terça-feira, 27 de setembro de 2016

País abafado

Liga-se os canais da dita informação ou os noticiários generalistas e é só futebol, mais futebol e futebol! São horas de treinadores, de imagens de estádios, de camionetas a caminho dos ditos. Depois serão balanços, especialistas, o público cachecolado, jogadores a repetir como sua a linguagem da Bola, do Record ou do Jogo. Ah! E, pelo meio, há os jogos, claro, pretexto para tudo. 

Em que raio de país nos transformámos?! Saberão os portugueses que não há nenhum país no mundo onde as coisas se passem desta forma?! NENHUM!

Europa a dois tons


Estive ontem, sucessivamente, em dois exercícios "europeus".

O primeiro, de âmbito "luso-português". Coube-me coordenar um debate, à porta fechada (e sob a "Chatham House rule", isto é, podendo revelar-se o que se tratou, mas não podendo atribuir-se nominalmente as ideias expressas), com quinze especialistas nacionais, oriundos de diversas áreas. Tratava-se de preparar um documento com perspetivas portuguesas sobre o futuro da Europa, para integrarem um exercício intitulado "New Pact for Europe", organizado por várias fundações europeias.

Não obstante a heterogeneidade dos intervenientes, foi muito interessante constatar uma larga convergência de perspetivas, quer no diagonóstico da situação que atravessamos, quer nalgumas das principais perspetivas para o futuro. Não vou aqui elaborar sobre isto, a montante da síntese que outros têm a seu cargo, mas devo dizer que fiquei impressionado pela maturidade e pragmatismo do que foi dito. Sente-se a existência de um pensamento português sobre a Europa, já muito longe da agenda "paroquial" que fez escola por muito tempo.

O segundo exercício foi bastante diferente. Tratava-se de uma intervenção, num "mano-a-mano" com José Manuel Félix-Ribeiro, sobre geopolítica global, no meu caso competindo-me falar sobre a evolução do quadro dos "global players" nas últimas décadas. A audiência eram estudantes estrangeiros, na grande maioria europeus, pelo que a "questão europeia" acabou por ser o centro do debate, por quase uma hora. Foi curioso perceber as suas diferentes prioridades e preocupações, mas todos com uma agenda muito pertinente. 

A Europa mudou muito, desde os tempos em que me ocupava todos os dias. Faz-me bem "revisitá-la" nestas tarefas pontuais. Porque, qualquer que venha a ser o seu futuro, ele será sempre o nosso.

O debate


Trump perdeu? Não sei. Aos olhos dos seus potenciais votantes aquele estilo é adequado, a vacuidade do seu discurso não é punível. Clinton ganhou? Claro que teve uma melhor "performance", numa perspetiva racional e objetiva. Mas, este ano, nas eleições americanas, a racionalidade não parece ir ser o fator decisivo. Saí preocupado do debate.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Guterres

António Guterres teve um excelente resultado na votação de hoje nas NU.

O facto dos seus imediatos "perseguidores" não se terem aproximado pode ter inviabilizado o surgimento de Kristalina Georgieva, como candidata de desempate - com a "vantagem" de ser mulher e de Leste.

Este modelo de escolha do novo SG acabou por favorecer a emergência da "qualidade", em detrimento de outros critérios. Isto parece tornar muito difícil, com risco de se tornar num escândalo, uma reversão drástica da tendência sustentada que favorece o candidato português.

Mas nunca confiar...

Embaraços socialistas


Duas semanas fora do país, olhando-o apenas através do iPad, têm a desvantagem de reduzir o quotidiano político às caricaturas dos "faits" mais ou menos "divers".

Saí de Portugal com o livro de revelações de Fernando Lima como o "escândalo" editorial, cheguei com ele esquecido e com o volume de José António Saraiva convertido no tema de debate. Este país adora revelações, é a pátria do coscuvilho.

Para o que verdadeiramente importa, isto é, para além da espuma dos dias e do diz-que-disse, este período trouxe duas novidades. Na minha opinião, ambas embaraçantes para o Partido Socialista e incómodas para António Costa. 

A primeira tem a ver com as questões fiscais. O que Mariana Mortágua disse, em termos de substância, não deveria ser notícia, não teve o menor radicalismo, contrariamente àquilo que a desonestidade intelectual de alguma oposição quis fazer crer. O relevante nesta história foi não ser Mário Centeno a dizê-lo. 

Seja verdade ou não, o PS projeta a imagem de estar, em certas temáticas, a reboque do Bloco. Mais do que se saber se isso é ou não verdade, preocupa-me que o PS não perceba que isso afeta fortemente a sua reputação internacional - e, com isso, a sua credibilidade europeia, com reflexos em termos negociais. 

Ainda neste plano, o que está a passar-se com a instabilidade fiscal em que o país continua a viver é também inquietante. Eu sei que os constrangimentos europeus transformam a variável fiscal num instrumento apetecível. Mas o governo tem, de uma vez por todas, de decidir sobre se quer dar de Portugal a imagem de um país "investment friendly" ou de um catavento fiscal. É que o nosso futuro passa por aqui.

A segunda novidade embaraçante chama-se José Sócrates.

É uma evidência que uma parte do PS nunca aceitou bem a linha imposta por António Costa, no sentido de "separação de águas", no tocante ao "caso Sócrates". Há quem seja mais sensível ao lamentável comportamento da justiça que ao país saiu em rifa e, acreditando ou não na inocência de Sócrates, considere que o PS deveria não se excluir da condenação do espetáculo vergonhoso que é o indefinido protelamento de uma decisão sobre o assunto, manchado por cirúrgicas quebras deliberadas do segredo de justiça, em conluio com uma comunicação social sem qualquer ética.

E há quem, como julgo deva ser o caso de António Costa - e qualquer que possa ser a sua íntima convicção sobre a eventual culpabilidade de Sócrates -, entenda que não teria sentido amarrar o destino do PS a este caso, poluindo indevidamente a vida política com um caso de justiça, que projetaria uma imagem de ingerência num múnus institucional específico. Eu estou de acordo com esta perspetiva.

Dito isto, percebe-se a estratégia de José Sócrates. É uma aposta na mobilização de uma parte do país - que, contudo, creio menor do que ele julga que é - que conserva uma imagem positiva da sua governação, e que está profundamente escandalizada pelo comportamento dos agentes da justiça. Ao fazê-la, para reforço da sua posição, Sócrates, optou também por atacar diretamente a direção do partido, por alegada falta de solidariedade. José Sócrates sabe bem que, entrando por aí, está a fazer correr um risco grave aos socialistas. E, porque o faz na prossecução de uma agenda que é eminentemente pessoal (embora ele entenda que é muito mais do que isso), deve estar preparado para que a direção socialista venha a reagir, a seu tempo, à altura do desafio. E mais não digo.

São estes os mais recentes embaraços para o PS e para António Costa.

domingo, 25 de setembro de 2016

Saraiva


José António Saraiva contou em livro algumas conversas com políticos. Hoje, apetece-me contar uma conversa minha com Saraiva.

Um dia de 2002, o "Expresso" trouxe, na primeira página, uma versão falsa sobre uma questão que me dizia pessoalmente respeito. Com ela se pretendia "branquear" uma patifaria política que tinham acabado de me fazer na minha vida profissional.

Telefonei a José António Saraiva e dei-lhe conta, com pormenores, da verdade incontroversa dos factos. Saraiva disse-me ter sido o principal responsável pela notícia e, em especial, pelo seu título enganador. Pareceu-me ter percebido que havia sido enganado por quem o tinha informado: "Foi uma muito alta fonte do governo que me passou a informação dessa forma". Eu presumia. Na semana seguinte, o "Expresso" viria a corrigir o tiro.  

Os governantes, às vezes, também mentiam a José António Saraiva. Contrariamente a ele, eu não guardo apontamentos de conversas, mas tenho boa memória.

João Cravinho


O meu querido amigo João Cravinho fez 80 anos, segundo consta. Um imenso grupo dos muitos amigos e admiradores que tem oferece-lhe hoje um almoço.

Deixo o texto que escrevi para o livro que hoje é editado em sua homenagem:


Um rapaz do meu tempo

Esta ideia de que o João Cravinho é 12 anos mais velho do que eu é apenas uma insuportável sujeição ao calendário, sem a menor aderência a realidade objetiva das coisas. Sempre vi o João como « um rapaz do meu tempo », mesmo que a expressão seja já de outro tempo. Por isso, os seus ditos 80 anos impressionam-me muito pouco.

Lembro-me – ele não se lembra, claro – de me ter cruzado com o João nos idos de 74, naqueles corredores, entre fardas e guedelhas, onde se construía uma confusa esperança, com alegria, ingenuidade e, vá lá !, confessemos, alguma irresponsabilidade. Ele era ou viria a ser « quase ministro », eu andava por ali a exercitar a política que tinha lido, absolvido nos erros pela boa intenção de ajudar a desenhar uma alternativa feliz à ditadura. Um dia, a vida levou-me para fora e, por muito tempo, perdi o João de vista, de quem ia ouvindo falar – sempre bem, com respeito e admiração. Só mais tarde, a « mesa dois » do bar Procópio, sob o humor ímpar do Nuno Brederode, nos voltaria a juntar, em largas e divertidas charlas. Finalmente, numa tarde quente de outubro de 1995, assobiando o Vangelis, entrámos ambos para essa aventura simpática que foi o governo de António Guterres. Já amigos, passámos a conhecer-nos melhor, com ele a tratar-me por um eterno « meu caro Francisco ».

Foi então que « aprendi » o João Cravinho. Podem crer que foi « um espetáculo » poder observar um ministro criativo, ousado, muitas vezes polémico, sempre teimoso, coerente, sólido como uma rocha, olhando dossiês técnicos com a vivacidade de um adolescente brilhante, mostrando-nos a modernidade de um olhar singular sobre a política. Posso confessar um segredo ? Foi ao ter o privilégio de assistir a algumas « performances » do João em Conselho de ministros que eu verdadeiramente entendi o que podia significar, em certas áreas especializadas, uma política « de esquerda » – sem chavões ideológicos, mas com um pragmatismo de onde nunca estava distante a solidariedade e a discriminação positiva para quem dela necessitava.

O que sempre me impressionou no João Cravinho foi a sua abertura ao contraditório, atitude de onde me pareceu, aliás, que retirava imenso gozo, porque isso lhe permitia exercitar a dialética, onde a firmeza dos seus argumentos melhor brilhava. Vi-o em confrontos complexos, em que aquele seu eterno sorriso, às vezes gargalhante, irritava, não raras vezes, o interlocutor. Mas pude apreciar e beneficiar da sua abertura a ideias diferentes, que sempre explorava com benevolência e simpatia. É talvez por isso que nunca o vi com uma « idade » diferente da minha.

Uma tarde, fui confrontado com um João Cravinho inesperado, de cuja cara desaparecera o sorriso para dar espaço quase às lágrimas. Foi numa evocação do embaixador Ruy Teixeira Guerra, nas Necessidades. O João não tinha esquecido, e lembrava isso com emoção, a mão amiga que lhe tinha sido por ele estendida, creio que num momento difícil de vida. Marcou-me muito esse momento e « esse » João Cravinho.

O João faz 80 anos ? Pois isso ! Ele que espere agora pelos meus 80, para comemorarmos a idade comum da esperança, que será sempre a daqueles que acreditam que a vida coletiva pode ser vivida de outro modo, mais solidário e mais justo.

sábado, 24 de setembro de 2016

O rolo



Aquela imagem ficou-me na cabeça. Dois carros parados, na estrada entre a Barra do Quanza e Cabo Ledo, a Sul de Luanda, pedindo, aos poucos que paravam, um cabo emprestado para rebocar um deles. Nenhum de nós tinha um cabo. A noite caía e eu imaginava o que poderia significar deixar por ali um dos carros até ao dia seguinte. E pensei: e se um dia me acontece o mesmo? Como é que vou levar o meu carro para Luanda? Tenho de arranjar um cabo!

Contudo, isso era mais fácil de imaginar do que realizar. Nessa Angola dos anos 80, as lojas estavam desertas, quase tudo tinha de ser importado pessoalmente. O pouco que aparecia à venda surgia de uma forma errática, às vezes só por horas, sob uma lógica de oferta comercial impenetrável: buchas plásticas para parafusos, blocos de papel almaço, porcas metálicas de um único modelo e coisas assim, sem o menor critério. Eram quase sempre coisas baratas, mas que fazer com elas?

Com a ideia do cabo "rebocador" na cabeça há várias semanas, dei-me um dia conta de que uma montra pela qual passava numa rua de Luanda, habitualmente vazia, mostrava algo que me parecia ser corda. Travei o carro e, perante a incredulidade da minha mulher, disse: "Parece-me que há ali corda à venda". Devo ter dito "parece que está a sair corda", porque essa era a expressão consagrada pelos tempos.

Entrei na loja, olhei para os três imensos rolos de corda que estavam por ali e exultei quando o empregado me disse que, de facto, estavam "a vender corda". Disse que queria uns 7 ou 8 metros, que avaliei suficientes para poder improvisar dali um cabo rebocador. "Não podemos, camarada!" ("Camarada" era o tratamento ritual de regra). Mau! Então a corda estava à venda e não podiam vender? O mistério esclareceu-se logo: só podiam vender o rolo inteiro.

Mas para que é que queria um rolo imenso de corda, com dezenas de metros, um peso brutal e grande dimensão? O preço era uma ridicularia. Perguntei se podia ficar só com dez metros, pagando a totalidade e deixando o resto para a loja. Os olhos do empregado sorriram de antecipada felicidade, logo interrompida pela constatação: "Loja não tem faca, camarada!".

Recordo o olhar espantado da minha mulher quando comecei a rebater o banco de trás do Golf e viu aproximarem-se quatro empregados, carregando um rolo imenso de corda. Um espanto só equivalente ao "sucesso" que fez a entrada do mesmo rolo na embaixada, para o que foi necessário mobilizar a boa vontade de alguns funcionários, impressionados pelos "bons contactos" que seguramente tinham facilitado aquela aquisição.

Cortei a corda necessária para o meu cabo e coloquei o resto do imenso rolo num anexo ao meu gabinete. A notícia da insólita compra correu a embaixada e tive de fazer "visitas guiadas" ao objeto. Todos invejavam a minha compra mas, quando perguntados se queriam alguns metros de corda, ninguém avançava, talvez porque não fosse evidente a sua utilidade. Mas se precisassem...

Um dia, quase um ano depois, fui transferido para Lisboa. Na relativa confusão da partida, esqueci-me da existência do rolo de corda, o qual, de qualquer forma, sempre ficaria para trás. Passaram, entretanto, uns meses. Uma tarde, em Bruxelas, regressado de uma reunião desses primeiros tempos das instituições europeias, tinha um recado de Lisboa: era um colega que me informava que telefonara de Luanda o "senhor António", com um assunto urgente. O "senhor António"? Seria um dos contínuos da embaixada? O que quereria?

Chegado a Lisboa, no dia seguinte, falei para Luanda, para a embaixada e pedi para falar com o senhor António. Ouvia-se muito mal. Tinha sido de ele, de facto. Algum problema? Era o rolo de corda!

O rolo de corda?! O que é que havia com o rolo de corda? Havia uma "grande confusão" com o rolo, que eu tinha lá deixado. "O senhor doutor lembra-se que, no dia da sua partida para Lisboa, lhe pedi o rolo e me disse que podia ficar com ele?" Não me lembrava, mas imagino bem que o pudesse ter feito. Mas qual era o problema? "É que o Toni diz que o rolo é de todos e quer tirar uns metros!" O Toni era um motorista. "Anda aqui uma grande maka por causa do rolo!"

Decidi seguir a regra africana da prioridade ao "mais velho" e confirmar (?) ao António, prestes a reformar-se, a minha "doação". E pedir que dissesse ao Toni, da minha parte, que o rolo "tinha dono". O António ficou contentíssimo. Foi a última vez que o ouvi. Para que lhe teria servido o rolo de corda? Provavelmente para nada, mas, naqueles tempos, era preciso aproveitar tudo o que estivesse "a sair".

(O Manuel Serra pediu-me ontem para lembrar esta historieta, que um dia lhe contáramos.  Ela aqui fica.)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A outra América


« Um espetro ameaça a Europa » : a possível vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas. Karl Marx usou a expressão para qualificar o medo que o comunismo estava  provocar no mundo burguês. Agora, responsáveis e analistas de setores europeus com diferente lateralização ideológica convergem no seu pânico perante a possibilidade de Trump vir a ocupar a Casa Branca. Haverá razões para tal ? Tentemos simplificar a resposta.

Em matéria de política interna, graças ao sistema de « checks and balances » que a constituição americana impõe, através da força da Câmara de Representantes e do Senado, o ocupante da Casa Branca pode ficar de mãos atadas, com grande facilidade, quando pretender executar a sua agenda política. Clinton e Obama sentiram-no na pele. Um eventual presidente Trump deverá, ainda com maior probabilidade, vir a enfrentar o mesmo problema, atento o radicalismo de algumas das suas propostas.

Porém, quem ocupa a presidência americana tem um imenso poder sobre o mundo. Goste-se ou não, os EUA determinam grande parte dos equilíbrios globais. Essa relevância reforça-se nos momentos de maior tensão, como é aquele que atravessamos. Ora o presidente americano, como « chief-in-commander » das Forças Armadas e indisputado gestor da política externa do país, tem escassas peias internas na liberdade da sua ação internacional. Por essa razão, não é indiferente, para todos os não-americanos, quem vier a ser escolhido para o lugar. E, desde logo, para os europeus.

Por muitos anos, o sistema americano produziu figuras que chegaram a Washington com o beneplácito das elites nacionais, republicanas ou democratas. Hillary Clinton, se vier a ser eleita, é uma expressão clara dessa elite. Trump não o será.

Muito de nós, ao longo dos anos, falávamos da « América profunda », desse mundo voltado para si mesmo, que caricaturávamos como ignorante, preconceituoso e cultor de um nacionalismo saloio. Vimos nascer Sarah Palin e o « Tea Party”, mas vivíamos confortados na ideia de que “essa América” nunca condicionaria, de modo decisivo, a atitude do país. No fundo, todos confiávamos que, fosse quem fosse que a América viesse a escolher, seria sempre alguém que emergeria da elite que sempre dominou Washington.

Enganámo-nos. Um dia, isto é, agora, essa América fora do “mainstream”, no seio da área conservadora, produziu um candidato a que a tal elite foi incapaz de opor uma alternativa. Alguém com um discurso errático, um “gaffeur”, com uma agenda internacional que vai do “muro” mexicano à sedução por Putin, passando pela ameaça da saída da NATO e outras bizarrias. Uma certa América cansou-se dos partidos do “mainstream” e está a impulsionar figuras fora da matriz tradicional. Não foi Sanders do lado democrata, é Trump nos republicanos.

Por isso, temos de ser realistas: os pesadelos, às vezes, também se concretizam.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Tecnologia

Há pequenas coisas que qualificam um país, que nos levam a apreciar a sua tecnologia e, através dela, a interiorizar um respeito profundo pela sua cultura industrial. Casos simples podem fazer muito por uma imagem nacional. Aqui vai um exemplo: as balanças caseiras para pesar pessoas.

Por uma coincidência de viagens muito rara, tenho andado a mudar de hotel com frequência nas últimas semanas. Nas casas de banho dos quartos dessa quase dezena de hotéis encontrei sempre dessas balanças, de marcas diferentes e, naturalmente, vou testando o meu peso. Até hoje, todas praticamente coincidem entre si, apresentando números que são um chocante (e até insultuoso) exagero. É incrível como é possível que marcas de balanças oriundas de vários países revelem estes erros de fabrico, sem que haja sido exposta, por uma aferição de qualidade, esta verdadeira fraude comercial, que, como se vê, tem uma dimensão global!

Por que razão trago o assunto aqui e agora? 

Por uma razão simples: porque acabo de me pesar numa balança sul-africana e, finalmente, tive o ensejo de experimentar um produto de indiscutível qualidade, fiel ao rigor, com a tecnologia certa. As outras balanças, ridiculamente, apresentavam quase dois quilos a mais, imaginem! 

Nunca mais quero balanças que não sejam produzidas na África do Sul!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Praxes

O ministro Manuel Heitor teve a coragem de pôr o dedo na ferida: não há más praxes nem boas praxes. A praxe é uma prática discriminatória, reveladora de uma espécie de desforço por parte de quem se quer vingar daquilo que terá sofrido no passado, instituindo uma ridícula hierarquia entre os alunos, tudo disfarçado numa falsa medida de integração. Os praxistas são, em geral, uns sadicozinhos que se aproveitam circunstancialmente de uma suposta "autoridade" etária ou similar para humilharem os outros. Há alunos que gostam de ser praxados? Claro que sim, como há quem deseje masoquistamente ser açoitado ou humilhado, o que, as mais das vezes, justificaria uma oportuna consulta psiquiátrica.

Um dia, quando era presidente do Conselho Geral da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, suscitei nesse âmbito a questão das praxes. Apenas um professor levantou a sua voz para apoiar o meu repúdio sobre aquela prática. Vou ser muito claro: as praxes persistem, não porque sejam inevitáveis (hoje, só existem em Portugal e Espanha, estando proibidas no mundo civilizado, de que assim nos auto-excluímos), mas porque há uma muito generalizada cobardia por parte das autoridades universitárias, extensiva a muitos professores, que não querem passar pelo incómodo de "comprar uma guerra" com os estudantes. Bastaria ter o bom senso de incluir nos regulamentos universitários a proibição absoluta da praxe, assumida como gratuita violência, disruptora e punível da disciplina académica, afastando liminarmente das universidades os estudantes comprovadamente envolvidos na sua organização (começando por interditar a sua prática dentro das instalações) e, em poucos anos, podem crer, as praxes desapareceriam. É que os energúmenos que se dedicam a esses vícios de autoritarismo cedo acabariam por verificar que seus títulos de "dux veteranorum", e outras designações ridículas de corruptelas latinas, lhes serviriam de muito pouco quando tentassem arranjar trabalho sem qualquer diploma.

Manuel Heitor, ministro da Ciência e do Ensino Superior, pessoa que praticamente não conheço, é alguém que honra o exercício da política neste país.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A torneira


Aquele pequeno apartamento no edifício da nossa embaixada em Angola, na rua Karl Marx (antes fora Vasco da Gama, agora é avenida de Portugal), nunca tinha sido ocupado por ninguém, desde que, depois da independência, fora adquirido à pressa, para instalar os escritórios e alojar alguns funcionários e as suas famílias. 

Contra a minha vontade, depois de esgotadas outras soluções e de quatro incómodos meses de hotel, fui obrigado a ir viver para ali. Poupo os pormenores sobre o épico que foi montar uma casa nesse atribulado período da vida angolana. Imensas coisas por ali não funcionavam, outras resistiam a fazê-lo. 

A mais misteriosa peça da casa era, contudo, uma luzidia torneira da cozinha, de onde, por muitos esforços que se fizessem, não se conseguia extrair uma única gota de água. Os especialistas rareavam em Luanda, mas lá se conseguiu desencantar um canalizador que, depois de aturada reflexão, decretou que era preciso "arrebentar" com a parede, para tentar perceber o enigma. Eu olhava já com carinho os banais azulejos que revestiam a cozinha, cuja possibilidade de substituição não era evidente, num tempo extremo de penúria de materiais. Mas acabei por dar luz verde à operação.

Foi então que o canalizador, ao tentar retirar a torneira para desobstrução do cano, se deu conta de uma trágica realidade: a torneira estava cimentada - isso mesmo, cimentada! - à parede. E, surpresa das surpresas, por detrás dela ... não havia qualquer cano! Assim se percebia melhor por que razão não havia por ali qualquer vestígio de água. O desonesto "pato bravo" lusitano que concluíra as obras, antes de se pisgar para o "puto", atamancara os trabalhos e quem viesse atrás que fechasse a porta... 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os "Guedais"


Era assim que, carinhosamente, em família, nos quatro anos que vivi em Luanda, nos anos 80 donséculo passado, tratávamos os três primos lisboetas que, creio que de três em três meses, aí se revezavam, para assegurar a gestão local da Guedal, uma empresa de representação de comércio automóvel. Ele eram o Sérgio Guedes de Sousa, o José António Arantes Pedroso e o Vasco Correa Mendes. Os dois primeiros já desapareceram. O seu pouso angolano era um amplo apartamento, com um grande terraço, na rua da Missão, muito próximo dos dois locais onde vivi na capital angolana: o Hotel Trópico e um apartamento que vim a ocupar no "compound" da embaixada.

Só quem conheceu a dureza da vida em Luanda, nesse tempo de conflito militar e desoladora penúria de comércio e serviços, poderá avaliar o que foi a "bênção" de poder dispor da imensa generosidade desses três amigos, que, com frequência, nos chamavam para sua casa, para divertidas jantaradas e, nos fins de semana, organizavam caravanas a Cabo Ledo. 

Cada um desses três primos desenhava, curiosamente, um estilo diferente de vida social, durante as suas estadas. Se havia gente sempre comum (e nós, afortunadamente, pertencíamos a esse "núcleo duro", com várias outras pessoas, de que a mais animada era sempre a Ana Poppe), muitos outros convidados variavam nesses ciclos, o que coloria e diversificava os vários eventos. Comum era também a presença risonha do Manuel Guterres, um minhoto de Seixas, funcionário da Guedal, um operacional indispensável dessas ocasiões. 

Naquela casa havia um pouco de tudo, desde a zona da sala, cheia de sofás, onde passavam filmes, clássicos ou novidades, que cada um ia trazendo, fruto de encomendas ou visitas à Europa, até ao terraço sobre a baía, com mesas recheadas de vitualhas, que surgiam sabe-se lá de onde, que nos alimentavam conversas intermináveis ou relatos de episódios desse estranho mundo angolano de então. Ah! e música, com bailes improvisados que duravam até à meia-noite (a "Cinderela time" do recolher obrigatório) ou, passada esta, nos "forçava" a ficar por ali, a charlar e bebericar, pelo menos até às cinco da manhã.

Nesta minha visita a Luanda, passei em frente àquele prédio e senti uma imensa gratidão pelo gesto daqueles que, por simples amizade e simpatia, muito nos ajudaram a atravessar, com ímpar generosidade, esses tempos que só a passagem dos anos suavizou, decantando para a nossa memória afetiva apenas essas coisas boas que a sorte quis que nos acontecessem.

domingo, 18 de setembro de 2016

Ajuda


O meu colega e amigo Luís Castro Mendes, ministro da Cultura, que transitou entre dois palácios que são a verdadeira cara do país que temos - das Necessidades para a Ajuda -, lançou mãos à obra do "fechamento" do Palácio desta última. Que todos os anjos e querubins o protejam na consecução da empresa. Se a "geringonça" tiver conseguido tornar irreversível o completamento daquela "santa ingrácia", eu voluntario-me para ir ao primeiro comício da história dos Verdes...

O "Expresso" publicou ontem a "solução" arquitetónica encontrada. Devo dizer, com franqueza, que me é quase indiferente, desde que se acabe, de uma vez por todas, com a vergonha daquilo que lá está. A imagem é, creio, elucidativa.

É claro que, agora, vão aparecer os "espertos", os que queriam um "fechamento" mais clássico, os que iam para o vidro e outros materiais, os que acham que a maquete parece a sede da Caixa Geral de Depósitos, etc. Vai ser um fartote de debate. Até eu, se calhar, vou meter a minha colherada, achando que o que ficava bem era atirar abaixo aqueles proto-arcos e proto-janelas, abrindo por completo o pátio a poente - solução barata e rápida, mas que imagino que deve arrepiar os puristas, os quais, no entanto, viveram toda a sua vida serenos com aquela vergonha!

Não ligues, Luís! Faz o que quiseres, mas acaba de vez com aquilo que lá está!


Darocha

Um dia, quando era embaixador em França, fui a Arras para uma exposição que envolvia artistas portugueses. Um deles, pintor, um pouco mais velho do que eu, perguntou-me: "O nome de Alberto Couto diz-lhe alguma coisa?" Claro que dizia! Era um grande amigo do meu pai, como ele oriundo de Viana do Castelo, cuja morte prematura muito o entristecera. "Pois eu sou filho do Alberto Couto!", disse-me o pintor. 

Chamava-se José Luís Páris Couto da Rocha, mas, ao longo da sua carreira como pintor, utilizou vários nomes, do qual o mais conhecido será Luiz Darocha, que muito o identificava em França, onde já vivia há mais de meio século.

Semanas mais tarde, convidei-o, com a mulher, para almoçar na embaixada. Foi a última vez que nos vimos. Curiosamente, trocámos emails, há precisamente um ano, com fotografias dos nossos pais. Num deles, ele escrevia isto, já com a língua francesa a marcar o seu português: "Não tenho ideia de quando volto a Portugal. Nesse caso talvez houvesse um momento para trocarmos boas palavras. Se vier a Paris também poderíamos nos ver." Nem ele voltou, nem eu tive ocasião de o voltar a ver, das vezes que, entretanto, estive em Paris. Morreu há uma semana.

Aqui deixo a sua fotografia e a reprodução de um quadro seu que está em Serralves.



Guias turísticos

Se há coisa em que não me importo de gastar algum dinheiro é na compra de um guia sobre uma cidade que visite pela primeira vez. Tenho sempre o sentimento de que por ali está um repositório dos locais de interesse a ver, uma ajuda para que não percamos tempo e locais importantes. Temo sempre que a "poupança" em não adquirir o guia me faça correr o risco de perder algo essencial. E, muitas vezes, a probabilidade de voltar a certos países é muito reduzida, como é o caso da Ucrânia, onde me encontro agora.

Não há nada de mais "ideológico" de que um guia turístico. A impressão que ele nos transmite sobre os países que visitamos é essencial para formatar a nossa opinião sobre ele. Para o bem e para o mal.

Quando vivi em Londres, decidi adquirir todos os vários guias publicados sobre Portugal e verifiquei que, por erro, omissão ou preconceito deliberado, algumas narrativas sobre o nosso país eram incorretas, marcadas por uma visão paternalista e, frequentemente, com dados factuais errados. Foi a correção destes últimos que utilizei como pretexto para escrever a cada uma das editoras, propondo-lhes uma colaboração da embaixada para revisão das suas próximas edições. Creio que todas aceitaram e, naturalmente, aproveitei para lhes propor, além dos dados de facto, textos alternativos sobre diversos capítulos. Algumas foram sensíveis à "revisão" dessa parte mais substantiva, outras perceberam a nossa intenção e reservaram a sua liberdade de opinião. Em particular, era a História e a vida social, tal como a arte e literatura, que mais nos interessava "corrigir". Alguma coisa se avançou.

Os guias sobre um país são, muitas vezes, escritos por quem dele tem uma visão distante, uma informação acumulada de várias fontes. Nas sucessivas edições não há, em geral, o cuidado de proceder a atualizaçōes e, na maioria dos casos, fica a sensação de que o responsável pelo texto se baseia em "informadores" locais, que impõem as suas escolhas. (Há um bom teste para a qualidade de um guia: ler nele algo que conheçamos bem). E quanto menos conhecido é o país, mais as versões deturpadas sobre a sua realidade podem perdurar. É mesmo famoso o caso de um guia escrito sobre um pequeno país latino-americano que terá sido elaborado por alguém que nunca o visitou. Com a internet, tudo hoje é possível.

Porém, o guia que comprei aqui em Kiev não era desses. É uma belíssima edição nacional, bastante barata, muito bem escrita, num excelente inglês. 

Ao comprá-lo, logo após a chegada, lembrei-me de um guia sobre Ialta que adquiri quando fui à Crimeia em 1980. Chamava-se "Greater Ialta", era razoavelmente ilustrado para a época e tinha a curiosidade de nos chamar a atenção para zonas da periferia da cidade... onde era proibido deslocarmo-nos! Os textos eram num estilo gongórico-soviético, que descreviam o mundo local de então como "o sol da terra", para usar uma expressão consagrada.

Voltando ao guia de Kiev que agora adquiri, é muito interessante analisar nele o modo como é feita referência ao período comunista, as ironias sobre as motivaçōes ideológicas de certos estilos arquitetónicos, sobre valores culturais que entretanto foram abandonados e rejeitados e, muito em especial nos textos históricos, o esforçado sublinhar, em detrimento até de algum rigor, das pulsões independentistas ucranianas. 

Os guias turísticos, repito, podem ser muito ideológicos, mesmo que, à partida, aparentem não o serem.

sábado, 17 de setembro de 2016

Coscuvilhices


Alguém a quem determinadas informações foram prestadas, numa conversa discreta, terá o direito, mesmo que muitos anos depois, de vir a público revelá-las, sabendo claramente que, com isso, quebrou a confiança que foi posta em si? E, em especial, se a revelação dessas conversas vier a afetar a imagem de pessoas, vivas ou já desaparecidas, será eticamente aceitável publicar - nas redes sociais, na imprensa ou em livro - tais dados? A resposta parece evidente para toda a gente, mas, aparentemente, para alguns, não o é.

Todos nós, uns mais do que outros, somos depositários de alguns segredos que nos confiaram, ou de episódios delicados que testemunhámos, em contexto profissional, com a segurança ética de que nunca os tornaríamos públicos, em moldes que possam prejudicar alguém. Na vida política e diplomática, como é natural, muitas coisas se sabem, desde questões correntes a algumas histórias de alcova. A regra a seguir é muito simples: para além do "bom gosto" nos temas a abordar, daquilo a que assistimos ou nos foi dito em confidência, só pode ser divulgado o que não afete o interesse do Estado ou, ainda que minimamente, a imagem das pessoas envolvidas ou mencionadas. Nem mais, nem menos.

Não conheço ainda um livro que se anuncia trazer umas dessas historietas de "diz-que-diz-se". A confirmar-se que insere algumas revelações que já foram indiciadas, esse "tablóide encadernado" deverá ser exposto ao opróbrio público. Se não foi possível evitá-lo, ao menos que sirva de mau exemplo. Mas, quando não há vergonha, não há remédio.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Dominique Strauss-Kahn

Tenho à minha frente, num painel de debate sobre o futuro do euro, Dominique Strauss-Kahn. É muito interessante observar o seu esforçado regresso à normalidade pública, agora como consultor económico internacional. Depois do imenso escândalo que o envolveu, que arruinou as suas ambições presidenciais em França e mudou dramaticamente a sua vida, deve ter clara consciência de que é olhado de um modo especial. E isso sente-se.

Há duas notas que gostaria de deixar sobre Strauss-Kahn.

A primeira sobre o seu trabalho à frente do FMI. Relembro o que li num editorial do "The Economist", no auge do escândalo: "Whatever the man did, do not forsake his ideas: they are more important". Quero com isto relevar o espírito novo que Dominique Strauss-Kahn soube transmitir ao FMI, o modo como conseguiu modular a rigidez e a cegueira dos números, a insensibilidade social que marcou muitos dos "ajustamentos estruturais" liderados e impostos, no passado, por esta instituição de Bretton Woods. Os "developing countries" devem ter criado muitas reticências sobre a personalidade de Strauss-Kahn, mas é uma evidência que também não esqueceram o modo como ele soube adaptar positivamente a filosofia de atuação da organização. Além disso, vale a pena também ter presente a forma como Strauss-Kahn soube impor o FMI no quadro do G20, como conseguiu reforçar substancialmente os meios financeiros ao seu dispor, contribuindo também para um mais justo posicionamento relativo dos países emergentes no processo decisório dentro do Fundo. O mandato de Strauss-Kahn dentro do FMI foi um imenso sucesso, exceto o seu fim.

Apenas uma vez, e por breves minutos, me recordo de ter falado com Strauss-Kahn, nos momentos que antecederam um almoço oferecido por Lionel Jospin a António Guterres, em Matignon, creio que em 1999. Nem faço ideia do que falámos. Durante esse almoço, teve lugar uma cena algo caricata. 

A certo momento do repasto (aliás, recordo, com excelentes vinhos), achei que deveria transmitir ao primeiro-ministro português uma informação, que me parecia poder ser-lhe útil na sequência da conversa. Eu estava à esquerda de Jospin, que tinha em frente António Guterres, o qual, por sua vez,  dava a direita a Dominique Strauss-Kahn. Gatafunhei umas notas nas costas de um menu, em que devo ter escrito qualquer coisa do estilo: "Seria importante lembrar a Jospin que..." ou "A França não pode esquecer que..." ou outros comentários do género. Era uma nota para ser lida apenas por António Guterres, porque, lembro-me, tinha elementos algo sensíveis na forma como estavam apresentados. Dobrei o menu e, a um empregado de mesa que passava, pedi que o entregasse ao primeiro-ministro português, do outro lado da mesa. O homem terá entendido menos bem o que eu disse, deu a volta à mesa e passou a minha nota a... Dominique Strauss-Kahn, que estava precisamente à minha frente. 

A conversa entre Jospin e Guterres ia animada e eu não tinha a menor possibilidade de a interromper, para dizer ao ministro da Economia e Finanças francês que a nota não lhe era dirigida, mas sim ao seu parceiro do lado. Embaraçado, gesticulei discretamente para chamar a atenção de Strauss-Kahn, o qual, no entanto, se dedicava a ler, com toda a atenção, aquilo que eu tinha escrito, em letras maiúsculas, desejavelmente "for the eyes only" do meu primeiro-ministro. O governante francês deve ter percebido o essencial do texto. Quando acabou a leitura, Strauss-Kahn olhou para mim, esboçou um sorriso e passou o papel a António Guterres. Enfim, imprudências que se cometem... Não me sinto tentado a lembrar-lhe isso hoje.

Opções militares


Não sou um especialista em assuntos militares. Tendo feito, como cidadão, o serviço militar obrigatório, mantive, a partir de então, um olhar cívico sobre a evolução da instituição, refletindo sobre o que ela representa para o país.

Considerei um erro a extinção do serviço militar obrigatório, que li como a sujeição a uma agenda - oportunista, comodista e populista - de "jotas" partidárias. Achei pena que se tivesse quebrado esse vínculo do cidadão com o seu país. Era uma "chatice", obrigava a uma disciplina de "deitar-cedo-e-cedo-erguer", conflitual com os "shots" noturnos e as horas em discotecas? Talvez, mas permitia que os jovens percebessem que não nascem "na nuvem" e que o seu sacrifício poderia vir a ser necessário para a preservação da entidade nacional em que se inseriam, tivessem ou não consciência dela.

Hoje, contudo, já não penso assim. Com a especializacão para que as Forças Armadas foram evoluindo, a reinstituição do serviço militar obrigatório representaria um esforço organizacional desproporcionado face às suas potenciais vantagens. A preservação de uma ligação dos jovens à dimensão cívica nacional deveria hoje passar por outros métodos - embora detete uma quase total falta de debate sobre isso nos meios políticos. 

Nos tempos atuais, as Forças Armadas de um país com a nossa dimensão e recursos, para além deverem sustentar valências de apoio a emergências coletivas da sociedade civil, que ajudarão à sua valorização aos olhos dos cidadãos, necessitam, cada vez mais, de concentrar a sua atividade operacional em corpos especializados, ao nível dos seus contrapartes estrangeiros. Essa é a única forma de estarem à altura dos compromissos mínimos, nos quadros de alianças de que fazemos parte e, igualmente, das solicitações para intervir em operações de manutenção de paz, determinadas por mandatos legitimados pela comunidade internacional. Num passado não muito longínquo, o nosso país ganhou imenso prestígio através do envolvimento dos seus militares nesse tipo de ações. Tudo deveria ser feito para que esse perfil fosse retomado e se reforçasse, em favor da nossa projeção externa.

Aqui se insere o tema, tornado polémico nos últimos dias, sobre as condições de treino dos Comandos, que terão conduzido à morte de soldados. Independentemente de ser absolutamente essencial que se apurem responsabilidades sobre o sucedido – e rapidamente –, convém não « deitar fora a criança com a água do banho ». Os erros corrigem-se, mas devem ser evitadas reações « a quente ».

Mas é evidente que a qualidade das nossas Forças Armadas também se afere pela competência dos seus responsáveis, nomeadamente no tocante à formação de quadros. Se essa competência não resultar evidente aos olhos dos cidadãos, é a legitimidade da própria instituição militar que fica afetada. 

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

De Kiev


Vim à Ucrânia, pela primeira vez, há muitos anos, ao tempo em que era parte da União Soviética. Viajando numa baratucha excursão norueguesa, passei uma semana na Crimeia, nas praias do mar Negro, com a curiosidade acrescida de poder sentir, com os meus próprios olhos, o ambiente do palácio de Livadia, onde, em 1945, muito do destino que o mundo de hoje ainda anda a viver foi desenhado pelas conversas entre Stalin, Churchill e Roosevelt. Sem autorização para sair da cidade mais do que alguns poucos quilómetros, quase sem ter acesso a lojas e com escassos pontos turísticos acessíveis, pouco havia para fazer nessa estranha vilegiatura, numa cidade que já fora deslumbrante e que então sofria de uma decadência sem graça.

Uma tarde, passeando em Ialta, à beira-mar, com ar de uma oriental Riviera datada, demo-nos conta, de repente, de que imensas mulheres que connosco se cruzavam usavam sapatos vermelhos, todos do mesmo tipo. Eram dezenas, sem exagero, umas a seguir às outras. Quase por acaso, fomos dar a um grande armazém, o qual, como era de regra na URSS, muito pouco tinha à venda (ainda me arrisco a ser contraditado neste blogue por algum nostágico, que por lá tenha andado de férias pagas pelo "Komsomol"). Entrámos, escapando a uma fila de mulheres que, de forma paciente, se formava escada acima, não se percebia muito bem para quê. O mistério desfez-se, minutos depois: eram os sapatos vermelhos que "estavam a sair", expressão que, poucos anos mais tarde, muito ouviria em Luanda, nos momentos mais folgados do "socialismo esquemático" (expressão local que significava um tipo de socialismo cujo quotidiano só se podia suportar graças a "esquemas"). Nesse dia, em Ialta, como novidade, só havia à venda esses sapatos vermelhos... As belas ucranianas de hoje já não usam sapatos desses, quanto mais não seja porque muitas foram aculturadas a detestar o vermelho.

A Crimeia, e com ela Ialta, está hoje separada da Ucrânia e, "de facto", integrada na Rússia, sob protesto da comunidade internacional. A Ucrânia continua, como sempre esteve, numa trágica glória histórica, no centro das imensas e complexas regiões que são, um pouco quase por todo o lado, as fronteiras da Rússia.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O chato

Na minha terra, dir-se-ia que aquele embaixador "não se enxergava". 

Verdade seja que, desde o primeiro momento, havia feito um esforço para garantir contactos ao mais elevado nível do ministério dos Negócios estrangeiros do país onde estava acreditado. Em si mesmo, era meritório que procurasse estabelecer um bom "networking". Só que não havia percebido que o país que representava tinha escassa importância para o Estado que o acolhia. Por isso, mandava o bom senso que utilizasse esses contactos com grande parcimónia, guardando tais vias pessoais para momentos importantes para os interesses do seu país, não banalizando o recurso aos seus muito ocupados interlocutores.

Estes, depois de uma primeira e simpática abertura, logo perceberam que o "chato" do embaixador não lhes "desamparava a loja" e, claro, começaram a mostrar-se renitentes às frequentes visitas, a declarar-se em permanência em reunião, para crescente desespero do homem. Ao fim de alguns meses, aquilo que havia sido uma lista interessante de contactos passou a não ter a menor utilidade.

Um dia, o nosso homem tinha, de facto, uma "emergência", um pedido do seu governo para efetuar uma diligência a um nível elevado. Tentou um desses seus contactos, um poderoso diretor-geral, mas este, "escaldado", disse-se sem agenda para o receber. A questão era mesmo importante e o embaixador sentia-se impotente. Porém, o máximo que o ministério lhe ofereceu foi um encontro com o jovem funcionário que se ocupava do "desk" geográfico da região em que o país se inseria. São, em geral, de diplomatas muito jovens, a quem cabe tomar notas do que lhes é dito, num mero "listening mood", sem autorização para emitirem grandes opiniões. Ora estes comentários, aquando de uma "démarche", são relevantes, configuram as primeiras reações oficiais do país contraparte, que se torna interessante comunicar de imediato às suas autoridades. Era quase uma humilhação, mas o embaixador estava apenas a beber o fel que ele próprio tinha preparado.

E, assim, no dia aprazado, lá se viu obrigado a encontrar-se com um jovem terceiro-secretário que, simpático e de bloco-notas, tomou boa nota do que lhe era dito. O jovem tinha vindo buscá-lo à portaria e, acabada a conversa, preparava-se para reconduzi-lo à saída. O embaixador, contudo, disse não ser necessário: conhecia bem o caminho e iria tomar o elevador. Ele que não se preocupasse em acompanhá-lo. O rapaz anuiu, despediu-se e viu o embaixador caminhar para a saída.

Isso era o que ele pensava! O nosso homem, dobrada a esquina do corredor, com o auxílio da memória de anteriores visitas ao ministério, havia decidido procurar o gabinete do tal diretor-geral, que se declarava persistentemente "ocupado". Fingindo estar ali "de passagem", fez uma visita ao "amigo", abrindo a porta do respetivo gabinete, interrompendo uma reunião que aquele estava a ter.

A partir daqui, as versões divergem, desde o relato de um encontro cordial, em tom benévolo, dado pelo embaixador, embora reconhecidamente sem qualquer utilidade profissional, até uma leitura dos factos um pouco menos agradável, que fou a que se espalhou nos meios diplomáticos locais, segundo a qual o diretor-geral terá tido palavras menos simpáticas, e até alteradas, face ao que entendeu ser o abuso cometido, encarregando de imediato um seu colaborador de reconduzir o diplomata estrangeiro à portaria do ministério. Esta segunda versão parece um pouco mais consentânea com as instruções rigorosas que foram dadas, e logo conhecidas "urbi et orbi", para que aquele embaixador nunca mais pudesse dar um passo desacompanhado quando lá voltasse.

O voluntarismo insensato de um embaixador pode fazer muito mal ao trabalho de uma embaixada. E é irrecuperável, pelo menos até chegar o seu substituto.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Magnanimidade

Por estes dias, tenho seguido o consagrado princípio que, há décadas, a Cruz Vermelha defende, em situações de conflito: não se deve disparar sobre ambulâncias! 

Há um "motto" de que também gosto muito: cada um faz a cama onde se deita.

Secretários & Subsecretários


Há semanas, numa conversa, uma senhora disse-me que o seu pai tinha sido Secretário de Estado num determinado governo de Salazar. Delicadamente, corrigi-a, explicando que, no tempo em que o seu progenitor exercera essas funções, era minha impressão que esse cargo se chamava "Subsecretário de Estado", tendo embora um estatuto político idêntico ao dos (então inexistentes) Subsecretários de Estado. A senhora "bateu o pé" e eu calei-me, no silêncio de quem estava seguro do que estava a dizer. Fui fazer uma investigação: a senhora tinha razão e eu não. Tenho de lhe dizer um destes dias.

Até ao final da I República, os governos tinham apenas ministros. É a Ditadura Militar que cria, pela primeira vez, cargos de Subsecretário de Estado, dependentes de Ministros. As Finanças ("et pour cause") foi o único ministério que manteve sempre Subsecretários de Estado até à Constituição de 1933. Com o início do Estado Novo, essa categoria passou a estender-se a vários outros ministérios e a ser usada com frequência. 

Entre 1926 e 1958, a tarefa de "ajudantes" (citando Aníbal António Cavaco Silva) dos ministros era desempenhada exclusivamente por Subsecretários de Estado. 

A categoria de Secretário de Estado, hierarquicamente acima da de Subsecretário de Estado, apenas é criada em 1958, em lugares então atribuídos a Correia de Oliveira (Comércio) e a Ferreira Dias (Indústria), ambos tendo exercido antes lugares de Subsecretário de Estado. 

O cargo de Secretário de Estado passou a ser frequente a partir daí e, claramente, a ocupar o "espaço" entre os ministros e os Subsecretários de Estado, que assim perdem o estatuto político de que até então beneficiavam. Com a criação dos Secretários de Estado, há um óbvio "downgrading" dos Subsecretários. 

Com o 25 de abril, e nos governos provisórios (1974/76), a utilização da categoria de Subsecretários de Estado foi baixa (entre quatro a oito, nos cinco primeiros governos), salvo no VI e último Governo provisório, onde atingiu o número fantástico de 21! 

Nos Governos constitucionais, a tendência foi para a contenção. O primeiro governo de Cavaco Silva (1985) não teve nenhum Subsecretário de Estado  o mesmo já não acontecendo com os seus dois executivos subsequentes. António Guterres (1995), Durão Barroso (2002) e Santana Lopes (2004) não tiveram nenhum Subsecretário de Estado. É no seu primeiro governo que José Sócrates que volta a utilizar esse cargo que, contudo, faz desaparecer no seu segundo governo. Passos Coelho, no seu primeiro governo, criou uma única Subsecretária de Estado, para "ajudar" Paulo Portas, mas não reeditou o modelo no seu "governo de uma semana e picos". António Costa não utilizou esta categoria no governo da "geringonça". Até ver.

Renascerá o cargo, um dia?

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Entre vistas


Nunca esqueço um conselho que, há muitos anos, recebi de António Guterres: "Cuidado com as entrevistas: a sua pior frase será sempre o título".

Lembrei-me isto ao ver a "esparrela" em que o ministro das Finanças, Mário Centeno, caiu, ao ser perguntado sobre um possível novo "resgate".

A técnica utilizada neste caso "tem barbas" e, em Portugal, há dois ou três jornalistas "especializados" no truque. Lembro-me, em particular de um, que fazia entrevistas num semanário e que era useiro e vezeiro no "golpe". É muito simples. Imaginemos que se trata de uma qualquer figura do Porto, à volta de quem surgem rumores de que tem ambições a nível nacional. A meio da entrevista, por exemplo depois de ele falar do conforto da vida no Porto, surge, como quem não quer a coisa, a pergunta: "Vê-se a viver em Lisboa?". A resposta normal é: "Sim, porque não?". O título do jornal, pela certa, é "Vejo-me a viver em Lisboa". Isto dá logo origem a especulações por parte do leitor, do género "Ah! Afinal o tipo sempre tem intenções de vir para Lisboa! Eu bem dizia!". Esta é uma vigarice jornalística típica.

Que Mário Centeno tenha caído nela, é normal, acontece aos melhores. O que já é menos normal - ou, se calhar, conhecendo-os, é - é o facto de figuras com responsabilidades políticas, sabendo que uma polémica em torno deste tema pode ter consequências graves nos mercados, serem vistas a especular o assunto em registo de baixa chicana. Honra seja feita a Maria Luís Albuquerque que, numa entrevista ao "Jornal de Negócios" disse, sobre o assunto, o que precisava de ser dito, sem deixar de marcar as suas discordâncias.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

António Guterres


Acho impressionante que a comunicação social portuguesa, que tão entusiástica e "patriótica" tem sido - e com razão - no tocante à evolução da candidatura portuguesa de António Guterres ao lugar de secretário-geral da ONU, tenha sido tão parcimoniosa sobre as manobras, que são escancaradamente públicas, reveladas nos últimos dias contra essa candidatura.

Surpreende-me não ver uma linha sobre o papel que setores do Partido Popular Europeu estão a desenvolver, tentando criar condições para que a vice-presidente da Comissão Europeia, Kristalina Georgieva, surja rapidamente na liça - agora que a expressiva última votação em Guterres claramente assustou quem deseja a sua derrota.

Sabia-se do papel de setores do PPE para levar Georgieva a Bielderberg. Foi muito claro que Jean-Claude Juncker tentou promover a búlgara junto dos russos, ao tê-la levado consigo a Moscovo, num contexto sem qualquer sentido. Mais recentemente, o chefe de gabinete do presidente da Comissão Europeia declarou, na sua conta oficial das redes sociais, a forte vontade de ver Georgieva na ONU. Last but not least, sabe-se agora da campanha desenvolvida por Angela Merkel, durante o recente G20 na China, no sentido de tentar criar uma onda de fundo em favor da ainda comissária europeia, por forma a conseguir travar Guterres.

Essa manobra passa por tentar convencer o governo de Sófia a, nas próximas horas, deixar cair o nome de Irina Bukova, a diretora-geral da UNESCO que era a sua candidata, e avançar com Georgieva.

Era muito importante que, em Portugal, o PSD, para além de dar conta da sua indignação sobre as limitações à ação empresarial de Durão Barroso nos corredores da Comissão, também expressasse publicamente o seu repúdio ativo a estas manobras desenvolvidas contra o candidato português, e que formalmente apoiou, feitas no âmbito do PPE, a formação política europeia a que está ligado. 

De caminho, talvez os social-democratas portugueses pudessem também dar garantias ao país de que nenhum antigo membro do governo do seu partido está ativamenfe envolvido nesta operação que tem por objetivo minar a candidatura portuguesa. Se assim acontecesse e viesse a provar-se, o PSD poderia vir a ficar muito mal na fotografia.

domingo, 11 de setembro de 2016

Nova Iorque, 11 de setembro de 2001

Já recordei várias vezes, no modo como esse tempo me marcou, o meu dia 11 de setembro, há 15 anos, em Nova Iorque, quando aí era Representante Permanente de Portugal junto das Nações Unidas (o relato mais completo está aqui). 

Mas creio que não referi o que respondi a um jornalista de uma televisão portuguesa que me fez, no final de uma entrevista, poucos minutos antes de perdermos as comunicações telefónicas com Lisboa, uma pergunta desnecessária:

- A data de 11 de setembro vai ficar marcada na sua memória para sempre?

A minha resposta foi sincera e, até hoje, nunca decidi se a devia ter dado ou não:

- O 11 de setembro já era uma data triste para mim, agora é mais. É que foi em 11 de setembro que as tropas de Pinochet derrubaram Salvador Allende, no Chile.

Vários amigos, nos meses seguintes, viriam a acusar-me de "imprudência" e até de "falta de sensibilidade". Posso perceber essa atitude. Mas, como digo, fui totalmente sincero.

Alberto Xavier


Um amigo comum brasileiro acaba de me dar conta da morte de Alberto Xavier.

O Alberto era um dos maiores fiscalistas do Brasil e, além disso, um homem de cultura, com interessante obra publicada. E, o mais importante, era um bom amigo meu.

Alberto Xavier era bastante jovem quando ingressou no governo de Marcelo Caetano. Partiu para o Brasil tempos depois, onde construiu uma carreira profissional de grande sucesso. Creio que foi o atual ministro da Cultura, Luís Castro Mendes, que havia sido cônsul-geral no Rio de Janeiro, que nos pôs em contacto. 

Desenvolvemos uma boa amizade ao longo dos quatro anos em que fui embaixador no Brasil. Era uma pessoa com um fino humor, que não "explodia" num gracejo, mas se ia insinuando na conversa. Criei para ele o conceito de "falso lento na ironia"...

Tenho com o Alberto uma cena magnífica, pela qual perpassa toda essa ironia. Ele tinha sido convidado, com a sua mulher de então, para um jantar no Palácio de S. Clemente, a residência do cônsul-geral no Rio. Horas antes, informou que viria sozinho. Estranhamente para os seus hábitos, chegou mesmo um pouco tarde. Fui ter com ele à entrada, disse-lhe, um pouco para fazer conversa, que já sabia que a sua mulher não viria. O Alberto, com aquele sorriso irónico com que dizia serenamente graças fabulosas, esclareceu: "Foi ela, aliás, a razão deste meu atraso. É que estive a assinar os papéis de divórcio"...

Há poucos anos, no bar do Hotel Ritz, eu explicava a um amigo, que devia ir viver para o Brasil tempos depois, que o Alberto Xavier era alguém que era fundamental ele conhecer no Rio de Janeiro. Em frente à nossa mesa, no preciso momento em que a conversa decorria, passou um vulto que, de costas, me pareceu ser o Alberto. Essa figura desapareceu numa esquina da sala. Porque achei a coincidência "impossível", esqueci o assunto por uns minutos. De repente, tive um pressentimento, levantei-me e fui procurar a figura: era mesmo o Alberto Xavier! Dei-lhe um abraço e fiz as apresentações. Foi a última vez que o vi!

Tenho muita pena pela morte do Alberto. Àquela que foi a sua primeira mulher, de quem permaneceu um grande amigo e um imenso apoio, a Leonor (Xavier), deixo aqui um sentido abraço.

Mudou a vida?

Se o 11 de setembro não tivesse ocorrido nos Estados Unidos, se o Al Qeada tivesse optado por outra estratégia, se a segurança americana tivesse sido capaz de prevenir os atentados, estaríamos hoje onde estamos, em termos de segurança coletiva?

O mundo kiplinguiano dos “se” é tão fascinante quanto inútil. Apenas forjei algumas variáveis para sublinhar o grau de imprevisibilidade da situação internacional, a qual, contudo, não evolui no vazio: as tendências vão-se sedimentando e prevalecem, independentemente de serem potenciadas ou limitadas por fatores de conjuntura.

O mundo em que o 11 de setembro se produziu estava longe de ser um mundo seguro. E, claro, não se tornou mais seguro depois dessa data. Desde logo, no Médio Oriente.

A cegueira ocidental na região vinha de longe. A Guerra Fria, a questão energética e o papel de Israel em toda a equação haviam conduzido a estratégias de compromisso dos poderes euro-atlânticos com o mundo quase medieval do Golfo, onde, recordemos viria a germinar o Al Qaeda. É dali que sai Bin Laden, que encontra nos talibãs, que o ocidente financiara para a afastar os soviéticos do Afeganistão, a sua principal base de apoio.

A Guerra Fria havia « congelado » grande parte das tensões à escala global, que afloravam, em termos violentos, em zonas de confluência de poderes, em que os dois polos rivais se disputavam através de terceiros.

O Médio Oriente atravessaria esse confronto leste-oeste de forma singular, tendo preservado por muito tempo alguns equilíbrios que pareciam eternos.

Distraído com o conflito israelo-palestino, o mundo ocidental deu por adquirido que bastava apostar numa hábil « balança de poderes » na região para assegurar o essencial, o qual, à época, tinha apenas um nome : petróleo. Enquanto assim procedeu, teve sucesso. Quando atuou de modo a romper com esses equilíbrios, o ocidente soltou os demónios. E, por algum tempo, não viu chegar um novo modelo de revolta, dificilmente enquadrável nos padrōes tradicionais. Quando acordou, era tarde.

Pode dizer-se que há duas grandes « novidades » trazidas pelo 11 de setembro.

A primeira é a força inusitada e transfronteiriça dos atores armados não-estatais.

Foi a procurada destruição de alguns Estados – do Iraque à Líbia – que deu fôlego ao proselitismo radical islâmico, em modelo de “brigadas internacionais », também conduzidas por uma ideologia que projeta uma mundividência totalitária. Há um elemento cuja inventariação ajuda a perceber muita coisa: a natureza e a origem dos armamentos que essas forças utilizam. Sem a destruição do Iraque da Saddam Hussein, o Estado islâmico não teria a capacidade militar que hoje tem. Sem o voluntarismo irresponsável anglo-franco-americano na Líbia  o Aqim não disporia dos meios para a sua ação instabilizadora do Sahel.

Para além da cínica contabilidade regional de interesses, um dos receios confessados de Moscovo na Síria é o de que uma implosão desse país possa vir a reforçar o Estado islâmico e provocar a dispersão de novas metástases de instabilidade, suscetíveis de contaminar o Cáucaso e o sul da Rússia. (Um parêntesis de atualidade: olhe-se com atenção a sucessão de Karimov no Usebequistão, onde a tensão recorrente no vale de Fergana não deve ser esquecida). A Rússia também já percebeu que pode vir a sofrer novos reflexos do atoleiro do Afeganistão, de onde, recorde-se, partiu a grave instabilidade num Paquistão nuclear. Há que reconhecer que a Rússia pode ter alguma razão neste ponto.

A segunda « novidade » radica no campo dos princípios.

O 11 de setembro acelerou a colocação da luta contra o terrorismo no « politicamente correto » à escala global, acuando aqueles que se escudavam na não consensualização do conceito para limitarem a sua adesão ao esforço coletivo de o combater.

De caminho, a identificação de algum mundo islâmico com a disrupção, violenta ou não, da vida de muita gente, em especial na Europa, ofereceu um alibi à discriminação que permanecia numa latência envergonhada e tornou o « diálogo de civilizações » num filme de ficção para ingénuos.

É também aí que se insere a fácil rejeição do multiculturalismo, a reemergência da xenofobia, com crescente expressão partidária em sociedades políticas que a tal pareciam imunes.

Finalmente, a falência das « primaveras árabes » parece ter feito regressar as democracias ocidentais ao cinismo da realpolitik, à aceitação do « mal menor », para sermos claros, das ditaduras (porém) estabilizadoras.

A nossa vida mudou, com o 11 de setembro ? Se « puxarmos o filme atrás », verificaremos que todos os principais fatores de instabilidade e rutura estavam já sobre a mesa nessa data. O 11 de setembro potenciou-os, mas ele é também, em si mesmo, uma sua consequência.

(Artigo que hoje publico no "Diário de Notícias")

sábado, 10 de setembro de 2016

Refletir a frio

A lamentável morte de dois militares dos Comandos está a provocar um justificado choque no país. Muitos se perguntam se a realização de exercícios violentos em tempos excecionais de calor não terá ultrapassado os limites do bom senso. O inquérito sobre o assunto - que, por uma vez, se espera rápido e conclusivo - poderá vir a fazer alguma luz.

Dito isto, há que dizer algo mais. Os Comandos são um setor especializado das nossas Forças armadas que, de há muito, prestam um serviço prestigiado à instituição militar. Trata-se de uma tropa profissional, formada por voluntários - é bom não esquecer isto. O seu treino é muito rigoroso, mas é precisamente como resultado desse rigor que a qualificação desse setor é apreciada, num tempo em que Portugal deve caminhar para uma cada vez maior especialização militar. Não é possível ter tropas portuguesas preparadas para intervirem em cenários extremos - como no Afeganistão ou no Sahel -, integradas em operações multilaterais de paz, onde muito têm prestigiado o nome de Portugal, se a sua formação não estiver à altura das rigorosas exigências desses ambientes operacionais.

Quero com isto afirmar que, não obstante achar indispensável que se apurem, sem a menor sombra de dúvida, eventuais responsabilidades por erros cometidos no caso em apreço, acho perigosas e demagógicas quaisquer ilações precipitadas no sentido do encerramento daquela força militar especial. 

Com o tempo quente que por aí vai, justifica-se ainda mais manter a cabeça fria.

Os medos da América


Nunca vivi na América. Ou melhor, vivi algum tempo  em Nova Iorque que, como alguém dizia, os americanos acham que já é « um pouco Europa ». Mas estava lá nessa data terrível que foi o 11 de setembro de 2001, quando, como titulou então consensualmente o « Le Monde », todos fomos americanos. E senti a América a mudar.

De há muito que penso que não adianta tentarmos viver a História dos outros e procurar compreendê-los à luz da nossa própria experiência. Por muitos esforços intelectuais que façamos, ficamos sempre aquém da plena compreensão dessa herança natural que cada povo carrega dentro de si, fruto daquilo que o seu percurso histórico sedimentou na memória coletiva.

A América – gosto de chamar assim aos Estados Unidos da América – é um país diferente. É o grande vencedor dentre os impérios do século XX, subalternizando os poderes europeus tradicionais, de quem se tornou no aliado dominante e que sossegou com a sua vitória perante a ameaça que a Guerra Fria para todos representou. 

Talvez por isso, porque, em estado de necessidade dos outros, assumiu o papel de « polícia » do mundo ocidental, e depois o prolongou num registo algo sobranceiro, a América passou a identificar os seus interesses com aqueles que espera que os seus parceiros adotem. Já tive a experiência de ver mais do que um diplomata americano genuinamente surpreendido pelo facto de, perante um tema internacional em discussão, um aliado ousar ter uma perspetiva diferente. O seu comportamento no seio da NATO é disso prova evidente e, verdade seja, esta perspetiva um tanto impositiva acaba muitas vezes por fazer o seu caminho.

Uma graça comum, detratora da política externa americana, costuma repetir que o Estados Unidos acabam sempre por adotar a boa solução, mas só depois de terem experimentado todas as outras. A História não comprova o chiste : não apenas, infelizmente, a América não escolhe sempre a melhor solução como, felizmente, tem conseguido travar alguns impulsos internos para atitudes limite, de que o recurso à opção nuclear é talvez o mais evidente exemplo.

A América vencedora do comunismo, que sonhou com o « fim da História », que a bondade da democracia liberal iria conquistar por todo o lado, não entendeu a precariedade desse ingénuo proselitismo, onde sempre se misturaram interesses egoístas com valores saudáveis. Com a teimosia que afeta quem se sente « à solta » pelo mundo, forçou realidades culturais cuja profundidade mediu mal ou não compreendeu de todo. Pelo caminho, a sua auto-suficiência fê-la optar por um multilateralismo « à la carte », de que nem um presidente com o perfil de Obama se livrou, o que muito afetou a sua autoridade moral como potência. Ao fazê-lo, punha em causa e desafiava de forma indecente a mesma ordem à escala global de que fora o grande campeão, depois do segundo conflito mundial.

Como atrás referi, o 11 de setembro mudou a América. Quem cai de alto sofre mais com a queda e os Estados Unidos, ao serem confrontados com riscos novos no seu próprio território, foram arrastados para um sentimento coletivo de ansiedade, pelo ineditismo de verem em risco uma segurança que davam por adquirida e eterna, apenas sacudida pelas pulsões individuais da sua violência interna, que subsumiam no eterno debate sobre a legitimidade de uso de armas. 

Os discursos que se pretendem caraterizadores das reações coletivas de qualquer povo são altamente falíveis, mas não resisto a pensar, à luz do que me foi dado observar ao longo do tempo, que o abalo do 11 de setembro conduziu a América a uma opção relativamente evidente em favor da segurança, em óbvio detrimento das liberdades – na leitura de que estas só existem quando a primeira estiver assegurada. Nessa deriva, sob o traumatismo do instante, num refluxo patriótico que teve laivos obsessivos, o país poderá ter colocado em causa alguns princípios de que era arauto. Esse não era, aliás, um cenário novo. Havia emergido no « maccartismo » e na atitude americana à escala global, em todos os momentos em que a preservação de um interesse tido por maior tinha prevalecido – desde a frequente proteção ilegítima de Israel à realpolitik anti-comunista, por exemplo, no suporte obsceno de ditaduras um pouco por todo o mundo.

Para apressar o fim deste raciocínio, direi que o receio e a preocupação securitária parece terem tomado conta dos reflexos americanos, quem sabe se por muito tempo. Se nem mesmo uma presidência « do bem », como foi indiscutivelmente a de Obama, foi capaz de estabilizar racionalmente esses medos, talvez devamos estar preparados para ter de aceitar que o pior está ainda para vir. Do « Tea Party » a Trump, há uma América profunda que, podendo não chegar já ao poder, previsivelmente o condicionará, mesmo que a escolha de novembro venha a ser Hillary Clinton – a coisa mais próxima de um republicano que os democratas poderão hoje produzir.

Com uma Europa sem direção política, que possa servir de contraponto coletivo, amigável e moderador, os Estados Unidos, para apagar os seus medos, poderão  sentir-se uma vez mais tentados a avançar por sua conta e risco. E isso não são necessariamente boas notícias para quem deles depende e com eles quer preservar uma relação determinada pela geopolítica. Como nós.

(Artigo que hoje publico no "Público")

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

De cernelha

É de cernelha, e não de caras, que a direção do CDS agarra a iniciativa da sua "jota" de organizar amanhã uma tourada.

Encostada às tábuas pela tradição dentro do partido da direita, seguramente mobilizado por alguns "populares" de suíças longas e arzinho marialva, os centristas têm tido na tourada anual o seu teste anual de verdade sobre se querem ser um partido moderno, atento às preocupaçöes básicas dos dias de hoje nas sociedades (e mentalidades) desenvolvidas, ou uma força do antanho, que não percebe que há tradições inóquas e outras que se colam à barbárie. E têm "chumbado" nesse teste.

É claro que alguns sempre dirão que alguma esquerda, herdeira da escrita daqueles "por quem os sinos dobram", os acompanha no gosto valente de ver o sangue do touro vertido pela praça, na pedagógica iniciação aos filhos ao verem bandarilhas metálicas ("ferros" curtos ou longos, dirá a linguagem especializada) espetadas sadicamente pelo lombo do touro (eles dirão "toiro", porque a sonoridade é mais excitante). Os mais ousados irão mesmo ao ponto de confessar (perdidos por cem...), em surdina, pelo burladero do Caldas, que, por vontade deles, haveria touros de morte, com direito a corte de orelhas do bicho (quiçá do rabo, suprema glória) e saída em ombros do artista pela porta grande.

Sendo as coisas hoje o que são, Assunção Cristas, "malgré" a recusa esclarecida de Adolfo Mesquita Nunes, lá deixa organizar a garraiada, perdão, a tourada. Uma iniciativa em que o partido pega, de cernelha, pela certa, com rabejador a designar.

Para quem não saiba, o espetáculo será no sábado, numa praça perto de si. A Juventude Socialista estará em Braga, à mesma hora, a discutir a Europa. E eu lá estarei com eles. Isto é um país livre. Cada um escolhe o que entende mais importante para a pátria.