quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O adversário

O curioso debate ontem entre Catarina Martins e Jerónimo de Sousa constatou uma realidade insofismável: o verdadeiro adversário que ambos se propõem abater é, como já se suspeitava, o Partido Socialista. 

Amáveis um com o outro - longe parecem idos os tempos de um ódio figadal, quando PCP pensava ter a sua existência em perigo pelo crescimento do Bloco -, os simpáticos representantes da "esquerda da esquerda" há muito perceberam que é na disputa das franjas de simpatizantes do PS (o Bloco debate-se ainda com a "cissiparidade" histórica da extrema-esquerda) que estão as suas margens possíveis de crescimento. Ou os riscos de diluição de apoios.

Um governo de esquerda moderada é o mais perigoso cenário para a progressão eleitoral do PCP e do Bloco, partidos cuja contribuição objetiva para a construção de uma qualquer alternativa política é pouco mais nula, porquanto alimentam posturas sobre questões tidas por essenciais para o posicionamento identitário do país no plano externo que não são compatíveis com nenhuma outra força política com condições de governar, desde logo o PS. PCP e Bloco não gostam do conceito de "arco da governação", que consideram excluí-los. O curioso e óbvio é que são eles próprios quem cuida em se pôr de fora desse "arco".

Imagina-se que, na noite de ontem, os espíritos para os lados da Santana à Lapa e do Caldas devem ter estado bem altos. Têm razões para isso.

Nas quatro semanas que aí vêm, PSD, CDS, PCP e BE reencontrar-se-ão nessa frente comum contra esse temível adversário que os ameaça - o PS. Como nunca deixarei de lembrar, esta "santa aliança", este "bloco lateral" direita/esquerda, não traz essencislmente nada de novo: foi precisamente o mesmo que derrubou o governo do Partido Socialista em 2011, abrindo caminho àquilo por que Portugal passou nos últimos quatro anos.

O Partido Socialista está assim sozinho "no meio da praça". Só me custa dizer "orgulhosamente só" para não trazer outras memórias a quem já as tem.

Os russos de Setúbal e outros soviéticos


De um amigo "chegado" (gosto deste conceito caído um pouco em desuso) chegou-me esta nota bem curiosa.

"Não se pode ler tudo e sempre e eu só agora e por um acaso cheguei ao teu post “Petróleo, mentiras e árabes”, recriando uma história famosa dos anos 70. (Tratou-se do episódio dos falsos árabes que foram jantar ao restaurante "Tavares").

Nos dias seguintes, ao jantar, na Rina*, os jornalistas não falavam de outra coisa.

Acontece que em Novembro desse mesmo ano de 1971 houve nova incursão desse grupo de intrépidos foliões, na qual tive a felicidade de participar, fazendo a reportagem no dia seguinte no programa Tempo ZIP, na Rádio Renascença.

O Spartak de Moscovo vinha jogar a Setúbal a segunda mão dos 16 avos de final da Taça UEFA, após empate da zero na Rússia, e a trupe decidiu constituir-se como uma espécie de claque da equipa russa. O Raul Solnado tinha feito o Inspector-geral, de Gogol, no Teatro Villaret, e o guarda-roupa foi o ponto de partida para a brincadeira. Todos vestidos à maneira de aldeões russos do século XIX, embarcámos de autocarro, com partida dos Stones e paragem no Ad Lib, rumo a Setúbal, onde a “claque” russa tinha jantar marcado, antes do jogo, na pousada de São Filipe. 

Eu fui introduzido no grupo pelo Solnado, fazia de intérprete e, à socapa, ia gravando elementos para a reportagem da rádio. O chefe de mesa apanhou-me a gravar conversas mas eu chamei-o de lado e segredei-lhe que a gravação era para o KGB, o que o deixou sossegado. 

O jantar correu em ambiente de grande exaltação, própria de uma “claque” de camponeses russos do século XIX.

Nem o “colinho” da “claque” valeu aos russos: o Vitória de Setúbal ganhou por 4-0, mas na eliminatória seguinte caiu aos pés de uma equipa romena.

No dia seguinte, dois vespertinos – creio que "A Capital" e o "Popular" – publicaram fotos da extravagante claque do Dínamo de Moscovo na bancada do Bonfim. O Tempo ZIP fez a reportagem por dentro do acontecimento."

Quem me fez este relato, que aqui deixo para a história das diversões mediáticas (na altura ninguém dizia isto), foi o João Paulo Guerra, um grande repórter e uma das grandes vozes da nossa rádio.

Desde há anos, o João fazia, todas as manhãs, para a Antena 1, uma síntese de imprensa que levava a milhares de ouvintes o que de mais importante os jornais reportavam nesse dia. Para tal, o João iniciava cerca das cinco da manhã o seu trabalho. Sabendo-me amigo dele, muitas pessoas me transmitiram, ao longo dos anos, o prazer e utilidade dessa companhia, feita de inteligência, sensibilidade e conhecimento.

A RTP/RDP, ao que fui agora informado, colocou um ponto final nesse espaço informativo. Insondáveis são os caminhos dos senhores que por lá mandam e que, neste caso, terão antecipado mesmo de alguns meses o termo do contrato que tinham com o João Paulo Guerra. 

Mas não convém precipitarmo-nos: é importante verificar se isto não está no "MoU" da "troika" e se este governo não obedece apenas àquilo que o mandato de quem o tutela impõe. 

Há uma boa notícia nisto tudo: deixando de estar já obrigado a estas matutinas horas, o João passa a estar disponível para umas jantaradas que, até agora, só podiam ter lugar em fins de semana, com ele a bocejar, numa espécie de "jet lag" endémico. Para a semana começamos, João!

* Ó João, explica lá o que é a Rina, porque eu não sei

"The Bastards"


Há poucos meses, no meio de uma caixas com livros do meu tempo de Londres, dei com "Bastards", um panfleto provocatório escrito em 1993 por uma deputada conservadora, Teresa Gorman, contra a liderança do primeiro-ministro John Major. 

O título do livro estava ligado a uma entrevista dada por Major a um canal de televisão. Recordo-me muito bem dessa conversa, dirigida por um dos mais experientes entrevistadores. À época, a questão europeia estava no centro do debate no Reino Unido e nós, na embaixada, acompanhávamo-la com muita atenção. Estando longe de ser um euro-entusiasta e debatendo-se com a limitação de ser um fraco "sucedâneo" de Margareth Thatcher, que não fazia o pleno do partido, Major tentava pilotar a difícil posição de Londres perante os seus parceiros. O seu esforço era procurar acomodar um euroceticismo nacional muito evidente com a preservação do papel do Reino Unido na Europa, com vantagens importantes para a City e para o prestígio do país à escala global.

Essa entrevista até não correu mal a John Major. As últimas perguntas haviam sido precisamente sobre os deputados conservadores minoritários, que se mostravam mais rebeldes. Entre eles, havia uma mulher, Teresa Gorman. Era uma figura expressiva, "outspoken", muito anti-Bruxelas e assumidamente situada à direita, em várias temáticas políticas essenciais.

Na conversa tida com o jornalista, Major foi firme perante a dissidência que se adivinhava, mas, ao que me lembro, até foi bastante correto no modo como a abordou. Quando a entrevista acabou, a gravação do som continuou, inadvertidamente. Horas depois soube-se, por um "leak" do canal televisivo, que, nesses segundos de conversa, tida como "off the record" com o jornalista, Major tinha qualificado os seus opositores de "bastards"! Foi o bom e o bonito!

Nos dias seguintes, a imprensa explorou o assunto e os conservadores que mais descontentes estavam com o primeiro-ministro reagiram fortemente quanto à agressividade que, mesmo se em privado, Major se permitira ter. Teresa Gorman foi das personalidades mais escandalizadas e, poucas semanas depois, publicou um livro que, por algum tempo, fez sensação e que se intitulava precisamente "The Bastards". Nele se apresentavam os argumentos eurocéticos e se atacava violentamente John Major. O meu exemplar do livro repousa agora na Biblioteca Municipal de Vila Real onde, aliás, creio que não deverá ter grandes filas para consulta...

Perdi de vista o percurso de Teresa Gorman desde então, tendo apenas sabido que foi suspensa do partido e se tornou, por várias outras razões, uma personalidade mediática. Morreu agora com 83 anos, num tempo em que o Reino Unido volta a um novo "round" de tensão com a Europa.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sérgio Godinho


Sérgio Godinho fez 70 anos. Sem qualquer nostalgia pateta mas com um sincero reconhecimento pessoal, noto que a sua música me fez companhia serena por mais de quatro décadas. Alguns dos seus temas fazem parte da minha "playlist" íntima, interpretaram, às vezes na perfeição, sentimentos que fui tendo ao longo do tempo, das raivas às ternuras, das esperanças aos desencantos, confirmando-me que a sintonia geracional é uma realidade sem discussão. Godinho, porém, está mesmo um pouco para além disso, porque não ficou colado, como acontece com outros, a uma espécie de gueto etário. E não deu ares de ter feito um esforço especial para isso. A inteligência com que conseguiu fazer evoluir as suas palavras e melodias, dotando-as de uma contínua modernidade, nem artificial nem obsessiva, transformou-o num dos raros autores que mantêm hoje entre nós uma singular transversalidade de públicos. Sérgio Godinho tem 70 anos. Quem nos dera a todos envelhecer, e ver envelhecer aquilo que dizemos e fazemos, dessa mesma e alegre forma. Não conheço Sérgio Godinho. Se o conhecesse, dava-lhe hoje um abraço. Como se dá a um amigo.

Os velhos turcos


É um lugar comum em algum discurso europeu dizer-se que não soubemos lidar devidamente com a questão da Turquia e que o que hoje por lá se passa, da deriva islamizante ao tropismo autoritário de Erdogan, com gravíssimas consequências geo-políticas potenciais para o futuro do continente, configura um cenário que poderia ter sido evitado. Dou por mim a repetir esse mantra com regularidade, mas reconheço que raramente me interrogo sobre se as coisas poderiam ter seguido um caminho diferente.

A Turquia foi um aliado essencial do ocidente durante a guerra fria. A NATO e os EUA utilizaram-na como guarda avançada face a Moscovo, porquanto era, com a Noruega, o único Estado-membro com fronteira com a então União Soviética. Seria precisamente a importância do vetor militar no contexto do país (que iria ter também forte expressão nas tensões com outro vizinho na Aliança, a Grécia) que permitiu que as forças armadas aí desempenhassem, por décadas, um papel de poder silencioso, a tutela por detrás do palco onde se digladiavam os atores político-partidários.

No final da Guerra Fria, setores importantes da sociedade turca manifestaram-se favoráveis a uma aproximação institucional com a Europa comunitária. Esta demorou a perceber que o “timing” para uma resposta positiva tinha um prazo de validade. Com efeito, os pró-europeus turcos sabiam que, à diluição inexorável da tutela militar, corresponderia o recrudescimento daquilo a que ela fazia frente: o avanço muçulmano na sociedade e nas instituições do país. A “janela de oportunidade” começava a fechar-se.

Para a Europa, à época, a prioridade eram os antigos países comunistas do seu Centro e Leste, aproveitando a fragilidade conjuntural da Rússia. Daí a “pressa” da sua integração na UE e na NATO. Nesse processo, a UE seria dotada de novos tratados, agora assentes na importância do fator demográfico no processo decisório, por forma a preservar o poder dos grandes Estados e anular o impacto da “multidão” de novos países a absorver. Ironicamente, se acaso a Turquia entrasse nesse novo contexto, Ancara iria ficar no centro do poder em Bruxelas, o que não era admissível para países como a Alemanha ou a França, com esta última da “blindar-se” com a necessidade de um referendo de impossível vitória no caso da entrada da Turquia vir a estar iminente. E, está hoje muito claro, outros países se juntariam a essa recusa. Desde então, o processo de adesão da Turquia é um patético “faz-de-conta” em que já nem os turcos acreditam.

A Europa recusou a Turquia, sem perceber o erro estratégico que isso significou? Ela foi apenas incapaz de gerar, no seu seio, uma vontade coletiva que permitisse uma solução institucional para a integração turca. Só isso.

Com a crise síria, com o eixo sunita a afirmar-se, a memória de Ataturk e dos seus “jovens turcos” só sobrevive hoje no crescente autoritarismo. No resto, é a velha Turquia em progressão, com Istambul a ser cada vez mais Constantinopla.

(Artigo que hoje publico no "Diário Económico")


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A idade na política


A maioria agora cessante prestou um péssimo serviço à imagem política das gerações mais novas. Naquilo que aparentemente procurou ser uma espécie de refrescamento etário, o governo que termina funções acabou enxameado de figuras sem um currículo político significativo, alguns saídos da blogosfera e da intriga nas redes sociais, outros de cenáculos de obsessão neoliberal e do deslumbre das academias estrangeiras, outros ainda do serralho dos gabinetes, como é sempre típico dos tempos de “seca” política. Algumas exceções pontuais de qualidade só ajudaram a melhor definir aquilo que foi uma triste regra nestes quatro anos.

Esta pretendida geração da “rutura”, fortemente marcada por uma ausência de experiência na gestão do Estado, havia mesmo sido aculturada no ódio à coisa pública: menos Estado, menor Estado e, como se viu... o que sobrar “para eles”! O “memorando de entendimento” foi a bíblia mais à mão, a qual, aliás, tentaram completar com a rápida passagem “a patacos” de tudo quanto tivessem à mão para privatizar, não fosse o Estado ter a “ousadia” de renascer após a sua passagem de Átila. O patético afã com que agora estão a delapidar, à última hora, o que ainda resta no domínio público envergonha e revolta até setores que lhes são próximos.

A máquina política tem necessidade permanente de ser rejuvenescida. Os “cabelos brancos” não são, em si mesmos, uma garantia de competência e de experiência com utilidade e, em especial, de capacidade de saber ler, com olhos de modernidade, as mudanças de orientação que os novos tempos exigem. Ter mais idade não é, necessariamente, uma garantia de maturidade com qualidade. Mas, naturalmente, como agora ficou patente, também o  voluntarismo cego no “jeunisme” não assegura, por si só, um desempenho eficaz.

Uma coisa é, contudo, clara. Por toda essa Europa, os membros dos governos são cada vez mais jovens e começa a ser evidente que a regra é fazer assentar na geração com 40/50 anos o essencial da responsabilidade política. Fora disso, e não obstante a maior longevidade dos quadros, é hoje bastante mais natural conferir funções governativas a jovens na casa dos 30 anos do que a figuras entradas na faixa dos 60. Algumas pessoas não gostarão de ler isto, mas esta é a realidade dos factos.

Por isso, um futuro governo PS deverá apostar na responsabilização de quadros políticos jovens, militantes ou independentes, que hajam dado provas ou deem garantias de um forte sentido de Estado, de devoção desinteressada pela vida cívica, de maturidade na ação política e na gestão da coisa pública, a somar a uma necessária formação académica e profissional, assente em currículos que passem para além das funções de “aparelho”. Urge preparar a geração de responsáveis políticos para os anos exigentes que aí vêm. Atribuir-lhes desde já responsabilidades, dar oportunidade a que usem os anos mais produtivos das suas vidas adultas ao serviço da comunidade, é uma aposta essencial para assegurar que o país poderá contar com quem assuma, com eficácia, a sua futura liderança.

(artigo hoje publicado no Acção Socialista digital)

Folhetim

O "Diário de Notícias" encerra hoje o seu folhetim de verão, um curioso espaço de ficção política que, desde o início de agosto, entreteve os seus leitores e trouxe mesmo um pouco de "sal" à campanha pré-eleitoral. Embora podendo parecer fácil, tratou-se de um exercício complexo, porque elaborar sobre uma suposta realidade futura daquela sensibilidade torna-se, às vezes, bem mais perigoso do que especular sobre a banalidade dos factos realmente ocorridos.

O autor do folhetim, hoje revelado, foi Ferreira Fernandes, um dos grandes nomes do nosso jornalismo e, muito provavelmente, o mais brilhante cronista atual da imprensa portuguesa. Encher diariamente, durante semanas, a última página de um importante jornal, adequar o texto à evolução da situação política, trabalhar, de forma rigorosa e culta, mas também equilibrada e equitativa, um contexto político sob permanente tensão, não deve ter sido uma tarefa simples. Os textos foram corajosos e ousados, pelo que imagino que certas figuras estejam, a esta hora, aliviadas pelo termo do folhetim. Outras, coitadas, devem ter ficado furibundas pelo facto do autor as ter ignorado. 

Deixo aqui ao José Ferreira Fernandes a expressão da minha admiração pelo seu notável trabalho e o voto de que continue, sem falhas, a dar-nos o diário prazer daquela sua indispensável coluna no DN. Já faz falta, sabe? 

Direito à preguiça


Há dias, estava burguesmente a comentar com um amigo que só em muito raras ocasiões sou capaz de aguardar mais do que um par de minutos por uma mesa num restaurante, que detesto ficar em filas de qualquer espécie (prefiro desistir das coisas), que não tenho a menor pachorra para ir a locais onde não possa estacionar o carro perto (se possível, mesmo à porta!), que detesto ter de servir-me em self-services de tabuleiro, que só em desespero de causa como em buffets, de pratinho na mão, e outras coisas tão altamente cansativas e irritantes, onde se inclui, naturalmente, dar o NIF para obter uma fatura (somos o único país do mundo onde esta prática existe, sabiam?). 

A minha única deriva desta linha descansativa de comportamento, que em mim já é quase uma vertigem de natureza "workaholic" ou "stakhanovista", é o estranho gosto que tenho em meter gasolina no carro eu próprio (e já descobri a razão: porque detesto aquela mania dos funcionários de "acertarem" números redondos, quando lhes peço "depósito cheio").

A reação desse meu amigo, que, não por acaso, também é um admirador do Taki do "The Spectator", foi magnífica (e definitivamente instrutiva!):

- Meu caro, és cá dos meus! Eu nem às mesas dos doces vou! Era o que faltava! Sabes que até já desisti de comer fondue ou racklette, só pela trabalheira que aquilo dá?!

(Será só ironia? Ou "com a verdade me enganas"?)

domingo, 30 de agosto de 2015

Paulo Rangel


Tenho um sentimento ambivalente face a Paulo Rangel.

Várias vezes, tenho lido e ouvido, até em debates onde coincidimos, reflexões suas sobre questões europeias que relevam da sensatez de alguém que, tendo uma sólida formação académica, tem vindo a refletir com serenidade sobre o estado da Europa e das suas políticas e, no seu caminho recente pelas instituições bruxelenses, tem aproveitado para sedimentar ideias e decantar juízos que podem ajudar à construção de uma nova postura nacional nesse contexto. Num país que não se pode dar ao luxo de clivagens levianas na sua postura externa, algumas ideias de Paulo Rangel merecem ser ponderadas.

Contudo, e para (já não muita) surpresa minha, esse mesmo Paulo Rangel convive, frequentemente, com uma personagem com laivos trauliteiros, quase populistas, com um tropismo para o ataque descabelado e "ad hominem", nada consentâneo com o perfil respeitável antes referido. Fica a sensação de que o intelectual Paulo Rangel, não encontrando entre os seus um ambiente de apreço e acolhimento à altura da qualidade das suas ideias, se resigna a procurar aplausos de satisfação através de um recurso a um registo caricatural, demagógico, descendo o discurso a níveis que chegam a chocar pelo seu primarismo.

O que Paulo Rangel ontem afirmou na "universidade de verão" do seu partido, mesmo descontado o facto de se estar em tempo de campanha eleitoral (mas talvez justificado por ser na "silly season") toca um registo verdadeiramente inqualificável. Duvido seriamente que o intelectual Paulo Rangel, regressado à serenidade do seu gabinete, possa aceitar, sem um sorriso embaraçado, o que o militante Paulo Rangel foi capaz de afirmar, em coreografia saltitante de palco, para arrancar alguns títulos e meia dúzia de palmas de "jotas".

Há uma coisa que, um destes dias, Paulo Rangel vai ter de decidir, de uma vez por todas: se quer ser levado a sério ou não.   

China


A economia chinesa está em forte desaceleração e isso está a ter impactos negativos sérios nos países cuja produção era absorvida pela expansão dessa economia.

Este interessante mapa do "The Economist" mostra, em percentagem das exportações por cada país, essa mesma dependência.

Olhe-se a África Subsariana (Angola e Moçambique), os países do Golfo, o Irão, Ásia Central, a Austrália, mas também alguma América do Sul (Argentina e Chile, mas também Brasil, Venezuela e Colômbia) e, naturalmente, muito do Sudeste asiático. Curiosamente, verifica-se que Índia e Indonésia não sofrem efeitos significativos.

Ingrid Bergman


Passam 100 anos desde que nasceu e o "toast" de Rick continua cada dia mais válido: "Here's looking at you, kid!"

sábado, 29 de agosto de 2015

A sina do Brasil


Um gráfico do "The Economist" que é muito elucidativo sobre a evolução do PIB no Brasil. Creio que isto pode ajudar a entender também a situação política que por lá se vive. Ou, como disse um dia James Carville, numa célebre réplica para explicar as flutuações do eleitorado, na campanha presidencial de Bill Clinton: "It's the economy, stupid!". 

A riqueza no mundo


Uma imagem muito elucidativa sobre o modo como se distribui a riqueza pelos países do mundo.

A ferramenta

Era 1975, foi há precisamente 40 anos. Aproximavam-se as eleições para a Assembleia Constituinte, no dia 25 de abril. O país estava ao rubro. Um mês antes tinha sido o "11 de março", as nacionalizações, um crescendo de tensão que iria transformar o verão seguinte em meses de inusitada conflitualidade política. Os partidos, em especial à esquerda, eram então imensos, nasciam como cogumelos, as paredes estavam pintadas ou pejadas de cartazes com os símbolos e as frases de apelo e luta.

Numa "saltada" de Lisboa a Vila Real, aproveitei para ir às Pedras Salgadas. Por lá moravam, numa mesma casa, quatro tias, irmãs da minha avó, duas solteiras e duas viúvas, que ainda hoje fazem parte da minha mais saudosa memória afetiva. Ir ver "as tias" não era uma obrigação, era um imenso gosto conversar e tomar o inevitável chá com aquelas bondosas e incomparáveis senhoras que, à época, tinham entrado quase todas na casa dos 80 anos.

A política nunca fora tema de conversa naquele ambiente mas, mais por curiosidade do que por outra coisa, não deixei de lhes perguntar se já tinham decidido em que partido ou partidos tencionavam votar, nas eleições que estavam à porta, de que tanto se falava. A televisão era a sua companhia habitual e, não sendo embora pessoas muito ilustradas, eram pessoas atentas à realidade e com um grau de educação que lhes facilitava o acompanhamento da situação. A Revolução não era, com certeza, algo que as sossegasse, tanto mais que, na nossa família, o 25 de abril trouxera algumas consequências pessoais menos fáceis de gerir e, em certos casos, suscitara temores que eu me divertia sempre em amenizar.

Com exceção de uma delas, apenas ligeiramente mais nova, regressada poucos anos antes do Porto, onde vivera bastante tempo, e que talvez votasse no PS, eu estava em absoluto convicto que o CDS ou o então PPD seriam o destino normal dos votos das outras minhas tias. Talvez tivessem mesmo sido já "apalavradas" pelo prior da freguesia, o excelente e simpático padre Domingos, que, com certeza, seguia a onda de um clero nortenho que, à época, "diabolizava" fortemente a esquerda.

Recordo-me, contudo, que se mostravam muito hesitantes, julgo que chegaram a perguntar-me a minha opinião (eu ia votar no MES, mas não tinha coragem de as tentar convencer...), embora sem necessariamente prometerem seguir o que eu dissesse, claro. Até que uma delas contou:

- Esteve cá há dias a dona Albertina - que tu conheces! - e veio falar-nos das eleições, dos comunistas e coisas assim. Deu-nos um conselho...

Fiquei imensamente curioso sobre qual teria sido o "conselho" da dona Albertina, uma senhora bastante mais nova, que tinha vivido até há pouco em Lisboa, que devia andar a fazer proselitismo conservador, pela certa. Mas a minha curiosidade foi logo saciada:

- Ela disse-nos que se pode votar em todos os partidos desde que não tenham ferramenta no emblema...

Dei uma imensa gargalhada, lembrei-me da imensidão de foices e martelos que adornavam as imagens dos partidos, bem como de enxadas e rodas dentadas que ilustravam outras formações. O conservadorismo da dona Albertina, afinal, era muito moderado. Aliás, a senhora informara-as de que ia votar no "partido da mãozinha", do Mário Soares, que "parecia boa pessoa e que não gostava dos comunistas".

Nunca soube ao certo em quem votaram as minhas queridas tias. Uma coisa sei hoje, de ciência certa. Por essas e por outras é que o PCP guarda nas eleições "a ferramenta" e opta por um azul celestial em lugar do vermelho da luta. Brincamos, não?!

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Notas presidenciais

  1. Sampaio da Nóvoa arrisca-se a vir a perder as eleições menos por falta de apoios do que, afinal, por ter "certos" apoios. A "simpatia" implícita revelada por Jerónimo de Sousa é um verdadeiro "beijo da morte". Depois do "Livre" e de Daniel Oliveira, só espero que o nosso amigo Otelo não decida anunciar que vota nele... Ah! e Boaventura Sousa Santos!
  2. A desistência de Santana Lopes da corrida presidencial foi o único argumento que me convenceu, em definitivo, de que Durão Barroso já não mantém qualquer intenção de concorrer a Belém. Era claramente o candidato preferido de Cavaco Silva, que até fez, a seu jeito, a "job discription" do seu sucessor ideal. Passos nunca o rejeitaria, Marcelo e Rio respeitariam o "ceda el paso", o PSD começa a esquecer a "fuga" (até a "jotaria" laranja já lhe aplaude as enfáticas platitudes). Resta, no entanto, o país, claro!
  3. Posso estar enganado, mas creio que a saída de cena de Lopes pode vir a acelerar fortemente as ambições de Marcelo Rebelo de Sousa, que deixa de ter um forte concorrente como "animador" de plateias do "PPD-PSD" de outros tempos. Com as tribunas mediáticas que detém, o sentido do voto de Lopes também não deixará de ter algum peso. Para onde se inclinará?
  4. Creio que Maria de Belém não tem razões para estar sossegada. Para além do facto de que alguns dos seus apoios emergirem de áreas com algumas fragilidades, como o tempo revelará (e, se não for o tempo, serão os seus opositores)!, há por aí algum "ruído silencioso" que me leva a pensar que as hipóteses de vir a surgir mais alguém que "cubra" o centro (esquerda e direita) são bastante elevadas. Os altares andam agitados...
  5. O último ano revelou que, afinal, Marinho Pinto não se "enxergava", como dizem na minha e na terra dele. Desperdiçou, com um comportamento errático e incoerente, todo o capital que conquistara com as suas populares intervenções televisivas. Confesso que cheguei a pensar que uma sua candidatura poderia fazer "estragos" nas presidenciais. Enganei-me redondamente, embora o "sistema" mediático já o tivesse condenado, retirando-o artificialmente dos debates (a imprensa tem "donos", diga-se o que se disser, e eles, como os 'inteligentes" das corridas de touros, não gostam de espontâneos). Afinal, até no seu nicho da "corrupção & crimes similares" Marinho Pinto se deixou ultrapassar por aquele candidato com ar grave cujo nome me escapa e que deve vir a ter o apoio da Associação dos Cabeleireiros do Sul e Ilhas...

O "Ancoradouro" no "Ponto Come"


No blogue "Ponto Come", cá da casa (basta clicar na fotografia da mesa que está na margem direita deste blogue para ter acesso), pode encontrar hoje a crónica "gastrófila" de uma visita que fiz ao restaurante "Ancoradouro", em Moledo do Minho, ali a dois passos de Caminha. 

Estas despretensiosas notas de visita (que, atenção!, não têm o estatuto de avaliações sobre a qualidade gastronómica das casas visitadas, porque não me sinto qualificado para tal) surgem na última sexta-feira de cada mês na revista "Evasões", que é distribuída gratuitamente com os jornais "Diário de Notícias" e "Jornal de Notícias".

Desde que iniciei esta colaboração, elaborei notas sobre os restaurantes "Lameirão" (Vila Real), "Toca da Raposa" (Ervedosa do Douro), "Dom Joaquim" (Évora), "Queirós" (Avelãs do Caminho" e agora sobre o "Ancoradouro" (Modelo).

Um ministro para a Europa?


Há dias, António Costa disse ter a intenção dar ao titular dos “Assuntos europeus”, num seu futuro governo, um estatuto superior ao de “secretário de Estado”.

Há precisamente 20 anos, quando entrei para o governo como secretário de Estado dos Assuntos europeus, a questão não se colocava. Embora outros países tivessem “ministros” nessa pasta, as nossas competências eram, em absoluto, idênticas. Durante os mais de cinco anos em que exerci o cargo, nunca senti que o meu estatuto, exercido sob a tutela do ministro dos Negócios estrangeiros, me criasse a menor limitação. Creio que o meu antecessor, que havia exercido o cargo durante uma década, também não havia tido qualquer dificuldade.

A Europa mudou muito, desde esses tempos. Por muito que os claustros das Necessidades não gostem de ouvir isto, há que convir que muitas questões europeias se situam hoje numa dimensão que é já bastante menos “Negócios estrangeiros”, tendo uma natureza diferente, quase doméstica. Alguns ministérios “sectoriais” (como no MNE gostamos de os apelidar) criaram uma massa crítica capaz de levar a Bruxelas, com grande competência, a voz das respetivas áreas. O problema é que cada um tende a fazê-lo por si e alguém tem sempre que dar coerência à posição de todos. E só o MNE pode fazê-lo.

Acresce que o nefasto Tratado de Lisboa afastou os ministros dos Negócios Estrangeiros da mesa dos Conselhos europeus, onde os chefes de Estado e governo tomam as mais importantes decisões. A este afastamento físico dos MNE, correspondeu um aumento da importância dos ministros das Finanças, transformados hoje nos verdadeiros “braços direitos” europeus dos chefes dos executivos. E nas Finanças, como é sabido, trata-se de … finanças!

Estes são os factos. A conjugação de ambos os fenómenos, que julgo imparáveis, tende a uma progressiva degradação da coordenação da posição nacional na Europa, que só os “Estrangeiros” conseguem fazer, tanto mais que no seu âmbito continuarão a residir temáticas em que são insubstituíveis – como as dimensões externas da União e as questões institucionais.

Assim, a ideia de nomear um membro do governo com o estatuto de “ministro” para os Assuntos europeus, naturalmente como adjunto do MNE e sem ter ministério próprio (Costa disse, aliás, que haveria ministros neste modelo), poderá fazer algum sentido. Esse membro do governo, pelo seu estatuto, teria assento no Conselho de ministros, o que lhe conferiria muito maior autoridade e capacidade de interlocução. Por seu turno, a ligação ao MNE permitiria que, no quadro da ação externa global do Estado, a política europeia preservasse plenamente o seu lugar. Coisa que hoje não acontece porque, como é sabido, este governo se “dispensou”, desde a sua entrada em funções, de ter uma política para a Europa.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Hermínio Martins (1934-2015)


Em dezembro de 1972, numa das minhas primeiras visitas aos Estados Unidos, deu-me para procurar na New York Public Library obras em inglês sobre o Estado Novo. A certo passo, deparei com um livro de textos sob o título "European Fascism", com um capítulo sobre Portugal, publicado anos antes, em Londres, assinado por Hermínio Martins. 

Quem seria Hermínio Martins? Não tinha então menor referência sobre nome, o que era natural, tanto mais que eu não era um especialista, apenas um mero curioso do tema. Ainda pensei que fosse um pseudónimo, embora o texto trouxesse uma nota concreta sobre a ligação universitária do autor. Fiquei sempre com vontade de saber mais sobre a pessoa por detrás daquele nome.

Passaram alguns anos até que comecei a saber um pouco sobre Hermínio Martins e, finalmente, acabei por comprar o livro que vira em Nova Iorque (hoje muito desatualizado, face à investigação posterior, nos vários casos abordados). Fui-o lendo, entretanto, em outros livros e em artigos publicados em revistas. Achei sempre muito curiosa a sua perspetiva pluridisciplinar, onde a sociologia se misturava com a filosofia, numa escrita aliás pouco vulgar, recheada de temáticas complementares inesperadas.

Quando fui viver para Londres, em 1990, estabeleci contacto com Hermínio Martins, creio que por intermédio do Eugénio Lisboa, e talvez também do Rui Knopfli. Recordo-me de ter convencido o embaixador Vaz Pereira a convidá-lo para um almoço na embaixada. O almoço não foi aquilo a que se poderá chamar um grande sucesso. Hermínio Martins falava pouco, a conversa "desligou-se" e, manifestamente, não conseguimos gerar um ambiente estimulante, não interessa agora saber por culpa de quem.

Alguns anos mais tarde, durante a visita de Estado de Mário Soares ao Reino Unido, insisti pela inclusão do nome de Hermínio Martins no grupo de intelectuais que ali viviam e que o presidente português entendeu dever condecorar.

As últimas décadas acabaram por trazer o reconhecimento devido a Hermínio Martins, cujo perfil intelectual e académico, a começar pela sua contribuição para a sociologia britânica, estão hoje estabelecidos de forma incontroversa, ao que leio. Também em Portugal, graças a vários seguidores e colegas, esse reconhecimento impera, sendo considerado uma das figuras cimeira das nossas ciências sociais.

Li agora no "Público" que Hermínio Martins morreu, em Oxford, na passada quarta-feira.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Abastecimento

Surgiu ontem a história de uma chinesa que, impedida de entrar num avião com uma garrafa de cognac, decidiu bebê-la toda de seguida e, claro, acabou muito mal...

Esta história trouxe-me à memória um episódio que faz parte dos anais de uma certa boémia de Vila Real, nos anos 50/60.

Havia na cidade um grupo de amigos, sob a liderança benévola de António Fernandes, um homem abastado e "bon vivant", conhecido pelo "Antoninho do Talho", que se dedicavam a grandes "tainadas" e imemoriais convívios. Às vezes, o convívio prolongava-se mesmo em viagens ao estrangeiro, de que há anedotas deliciosas, algumas das quais citadas em livros. 

Havia, porém, uma limitação forte na logística dessas deslocações: a necessidade de levarem o próprio vinho, aparentemente por não confiarem na capacidade de um abastecimento à altura, lá pela estranja. Ficou mesmo nas lendas o despacho de uma partida de garrafões numa ida ao Brasil, no famoso "Voo da Amizade", então promovido pela Tap e pelas desaparecidas Panair e Varig.

A historieta de hoje, que veio a propósito do drama da chinesa, é bastante mais prosaica e, ao que se conta, teve lugar na fronteira entre Quintanilha e San Martin del Pedroso, na estrada de Bragança e Zamora. 

À passagem do automóvel da divertida comitiva, que iria com destino a Paris, a polícia espanhola, como era de regra, mandou abrir a bagageira da viatura e, deparando com uma imensidão de garrafões de vinho não declarados "para exportação", fez menção de reter a vital mercadoria. O pânico pela iminente desaparição dos néctares instalou-se nos viajantes, que tentaram explicar que todo aquele "material" era, muito simplesmente, para consumo. Os guardas vestidos de cinzento, abotoados até ao pescoço, com os famigerados chapéus pretos em forma de tricórnio, não se mostravam convencidos do destino não comercial do vinho.

Terá sido então que o Magalhães, uma divertida figura da família dos Macário, sacou a rolha de um dos garrafões e iniciou o respetivo emborcanço, para estupefação dos cívicos, apenas como forma de revelar o nível de consumo que era expectável no grupo. Um dos polícias mandou então suspender o ato e, ao que reza o mito urbano, terá constatado: "Van ustédes muy mal suministrados"... E lá os deixou seguir!

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Conversas na Caravela (2)

- Trouxeste azar às Festas! Com a chuva, não houve procissão...

- Ora essa! A culpa não foi minha! Foi do Costa e do Nóvoa! 

- Porquê?

- Repara que, nos dias em que eles andaram pela Senhora da Agonia, não choveu nem uma gota. Logo que zarparam de Viana, foi o que se viu.

- Queres tu dizer que o Costa e o Nóvoa trazem consigo o bom tempo?

- Por mim, não duvido! O importante era que todo o país também acreditasse...

Uma história feliz


Esta história aconteceu mesmo.

O jovem militar Francisco da Costa Gomes, que mais tarde viria a ser presidente da República, passou um dia pelo atelier do seu amigo Henrique Medina, em Lisboa, e ficou deslumbrado pela figura representada no retrato que aqui se reproduz. Costa Gomes era um transmontano de Chaves. Maria Estela, a jovem que figurava no quadro vestida de "mordoma", era uma minhota de Viana do Castelo. Costa Gomes quis conhecer a jovem. E conseguiu. Dois anos mais tarde, apaixonaram-se e viriam a casar. O quadro passou a fazer parte da sua vida. Depois de ambos falecerem, a Câmara Municipal de Viana do Castelo tomou a boa decisão de o adquirir. Hoje, figura no respetivo salão nobre, onde o fui agora encontrar.

Há histórias felizes.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Folhetim

Os "folhetins" de Verão têm uma certa tradição na imprensa francesa, onde divertem um público de leitores predispostos para olhar as coisas da política com alguma leveza, bem ao jeito de uma estação do ano que convida ao sorriso e à forma menos séria de olhar para as coisas. Por alguma razão os ingleses chama a esse período " silly season". 

Este ano, o "Diário de Notícias" enveredou pelo modelo de folhetim, construindo um cenário político de fantasia, estrelado pelos atores que todos conhecemos, embora colocando-os num "script" diferente. Os textos têm sido deliciosos, com uma densidade de pormenores que quase nos dá pena que a realidade não acompanhe a ficção.

No final do mês, creio, o folhetim cessa e, para nossa tristeza, ficaremos reduzidos à realidade. 

domingo, 23 de agosto de 2015

Fernando Gomes da Silva


Há dias, na praia, uma voz forte chamou-me. Olhei e era o meu amigo Fernando Gomes da Silva. Demos um abraço do tamanho do mundo!

Durante alguns anos, tive o gosto de fazer parte de um governo em que o Fernando foi ministro da Agricultura. Eramos ambos "independentes" num executivo PS, mobilizados pelo entusiasmo de integrarmos a equipa de António Guterres.

Fernando Gomes da Silva é um homem frontal, cujo desassombro me habituei a apreciar. Corajoso e sabedor das coisas do setor, o Fernando criou alguns inimigos ferozes. Certa imprensa, mobilizada por alguns deles, nunca o poupou.

O país recorda, como anedota, a sua imagem a comer mioleira num restaurante do Luxemburgo, no auge da crise das "vacas loucas". Foi um erro mediático? Não, foi um gesto que pretendia sublinhar que o principal responsável pelo setor agrícola português considerava que as medidas postas em prática para a defesa da saúde pública dos consumidores europeus, nesse caso no Luxemburgo (onde nenhum caso de BSE alguma vez foi detetado), eram adequadas e que ele próprio "corria um risco" que considerava não existir. Pois ainda hoje, quase duas décadas passadas, há quem tente ridicularizar uma atitude que era a mais racional possível.

Numa outra ocasião, quando os agricultores portugueses desceram à rua, na Baixa lisboeta, para protestar contra uma medida europeia, no âmbito da Política Agrícola Comum, o Fernando saiu do gabinete e teve a coragem de se juntar aos manifestantes, para lhes expressar a sua solidariedade. Portugal tinha-se batido em Bruxelas, sob a sua orientação, para que a medida tomada, lesiva dos nossos interesses, não fosse adotada. Infelizmente, numa votação para a qual não havíamos conseguido, com outros países, gerar uma minoria de bloqueio suficiente, os ventos não correram a nosso favor. Fernando Gomes da Silva achou então adequado - e eu também achei! - sair para a rua e prestar a sua solidariedade aos nossos agricultores, por quem ele sempre se batera, e bem! Ora foi o bom e o bonito! "Ridículo", "insensato" e outros epítetos bem piores foi o mínimo com que foi qualificado nos dias seguintes.

Um dia, uma folha de couve semanal que, por alguns anos, se dedicou, sob o gáudio alarve de algum país, a publicar notícias que se achava dispensada de confirmar, trouxe Gomes da Silva associado a um qualquer processo que, logo no dia imediato, a verdade se encarregaria de desmentir. Do meu gabinete, pelo "telefone branco" do governo, liguei ao Fernando, a prestar-lhe a expressão da minha amizade e apoio. Lembro-me, como se fosse hoje, da sua reação:

- Ó pá! Tu não imaginas a sensação que um tipo tem ao virar uma esquina, olhar uma tabacaria e dar de caras com a tua "fronha" na capa de um pasquim que te acusa de uma coisa que eles estão "desertos" de saber que é falso e cuja notícia, depois de lida, se percebe que não confirma o "escândalo" que é anunciado pelo título!

O Fernando estava indignado e tinha fortes razões para isso. Momentos como esse, bem como uma gestão sempre muito atenta dos nossos interesses em Bruxelas, que pude acompanhar de muito perto, criaram a imensa consideração e estima que hoje tenho pelo Fernando Gomes da Silva, um homem de bem e um fantástico servidor público, de quem tenho a honra de ser amigo. Espero poder continuar a encontrá-lo pelas areias da vida, agora que, como se diz no futebol, em definitivo, ambos "pendurámos as chuteiras" da política. 

Ceuta


Foi em 21 Agosto de 1415. Caramba! Já lá lá vai algum tempo!

"Chegámos" (este plural majestático dá jeito, quando nos calha partilhar glórias) a Ceuta, tomámos a cidade "aos mouros", iniciámos a expansão - embora tivesse havido uma forte pausa temporal antes do início das fantásticas navegações atlânticas.

Seria pela aventura? Seria pela fé? Seria pelo interesses? Há anos, durante a ditadura, um historiador felizmente ainda vivo, Borges Coelho, publicou o livro "Raízes da Expansão Portuguesa" em que defendia que tinham sido as motivações materiais a alavanca essencial da vontade por detrás do empreendimento. O livro foi recolhido pela PIDE!

Fosse por que razão fosse, foi um tempo muito interessante da história de um pequeno povo que teve como destino andar pelo mundo, Às vezes por boas razões, outras vezes por motivos menos bons.

A figura

Os dois miúdos rondavam há vários minutos as mesas da esplanada daquele café lisboeta, numa das quais se sentava uma conhecida figura da política portuguesa, há muito retirada das lides, mas que frequentemente era ainda recordada nas televisões. Olhavam para a pessoa de várias perspetivas, trocando sussurros entre si. Teriam, no máximo, uns doze anos. Depois de uns minutos de hesitação, um deles, deixando o outro à distância, aproximou-se da mesa e perguntou: "Você é o f....". O antigo político olhou então o garoto e limitou-se a responder: "Sou, sou eu!" É então que esse mais atrevido, de longe, se volta para o outro e, bem alto, exclama, orgulhoso da sua razão: "Eu não te dizia que ele não tinha morrido?!"

sábado, 22 de agosto de 2015

Conversas na Caravela (1)

- Sabias que o Nóvoa já esteve cá em Viana, nas festas?

- Sim e o António Costa também. A Senhora da Agonia atrai sempre muitos políticos.

- Mas a Maria de Belém não vem!

- Porquê?

- Não sei, mas alguém dizia, há pouco, que, por qualquer razão, ela prefere a Senhora dos Remédios...

- Na realidade, até me parece que a Senhora da Aparecida seria mais adequada.

- Esperemos que não acabe por ser a Senhora da Pena! Ou mesmo a das Dores!

- Também pode ter sorte e acabar por ser a Senhora da Hora.

- Se assim fosse, o Nóvoa seria o Senhor dos Aflitos...

- Logo veremos. Cada coisa a seu tempo. Para já, o importante é que o Costa ponha o Senhor dos Passos "com dono"!

Senhora da Agonia


Nunca foram à Senhora da Agonia, as festas de Viana do Castelo? Não? Então não sei que lhes diga...

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Conversas no Pereira (9)

- Já te vais embora? Este ano, vi-te pouco aqui pelo Pereira...

- Tens razão. Muita praia, muita coisa para ler, gente lá por casa...

- Nas nossas conversas, senti-te sempre um pouco preocupado com a política.

- É verdade, estou.

- Achas que alguém do PS acabará por ganhar as eleições presidenciais?

- Espero que o PS acabe por ganhar alguma coisa nessas eleições...

- Ah! Sim!? O quê?

- Pelo menos, juízo!

Os genéricos não funcionam?

Quando cheguei ao Brasil, em 2005, algumas pessoas que fui conhecendo, pertencentes a setores poderosos da sociedade, diziam-se "envergonhados" com o presidente que tinham. Sempre "à boca pequena", escarneciam de Lula da Silva, chamavam-lhe analfabeto e contrastavam-no com Fernando Henrique Cardoso, que tinha deixado a presidência dois anos antes.

A minha linha argumentativa contra esta ideia era simples: com FHC, o Brasil tinha ganho um estatuto internacional que a "velha" política brasileira nunca tinha obtido. O facto de um intelectual da craveira de FHC, uma figura impoluta e um homem com grande visão estratégica, ter sido sucedido, sem o menor sobressalto, por um líder sindical com forte sentido social, sem radicalismos nem pulsões revanchistas, mostrava a vitalidade do modelo político brasileiro e a maturidade da sua sociedade. Os brasileiros tinham fortes razões para estarem orgulhosos de ambos.

Não tenho a certeza de ter convencido os meus interlocutores. Com a passagem do tempo, com o evidente êxito de Lula, esses setores acalmaram, no entanto, as suas críticas. O Brasil crescia, as tensões sociais pareciam amainadas, a pobreza reduzia-se fortemente, a marca do país estava em alta, o Brasil “dava certo”. Foi o tempo do “bolsa-família” e do “fome zero”, o biodiesel parecia um maná, o “pré-sal” anunciava amanhãs gloriosos e, o que era mais importante, um futuro de desenvolvimento imparável e sustentado. O Brasil “dava cartas” pelo mundo, tratava por tu o G8, era estrela no G20, na OMC, nos BRICS, no IBAS, cortejado pelo Norte, visto como farol no Sul.

O escândalo do “mensalão” provou que o PT, que chegara ao poder sob uma agenda de “pureza” regeneradora, se comportava basicamente como aqueles que criticara. Para se defender da desilusão, o Brasil “fez de conta” que acreditava que Lula nada sabia das tramóias feitas para o manter no poder. E reelegeu-o. O segundo mandato foi menos glorioso, mas, ainda assim, beneficiou do facto da crise internacional ter chegado tarde ao país, convertido por algum tempo, como outros emergentes, em refúgio de capitais, perante a anarquia financeira que se vivia a Norte. 

Lula não podia ser reeleito, com pena de muitos brasileiros e de grande parte do empresariado. Para lhe suceder, impôs a ministra política com perfil técnico mais evidente. “Lula elege um poste”, dizia-se no Brasil. Mas Dilma Rousseff não era Lula e nunca criou um laço afetivo com um país em derrapagem económica. Perante uma vaga de escândalos, entrou numa alucinante perda de legitimidade. Completamente inábil na relação com o Brasil, confirmou o receio de muitos hipocondríacos: os genéricos não funcionam.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A Rússia, a NATO e a Ucrânia

A tensão atual NATO-Rússia parte de duas realidades incontroversas e potencialmente conflituantes entre si.

De um lado, está o tropismo ocidental, muito estimulado pelos Estados Unidos e pelos países saídos da tutela soviética, de explorar a fragilidade de Moscovo, no pós-guerra fria, para "ganhar terreno" o mais a Leste possível. As aventuras americanas na Geórgia e até, por algum tempo, na Ásia Central (neste caso, a pretexto da luta contra o terrorismo), são disso flagrante exemplo.

Do outro lado, está a vontade da liderança russa de resgatar o sentido de derrota que, para o seu povo, constituiu o fim da União Soviética e o declínio, como potência, que daí resultou para a Federação Russa. A chefia de Putin, instituindo um regime autoritário que apenas salvaguarda os "mínimos" democráticos, parece ir bem com o sentimento maioritário de um país que se sente humilhado e, de certo modo, permanece sob um temor de "cerco".

Neste cenário de fundo, projeta-se a Ucrânia.

A Ucrânia é um "Estado-charneira", onde convivem (conviviam?) perceções antagónicas, polarizadas pelos dois "mundos" acima referidos. A razoabilidade aconselharia a que os sinais dados a Kiev, por ambos os lados, fossem no sentido de entender a sua especificidade geopolítica, com vista a combinar, com gestos de prudência, a compatibilidade com essas duas realidades.

O ocidente, na continuidade do tropismo liderado pelos EUA, que atrás referi, estimulou a reversão, num golpe de Estado de rua, de um presidente ucraniano que a comunidade internacional sempre considerou ter sido legitimamente eleito, mas que, aparentemente, tinha o "defeito" de ser pró-russo.  Contribuiu assim para a implantação em Kiev de um poder político que logo sonhou com a entrada na União Europeia e mesmo na NATO.

Num ambiente de crescente agressividade face às populações russófilas e russófonas do país instituído pelo novo regime, não foi espanto para ninguém que estas reagissem no sentido de salvaguardar os direitos que tinham desde a independência do país. E parece também de falsa inocência a admiração com que se olhou para o facto da Rússia ter avançado em apoio a essas populações.

A essa manobra ocidental despudorada, que legitimou o atropelo dos direitos das populações russas da Ucrânia, correspondeu, entretanto, um avanço oportunista russo, que aproveitou o ensejo da guerra entre os seu aliados russóficos e o novo poder em Kiev para "deitar mão" à península da Crimeia, cuja tutela ucraniana lhe tinha "ficado atravessada" desde o fim da União Soviética.

O ocidente, aturdido, "bombardeou" então a Rússia com declarações fortes, comunicados graves e algumas sanções - um preço barato para uma zona de imensa importância geopolítica. No chamado "acordo de Minsk", que estabelece as bases para o cessar-fogo na guerra breve entre o governo ucraniano e os separatistas pró-russos, a palavra "Crimeia" são surge, o que já representa uma incontestável vitória russa.

Entretanto, o esperado incumprimento do "acordo de Minsk" acabou por suceder. As culpas estarão de ambos os lados, não sendo de excluir que o lado pró-russo, manipulado pelo interesse de Moscovo, seja o mais empenhado em provocar uma confrontação como a que está a ocorrer em torno de Mariupol, cidade dominada pelo exército de Kiev, e cuja tomada pelos separatistas poderia significar, para Moscovo, a concretização do "sonho" de ligação terrestre da Federação Russa à península da Crimeia, até agora uma espécie de "ilha", difícil de manter por via marítima. O aproveitamento do fator climático, isto é, a oportunidade das próximas semanas de tempo razoável para facilitação de ações militares, pode ter aqui algum papel.

Esta tensão localizada, somada a outros incidentes que mostram o que muitos sabiam já há muito - que o "acordo de Kiev" era muito difícil de subsistir -, está a criar uma crescente tensão entre a Rússia e o ocidente, isto é, a NATO, isto é, os Estados Unidos. A União Europeia tem aqui um papel subsidiário, com a Alemanha e França a "fingirem" ser poder, quando, na realidade, estão "mortas" para restabelecerem os seus negócios com Moscovo mas, ao mesmo tempo, não querem desagradar aos Estados do Centro e Leste, sob uma liderança inconstante da Polónia, cuja relação traumática com a Rússia lhes cega a racionalidade.

Estes Estados, dentre os quais os países bálticos alimentam uma linguagem mais belicista, confiam muito pouco na União Europeia e colocam todas as suas cartas na NATO, o que é o mesmo que dizer nos EUA. Porque já perceberam, e bem, que se 'isto der para o torto", só a força militar americana os pode salvar.

O drama essencial nesta conjuntura é, a meu ver, a assimetria nos modelos decisórios.

De um lado está a NATO, sujeita a regras claras, a uma "accountability" democrática, que nunca será facilmente mobilizável por pulsões "jingoístas" de alguns parceiros mais impacientes. Mais do que a sua força militar, que será tanto mais valiosa quanto não tiver de ser usada, a NATO consagra um corpo de compromissos muito fortes. Mas, precisamente porque assim é, a NATO não pode nem deve prestar-se a servir de escudo ao aventureirismo de alguns dos seus Estados, por muito importantes que eles sejam no seu seio. A decisão americana de enviar algumas centenas de pára-quedistas para a Ucrânia representa um desses atos que, sendo um risco americano na essência, configura um risco colateral para toda a Aliança.

Do outro lado está a Rússia. Para além da coreografia constitucional que lhe é própria, a realidade mostra que o poder, em Moscovo, não está sujeito a "checks-and-balances" similares aos do lado ocidental. Ora isso converte a Rússia num poder com contornos muito mais imprevisíveis no seu processo de decisão política, em particular, militar. E, por isso, os riscos potenciais do lado da Rússia são muito mais elevados.

Por tudo isto, o sentido de responsabilidade do lado da NATO torna-se ainda maior. A NATO não deve alimentar uma linguagem confrontacional e deve abster-se de atos de cariz militar, em termos de manobras e outros procedimentos de mobilização de tropas e meios de ação, que possam configurar um modelo de provocação suscetível de ser aproveitado pelo "outro lado". Noutro sentido, a NATO deveria definir no seu seio, de forma muito clara, mas sempre respeitando estritamente o seu estatuto e os mandatos multinacionais aplicáveis, o que entendem ser as "linhas vermelhas" que a Rússia não poderá ultrapassar, sem o que um conflito se tornará inevitável. E fazê-los saber a Moscovo, “alto-e-bom-som”.

A Guerra Fria provou que Moscovo é um leitor atento dos sinais claros que receba por parte de quem está disposto a fazer-lhe frente. O novo poder no Kremlin não é igual ao que existia durante a União Soviética. Por muitos defeitos que tenha, há mesmo que convir que é um pouco melhor.

(Artigo publicado no "Observador")

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Uma nova "suicide note"?

Poucas histórias políticas da esquerda, em democracia, são tão fascinantes como a do "Labour" britânico. A vida operária marcou fortemente o curso da sociedade do Reino Unido, dos sindicatos à intelectualidade, do "flirt" com o comunismo às conquistas do "welfare state". Pelo trabalhismo britânico passaram algumas das figuras que orientaram o turbulento curso político progressista no mundo industrializado. A Inglaterra foi, desde sempre, um dos grandes laboratórios da esquerda na Europa.

Quando vivi em Londres, assisti ao sonho de Niel Kinnock de recuperar os anos perdidos com a aventura Michael Foot, autor de um programa político tão radical que foi humoristicamente considerado "the longest suicide note in History". Antes, não conseguindo cavalgar a onda que Harold Wilson desenhara na vida britânica dos "swinging sixties", James Callaghan havia revelado uma rara inabilidade para lidar com o radicalismo de Arthur Scargill e das suas tropas sindicais e, dessa forma, contribuiu para abrir o caminho a Margareth Thatcher. O esquerdismo de Foot (e de Tony Benn) conduziu ainda à cisão social-democrata protagonizada pelo SDP do "bando dos quatro". Na oposição, Foot ainda tentou o compromisso impossível com as "Unions" e, também desajudado pela guerra das Falkland, acabou por contribuir para que a "dama de ferro" se prolongasse em Downing Street.

Kinnock, que o substituiu, iniciou então a árdua tarefa de libertar o "Labour" do "block vote", "modernizou" o programa, mas nem sequer foi capaz de derrotar John Major, o que constituiu uma imensa "proeza" política. Seria sucedido, brevemente, por John Smith, cuja morte súbita abriu o caminho a Tony Blair. Com Blair e o seu "new Labour", o trabalhismo chegou ao "grau zero", ajudando fortemente a uma descaraterização ideológica que varreu toda a esquerda europeia, a que nem Portugal escapou. Com uma esquerda que "fazia de direita", os conservadores foram forçados a atravessar um deserto que só terminaria quando Blair, apanhado pelo descrédito e pelas mentiras do Iraque, passou a pasta a um Gordon Brown que, em tempo de crise económica, perdeu a estafeta para uma rara aliança entre conservadores e liberais-democratas. Foram depois os anos "shadow" de Ed Miliband, cuja manifesta inabilidade levou à reeleição reforçada de David Cameron.

Com esta forte derrota, os trabalhistas entraram num novo ciclo sucessório. A crer nas sondagens, a nova liderança poderá vir a ser chefiada por Jeremy Corbyn, uma figura da ala esquerda do partido que, em Portugal, andou já por iniciativas do Bloco, o que é muito significativo. A ser esta a escolha, que alguns já olham como um novo erro de "casting", o "Labour" pode vir a fazer um dos maiores erros táticos da sua história, afastando-se do "mainstream" do poder ou, para utilizar uma expressão que a nossa "esquerda da esquerda" detesta, deixando-o longe do "arco da governação" por muitos e bons anos. Tony Blair disse isso mesmo, há dias. Nem o facto de isso ter sido dito por ele transforma, necessariamente, o que é uma evidência num prognóstico errado.

Paris, Texas



Chama-se Harry Dean Stanton, é um excelente ator americano, que está a fazer um papel secundário num filme menor, que passa neste momento na RTP1.

Foi há mais de trinta anos que, ao lado de uma inesquecível Nastassja Kinski fez esse objeto de culto, realizado por Wim Wenders, que tem o nome de "Paris, Texas". 

Santon tem hoje 89 anos. Sei lá a idade da Nastassja! Para mim, ela terá, para sempre, aqueles 23 anos...

terça-feira, 18 de agosto de 2015

As guerras do turismo

O atentado de ontem em Bangkok veio chamar uma vez mais a atenção para a imensa fragilidade que sofrem, nos dias de hoje, as economias que têm uma forte dependência das receitas do turismo. Aos movimentos e forças políticas, internas ou externas, que pretendem instabilizar esses países basta-lhes "plantarem" uma bomba ou organizarem um atentado, que terão uma expressão mediática global, para induzirem nos potenciais visitantes um automático receio, que os levará à escolha de destinos alternativos. As férias são um tempo de lazer, normalmente com famílias, nas quais se procura precisamente a calma, o sossego e a segurança. Ao mais leve sinal de distúrbio num destino turístico que alguém estiver a considerar, é óbvio que o viajante irá procurar outras paragens.

Não vale a pena iludir que Portugal, e Lisboa em particular, está a beneficiar muito da instabilidade que afeta outros destinos turísticos tradicionalmente interessantes para os europeus. O que se passa no norte de África e até o ambiente social na Grécia acabaram por colocar Portugal na rota de muita gente que nunca nos tinha no mapa das suas preferências para férias. O surto de construção de hotéis e de instalação de hostels deve-se muito a este movimento, o qual, contudo, não nos deve iludir em definitivo.

Portugal tem condições excecionais para o turismo, desde o clima à gastronomia, da capacidade acolhedora das pessoas aos preços baixos, do golfe a destino para seniores. Mas é bom que se entenda que não somos, nem seremos nunca, um destino turístico com uma identidade própria muito forte, como é Paris ou Londres, como Nova Iorque ou Roma, que sempre serão polos de atração mundial, aconteça o que acontecer por lá. Também não temos pirâmides como o Egito, não temos Machu Pichu como o Perú, não temos Petra como a Jordânia, não temos Angkhor como o Cambodja. Assim, em caso de por cá vir a acontecer - lagarto! lagarto! - uma desgraça securitária, a nossa capacidade de recuperação, como destino turístico de massas, será muito mais difícil do que em qualquer daqueles outros destinos, à partida privilegiados por condições de atração únicas.

O que quis dizer com isto? Duas coisas: que a preservação da segurança deve, cada vez mais, estar na nossa agenda pública de preocupações e que é importante não nos deixarmos iludir muito pelo papel que o turismo pode continuar a ter na nossa economia. 

Aproveitar esta "onda" turística, explorá-la inteligentemente para melhorar e qualificar as nossas estruturas, materiais e humanas, de acolhimento é um imperativo. Mas, em matéria de planificação dos caminhos de futuro para a nossa economia, nunca devemos perder de vista que o turismo é uma atividade que depende muito da vontade dos outros, tem o caráter de um produto supletivo e não essencial e é passível de fortes variações conjunturais. Não ter isto em permanente conta pode acabar por conduzir o país a uma imensa ilusão.

A TV mínima

Já me não recordava bem do que era o Portugal dos quatro canais. Este Verão, em férias, tive o imenso privilégio de apenas dispor da RTP 1 e 2, da SIC e da TVI. Acresce o facto de uma tal TDT, que por aqui fornece estes canais, ter frequentes interrupções, com a emissão sonora a tornar-se gaguejante e as imagens a apresentarem regulares variações de abstracionismo furta-cores, qual fundo de caleidoscópio. Como não vejo telenovelas - creio que a última deve ter sido "O Astro", a sério! - nem acompanho regularmente nenhuma série (as que me interessam vejo-as em video, mais tarde), e dado que a televisão em minha casa não está nunca aberta às horas das refeições, o que me inibe de ver noticiários em direto, o meu Verão televisivo limitou-se este ano a uns documentários sobre peixinhos, a dois filmes e a algumas perguntas do "milionário" Malato (*). No essencial, a apreciar a excelente qualidade da RTP2, esse segredo bem guardado do nosso panorama televisivo.

Só nestas férias é que verdadeiramente tive consciência de que praticamente me desabituei de ver televisão em tempo real. Isto é, no resto do ano, habituei-me de tal modo ao sistema do cabo que, quase sempre, faço um "compacto" com zapping retrospetivo: consigo ver os telejornais de hora e meia em cerca de dez minutos, ouço apenas os comentadores políticos que me interessam, "passando à frente" os restantes (tal como a maioria das figuras políticas), recuso a 100% a menor conversa sobre futebol (em minha casa, não se ouvem comentadores, treinadores, dirigentes, jogadores, vendo os jogos sempre sem som, com música a acompanhar) e olho os filmes apenas quando tenho tempo para isso. Tornei-me, de facto, dependente do "puxa-à-frente-e-atrás" das gravações.

Mas, em férias, nem mesmo isso me fez falta. Está a ser muito saudável passar algumas semanas com "mínimos" em matéria de televisão. Há mais tempo para jornais, livros e conversa. Ah! E muita internet, claro.

Adenda em tempo: vi também um excelente concerto de Verão em Schonbrunn, na RTP2, claro.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A cor do protesto

A maioria da população do Brasil é negra ou "parda" (é este o nome oficial dos mulatos no Brasil). Essas "cores" são também as mais pobres e excluídas na sociedade brasileira.

Por que será que, ao que reporta a imprensa brasileira, praticamente não se vislumbram negros nas manifestações anti-Dilma?

Conversas no Pereira (8)

 - Há alguns índices positivos sobre a situação económica portuguesa que são incontestáveis.

- É verdade.

- De certo modo, isso acaba por tornar mais difícil a vida do Partido Socialista...

- Essa agora! Não sei porquê?

- Não sabes porquê? Porque isso pode ser posto a crédito do governo, por parte dos eleitores.

- Mas há uma explicação muito fácil para esse ambiente de crescente confiança na nossa economia. E o governo pouco tem a ver com isso, antes pelo contrário.

- Não me vais falar da melhoria da situação económica internacional, do efeito do "quantitative easing" do Dragui, do interesse da Europa em edulcorar o nosso ajustamento para não perder razão no caso grego, do rácio favorável euro-dólar, da queda do petróleo, dos sinais claros da retoma em Espanha...

- Também podia falar de tudo disso e de muito mais - como o aliviar da pressão social pela emigração, pelos bons resultados dos esforços dos empresários na exportação, por um surto de turismo que nos "cai no colo", sem a menor influência do governo, em especial pela depressão securitária de outros mercados. Mas há um outro fator bem mais importante, que ajuda a explicar o "bom humor" dos mercados face a Portugal.

- Qual é?

- Então não é evidente! São os mercados a antecipar já a chegada de António Costa a primeiro-ministro, a perspetiva do "recolher a penates" desta rapaziada da austeridade e a forte confiança já induzida externamente por uma próxima vitória retumbante do PS...

- ...

domingo, 16 de agosto de 2015

António de Almeida


- Nunca nos tinha chegado um convidado saído diretamente do túnel! 

Foi esta a exclamação risonha com que António de Almeida me recebeu, com a meia hora de atraso com que cheguei àquele jantar num restaurante de Regent Street, em Londres, nos idos de 1998. Eu vinha de Bruxelas, para onde regressaria no dia seguinte, apenas para palestrar durante o repasto, a convite do CPE, a que António de Almeida presidia. A minha hora de chegada, sem tempo para colocar a bagagem no Brown's, devera-se a uma inesperada (e muito pouco confortável, diga-se) paragem do comboio no meio do túnel que atravessa o canal da Mancha. 

Nessa noite, conheci pessoalmente o António de Almeida. De nome, sabia-lhe o percurso político e empresarial. Então, fui confrontado com a sua muito particular ironia, pelo humor criativo com que comentou aquilo que eu disse aos circunstantes - as coisas da Europa e do lugar português nela que, por esse tempo, me ocupavam os dias. Estabelecemos, a partir de então, um excelente relacionamento pessoal, que durou até hoje. Mais precisamente, até ontem, quando o António de Almeida morreu.

Recordo-me de o ter encontrado há escassas semanas, algures em Lisboa, de lhe perguntar pela saúde, que eu sabia abalada, de ele me ter falado de um internamento próximo. Era um homem grande, com um sorriso simpático, uma presença imponente. Tinha uma reconhecida qualidade, que eu sempre considero muito: a frontalidade e o desassombro. Guardo para sempre um momento, em S. Paulo, no Brasil, em que ambos "perdemos a cabeça", quase publicamente, perante a falta de sentido de Estado de um alegado governante, cujo nome já esqueci, cujo comportamento poderia ter sido lesivo dos interesses do país. O António e eu, em escassos minutos, colecionámos sobre aquela figura uma bela" palete" de adjetivos qualificativos. Há um ano ou dois, numa livraria de Lisboa, rimo-nos a evocar essa nossa (patriótica) fúria.

Deixo aqui uma palavra sentida à memória de António de Almeida.

Dedicatórias


Há dois dias, alguém referia o facto do Miguel Torga não fazer dedicatórias nos seus livros. De facto, parece que praticamente ninguém se pode gabar de ter um volume em casa com a assinatura do dr. Adolfo Rocha - como Miguel Torga de facto se chamava. 

A mim, isso nunca me preocuparia. Por duas razões. 

Porque, embora transmontano e reconhecendo sem dificuldade a genialidade de Torga, nunca fui um grande apreciador da sua escrita e, devo confessar, também me irritou sempre muito aquele constante ar "trombudo" do médico coimbrão nascido em São Marinho d'Anta, que tinha, contudo, o grande e não despiciendo mérito de muito irritar a ditadura.

A segunda razão é muito pessoal. Por uma qualquer razão, nunca me interessei muito em ter nos meus livros dedicatórias dos autores, embora fique muito grato quando o fazem. Ultimamente, tenho-me confrontado com o embaraço de ver reproduzidas no site da Biblioteca de Vila Real, a quem estou a dar progressivamente todos os meus livros, algumas dedicatórias insertas nas suas primeiras páginas. Nunca percebi se é ou não delicado depositar numa biblioteca livros que nos foram oferecidos pelos respetivos autores, com notas pessoais manuscritas.

Mas, falando em delicadeza, vou revelar um episódio de uma (não) dedicatória de um livro que me ficou "atravessado".

Gosto da escrita de Francisco José Viegas, de quem li praticamente tudo quanto publicou, mas que só vim a conhecer pessolmente há cerca de uma década. Bem antes disso, numa Feira do Livro de Lisboa, na barraca de uma editora que o publicava, pedi dois livros dele que então me faltavam. Depois de pagar, o vendedor voltou-se para mim e disse, apontando para o Francisco, que estava junto ao balcão: "Está aqui o escritor. Quer que ele lhe faça uma dedicatória?".

Eu fui apanhado de surpresa. Conhecia de fotografia Francisco José Viegas, mas nunca o tinha visto em pessoa. A minha reação foi a mais bizarra possível: "Muito obrigado, mas não é necessário". Não sei por que reagi assim - não sendo fã de dedicatórias nada tenho contra elas - pelo que o meu gesto foi de uma imensa indelicadeza. Recordo-me que o Francisco sorriu e eu saí dali, de imediato arrependido com a minha insólita atitude, a todos os títulos deselegante. 

Caro Francisco, se acaso ler esta nota, que ela sirva como pedido muito atrasado de desculpas (creio que nunca lhe referi isto pessoalmente). E, já agora, vamos então marcar aquela nossa conversa que está atrasada desde o ano passado.

sábado, 15 de agosto de 2015

Conversas no Pereira (7)

- É fantástico que, depois de tantos anos, tenha sido possível hastear a bandeira americana em Cuba. Como diplomata, deves estar orgulhoso...

- Estou e não estou. Há bandeiras e bandeiras. Por exemplo, há uma bandeira americana que eu bem gostava que saísse de Cuba...

- Não estou a perceber!

- É a bandeira que está em Guantanamo.

Há 40 anos


Foi há 40 anos, quase dia por dia. Éramos 23 os novos "adidos de embaixada" que nesse dia 11 de agosto de 1975 entraram no Ministério dos Negócios Estrangeiros. O primeiro grupo de diplomatas admitido após a Revolução. Eram 18 homens e cinco mulheres - as primeiras que, na história portuguesa, tiveram acesso à carreira diplomática. Até então, essa era uma carreira não aberta às mulheres. Para que conste: foi o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, quem alterou a legislação.

O concurso abrira em novembro de 1974. Eu decidira concorrer por um mero "desafio" a mim mesmo, mais de natureza lúdica do que de especial interesse pela carreira, embora as questões internacionais me interessassem. (Datavam de 1967 os primeiros artigos que escrevera, em "A Voz de Trás-os-Montes, sobre o tema). Estava então no serviço militar e, terminado este, regressaria à Caixa Geral de Depósitos, que remunerava bem melhor que o MNE. Mas achei graça tentar perceber se a diplomacia me aceitaria. (Por muito tempo, pensei seriamente que, feito o concurso, dar-me-ia "ao luxo" de não tomar posse).

Ao longo de todo o primeiro semestre de 1975, comigo envolvido profundamente nos dias agitados da Revolução, sucederam-se as provas: francês, inglês, correspondência diplomática, prova escrita de conhecimentos (lembro-me que, durante cerca de quatro horas, nos "calhou" escrever sobre o tema das relações internacionais da China, desde a criação da República Popular até à entrada para a ONU), duas provas orais (duas matérias sorteadas para cada um, entre 99 temas de Direito Internacional, História Diplomática, Relações Económicas internacionais) e, finalmente, a prova "de apresentação" (uma conversa eliminatória com três diplomatas séniores, um dos quais o chefe da carreira, secretário-geral do MNE). Na prova oral, "saiu-me" como arguente um professor do ISE que, se bem me lembro, se chamava Aníbal Cavaco Silva. Foi uma hora (medida com ampulheta) nada fácil. Mas "fair"... Quase tão complicada seria a segunda prova oral, horas mais tarde, ainda no mesmo dia.

Acabadas as provas, dentre as largas centenas de candidatos, fui admitido. Fiquei a meio da tabela. Continuei por algum tempo a hesitar em aproveitar o ensejo. Não tinha o menor interesse em ir viver para o estrangeiro. Seria possível ser diplomata ficando a viver sempre em Lisboa? Por mais incrível que isto hoje pareça, convenci-me que sim. E lá fui tomar posse.

Embora estivesse no serviço militar, e de acordo com "l'air du temps", eu tinha então um cabelame pouco de acordo com as NEP's, coroado por um imponente bigode. (Imagino que deva ter feito uma "linda" impressão!). Recordo ter sido um dia muito quente. Entrámos no adamascado gabinete do secretário-geral, onde assinámos, um a um, o ato de posse. Um dos colegas levava mesmo o pai para assistir... Todos colegas ingressaram, de imediato, nos vários serviços por onde foram distribuídos. Eu regressei ao serviço militar, do qual ainda não estava dispensado. E tinha ainda de me demitir da Caixa Geral de Depósitos, onde ingressara, também por concurso, quatro anos antes.

Três dias antes da nossa posse, iniciara funções o V Governo Provisório, o executivo mais à esquerda que Portugal alguma vez teve, presidido por Vasco Gonçalves. Sabia-se que era um governo "de transição", como o presidente Costa Gomes o qualificara no respetivo ato de posse. Durou pouco mais de um mês. 

Era ministro dos Negócios Estrangeiros esse homem notável que se chama Mário Ruivo. Tinha como chefe de gabinete Manuel Braga da Cruz, então meu "camarada" do MES (mas que eu não conhecia) e que viria mais tarde a ser reitor da Universidade Católica Portuguesa. Na véspera da minha posse, o Agostinho Roseta, um saudoso amigo que, à época, também fazia serviço militar, disse-me que o ministério informara o ministro Mário Ruivo de que nenhum diplomata se mostrara disponível para integrar o seu gabinete, por medo de futuras represálias em termos de carreira. Vinha assim sondar-me, em nome do ministro, para oo lugar de "secretário do ministro", como então se designavam os adjuntos do gabinete. Coerentemente com a minha posição política de então, disse ao Agostinho que era óbvio que Mário Ruivo podia contar comigo. (Para a cultura dominante no MNE, eu começava "bem"!). A minha única limitação era o facto de ter de terminar o meu serviço militar, pelo que não poderia entrar em funções antes de 10 de setembro. Quando, finalmente, ingressei no MNE, o governo estava já no seu extertor. Vasco Gonçalves seria substituído por Pinheiro de Azevedo em 19 de setembro. Não cheguei a fazer parte da equipa de Mário Ruivo mas, nem por isso, a disponibilidade que demonstrara para o gabinete "maldito" deixaria de me ser lembrada, anos mais tarde, por um secretário-geral da casa, o mesmo que, sem o menor sucesso, tentou um dia que eu retirasse do meu currículo publicado no Anuário do MNE a menção de ter sido assessor da Junta de Salvação Nacional, um ano antes. Feitios...

Passados estes 40 anos, onde estamos? Na grande maioria dos casos, estamos reformados. Alguns, poucos, porque mais novos, ainda estão ao serviço, quatro dos quais no estrangeiro. Um morreu, outro desapareceu, dois saíram cedo da carreira, outro ainda enveredou por outras funções internacionais. Dentro de dias, vou ter o gosto de organizar o nosso reencontro possível, numa jantarada para recordar esses tempos. Já havíamos feito o mesmo há 20 anos. Há coisas na vida que sentimos que devem ser comemoradas. Esta é, sem a menor dúvida, uma delas.