulada "Quase memória". Disse-lho. O escritor, com aquele ar benevolente de quem acredita pouco que os diplomatas possam ler muito, retorquiu: "Ah! sim? Espero que tenha gostado..." E passou adiante. Aí eu insisti: "Diga-me uma coisa! Ao ler o livro fiquei com uma curiosidade: quando fala daquela falsa viagem do seu pai a Itália, para enganar os amigos, isso passou-se mesmo assim?". Cony abriu muito os olhos, "viu-me" pela primeira vez e exclamou: "Oh! Mas o embaixador leu mesmo o livro!"

Quem escreve morre “menos”. Deixa a escrita em herança e, como usufrutuários, quem o quiser continuar a ler.

A nossa diplomacia




Gostei de ver o presidente da República e o ministro dos Negócios Estrangeiros pronunciarem-se, em termos altamente elogiosos, há dias, durante o Seminário Diplomático anual do MNE, sobre a carreira diplomática portuguesa. Dizem-me que o primeiro-ministro terá dito basicamente coisas similares. 

Vai para cinco anos que deixei aquela casa, mas fico sempre muito satisfeito quando vejo reconhecida a qualidade do trabalho dos funcionários que integram aquele que é um dos corpos da Administração Pública onde continua a imperar uma elevada cultura de serviço público, com profissionais da maior qualidade, que garantem uma presença prestigiada de Portugal pelo mundo. 

Creio, porém, que o país não dá devida conta da importância que esse corpo de funcionários tem tido na obtenção de muitos dos êxitos nacionais na ordem externa, nos mais variados domínios. É justo, por isso, lembrá-lo.

A crítica invejosa que, demasiadas vezes, atinge a diplomacia portuguesa, fruto de despeitos corporativos e de algum populismo miserabilista, tem os seus cultores em certos setores da comunicação social, raramente aberta a escutar, em contraponto, quantos diariamente beneficiam da ação desse dedicado corpo de funcionários. Porquê? Porque dizer mal é o que “rende”.

Há algumas “ovelhas negras” na carreira diplomática? Há elementos que mostram menos empenhamento e que cometem erros? Claro que sim! Só por milagre isso não aconteceria. Ocorre em todas as profissões. 

Ao longo da vida, fui algumas vezes confrontado com queixas sobre o comportamento pontual de alguns colegas, que, no parecer desses meus interlocutores, não tinham estado à altura daquilo que era legítimo ser-lhes exigido. 

Sem exceção, dizia-lhes: queixem-se! Não em “bocas” para a comunicação social, em notas adjetivadas nas caixas de comentários da redes sociais, na cobardia do anonimato ou com generalizações preconceituosas sobre a profissão. Explicava-lhes que basta uma simples carta, assinada e com factos devidamente assinalados, dirigida a quem de direito. Podem crer que terão uma imensa surpresa: haverá sempre uma resposta e o assunto merecerá a devida atenção. 

É que quem não deve não teme e os diplomatas portugueses competentes e cumpridores, que são a maioria, só agradecem que o trigo seja separado do joio.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Reinventar vontades


O presidente da República convidou-nos a reinventar o país do futuro. Sendo o futuro o lugar onde vamos passar o resto dos nossos dias, convém começar já esse esforço. 

A cruel dualidade que o presidente sublinhou em 2017 foi a prova de que não devemos dar nada por adquirido. Somos um país frágil, marcado por um grave desordenamento sócio-territorial, com uma sociedade civil escassamente autonomizada e um tecido público com uma flagrante impotência para proteger, com eficácia, os interesses de muitos dos cidadãos. 

O fantástico salto que Portugal deu nas últimas décadas, na partilha das vantagens do processo europeu, teve efeitos muito assimétricos no seu tecido social e humano. Há um Portugal perdedor, em termos relativos, no banho de riqueza que mudou a paisagem e confortou os bolsos de muitos portugueses. Mais grave do que isso, não parece existir uma estratégia coletiva para reverter essa tendência desigualizadora. Vivemos com um Estado marcado por um tropismo centralista, que prolonga uma tutela paternalista de Lisboa que, desde há séculos, teima em não ceder.

A tragédia dos fogos revelou que Pedrógão não foi um acidente. A repetição, semanas mais tarde, de ocorrências com gravidade similar foi a prova provada de que estamos perante uma endemia estrutural, que pode facilmente emergir noutro contexto – num sismo, numa epidemia, num novo Entre-os-Rios do nosso desespero. 

Foi também a constatação de que o país das decisões fala sempre de fora para dentro do Portugal mais interior, cuja única voz parece ser sempre a da lamentação. Começa a ser insuportável continuar a viver nesta dualidade, que não só é profundamente injusta como induz ineficácia no desejável processo de coesão nacional. 

Há que encontrar rapidamente um modo de trazer para a esfera da reflexão e da decisão setores que delas estiveram, desde sempre, distantes. Nesse contexto, reinventar o futuro implica, em particular, mobilizar ideias e vertentes de ação que associem os mais jovens a um processo de “devolução” de poderes. As universidades e o mundo empresarial moderno são aliados essenciais para esse esforço.

O presidente tem razão. Mas precisamente porque ganhou autoridade como catalizador da resposta institucional ao sofrimento, tem agora de a utilizar e, aproveitando o novo ciclo do principal partido da oposição, somado a alguma instabilidade que ainda atravessa o governo, deve “chamar os bois pelos nomes” e forçar consensos de regime, ajudado pela imensa e entusiasmada plateia que ganhou pelo país. Deixar Belém com um Portugal mais solidário, mais organizado, com uma estratégia de futuro consensualizada para uma década – esse seria um belo presente de Anos Novos que gostaríamos de ter.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Dieta

Sou um fervoroso seguidor das dietas de início de janeiro. Daquelas do ”agora é que é!”. Iniciei a minha no dia 2. Interrompi-a brevemente ontem para um arroz de feijão e salpicão (deixo a prova) num restaurante no Mezio (não sabem onde é? É ali ao lado de Colo do Pito, entre Lamego e Castro Daire). Hoje, atulhei-me de sandwiches mistas, nas seis horas e meia que passei no Conselho Geral Independente da RTP, com almoço pelo meio. Amanhã, infelizmente, vou ter um almoço de trabalho numa função oficial em que não ficaria bem “abster-me”. Na 6ª, sábado e domingo há uns jantares de Ano Novo em casa de amigos e compreender-se-á que não lhes possa fazer a desfeita de parecer “pisco”. Para a semana, sim!, fica assente recomeço a dieta. Logo que possível. Isto é, logo a 12! É que, de segunda a quinta, tenho já quatro almoços marcados. Espero assim poder chegar a meio do mês com menos 300 gramas. Talvez 200 seja um número mais prudente. Mas lá que isto começa bem, disso não restam dúvidas!

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Os “comunistas” da EAA


No jargão das Necessidades, chamava-se EAA. Era a “repartição” da direção-geral dos Negócios Económicos dedicada às relações com os países da África, Ásia e Oceania. Um mundo! Fui lá cair em maio de 1976, depois de ter estado colocado alguns meses no Gabinete Coordenador para a Cooperação, onde se iniciavam as nossas relações de cooperação com as ex-colónias.

Acabado de entrar na carreira diplomática, em agosto de 1975, ao ser-me perguntado que colocação interna pretendia (o recente 25 de abril permitia essa gentileza formal), referi por escrito que queria ir para o serviço de cifra (que tratava das comunicações e exigia grande confidencialidade) ou para o que tratava das relações com a NATO (onde o secretismo era ainda maior). 

Era uma aberta provocação da minha parte: tinha estado nomeado para o gabinete do MNE do 5° Governo provisório (o governo mais à esquerda da história portuguesa) e, antes disso, tinha andado por áreas radicais do MFA. Ao tempo, imediatamente pós-25 de novembro, era olhado nos corredores das Necessidades como um temível esquerdista, ideia ajudada pelo cabelo comprido, o farfalhudo bigode e a minha inicial relutância em usar gravata. Eu não tinha a menor ilusão de que ninguém me mandaria para nenhum daqueles dois serviços! 

Na EAA, onde estive três anos, tive três chefes, com quem sempre me dei lindamente. Os dois primeiros foram breves, tendo o terceiro ficado cerca de dois anos. Este último era um homem suave, de voz baixa, sorridente, um estilo de chefe com quem era muito agradável trabalhar. Politicamente era bastante conservador, mas isso não destoava da tendência esmagadoramente maioritária na casa.

Notei que, logo que chegado, o novo chefe quis fazer um inventário escrupuloso do modo como as coisas funcionavam por ali. E elas funcionavam bem. Deve ter percebido que nós trabalhávamos bastante e de forma dedicada, que não havia o menor atraso, que a repartição não lhe ia criar quaisquer problemas. 

Desde o início, porém, eu havia notado que manifestara forte curiosidade a meu respeito e de um outro colega - sobre a nossa vida, sobre os nossos gostos, etc. E registei que, por uns meses, esteve particularmente vigilante quanto ao nosso trabalho. Mas tudo sempre em modo sereno e educado. Depois, deu-nos completa autonomia, confiando plenamente em nós. E criámos um ambiente de trabalho excelente.

Passaram muitos meses. Um dia, eu e esse meu colega fomos colocados no estrangeiro, deixando o nosso chefe para trás. Pouco tempo depois, ele próprio seria colocado algures como embaixador. É sempre assim, na carreira.

Decorreram entretanto muitos mais anos. Já não sei onde e como, voltei a encontrar esse meu antigo chefe, de quem ficara amigo e que me fez então uma curiosa confissão: “Quando fui chefiar a EAA, foi considerada uma “missão de risco”. Porquê? Porque você e o outro colega estavam lá. Nem imagina os alertas que recebi! Que eram dois comunistas, gente perigosíssima, que era preciso vigiar com muito cuidado!” Para logo acrescentar: “Mal eu sabia que não iria ter o menor problema, que vocês eram funcionários dedicados e cumpridores, que tudo ia correr às mil maravilhas!”

Não resisti a perguntar-lhe: “E quando é que concluiu que nós não éramos comunistas?”. A resposta foi deliciosa: “Eu, de início, não cheguei a perceber se vocês eram ou não eram comunistas. Mas posso dizer uma coisa: por essa altura, no contacto convosco, cheguei a pensar que se todos os comunistas fossem como vocês, então os comunistas não eram assim tão maus...”

(Dedico este texto aos colegas da EAA: ao Mário Santos, "comunista" como eu, ao Ina Amaral Neto, que cedo desistiu de nos aturar e foi ganhar o seu, ao Malheiro Dias, que nos trouxe a alegria e o gesto largo das andanças sul-americanas, à memória do Ribeiro Gomes, companheiro inesquecível de comezainas e bebezainas e, "last but not least", à nossa benjamim e beleza inspiradora da repartição, a Ivone Carvalho, que, com outro nome, me apareceu por este facebook e me sugeriu este post)

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O lóbi das mangas soltas

Nestes dias que passo por Vila Real, não consegui ainda aferir se o famoso “lóbi das mangas soltas” continua a vigorar pelas ruas da cidade. O que é esse lóbi? O que o carateriza?

É um vício antigo, geracional, em que provavelmente algumas pessoas nunca repararam. Há por Vila Real, desde há muito, um bando de maduros, renovado pelas gerações, que nunca veste a samarra, a gabardine ou o sobretudo. Coloca essa peça de vestuário pelos ombros e passeia-se sempre dessa forma, faça frio ou chova. Se a temperatura desce, ou a água puxada a vento ameaça a integridade do resto do vestuário, o membro do lóbi tem por gesto reflexo cruzar à frente, com as mãos, a cobertura que traz aos ombros, assim se aventurando, inclinado, cosido às paredes, pelas ruas da urbe. Mas - nunca por nunca - ele cederá a esse gesto de fraqueza que significaria vestir a peça, porque nunca dispensa o ar “négligé” que a prática de a colocar pelos ombros encerra. Talvez porque, à chegada ao café ou à tasca ou a casa, isso lhe permite, displicentemente, deixar cair o adereço sobre uma cadeira ou pendurá-lo num bengaleiro.

O meu querido e velho amigo Zé Araújo, também conhecido por “Foquita”, há muito desaparecido, era um dos mais visíveis cultores dessa arte. Jamais aquela samarra negra lhe foi vista vestida, mesmo nos dias em que o “alvo manto de neve” (“imaginativa” linguagem da imprensa local, repetida a cada nevão, desde as calendas) cobria a sua Avenida Carvalho Araújo. Nunca cuidei em inquirir da razão de fundo desse hábito, mas não me admiraria se me retorquisse, com a ironia seca no esgar, de que “não se deve dar muita confiança ao chiasco”.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Os outros


Embora nascido em Ponte de Lima, o meu pai era de Viana do Castelo. Adorava a sua cidade, a família que tinha por lá, os amigos de infância e aqueles que aí fora criando ao longo da vida. Vivia, desde há muito, em Vila Real, um “exílio” que lhe não podia ser mais confortável e feliz. 

Regressar a Viana era, contudo, outra coisa. Pelo Verão ou em outras férias, as conversas com a mãe, os irmãos e os sobrinhos, bem como com os amigos, na Café Bar ou no Girassol, faziam parte da rota de alegria que era esse regular mas episódico reencontro com a sua terra.

A vida foi fazendo o seu curso. A família de Viana foi desaparecendo, os amigos que por lá tinha também. Cada visita àquela cidade, onde eu teimava sempre em levá-lo, no final da vida, à procura desse outro tempo, foi-se tornando para ele mais penosa, mais nostálgica, cada vez mais vazia de gente e cheia de melancolia. 

O meu pai viveu até aos 97 anos. Nos últimos anos, já não tinha amigos de infância, pior, já não tinha amigos da sua geração ou mesmo da geração imediatamente posterior. A certo passo, percebi que a recordação do passado em Viana, deixou de ter qualquer interesse para ele. Evitava conversas sobre isso. Não gostava de ver fotografias antigas, imagino que porque estas lhe lembravam tempos de uma outra felicidade (e nós sabemos que a felicidade do passado é quase sempre “mais feliz” do que aquela que vivemos). 

Nos seus últimos tempos, o meu pai passou a resistir, quando eu lhe sugeria darmos uma saltada a Viana. Um dia, poucas semanas antes da sua morte, depois de um almoço nas Pedras Salgadas, fui conduzindo devagar por várias estradas, como se ao acaso. Ele adormeceu, ao meu lado. Acordei-o com Santa Luzia à vista. “Mas isto é Viana!”, exclamou, sorrindo, de súbito bem feliz. Levei-o à Praça da República, à Caravela. Não perguntou por nenhuma pessoa. Disse-me, no regresso da tristeza: “Já não conheço por aqui ninguém. Ninguém, mesmo!”. Não era verdade, tinha ainda sobrinhos por lá, mas percebi que seria cruel confrontá-lo com caras que lhe trariam o que já era o insuportável peso do passado uma vez mais de volta. Mas não sei se fiz bem.

Há pouco, um minuto depois da meia-noite, recebi uma chamada telefónica que, não tendo nada a ver com o que escrevi, me suscitou fortemente esta evocação, que dedico a um grande amigo que não sei se a lerá.

2018


No que me toca, não me importava nada que 2018 fosse exatamente igual a 2017. Com os muitos amigos que tenho, com os inimigos que se mantiveram ou revelaram (alguns bem patuscos), com a vida que gosto muito de ter. Nem mais, nem menos. Será pedir muito?

domingo, 31 de dezembro de 2017

A Revolução como comédia


Entrámos no último dia do ano com o programa televisivo "Governo Sombra" a ter como convidado Arnaldo Matos. O atual "dono" do PCTP-MRPP foi recebido com um tom visivelmente complacente pelos "residentes" do programa, ansiosos por lhe extraírem declarações chocantes e expressões radicais, à altura daquilo a que o velho político sempre habituou o seu auditório. Conhecedor do palco que pisava, Matos não se fez rogado e, no meio de elogios táticos aos anfitriões, esteve à altura da "performance" aguardada, chamando "nazis" aos gestores alemães da Auto-Europa e mostrando compreensão pelos ataques do Estado Islâmico. Foi notório o gozo com que continua a ser recebida a qualificação de "social-fascista" que o MRPP sempre aplica ao PCP. É que o MRPP continua a ser o "enfant chéri" (para ser simpático) de certos meios, que sempre o cobrem com uma espécie de juízo de inimputabilidade, que nos dias de hoje o coloca ao nível de uma caricatura de comédia.

Pena foi, contudo, que ninguém tivesse perguntado a Arnaldo Matos com que direito tomou conta do partido, onde não exerce nenhum cargo eleito. É que isso permitiria a este auto-proclamado porta-voz da classe operária e frequentador do Gambrinus esclarecer com que legitimidade é hoje o depositário e usufrutuário da subvenção pública de centenas de milhares de euros atribuídos anualmente ao partido pelo Estado. Em democracia, os partidos têm de ser os primeiros a praticar, no seu seio, regras democráticas; se o não fazem, não devem ter o direito a dispor dos privilégios que constitucionalmente os beneficiam. Ora no seio do PCTP-MRPP, como é público, vive-se hoje uma ditadura interna protagonizada por Arnaldo Matos, que tomou conta da máquina política e financeira, sem ter sido eleito, como ele próprio revelou no programa. 

sábado, 30 de dezembro de 2017

Erro técnico

Sei lá bem porquê (e se sei, não digo), lembrei-me há pouco de um célebre episódio ocorrido na imprensa portuguesa, nos anos 80 do século passado. 

Era um tempo tenso, em que o declinante poder militar remanescente, embora titulado já pela sua ala mais moderada, causava ainda engulhos a alguns partidos políticos do eixo do novo sistema político, em crescendo de afirmação. Por essa razão, as intrigalhadas sobre o Conselho da Revolução e os eventuais conflitos no seu seio eram constantes.

Por essa época, um semanário destacava-se no serviço prestado a essa ala do espetro político. Era pasto constante de recados desse setor, dava guardida aos seus colunistas furibundos e indignados e, claro, prestava-se a fretes políticos constantes. Ah! E vendia jornais, muitos.

Um dia, o tal semanário desse tempo trouxe uma detalhada descrição de uma reunião do Conselho da Revolução, com a discussão em torno de um tema qualquer então na berra. As posições assumidas e o teor das intervenções dos vários membros do órgão eram desenvolvidos no texto com algum detalhe, revelando que a reunião havia sido tensa e dura.

Tudo estaria bem se ... a tal reunião não tivesse sido adiada! O “jornalista” - a peça era da responsabilidade do diretor do periódico - havia inventado a história de A-a-Z, colocando na boca dos membros do Conselho da Revolução coisas que, claro!, eles nunca tinham dito.

Nesse tempo, sem redes sociais e sem televisão que repescasse o assunto, com a imprensa (mesmo a de linhas políticas diferentes) a respeitar um silêncio de compadrio corporativo, aos leitores pouco mais restava do que falar entre si do assunto e esperar por uma eventual “justificação” no número seguinte do semanário. 

E ela veio! O autor, o “jornalista”, explicou, numa nota, que tinha havido um “erro técnico”: de facto, e em termos práticos, a reunião relatada não se tinha realizado. O jornal “concedia” que esse detalhe não tinha sido tomado em devida conta e, com modéstia deontológica, assumia o lapso. Mas o “jornalista” tinha um argumento fortíssimo. É que, como ele explicava na mesma nota, o seu conhecimento detalhado das clivagens que, sobre o assunto, sabia existirem no seio do Conselho da Revolução era tal que ele tinha a certeza de que, houvesse a reunião tido efetivamente lugar, teriam sido exatamente aquelas as posições que nela seriam assumidas pelos intervenientes citados. Estava tudo explicado! 

O autor deste brilhante argumento foi, mais tarde, professor universitário de... “jornalismo”. Nunca cheguei a matar a curiosidade que tinha sobre se a questão do “erro técnico” alguma vez foi por ele abordada nas “aulas”.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Mandatários da República


Um professor que tive no liceu defendia que “uma das grandes medidas do Estado Novo foi pôr cobro ao cancro que eram os partidos da República”. A diabolização dos partidos políticos fazia parte essencial da ideologia do fascismo de paróquia que tomou conta deste país, a partir de 1926. Mesmo o salazarismo envergonhado que foi o marcelismo revelou-se incapaz de aceitar que quem pensasse de forma diferente podia organizar-se e obter mandatos populares para pôr em prática as suas ideias. 

Nunca estranhei assim que os constituintes de 1976 oferecessem aos partidos o quase monopólio da representação política. Por seu intermédio, tentava-se retomar o exercício da democracia interrompido pelo 28 de maio. E quem, senão os partidos clandestinos, havia sustentado, no essencial, a bandeira da liberdade durante a ditadura? 

O regime que hoje temos parece apenas tolerar, com sobranceira benevolência, qualquer expressão política que se afirme fora dos partidos, procurando quase sempre limitá-la. Com isso pretende evitar o caciquismo, que marcou os anteriores modelos constitucionais, pelo que não estimula plataformas de afirmação de personalidades ou de grupos de interesses com poder de influência. A própria leitura do semi-presidencialismo que prevaleceu na revisão constitucional de 1982, afetando os poderes do presidente da República pactuados em 1976, representou uma deliberada menorização daquilo que pudesse não derivar da pura expressão partidária do poder, com legitimidade concorrencial.

Quero com isto dizer que devemos aceitar que os partidos são os “donos” da nossa democracia? Os partidos não esgotam a democracia, mas não há democracia onde não houver partidos - autónomos, livres e contrastantes. Eles são os mandatários essenciais da vontade cívica, do modo como organizamos o Estado para levar à prática políticas públicas maioritariamente sufragadas. Mas não deixa de ser lamentável que os partidos reajam de forma corporativa e conservadora a tudo quanto possa afetar o oligopólio de que dispõem. 

Porque lhes é conferido um poder constitucional único, os partidos têm o dever da absoluta transparência e devem garantir a democraticidade no seu funcionamento interno e no modo como atuam no sistema de representação política. Fraudes como hoje são o MRPP, onde dirigentes não eleitos se locupletam com fundos públicos, ou os Verdes, uma sucursal política do PCP, representam manchas tristes no nosso sistema partidário.

Um escândalo rebentou agora a propósito da fiscalidade dos partidos. Com todas as suas inegáveis disfunções, a nossa democracia sai-nos cara? Sustentar os partidos tem um custo elevado? Talvez tenha, mas a liberdade não tem preço e os partidos são apenas o outro nome da democracia.

(Nota final: este foi o ano da morte de Mário Soares)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Intoxicações

Na madrugada de quinta-feira, olhando na televisão as primeiras páginas dos jornais, deparei com uma notícia no “Público” que tinha a certeza de ser falsa: os nomes de João Soares e de Gabriela Canavilhas, antigos ministros da Cultura, estariam a ser cogitados pelo governo para a presidência da agência de notícias Lusa.

Não tinha falado com ninguém, desconhecia, em absoluto, a questão da futura liderança da Lusa, mas só se o governo de António Costa tivesse ensandecido de uma vez por todas é que, numa conjuntura política como a que vivemos, se atreveria a nomear, para dirigir a agência oficiosa de notícias, um membro do seu grupo parlamentar. Por outro lado, era bizarríssimo que dois antigos ministros da Cultura aceitassem colocar-se sob a tutela de um seu sucessor. E que ele os escolhesse...

Dos primeiros comentários surgidos nas redes sociais sobre a “notícia” depreendeu-se logo o que aí vinha: acusações de instrumentalização política, “jobs for the boys” e coisas assim. As partilhas foram muitas, o Twitter ferveu, o Facebook rugiu. Eu diria mesmo, se tal não fosse um pouco cruel, que se levantou um “panteão noturno de indignação”. Esse era, como é evidente, o objetivo da “notícia”.

Só que (desta vez...) não havia qualquer “panteão”. Gabriela Canavilhas veio a terreiro desmentir a sua indigitação e João Soares, das suas férias cubanas, disse que “nunca ouvira falar de tal possibilidade” nem tal “lhe passara pela cabeça”. Claro! E o governo, horas depois, revelou o nome escolhido para o cargo - naturalmente, um nome do jornalismo.

Quando, finalmente, abri o “Público”, vi que conseguiu encher uma página (!) com esta patética inventona, num texto assinado por uma jornalista que tenho por séria e que terá agora o ensejo de revelar a mentirosa e intriguista “fonte” que lhe passou a “informação”, isto é, escrever em letra de forma o nome da pessoa que a vigarizou e a utilizou, com óbvios desígnios político-partidários. 

É que se David Dinis quer dignificar o nome do “Público” não pode dar ideia de que se deixa instrumentalizar, por “dá cá aquela palha”, só porque está por aí na moda dar pancada no governo. Não é que ele, governo, por vezes, não mereça ou se não ponha a jeito para tal, mas então que isso seja feito com base em verdades indesmentíveis.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O Alto de Espinho




Há dois dias, na Gomes, alguém me disse que tinha vindo do Porto pelo Alto de Espinho. Invejei-o.

O Alto de Espinho é o cume da estrada do Marão que une Amarante a Vila Real. Quando, um dia, o Dr. Ladislau, um bracarense que foi meu excelente professor de Geografia no liceu, me falou pela primeira vez no Khyber Pass, esse lugar mágico da montanhosa fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, consagrado na mitologia da História e na tragédia da política, foi do Alto de Espinho que eu logo me lembrei. O Alto de Espinho é Khyber Pass a que temos direito...

Se Trás-os-Montes fosse independente, os nossos guardas fronteiriços tinham casernas no Alto de Espinho. Antes da construção do IP 4, que facilitou a vida e ofereceu a morte a muitos automobilistas, o Alto de Espinho era “a sério”. Por ali passava uma estrada estreita, marcada por uma placa a-preto-e-branco que separava os distritos de Vila Real e do Porto. A partir dali, qualquer que fosse o destino, era "sempre" a descer, pelo que o Alto de Espinho oferecia, a todos nós, um a sensação de “alívio”.

Para quem, como os vila-realenses, vinha pela terrível e belíssima estrada saída de Amarante - passando por Padronelo (onde se ia pelo pão), Larim, Ansiães e Eido (cuja placa de trânsito teve um dia de ser reduzida para evitar acrescentos inconvenientes de uma letra...) -, a caminho da Pousada (das primeiras do país, hoje passada a patacos pelo grupo Pestana), depois de centenas de curvas, o Alto de Espinho deixava Vila Real “já ali”, a 18 km. 

“Já chegaram ao Alto de Espinho”, dizia-se dos ciclistas, nas etapas que acabavam em Vila Real, na informação colhida na rádio. É que, do Alto de Espinho à cidade, era “um saltinho”, ele era a soleira de Vila Real.

No Alto de Espinho eram recebidas as autoridades que vinham “lá de baixo”, de Lisboa, os presidentes, os ministros e gente assim. Quando o Sport Clube de Vila Real obtinha uma das suas raras “performances” futebolísticas, ia-se ao Alto de Espinho receber a “caravana”. E se a neve caía no Marão, lá iam as televisões filmar, sem imaginação, uns populares de gorro a atirarem bolas uns aos outros, entrevistando de caminho, nesse cenário, um garboso GNR de samarra oficial a recomendar prudência na condução, sempre com discurso de relatório-notícia.

Se a IP 4 já tinha tirado grande parte do “charme” ao Alto de Espinho, o túnel do Marão foi o golpe de misericórdia nessa fronteira natural de Trás-os-Montes, para cá da qual os que cá estão criaram a ilusão poética de mandar alguma coisa.

Amanhã, prometo!, vou passar pelo Alto de Espinho.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Nós e a Espanha

Ferreira Fernandes definiu no DN, com sábia simplicidade, a glória de ser português: “De cá é a moça que diz ao pai alentejano: ‘Vou casar’. E depois os dois falam, falam, do trabalho do noivo, se é bom rapaz... E a conversa acaba sem que venha à baila o rapaz ser transmontano”.

Da Gomes e da esquina da Gomes


Sabem o que é a Gomes? É provável que a maioria dos leitores deste espaço não saiba. Tal como acontece em quase todas as cidades, Vila Real tem um local de café de culto. No nosso caso, é a Pastelaria Gomes.

Porquê a Gomes? Porque sim. Historicamente, distinguiu-se sempre da antiga Pompeia, do meu desaparecido amigo Neves, por ser um pouco mais cosmopolita; da Rosas, do sr. Rosas, por ser mais intimista e dispensar as bizarrias do Toninho; do Excelsior, por ser mais elitista, por esconder os bilhares e não ter dominó; do Clube, por não ser habitual por lá ver comerciantes de gado de samarra e cajado; do Imperial, do sr. Lima, por ali não ser hábito ver o patrão a bater nos clientes; da Brasileira, logo em frente, porque, c'os diabos!, o Plácido já não estranhava ver a gente atravessar a rua.

A Gomes começou na vizinha “Gomes velha", nos anos 20 do século do mesmo número, onde me recordo de ver, à porta, o sr. Gomes e em que hoje ainda estaciona essa figura de bem que é o seu filho e meu amigo Tito Gomes. Por lá se vai pelo bolo-rei e pela bola de carne, pelas "cristas de galo", pelos “éclairs” ou, sazonalmente, no S. Brás, pelas "ganchas" e pelos "pitos" (que ideia foi essa de lhes mudarem o recheio?!) de Santa Luzia, embora a concorrência doceira do Lapão seja cada vez mais feroz.

Foi depois construído, nos anos 50, o novo edifício, que teve a imensa novidade de possuir um elevador... que, durante décadas, ninguém viu funcionar. Tinha, no alto, um mastro com uma misteriosa lâmpada que se mantinha acesa enquanto a casa estivesse aberta, pela noite dentro, sinal de que podiam ser servidos, se se apressassem, os "connaisseurs" que viessem do Porto, pela estrada velha, logo que chegados à "curva do espanto", em Arrabães, primeiro lugar de onde, no Marão, se vislumbravam as luzes da cidade.

Se a memória me não falha, a Gomes foi o primeiro café de Vila Real onde as mulheres podiam. com naturalidade, sentar-se sozinhas. Dizia-se, nesses anos, que receber um convite para tomar chá na Gomes ("em cima", sempre em cima) com a dona Irene Viana (mulher do dentista e meu professor de ginástica) era o passaporte para a entrada de uma senhora na sociedade local. E, glória das glórias!, embora poucos se lembrem disso, a parte “social” da Gomes foi talvez o único lugar público do género onde, que me lembre, nunca entrou uma infernal televisão.

Na Gomes, sempre houve zonas geográficas mais ou menos consagradas, que não revelo em detalhe para não identificar alguns dos seus regulares ocupantes. Entre eles, há os que afivelam sempre um ar "grave", tipo “polícia da Régua", que parece fazer parte da condição necessária para serem levados a sério. Outros falam alto, para serem ouvidos nas mesas ao lado, num dispensável, por ineficaz, esforço de proselitismo. Os mais discretos, mas, nem por isso, os menos atentos, ficam-se pela mesa mais misteriosa de todo o café, com dois lugares, que está perto da porta interior, o único poiso onde se consegue ter uma conversa "tête-à-tête", sem risco de penduras.

A disposição física do espaço torna a Gomes uma espécie de plateia de um antigo teatro francês, com o "coté cour" e o "coté jardin" a ser dado pelas entradas - seja pela antiga máquina do fiambre (sede clássica de pouso do meu desaparecido amigo Zé “Foquita” Araújo, de samarra pelos ombros), seja pelo antigo balcão dos "furinhos" dos chocolates, que foi lugar dos jornais com estaca de madeira e onde, durante muito tempo, esteve situado o telefone preto (“chamam ao telefone o senhor...”). Por muito tempo, essas duas entradas do proscénio (o Achilles explicaria o que isso é, mas quem não for doutro tempo de Vila Real sabe lá quem foi o Achilles!) induziam timidez nos visitantes ocasionais, atarantados pelo infalível escrutínio do pessoal sentado no “balcão” ou de costas para as “grades”.

No verão, tirado o vetusto "estrado", a saída para a avenida muda o cenário, que em tempos se prolongava pela esplanada que aí havia, mas com esta agora misteriosamente reduzida ao largo do Pelourinho. Obter por aí um café, em dias de enchente, é um privilégio que obriga a meter cunhas ao Afonso - a alma atenta e sempre simpática do serviço, um pilar da casa cuja dedicação e importância espero que seja bem entendida pela gerência.

Foi pela Gomes que comecei a parar, ainda nos meus tempos de liceu, com mesa marcada "em cima", ao canto esquerdo de quem entra, com o brandy L34 a acompanhar o café, erro que sinto, para sempre, na memória do meu fígado. Por aí passei muitas horas a discutir coisas fúteis da vida e, cada vez mais, da política.

Para as caves da Gomes fui cooptado, ritual de iniciação a que atribuí grande importância, para a visualização de alguns filmes heterodoxos, trazidos da estranja por ousados viajantes locais, sobre cujo conteúdo a moral deste espaço me não deixa elaborar. Foi na Gomes que, com alguns outros, fui, em 1969, interpelado pelo comandante da GNR, por comentários entendidos como "subversivos", que, sem consequências de maior, nos conduziram por algum tempo ao Governo civil.

A Pastelaria Gomes, honra lhe seja!, foi sempre um espaço plural, nunca foi de grandes políticas sectárias, por lá pararam, serenamente, todas as tendências, da “Situação” ou da “Oposição” - e eu estive, ao longo dos tempos, em ambas, e não necessariamente por esta ordem.

Em várias décadas, nunca deixei de "ir à Gomes", nas minhas estadas aperiódicas por Vila Real. Por lá passo, com gosto, em férias, sempre que posso, para rever amigos e conhecidos. E, claro, para comer um covilhete ou uma fatia de bola de carne.

A Gomes dos dias de hoje está diferente da dos velhos tempos. Às vezes, vejo-a um pouco desleixada. O pessoal, embora sempre simpático e educado, tem em alguns casos um estilo profissional “pela rama”, de recrutamento aparentemente errático e excessivamente rotativo. Talvez o defeito seja meu, que venho dos tempos clássicos do João, do "Sapo", do Gonçalo, do Fernando ou do José.

A Gomes é já uma instituição e as instituições têm rituais sem os quais a sua identidade de esvai. Não se lhe pedem grandes mudanças (até se agradece que as não façam), requer-se apenas constância e perseverança na atitude profissional de uma casa que, tendo hoje uma nova frequência e diferente clientela, tem obrigação de conservar as caraterísticas que a qualificaram como a sala de visitas da cidade. Atenção a isto, ó gente da Gomes!

Ontem, dia de Natal, não foi “dia de Gomes”. Mas há um lugar que nunca "fecha" e à volta do qual é a própria cidade que gira. Esse lugar é a esquina da Gomes, um marco geográfico, charneira entre a avenida Carvalho Araújo e o largo do Pelourinho. É que uma coisa é a Gomes, outra coisa é a esquina da Gomes, consagrada como tal por uma placa da confraria dos “Pyjamantes”, um prestigiada tertúlia vila-realense.

Por essa esquina nos encostávamos, na adolescência, para ver sair o "pequename" da missa da Sé, logo em frente. Nos invernos, essa é a sede de ventanias sem par, onde confluem grupos que atiram uns aos outros um indizível "Méixiôres!" (que no vila-realez apressado se transcreve como a saudação "Meus senhores!", enviada de um grupo de passeantes a outro), o que, nesta época natalícia, é logo seguido do clássico "Continuação!", expressão que utilizada até aos Reis.

Por ali se passeiam, nos dias 25 de dezembro e seguintes, com sol ou sem ele, as camisolas-de-losangos e os cachecóis que "saíram" nas prendas de véspera, vestindo amigos e conhecidos, mais ou menos "graves", que, do percurso do liceu ao "cabo-da-vila" (desistam aqui os não-vilarealenses), calcorreiam, devagar, uma memória sedimentada desde a infância ou aprendida por adesão voluntária ao espírito do Marão.

A Gomes e a sua esquina continuam, contra ventos e marés, a ser o lugar geométrico afetivo de Vila Real. Alguns dirão: a Gomes já não é o que era! Eu digo: deixem estar a Gomes como está, conservem-na com carinho e prestarão um inestimável serviço à identidade de Vila Real. Mai’nada!


(Em tempo: este texto recupera partes de um post publicado em 2012)