domingo, 8 de novembro de 2009

Diplomacia e filatelia

Talvez poucos (se alguns) dos leitores deste blogue conheçam a cidade de Soukhoumi, capital da auto-proclamada República da Abcásia, território que a Geórgia considera pertencer-lhe e que é objecto de uma já antiga disputa internacional. Trata-se de ums estância no Mar Negro, que foi uma reputada colónia balnear ao tempo da antiga União Soviética. As batalhas entre as forças abcases e georgianas deixaram a cidade com profundas marcas de guerra, as quais, no entanto, não foram suficientes para fazer desaparecer algum do seu antigo "charme".

Fui a Soukhoumi em 2004, integrado numa missão da OSCE, composta por vários observadores internacionais. Recordo, ainda com algum frio na espinha, uma viagem num bem usado helicóptero ucraniano, ao serviço da ONU, ao longo da respectiva costa. Ao perguntar porque razão voávamos tão distantes de terra, um dos pilotos, com toda a naturalidade, disse-me que era para tentar evitar os mísseis. É que tinha havido, tempos antes, uns problemas... Fiquei imensamente sossegado!

As nossas conversas na capital da Abcásia, com as autoridades separatistas locais, não conduziram a muita coisa, salvo, talvez, a precisar melhor o campo das divergências e o rigor dos argumentos independentistas. Saídos das sessões de trabalho, tornadas pesadas pela obrigatoriedade de interpretação, fizémos uma caminhada ao longo de um passeio que me recordou a Foz, no Porto, sempre acompanhados por segurança. No final desse percurso, chegámos a um restaurante, onde nos ia ser oferecido um almoço.

Foi então que alguém constatou que dois diplomatas, um belga e um outro cuja nacionalidade não retive, haviam saído do grupo e tinham desaparecido, sem rasto nem aviso. A preocupação espalhou-se pela delegação, em especial a partir do momento em que a vimos transposta para a cara dos responsáveis abcases, que entre si trocavam conversas tensas, enviando já polícias pela cidade.

Passaram longos minutos e, por esse imprevisto, a refeição formal acabou por não decorrer com a serenidade desejada. Até que, cerca de meia-hora mais tarde, lá vemos entrar na sala, para grande alívio, os nossos dois desaparecidos colegas. Pela mesa passou a palavra de que , por qualquerrazão, haviam decidido fazer um outro passeio. Sentaram-se discretos, sob o olhar reprovador da generalidade dos convivas.

Só no final do repasto nos elucidaram da razão do atraso: tinham feito uma "escapada" aos correios locais, para adquirir colecções de selos da Abcásia, aparentemente muito difíceis de obter à distância. Vinham impantes, com a antecipada certeza de terem conseguido raridades que iriam abrilhantar as respectivas colecções.

A diplomacia também ajuda a filatelia. Será que os nossos colegas se haviam incorporado na missão, fisicamente algo arriscada, apenas para comprar selos abcases? Nunca saberemos.

sábado, 7 de novembro de 2009

Fado

Na noite de sexta-feira, graças a uma iniciativa da Rádio Alfa, essa instituição de referência que une a comunidade portuguesa da zona de Paris, teve lugar em Créteil uma bela noite de fado.

Tenho ouvido mais fado de qualidade em França, desde que aqui cheguei, do que em toda a última década da minha vida, por esse mundo fora. A França é um destino regular dos melhores fadistas portugueses.

A iniciativa do comendador Armando Lopes, a alma por detrás da Rádio Alfa, conseguiu, uma vez mais, trazer ao vivo e pela antena três vozes de qualidade: Filipa Cardoso (na imagem, que não conhecia e que me pareceu de uma escola fadista próxima de Maria da Fé), António Pinto Basto e Mafalda Arnauth.

Inveja

Há semanas, uma conversa com compatriotas aqui residentes há bastantes anos trouxe à discussão a questão das "lideranças" da comunidade portuguesa em França. Alguém dizia que, contrariamente a outras comunidades de origem estrangeira, os portugueses não geram figuras de dimensão nacional, que possam projectar a sua especificidade no seio da sociedade francesa, levando as instituições deste país a terem mais em conta - e mais em consideração, o que não é necessariamente a mesma coisa - aquilo que interessa à nossa comunidade.

Em muitas dessas conversas, o mote é clássico: "nós, os portugueses, não nos sabemos unir", "não aparece gente capaz para ocupar lugares de relevo" e, na lógica de quem quer "passar uma bola" que o incomoda, "é importante que alguém faça alguma coisa para mudar isto".

Há uma triste ironia quando se comparam estas conversas com algumas outras em que se discute pessoas de nacionalidade ou origem portuguesa que, numa ou noutra actividade, conseguiram uma certa relevância e projecção ou estão em percursos de ascensão. Aí, o tom já é outro: "não passa de um ambicioso", "está a aproveitar-se de ser português para obter lugares de 'poleiro' ", "o que ele quer é subir na vida à nossa custa" ou "comigo não conta ele para se promover".

Talvez não seja por acaso que a última palavra de "Os Lusíadas", essa obra que é um pouco o nosso espelho histórico, seja "inveja".

Ubiquidade

O dom da ubiquidade - conseguir estar em vários lugares, ao mesmo tempo - é algo que, apesar de denodados esforços que há muito venho a fazer, se tem tornado um tanto difícil de concretizar. Pode ser que com o tempo...

Há dias, a simpática obrigação de ir fazer uma palestra a Poitiers, a convite de Sciences Po, fez com que não pudesse estar, como desejaria, num colóquio que teve lugar, à mesma hora, na Fundação Gulbenkian, aqui em Paris, sobre a obra de Maria Judite de Carvalho. E que, por esse motivo, e ao que me dizem, tivesse faltado a uma visita ao salão internacional de construção - o Batimat - onde figuram muitas e importantes empresas portuguesas.

Uns dias antes, uma deslocação de trabalho à periferia de Paris, há muito fixada, impediu-me de estar presente num outro importante colóquio, desta vez sobre a figura de Joel Serrão, um evento a que muito gostaria de ter assistido. Nessa mesma data, o Champagne de Sousa, uma marca magnífica que ostenta as nossas origens, tinha um lançamento a que, do mesmo modo, me vi obrigado a faltar.

Esta conflitualidade de horários e locais, às vezes agravada pelo trânsito infernal das horas de ponta em Paris, passa-se quase todos os dias, para compreensível desespero dos simpáticos convidantes que tenho de "deixar cair" e que, imagino, algumas vezes devem julgar que o embaixador de Portugal se "está nas tintas" para as suas iniciativas. Não estou, embora pouco possa fazer para evitar tais embaraçantes situações, para as quais apenas posso contar com a compreensão de quem solicita a minha presença e acaba por não tê-la.

Dito isto, acreditem ou não, a diplomacia pode ser considerada uma das poucas profissões onde a ubiquidade ainda pode existir. Como na história que vou contar.

Foi no século passado (expressão magnífica, que agora nos permite qualificar tudo o que tenha mais de 10 anos...), ainda na década de 70. Numa tarde de sábado, passeava eu pelo Chiado, em Lisboa, numa segunda quinzena de Dezembro, dou de frente com um colega mais velho, colocado num posto distante, num outro continente, de cuja área geográfica eu me ocupava. Trocados cumprimentos e outras banalidades, explicou-me que tinha vindo para o Natal e que só regressaria ao posto em meados de Janeiro. Despedimo-nos, com as óbvias boas-festas à mistura e lá fomos para o fim-de-semana.

Na segunda-feira seguinte, ao final da tarde, pousa sobre a minha secretária, no Ministério, um telegrama (nome que damos à forma de comunicação entre as missões diplomáticas e consulares e Lisboa) assinado pelo referido diplomata. O texto era datado desse mesmo dia. Estranhei, mas, sendo ao tempo mais ingénuo do que sou hoje, pensei tratar-se de um erro do serviço de expedição.

No dia seguinte, terça-feira, surge um novo telegrama, sobre outro assunto, igualmente assinado por aquele colega, oriundo da cidade onde estava colocado. A data era desse mesmo dia.

Na quarta-feira, o tráfico "telegráfico" parou. Pronto, pensei eu, o nosso homem decidiu suspender o envio a Lisboa de telegramas "fantasma".

Mas logo na quinta-feira, ei-lo que volta à carga, agora com um elucidativo texto: "Parto amanhã de férias para Lisboa, depois de encerrado o expediente, deixando F... como encarregado dos arquivos". Texto magnífico: "ganhava" esse dia como se estivesse em posto e, com o habilidoso "depois de encerrado o expediente", obtinha também a totalidade da sexta-feira. Na prática, ia iniciar férias no... sábado! O nosso homem, tinha assim conseguido "sobreviver" formalmente no posto durante uma semana mais, exactamente o mesmo tempo em que já se passeava, com toda a calma, por Lisboa.

As coisas hoje já não são assim, lá pelas Necessidades. A transparência da vida diplomática não permite estes truques. Mas temos de ser justos: são eles que nos permitem afirmar que a ubiquidade pode ser considerada uma característica diplomática.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Os portugueses e a política francesa

O Rádio Clube Português perguntava-me, há minutos, o modo como a comunidade portuguesa em França apreciava a acção do presidente Nicolas Sarkozy, nesta primeira metade do seu mandato. Em especial, se ela acompanhava a tendência da sondagem do "Le Nouvel Observateur" de ontem, que consagra algum desgaste de imagem do líder francês.

Para além do cuidado diplomático que um representante estrangeiro deve ter sempre neste tipo de comentários, dei-me conta de que, mesmo que quisesse, seria impossível para mim ter uma opinião clara, pelo facto da nossa comunidade ter por aqui um papel de uma discrição quase extrema em matéria da vida política local.

Muito embora haja já um número interessante de eleitos de origem portuguesa nas instituições democráticas francesas, essa presença está ainda bem longe daquela que seria desejável para uma defesa plena dos seus interesses e da comunidade em que estão inseridos. E é pena que assim aconteça: bem melhor seria que os portugueses com direito a voto fossem activos protagonistas da sociedade política francesa. Nesse caso, não apenas os partidos políticos franceses procurariam, com maior frequência, recrutar figuras da nossa comunidade para lugares electivos, a fim de "arrastar" consigo o voto português, mas, igualmente, os próprios eleitos franceses se mobilizariam em favor das agendas de interesses da nossa comunidade (em especial em matéria de ensino e promoção de apoio local às suas instituições associativas).

O facto dos portugueses serem uma "comunidade silenciosa" é, com certeza, lido como uma nota positiva num magma social e étnico onde certos afloramentos e tensões, de outras origens, marcam pela negativa o quotidiano do país. Mas tem, como reverso da medalha, o preço de alguma irrelevância no plano das vantagens que decorrem da afirmação cívica.

Filatelia e diplomacia

Sucumbi ontem a alguma nostalgia ao participar, aqui em Paris, na inauguração do Salão de Filatelia, no qual Portugal é o país convidado de honra.

Por instantes, vi-me nos tempos da minha adolescência, durante a qual, sob a orientação do meu pai e a tutela profissional dos clássicos catálogos portugueses de Eládio de Santos e Simões Ferreira, bem como do francês Yvert & Tellier, apurei uma muito razoável colecção de selos (que inclui mesmo o que está na imagem, o célebre "5 reis D. Maria", o primeiro selo português). Até que, lá pelos anos 80, deixei de me interessar pelo assunto, nunca percebi bem porquê - mas, muito provavelmente, porque outros entusiasmos alternativos tenham suplantado a filatelia no meu mercado pessoal de interesses. Não deixou, contudo, de ser um tempo bem curioso, em que muito aprendi de geografia e de história do mundo através dos selos.

Hoje, fiquei com a sensação de que a filatelia tende a ser uma coisa de um outro tempo. Muito poucos jovens havia no Espace Champerret para apreciar a bela exposição aí instalada. A era do e-mail ou dos SMS's parece estar a fazer desaparecer a prática do coleccionismo filatélico e, em especial, a não conseguir conquistar para ela as novas gerações.

Curiosamente, os correios portugueses mantêm um dinamismo que pode ser considerado em contra-corrente com esse desânimo e continuam a imprimir, com grande regularidade, belas colecções de selos e de produtos editoriais que lhes estão associados, conseguindo mobilizar para esse trabalho excelentes artistas plásticos nacionais. Foi, aliás, muito agradável verificar o elevado prestígio que os nossos profissionais do sector disfrutam junto dos seus pares europeus.

Pela sua qualidade, pelo modo como projectam a estética e os valores portugueses, os nossos produtos filatélicos dão hoje uma contribuição para a imagem de Portugal que podemos quase qualificar como "diplomática". Pena foi que, no famoso escândalo da empresa filatélica ibérica Afinsa, tenha acabado por ficar um "selo" diplomático português...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Europas

É muito instrutivo procurar apresentar faces diversas da Europa, tanto quanto possível apelativas, dirigidas a auditórios muito diferenciados.

Ontem, ao final da tarde, numa organização de Sciences Po, fiz em Poitiers, para umas largas dezenas de jovens, uma apresentação sobre a Europa e o modo como vemos o nosso próprio papel no projecto. O animado debate que se seguiu quase me fazia perder o TGV (bendito TGV!) para Paris. Foi muito curioso responder a várias e interessantes questões, algumas delas de tom quase inesperado, por parte de estudantes de várias origens. Aprende-se imenso ao ouvir as preocupações daqueles a quem pertence o futuro.

Hoje de manhã, já aqui em Paris, fui o "guest speaker" (até porque a apresentação foi feita em inglês) na reunião da "Bankers Association for Finance and Trade", que reune quadros superiores das grandes instituições bancárias europeias. O Tratado de Lisboa, as derivas intergovernamentais dentro da União Europeia, a preservação do Mercado Interno e outras interrogações sobre o futuro do projecto europeu animaram uma bela hora de debate. Outro auditório, outras preocupações.

Logo à noite, falarei em Neuilly sobre a experiência de Portugal na Europa. Serão outros ouvintes, muitos dos quais pertencentes às novas gerações francesas que têm origem comum portuguesa, filhos e netos de quantos, na realidade, entraram nas Comunidades Europeias antes que Portugal delas fizesse formalmente parte.

Mala diplomática

A cena passou-se num país com o qual as nossas relações bilaterais não estavam a ser fáceis, nos anos 80 do século passado.

Era sábado e o encarregado de negócios de Portugal, que chefiava a missão diplomática na ausência do embaixador, havia sido chamado de urgência pelo ministro dos Negócios Estrangeiros local.

A conversa começou tensa. O ministro colocou sobre a mesa uma carta, da qual saíam três notas de 100 dólares: "Esta carta ia ser enviada pelo vosso cônsul na cidade de X para a família, em Portugal. Contém dinheiro em "cash", o que vai contra todas as regras. Além do mais, pressupõe ser produto da obtenção de divisas estrangeiras por meios ilegais, porque, como é sabido, há neste país um controlo muito forte da circulação de moeda estrangeira e não temos registo do cônsul ter adquirido os dólares no banco central. Exigimos uma explicação urgente por parte da Embaixada."

O nosso diplomata foi apanhado de surpresa. De facto, era uma situação estranha mas, pensou, era importante falar primeiro com o cônsul e obter a sua versão do assunto. A posse de moeda estrangeira era muito vulgar no país, até porque os diplomatas eram pagos em dólares e havia serviços e aquisições locais que exigiam essas divisas. Já o seu envio por carta parecia muito imprudente. Mais para ganhar tempo do que por qualquer outra razão, inquiriu: "E esta carta ia pelo correio?".

Nesse instante, notou que o ministro hesitou um pouco, antes de esclarecer: "Não, ia na mala diplomática para Lisboa".

O nosso encarregado de negócios teve então um lampejo, recuperou o comando da conversa e retorquiu firmemente ao ministro: "A Embaixada está totalmente disponível para prestar todos os esclarecimentos sobre este assunto mas, antes que isso aconteça, as autoridades do seu país vão ter de explicar a razão pela qual violaram a nossa mala diplomática, contra todas as regras internacionais. E, ainda hoje, vou fazer chegar uma nota de protesto por este acto que, de forma ostensiva, infringe as regras da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas".

O ministro não estava à espera da resposta e foi apanhado de surpresa. Voltou à carga com a ideia da necessidade de obter uma posição sobre a questão dos dólares na carta, mas o encarregado de negócios foi definitivo: "Antes de obtermos, da vossa parte, uma explicação sobre a razão pela qual a nossa mala diplomática foi violada, não diremos rigorosamente nada sobre o seu conteúdo. Aliás, peço, formalmente e desde já, a devolução do resto da correspondência que seguia na mala diplomática, a maioria, aliás, de natureza oficial. Não sei se se dá conta que isto é de uma extrema gravidade, senhor ministro! Os senhores violaram a mala diplomática portuguesa! Isto pode vir a ser um escândalo!".

O interlocutor começou a ter consciência de que a sua posição abandonava um terreno confortável e mostrava-se já um tanto embaraçado. O nosso diplomata saiu da reunião entre o satisfeito e o preocupado, mas sem plena certeza sobre o que se seguiria.

No dia seguinte, o conteúdo da mala diplomática chegou, discretamente, à nossa Embaixada. A carta do cônsul vinha junta... sem os 300 dólares. O encarregado de negócios não chegara a mandar a nota de protesto, até porque, para o fazer, necessitava de uma autorização de Lisboa, que nem sequer obtivera. O "bluff" compensou, ou melhor, custou 300 dólares ao pobre cônsul. E o assunto morreu...

Cenas da vida diplomática, como diria o Lawrence Durrell.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Coabitação (1)

Nenhum regime crismou o termo "coabitação" de uma forma tão marcante como a V República francesa. Um dos tempos mais interessantes dessa coexistência entre um presidente da República e um primeiro-ministro, oriundos de famílias políticas opostas, foi o período em que François Mitterrand, como Presidente da República, coincidiu com Jacques Chirac, como primeiro-ministro.

Por essa razão, e porque tem alguma graça ver como os políticos, com distância, se avaliam, não resisto a transcrever este breve extracto do primeiro volume das memórias de Chicac, sob o título «Chaque pas doit être un but», que hoje foi publicado:

«Je n’ignore pas la complexité du personnage, ni les zones d’ombre qui jalonnent son parcours, mais l’homme que je découvre au fil de nos entretiens m’apparaît d’une finesse de jugement et d’une intelligence tactique que j’ai rarement rencontrées dans le monde politique. Son amour de la France est indiscutable, et il n’admet pas que celle-ci soit abaissée, même s’il tend, selon moi, à l’enfermer dans des perspectives archaïques et eût sans doute rêvé de la laisser vieillir comme un paysage qu’il aimait. Nos valeurs communes sont celles de deux provinciaux attachés aux traditions terriennes, comme aux idéaux de la République. Et si, pour le reste, nos convictions semblent à l’opposé l’une de l’autre, probablement l’un est-il moins à gauche qu’il ne le fait croire et l’autre moins à droite qu’il ne le laisse paraître. Plus que ses idées, c’est la façon de les mettre en scène que la cohabitation m’a permis d’admirer chez François Mitterrand. "Salut l’artiste!" m’est-il arrivé de penser en assistant à quelques-unes de ses prestations.".

Trópicos mais tristes

Nos obituários, a generosidade costuma abundar. Porém, quero crer que o sentimento de perca que a morte de Claude Lévy-Strauss desencadeou por todo o mundo tem uma genuinidade muito grande. Foi um homem que deu um notável contributo às Ciências Sociais.

No que me toca, passei a ver muitas coisas de forma diferente depois de ler o seu "Tristes Trópicos" e a minha compreensão do Brasil ficaria muito incompleta sem ter antes feito essa leitura.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cem países

Este blogue acaba de ser visitado pelo seu 100º país, como pode ser constatado na estatística autónoma do "Flagcounter", ali ao lado. As Nações Unidas têm ainda mais 92 Estados, mas duvido muito que a popularidade do "Duas ou Três Coisas" acabe algum dia por chegar ao Butão, a Kiribati, a Palau ou a Saint Vincent and the Grenadines.

Mas lá que ter 100 países visitantes é um belo número, lá isso é...

Afeganistão

Espero bem estar enganado, mas a pírrica vitória de Hamid Karzai nas eleições presidenciais afegãs, depois da desistência do seu rival Abdullah Abdullah, afigura-se mais um alerta para a tormenta que aí vem do que um sinal de acalmia ou o prenúncio de uma sedimentação da situação, formalmente democrática, que as urnas recentemente desenharam.

As forças internacionais que, com toda a legitimidade, intervieram no Afeganistão, para tentar repor uma ordem que ameaçava a sua própria segurança, terão sofrido a conjugação de duas debilidades difíceis de superar e encontram-se agora numa situação que, por maior que seja a euforia alardeada pelos seus dirigentes, traduz a extrema dificuldade em que se encontram.

A primeira debilidade teve a ver com o facto da liderança da operação no Afeganistão ter cabido aos Estados Unidos, sob uma administração em Washington que foi incapaz de transformar a indiscutível razão que lhe advinha do 11 de Setembro numa autoridade com valor moral, com real capacidade congregadora de um mundo que, com razão, temia e teme a política desestabilizadora dos talibãs, a começar pelos seus próprios vizinhos do Golfo. Assuma-se ou não isto abertamente, a legitimidade da coligação internacional ficou desde logo fragilizada por este "pecado original", que lhe era alheio.

A segunda debilidade decorre directamente da primeira. Ao terem conseguido o prodígio de conseguir desequilibrar toda a região, pela continuidade da política "neutralidade colaborante" assumida ao lado de Tel-Aviv no conflito israelo-palestiniano, pela imponderada invasão ilegal do Iraque (para a qual arrastaram outros complacentes parceiros) e por uma política errática de alianças regionais, sem uma estratégia devidamente consensualizada, os americanos acabaram por abrir uma imensa "caixa de Pandora". Foi assim no Paquistão, como o foi no modo irresponsável como provocaram o vazio de poder em Bagdad, onde não cuidaram em gizar fórmulas mínimas de transição. Neste cenário subitamente desequilibrado, o Irão passou a ter, pela primeira vez desde há muito, uma formidável capacidade para se afirmar autonomamente na região, situação agravada agora pelo novo "leverage" que lhe é dado pelo seu potencial nuclear.

Agora, tudo isto está a sobrar para o "Ocidente", para uma NATO obrigada a viver, já quase com naturalidade, o seu posicionamento "out of area", isto é, para todos nós, cada um de acordo com as suas possibilidades. Qual é a solução? Verdadeiramente, ninguém sabe. "Deitar" mais tropas sobre a guerra, num terreno como o Afeganistão, lembra inapelavelmente o tempo em que os soviéticos por lá andaram e, do mesmo modo, o período do Vietnam. Só que, neste último caso, não havia petróleo na região, nem ameaça nuclear, nem vizinhanças imponderáveis para gerir. Restará, um dia, negociar. Com quem? Com os talibãs? Esperemos apenas que Karzai não venha a ser condenado a, mais cedo ou mais tarde, vir a fazer o papel de clone de Nguyen Van Thieu.

Not so Big Mac

Aqui há uns anos, numa praia balcânica, uma amiga sérvia contava-me, com um triste sorriso, que, em 1999, ao tempo em que Belgrado sofria noites de pesados bombardeamentos aéreos americanos, logo que o dia raiava os operários regressavam ao trabalho para a construção da primeira loja do McDonald's na cidade. Era o retrato de uma trágica ironia, que dizia bem do mundo em que vivíamos.

Recordei isto ao ler, ontem, que a McDonald's fechou em Reykjavik, na Islândia, pelo facto da desvalorização da moeda local ter tornado caros e não competitivos os produtos que vendia.

Longe vai o tempo em que, para um país, ter uma loja de McDonald's era uma espécie de cartão de identidade de moderna sociedade de consumo. Por todo o mundo, deu-se cabo de edifícios lindíssimos para alojar essas fábricas de colesterol. Alguma patetice liberal, cuja autoria me escapa mas que deve estar próxima dos "neocons", chegou mesmo ao ponto de afirmar que, no plano dos conflitos armados, era muito improvável que países onde existissem McDonald's gerassem guerras entre si.

Tudo mudou. O capitalismo, de facto, já não é o que era. Até o McDonald's já fecha por força do mercado. Confesso que não verto uma lágrima.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Saramago

As polémicas com conotações políticas não são o forte deste blogue, como é sabido. Mas confesso que não resisto a dizer algo breve sobre o conflito que tem sido suscitado em torno de Saramago, a propósito da sua nova obra - "Caín".

Para afirmar três coisas.

A primeira, para deixar claro que não li o livro e que, pela temática que aborda, não me parece que ele venha a ingressar nas minhas prioridades de leitura, nos tempos (anos) mais próximos.

A segunda, para dizer que acho que José Saramago escreve muito bem, que já li coisas dele que me deram um grande prazer e que, como português, tenho um grande orgulho que a ele tenha sido atribuído o prémio Nobel da literatura. Como o poderiam ter tido Torga, Jorge de Sena, Sophia, Lobo Antunes ou Lídia Jorge.

A terceira, para expressar, alto e bom som, que continuo a achar de uma inqualificável infelicidade, num mundo como o de hoje, atitudes e comentários obscurantistas de certas pessoas, como Sousa Lara no passado ou Mário David há dias, diabolizando o escritor, num triste sectarismo político e numa manifestação de reaccionarismo religioso primário. Acontece que ambos são meus amigos pessoais, mas tais tomadas de posição, embora as possa compreender, não consigo respeitá-las - e não desconheço que seria bem mais consensual construir o final desta frase ao contrário. Mas é isto que eu penso.

Pousadas de Portugal

De há muito que tenho o maior respeito pelo grupo hoteleiro Pestana, dirigido por Dionísio Pestana, um empreendedor de grande visão que soube transformar um núcleo de operação na Madeira numa das maiores - senão a maior - redes nacionais de hotéis, com expressão internacional. Fê-lo com capitais próprios, com imenso profissionalismo, com visão estratégica.

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No Brasil, durante vários anos, pude constatar e constantemente apoiar o alargamento da actividade do grupo, que se transformou numa imagem de marca da hotelaria portuguesa de qualidade - de que o magnífico Hotel Convento do Carmo, em Salvador da Bahia, é o seu melhor cartão de visita.

Já há uns anos, o Grupo Pestana obteve a concessão da Enatur, que dirige as Pousadas de Portugal, empresa onde o Estado português mantém, contudo, uma importante participação.

A rede Pousadas de Portugal é uma estrutura histórica. Criada em 1940, numa iniciativa de António Ferro, tinha subjacente uma lógica de promoção turística voltada para o mercado estrangeiro, com preços baixos (não admitia estadas de mais do que três noites consecutivas) e uma qualidade de serviço muito interessante, apoiada na exploração de valores gastronómicos nacionais. Era constituída por edifícios construídos de raiz, por outros adaptados e, com maior incidência nas últimas décadas, por edifícios históricos, os quais foram recuperados da ruína e do esquecimento, com fundos do orçamento público.

Sei bem do que falo porque, há muito que frequento com regularidade as Pousadas de Portugal, sendo que, pelas minhas contas, dormi até hoje em, precisamente, 41 dessas unidades, algumas delas entretanto já desaparecidas. Por isso, julgo ter algum "direito de utente" para me pronunciar sobre o que vi e sobre o que actualmente vejo.
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E hoje vejo, com grande desagrado, o grupo Pestana numa clara deriva no sentido de "ver-se livre" de algumas unidades cujo lucro não será aquilo com que contava, a alienar parte de um património que ninguém parece lembrar ter dimensões que estão muito para além das questões económicas, dimensões que, se o não foram, deveriam ter sido acauteladas no contrato de concessão, em eventual articulação de sustentação com as regiões turísticas e com as autarquias da região.

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As Pousadas de Portugal, para além do natural negócio que devem ser, são factores de equilíbrio regional, de polarização de circuitos turísticos, de conservação de valores de gastronomia local. Tais unidades hoteleiras constituíram sempre um orgulho para as populações locais e são também, goste-se ou não, um elemento de serviço público.

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Da mesma maneira que os Correios de Portugal ou a EDP são obrigados, por contrato, a levar as cartas ou a electricidade a zonas remotas do país, onde uma simples lógica económica recomendaria o imediato fechamento da operação, também as Pousadas devem ser vistas nessa perspectiva de utilidade pública, pelo facto de serem, em algumas áreas, o único suporte para alojamento turístico de alguma qualidade. Aliás será para isso, ao que julgo, que o Instituto de Turismo de Portugal permanece no Conselho de Administração da ENATUR. Caso contrário, o que estará lá a fazer? A servir de mero e silencioso "rubberstamp" legitimador das decisões do Grupo Pestana?
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O Estado português não deu a concessão ao grupo Pestana para assistir, impávido e cúmplice, a um arbitrário "downsizing" desse património, marcado por uma lógica exclusivamente economicista. Esta não é uma concessão qualquer. Há dimensões históricas a ela associadas, as quais, a meu ver, e por exemplo, são em absoluto incompatíveis com a simples e fria alienação de edifícios de valor arquitectónico insubstituível. Da mesma forma, escandaliza-me que a Enatur possa arrogar-se o direito, com prejuízo da dignidade da imagem das Pousadas de Portugal (que é uma marca nacional, de que não é proprietária, note-se), de subconcessionar certas unidades, em "franchising", a qualquer "pato bravo" hoteleiro, sem história nem credenciais na profissão, lavando depois as mãos para o modo como a exploração vier a decorrer. O que observei, recentemente, em unidades que continuam a manter a “imagem” da Enatur, constitui uma verdadeira vergonha, com espaços decorados à luz da saloíce dos novos proprietários, à moda da "pensão da Tia Anica"...

Vem isto a propósito do anúncio que acaba de ser feito do próximo encerramento da Pousada Barão de Forrester, em Alijó. Há poucos anos, a Enatur - sob proposta do Grupo Pestana e a complacência incompreensível do Instituto de Turismo - já tinha vendido (!!!) o edifício da Pousada de São Gonçalo, no Marão, uma jóia arquitectónica que remonta às origens do projecto das Pousadas. Nem uma folha de protesto então buliu, que se desse conta, por parte das Câmaras Municipais de Amarante e Vila Real. Antes, tinha já "ardido" Miranda do Douro. Agora, para os transmontanos, para que o "deserto" se torne completo, só resta que a Enatur "terceirize" (como dizem os nossos amigos brasileiros) a Pousada de Bragança.

Onde iremos chegar? O Instituto do Turismo de Portugal ou a Secretaria de Estado do Turismo não terão nada a dizer sobre isto? Uma palavra “lá em baixo” do meu querido amigo, Dr. Alexandre Chaves, operativo Governador Civil do Distrito de Vila Real, seria muito bem vinda.

Carta a um amigo

Meu Caro


Você acaba de entrar numa nova vida, e logo num tempo bastante difícil, em que muito se exigirá de si, dos seus conhecimentos e do seu bom-senso, da sua integridade e da sua força de vontade. Conhecendo-o bem, julgo ser "the right man in the right place" e, diria mesmo, "at the right time"- e você sabe de mim o suficiente para ter a certeza de que só digo isto porque sinceramente o penso. Atrevo-me mesmo a afirmar, não sem algum orgulho, que, até agora, você teve sempre uma boa escola.

Porém, como em tudo na vida, só na água se aprende a nadar. Ver os outros no jogo é muito instrutivo, até para evitar cometer alguns dos erros observados. Mas as coisas são diferentes quando se "está lá", quando se é o responsável, quando todos olham para si, para o bem e para o mal. Principalmente para o mal, como sabe.

Você começa agora. Numa bela frase que fez escola, Jaime Gama dizia que "não há uma segunda oportunidade para se criar uma primeira impressão". Tendo a concordar, embora não em absoluto, porque as imagens fixam-se diacronicamente no juízo das pessoas e o tempo ajuda a sedimentar a solidez de quem é realmente consistente. Você dir-me-á, com a sua proverbial modéstia, que isso o preocupa pouco e que, no essencial, quer apenas conseguir fazer bem aquilo que lhe propuseram. Mas, como já terá visto de forma muito crua, "em política, o que parece é", como dizia o manhoso de Santa Comba. É triste, mas é assim.

Para um observador desprevenido, a sua tarefa até pode parecer fácil. Mas você sabe bem melhor que muitos que, para além do que a opinião publicada ou comum intui, há aí desafios externos muito sérios pela frente, face à vontade de alguns de mudar o paradigma do processo colectivo, interessados que estão em assegurar a continuidade do respectivo poder, através da garantia lampedusiana de que "alguma coisa tem de mudar para que tudo continue na mesma".

Não quero parecer "patronizing", mas não resisto a deixar-lhe algumas notas: conselhos ou frutos da experiência, tome-os como quiser. Faço-o agora porque não terei nem necessidade nem ocasião de lhe dar quaisquer opiniões futuras, porque, como você e muitos outros bem sabem, é meu arreigado e inabalável hábito deixar deliberadamente de procurar ou frequentar quem assume funções elevadas.

Desde logo, tente rodear-se de gente que tenha a certeza de ser, simultaneamente, competente, fiel e crítica. E, se possível, que escreva um bom português, uma língua antiga em rápida extinção na nossa administração pública. Junte pessoas que tenham a liberdade e a coragem para lhe dizer aquilo que até pode não lhe apetecer ouvir, mas que é essencial que você ouça; embora se reserve sempre o seu direito de não concordar e decida fazer exactamente o contrário. Não hesite em mudar de opinião, quando os argumentos forem inteligentes e convincentes, mesmo se oriundos de colaboradores muito mais jovens. Sabe do que falo, claro...

Não se deixe nunca tentar por tiques de auto-suficiência ou de autoridade (que seriam estranhos em si, em qualquer caso), por reflexos de sobranceiro "déjà vu" ou por formalismos compensatórios da sua idade - como, ridiculamente, já vi emergir em (então) jovens figuras políticas, pouco à vontade com as suas novas responsabilidades. Em política, a idade que se tem é a da autoridade que soubermos transmitir, sendo a juventude, aliás, o único "defeito" que passa sempre com o tempo.

Atente bem nas lições do passado, porque nada começa hoje, embora a História nunca se repita, salvo para os que a lêem de forma preguiçosa ou dogmática. Procure decifrar bem a "agenda" de quem cruzar pelo mundo, perceba as suas motivações profundas, sem se deixar enredar em teorias conspirativas, mas igualmente sem cair em perigosas ingenuidades. Não se acomode a supostas inevitabilidades, não receie dizer "não" quando entender que isso é importante, não use "langue de bois", chame as coisas pelo nomes e não se importe de ficar isolado, nem tenha a tentação de ser simpático em matérias de Estado. O interesse do país está sempre acima dos nossos humores.

Claro que você também sabe que, à sua volta, há adulações que vêm por aí, com os "yes men" e as "yes women" que lhe darão a "música" agradável aos seus ouvidos, que acharão "genial" a entrevista que você percebeu que saiu menos boa, que dirão "o máximo" do discurso que fizer, por mais banal que lhe tenha saído. Relativize sempre tudo isso.

Seja muito firme, não dando, logo desde o início, o mínimo espaço para a sobrevivência funcional de distâncias derivadas dos tempos da carreira de onde você é oriundo (e onde agora não está inserido, lembre-se sempre!). Corrigir o erro, depois, será muito mais difícil e penoso. Exerça em pleno a sua autoridade, porque, como escreveu Balladur num recente livro, "le pouvoir ne se partage pas".

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Alguns, de forma mais ou menos explícita, tentarão preservar fatias de decisão que se habituaram a gerir, quase a seu bel-prazer. Corte-lhes as "vazas" e, estabeleça, desde o primeiro segundo, sem tibiezas e ambiguidades, as suas novas regras. É que se o "pacote" de responsabilidades passa a ser seu, toda a decisão também lhe cabe a si, na gestão como na definição das políticas. E esteja também atento aos curto-circuitos hierárquicos, essa insidiosa forma de se sustentarem influências "por cima" de si, com "shortcuts" de oportunidade. Sei bem do que falo e você também sabe como, no passado, foram tratadas, com êxito e algum gozo, algumas derivas dessa índole.

Mantenha e frequente os amigos de sempre, comporte-se com eles com a naturalidade habitual. Eles podem ser-lhe muito úteis na "leitura" da realidade exterior de que, forçosamente, ficará um pouco mais distante. E aí estarão, ao virar da esquina, quando se esgotar a transitoriedade das funções que agora vai ocupar. Eles serão a sua eterna e insubstituível "almofada" afectiva.

Agora, um assumido conselho: não projecte a ideia de ser "o homem" de ninguém, o "remote controle" de outras instâncias, uma figura tutelada, actor secundário à espera das deixas de outros. Sem incorrer na mínima quebra de lealdade ou de disciplina face à orientação de quem tem legitimidade para lha dar, perceba que há um palco que agora é apenas seu: dirija a peça, oriente sem tibiezas os artistas - e alguns são mesmo uns "verdadeiros artistas".... É que, das palmas ou dos apupos que se vierem a ouvir, você está condenado a só poder partilhar as primeiras.

De igual modo, seja totalmente livre: evite a tentação de caminhar para a construção de um qualquer proselitismo, para a criação de "equipas" de fiéis em seu redor, esse viciado mundo, tão típico da profissão que vai co-tutelar, cuja cultura dominante se apoia em esferas de influência, em mini-nepotismos conjunturais, feitos de atribuição arbitrária de cargos e funções, a troco de lealdades com preço certo - nas promoções ou nas colocações seguintes. Ouça amigos próximos, mas decida sempre sozinho. Trate bem toda gente, mesmo os mais "sinistros", mas apenas enquanto assim o merecerem. Quanto tal não acontecer, passe então a tratá-los como realmente merecem, sem contemplações ou moratórias. O tempo das indecisões só joga contra si.

Ah! e não se esqueça: ria-se, divirta-se, mantenha um bom ambiente no trabalho e trate as coisas com a leveza que se justifica, sem perder o humor e a capacidade de exercer ironia. Até sobre si próprio. E, nunca por nunca, caia na tentação de dizer que está a fazer um sacrifício, um serviço pelo qual o Estado e o país lhe devem ficar reconhecidos. Você é que deve estar grato a Portugal por lhe ter dado a honrosa possibilidade de o servir.

Meu caro, como diria o Sérgio Godinho, "este é o primeiro dia do resto da sua vida". E só há uma, lembre-se! E porque esta vida são dois dias, aproveite bem as noites! Não esqueça a família, não lhe atafulhe os sofás com papéis cor-de-rosa, pela noite dentro: saia, jante fora, divirta-se, beba um copo, fale com amigos de outras coisas que não política, viaje e leia muito. Pode crer que o mundo não vai parar, só porque você insiste em ser uma pessoa normal.

Não lhe vou desejar felicidades profissionais e políticas, porque isso seria redundante com o que você sabe que eu penso. Desejo-lhe saúde, alegria, vontade e sorte. O resto - inteligência, honestidade, sabedoria, rigor e dedicação - você já tem.

E mando-lhe um forte abraço de amizade, esperando agora só o voltar rever, com calma e sem agenda, daqui a quatro anos, para então lhe dar conta dos meus ócios na reforma. Aproveite o tempo bem! O seu sucesso será o nosso.

Francisco

PS - Vou oferecer-lhe um clássico do Gerald Kaufman, com mais de duas décadas, intitulado "How to be a Minister". Esclareço, para leitores menos atentos, que, sendo um livro inglês, "minister" significa, entre nós, "secretário de Estado". "Bien entendu"...


domingo, 1 de novembro de 2009

Lince

O país ficou a saber que o lince regressa à Malcata. Quando já se pensava que o animal tinha desaparecido por completo, até porque se não ouvia falar dele há muito, o esforçado empenho dos protectores da espécie vai recolocá-lo de novo no único habitat onde foi gerado e ficou conhecido, dando-lhe uma nova oportunidade para reproduzir homólogos e espalhá-los no seu ambiente comunitário próprio. Fugidio, habituou quem escrutinava os seus passos com atenção à imagem de um animal palmilhador de montes e vales, só se dando bem entre os seus, que protege e ajuda a alimentar, num sentido gregário muito comum à espécie, reagindo quase sempre com grande desconfiança à aproximação de estranhos. De porte pequeno e ladino, mas sem as defesas de inteligência que caracterizam os animais de qualidade superior, fragilidade que quase levou à sua extinção entre nós, o nosso lince vai agora tentar reocupar os espaços da sua geografia tradicional, na luta eterna pela sobrevivência, a qual, no essencial, passa pela satisfação quotidiana das necessidades que lhe são próprias. O tempo já provou que o lince apenas consegue assegurar tal sobrevida dentro da área onde tradicionalmente se move, por lhe faltarem certas qualidades de agilidade e adaptação, em absoluto indispensáveis para vingar noutros terrenos. Mas porque, como o passado provou, o animal acarreta consigo algumas derivas predatórias, a que quem anda pelas suas zonas se verá forçado a estar atento, corre sempre o risco de vir a ser alvo de actos isolados de reacção cinegética, susceptíveis de porem em causa todo o esforço feito na sua recuperação. O regresso do lince à Malcata é, indiscutivelmente, uma significativa notícia do nosso mundo animal neste Outono.

sábado, 31 de outubro de 2009

Escritas

As horas que a vida me deixa livres são muito poucas para a leitura de blogues. Quando, durante um certo tempo, tive o meu período de "osceosidade" (estado de espírito só para iniciados, que não vem nos dicionários), passei muitas noites a saltitar pela blogosfera. Quem sabe se não é ainda a escondida memória desses tempos que hoje me afasta dos blogues? Apenas de quando em vez, passo, sem o menor critério, por um ou outro blogue, para o qual alguém me chama a atenção, sem rotina de consulta a "favoritos", que teimo em não registar, quase sempre levado por uma espécie de pesquisa arbórea, remetido de um sítio para outro e daí para outro ainda, até que me canso e recolho a penates.

Hoje calhou-me passar por um blogue de que já aqui falei, escrito "a sério", por quem sabe escrever - não este escrevinhar despretencioso e ligeiro, mas a solidez profunda de um texto literário.

Ler "As cidades em que vivo", escrito no seu "Tim Tim no Tibete" pelo embaixador e escritor (ou será o contrário?) Luis Filipe Castro Mendes, foi um bálsamo nesta tarde de sábado parisiense. E serviu, do mesmo modo, como recordação dos dias que ambos passámos juntos em Delhi e em Budapeste, das muitas horas em livrarias ou em charlas soltas à volta do copo de velha amizade, como também algumas vezes aconteceu, já há muito tempo, aqui por Paris e mais tarde por Viena. Nesse texto fala também do Rio, como podia falar de Luanda, cidades que partilhamos sentimentalmente, cada um à sua maneira, sem nunca por lá nos termos cruzado.

Leia-no e, garanto, ficarão eternos clientes. Como imagem, deixo o Ganesh, o deus dos escritores, como ele.

Moedas

A apresentação da política portuguesa de ajuda ao desenvolvimento estava a correr bastante bem, naquela reunião com homólogos, no final dos anos 80, numa capital europeia. O grupo técnico que eu integrava fazia, sector a sector, uma descrição, devidamente quantificada, da nossa política de cooperação. O "número" já tinha sido ensaiado em duas ocasiões, em língua inglesa, e estávamos agora a experimentá-lo, pela primeira vez, em francês.

Uma boa parte da reunião já tinha decorrido quando nos começamos a dar conta de alguma agitação do lado dos nossos interlocutores. Todos trocavam impressões entre si e, aparentemente, alguma coisa naquilo que estava a ser dito pelo nosso colega os impressionara. Mas, ouvindo-o, nada nos soava a estranho. Até um certo momento.

Com efeito, sou eu próprio que detecto que, num determinado ponto da sua apresentação, o meu colega se referia a um montante em "ecus" - na altura a moeda escritural que estava em voga na União Europeia e que equivalia, se bem me lembro, a cerca de 150 escudos portugueses, a nossa moeda da época. Confesso que estranhei: não era vulgar apresentar valores em "ecu", até porque a moeda quase "oficial" da ajuda ao desenvolvimento era o dólar americano.

Foi então que, num instante, realizei o que se estava a passar. O nosso colega estava a referir-se aos nossos escudos e, em lugar de referir o nome da nossa moeda em português, decidira "traduzi-la". Ora em francês, "escudo" é, de facto, "écu", mas apenas com o significado daquela arma de defesa antiga, redonda, para evitar golpes de espada.

A perturbação e a incredulidade da delegação interlocutora eram plenamente justificadas. Nas suas contas, a nossa ajuda pública ao desenvolvimento estava a ser multiplicada por ... 150 vezes! Somos um país generoso na nossa ajuda externa, mas há limites!

Saltei da cadeira e, com a delicadeza possível, interrompi a reunião e expliquei ao nosso colega o lapso que estava a cometer. Qual quê?! Desagradado, ficou furioso comigo e teimou que estava a traduzir bem o nome da nossa moeda. Só com a ajuda de um terceiro elemento da nossa delegação foi possível convencê-lo.

Hoje, as coisas seriam diferentes: as novas gerações de diplomatas raramente optam por falar francês e, com o euro, acaba por ser tudo muito mais fácil. Embora, talvez, com menos graça.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sair & entrar

Há dias, num jantar aqui em Paris, veio à baila a origem da nossa expressão "sair à francesa", que também é usada noutros países europeus. Desde há muito que a liguei à ideia de alguém que, numa festa ou numa outra ocasião social, se escapule "sem dizer água-vai" (e aqui está outra expressão interessante, desta vez muito lisboeta) aos donos da casa. Por que razão isso aparece ligado aos franceses, sempre tidos por seguidores estritos de protocolo, não se sabe.

Isto leva alguns, mais simpáticos ou mais imaginativos, a irem para a justificação de que se trata de uma corruptela de "saída franca", isto é, saída livre de mercadorias, sem pagar impostos. A verdade é que a expressão é antiga entre nós. Nicolau Tolentino, o poeta satírico que morreu em 1811, escreveu: "Sairemos de improviso/despedidos à francesa". O que inviabiliza as versões que a ligam ao tempo das invasões napoleónicas.

Pelo sim pelo não, os franceses "passaram a bola" através da Mancha e criaram a expressão "filer à l'anglaise" (ver nota no fim), fórmula que já tenho visto utilizada num sentido não físico, por exemplo, designando uma escapatória numa conversa que se torna menos conveniente. Quem souber mais sobre isto que se levante por escrito.

Para que este post não pareça agressivo para o país que tão generosamente me acolhe no seu seio, para utilizar a fórmula do saudoso A.B. Kotter, aqui fica uma diplomática nota de tom auto-flagelatório: em Itália, "entrare alla portoghese" significa ter acesso a algo sem ser convidado ou sem pagar.

Só que, neste caso, e repercutindo outro clássico, parece que a História nos absolverá. Com efeito, a ideia terá ficado na memória italiana pelo facto de, aquando da famosa embaixada do rei dom Manuel I ao papa Leão X, os cidadãos portugueses que a integravam terem sido, por um gesto de hospitalidade local, isentos de pagamento para a frequência de locais públicos. Daí decorre, talvez, a generalização que passou a fazer-se. Mas, porque não tenho vocação para ser um "historiador à Saraiva", também não garanto, em absoluto, a consistência desta versão. A qual, como por lá também se diz, "se no e vera e bene trovata".

Em tempo: eu tinha escrito erradamente "sortir à l'anglaise". Um leitor atento esclareceu-me (leiam-no nos comentários)

Livro raro

É um livro magnífico, este "livre d'artiste", como tive oportunidade de constatar na exposição que Cristina Isabel de Melo ontem promoveu ao final da tarde, no Atelier Florence Berger, para a sua apresentação em Paris. Existem apenas 20 exemplares deste livro - é verdade! -, numerados e assinados, cada um deles ilustrado com 16 fotografias em papel "Hahnemuhle Fine Art", para cuja consulta são indispensáveis luvas! As imagens são acompanhadas por poemas de Nuno Júdice, traduzidos por Cristina, que também é a "autora" da edição.

Cristina Isabel de Melo - artista plástica, poeta, tradutora e editora - vive em Pont-Aven, na Finisterra, e para se saber mais dela basta consultar aqui e aqui.

O poeta Nuno Júdice não necessita de apresentação, mas já há meses falei dele aqui e, não tendo podido estar presente neste lançamento, recebe um abraço meu por este meio.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Ben Barka

Faz hoje precisamente 44 anos que Ben Barka, líder democrático marroquino, foi raptado à porta da Brasserie Lipp, no boulevard St. Germain. Seria depois assassinado, num "affaire" sórdido, de contornos nunca totalmente bem definidos, que tem uma versão que é sintetizada aqui.

Almocei lá hoje com dois amigos, em jeito de memória.

Futurismo

Há semanas, passei pela casa onde Mário de Sá Carneiro se suicidou, em 1916, no nº 29 de rue Victor-Massé, aqui em Paris. O poeta de "A confissão de Lúcio" foi, porventura, um dos escritores portugueses que deixou mais referências sobre a sua estada em Paris, como recordaremos em breve neste blogue.

Hoje de manhã, na Sorbonne, na abertura do colóquio internacional "Le Futurisme et les Avant-Gardes au Portugal et au Brésil", Fernando Cabral Martins destacou a figura de Mário de Sá-Carneiro que, com Fernando Pessoa, criou, em 1915, a revista cultural "Orfeu".

É muito interessante esta iniciativa coordenada por Maria Graciete Besse, agregando diversas entidades dedicadas aos estudos portugueses e brasileiros que operam no ensino universitário parisiense. Ela "responde", de forma muito digna, ao esquecimento a que Portugal e o Brasil foram votados nas referências internacionais assinaladas na exposição internacional que foi organizada no ano passado pelo Centre Pompidou, ligada ao centenário do "manifesto" futurista de Marinetti, de 1909.

Saiba mais sobre este colóquio aqui.

Astérix (2)

É imperdível a referência que hoje o Google dedica a Astérix. Não resisti a reproduzi-la.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Negociação

Foi numa sala do Altis, em Março de 1976. Frente-a-frente, delegações de Portugal e de S. Tomé e Príncipe, país recém-independente. O tema era o chamado "contencioso financeiro" e, no caso específico, os arranjos necessários para garantir a transferência dos descontos para a segurança social feitos pelos funcionários públicos portugueses, durante os últimos meses do regime colonial, que se encontravam depositados no Banco central de S. Tomé.

As conversas estavam a decorrer bem, até que um zeloso membro da nossa delegação, que estava no uso da palavra, decide suscitar, sem conhecimento do secretário de Estado que a chefiava, o seguinte tema: haveria cerca de 800 contos de descontos feitos pelos agentes da Direcção Geral de Segurança (novo nome dado à PIDE), a polícia política do regime derrubado no 25 de Abril. Portugal pretendia que o Governo santomense entregasse esse dinheiro.

No cômputo geral do que estava em jogo, o montante era perfeitamente irrelevante e só um espírito "pucuínhas" e burocrático, sem o menor sentido diplomático, teria tido a peregrina ideia de solicitar a respectiva restituição. Tecnicamente, o problema poderia ter algum sentido, mas, politicamente, era uma atitude completamente desastrada. E aquela era uma discussão política.

Antes que o chefe da delegação portuguesa pudesse aperceber-se da dimensão da patetice que acabara de ser dita pelo burocrata, o seu homólogo santomense levanta-se e afirma que, perante uma atitude deste teor, que considerava como ofensiva, o seu país abandona as conversações.

Ficámos todos em sobressalto. As relações com o novo governo santomense eram excelentes e um incidente destes era mais que escusado. A delegação de S. Tomé e Príncipe seguiu, naturalmente, o seu chefe, e levantou-se da mesa. Do lado português, ainda um pouco aturdidos, fizémos o mesmo.

Todos? Não! O governante português que dirigia a nossa delegação não só não se levantou como, para grande surpresa de quem o olhava como o salvador da situação, esperando que ele alcançasse rapidamente o seu homólogo santomense, que já abandonava a sala, e o convencesse a retomar o diálogo, foi-se "enterrando" na respectiva cadeira, com metade do corpo a deslizar mesmo sob a mesa das negociações.

O espectáculo era surreal e ninguém percebia o comportamento do nosso político - um homem de bem, que mais tarde iria ter uma carreira destacada no Portugal democrático. A sua cara denotava embaraço e, pouco a pouco, fomo-nos dando conta de que, afinal, procurava algo debaixo da mesa.

A explicação foi dada em segundos: o nosso governante havia tirado os sapatos durante a reunião de trabalho. Com os momentos precipitados que tinham acabado de suceder, e ao procurar calçá-los, terá acabado por lhes dar um pontapé e enviado ainda para mais longe, pelo que toda a sua estranha coreografia não representava senão o seu denodado esforço para se calçar, antes de ir tentar uma "démarche" diplomática. De facto, em peúgas, seria um pouco estranho estar a promover um diálogo político...

Tudo acabou em bem, os sapatos apareceram, os santomenses regressaram à mesa negocial e lá descalçámos mais essa bota...

Astérix

Um leitor atento queixou-se do "lapso imperdoável" de não ter referido ainda neste blogue a comemoração dos 50 anos da divertida série de banda desenhada Astérix, criada por Uderzo e Goscinny. E lembrou-me o facto de por aqui já ter falado de Corto Maltese, Lucky Luck, Tintin, Mafalda e Blake & Mortimer.

De facto, Astérix merece ser citado, embora a comemoração seja só amanhã. Fica feita a rectificação e, se me permitem, ilustro-a com a figura de Obelix, essa generosa personagem cuja dimensão física melhor passei a entender desde que por aqui vivo, em especial depois de conhecer a excepcional gastronomia destas terras da Gália - já não feita apenas de "sangliers".

Estudantes

A foto tem a qualidade própria de um telemóvel, mas achei que, apesar de tudo, valia a pena inseri-la como demonstrativa da "subversão" por que passou ontem a Embaixada de Portugal em Paris, com a invasão pacífica de dezenas de jovens portugueses e luso-descendentes - do ensino primário ao superior.

Mais de duzentas pessoas, que incluíram familiares e professores, estiveram presentes numa sessão de distribuição de bolsas a estudantes com dificuldades económicas e de prémios de estímulo à aprendizagem do português. Esta é uma iniciativa da Embaixada, com a preciosa ajuda de empresas nacionais que operam em França - Banco BCP, Banco Espírito Santo et de la Venétie, Caixa Geral de Depósitos, Fidelidade e Inapa.

Esta foi uma excelente demonstração do sentido de responsabilidade social de empresas que sabem interpretar a palavra solidariedade.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Lisboa

Lisboa é uma das mais belas cidades da Europa e o seu prestígio como destino turístico tem vindo a afirmar-se. Mas nem todos "dizem bem" de Lisboa: a diabolização de Tratado que tem o seu nome - na Irlanda como na República Checa, bem como em diversos outros meios eurocépticos europeus - trouxe Lisboa por paredes e por cartazes, e não por boas razões.

Depois de ter dado o nome à famosa "Estratégia de Lisboa", um prestigiante projecto para lançar a competitividade europeia à escala global, a capital portuguesa ficará agora associada ao destino do novo tratado europeu - dada a previsível dificuldade de gerar, por muitos e bons anos, um diferente consenso institucional entre os Estados membros.

Esperemos que um bom funcionamento da União Europeia, à luz do novo tratado, possa ajudar a garantir que Lisboa permanece com "bom nome" na memória colectiva da Europa.

Música na Embaixada

Chama-se Quarteto Sofia Ribeiro & Gui Divignau. Sofia canta e compõe, Gui toca contrabaixo, compõe e dirige musicalmente o grupo, de que também fazem parte Leonardo Montana, ao piano, e Mathieu Gramoli, na bateria. O português é uma língua que lhes é comum, porque se cruzaram por terras e músicas por onde passa a sonoridade bem diversa que elegeram como sua forma de expressão.

Mais de uma centena de pessoas esteve a ouvi-los, com manifesto agrado, na noite de ontem, na Embaixada. Do jazz ao fado, da bossa nova a Zeca Afonso, eles deram vida a mais um programa "Entre-pautas/Entre-partitions", organizado pela delegação do Instituto Camões em Paris.

Uma nota: se quiser ouvir Sofia Ribeiro, procure os seus discos "Dança da Solidão" (2006) e "Orik" (2008). É o que eu vou fazer.

Iraque

Mais de 155 mortos e largas centenas de feridos, na sequência de atentados em Bagdad, no Iraque, no domingo, dão bem a medida da tragédia que continua a marcar o quotidiano deste país.

Desde a invasão, em 2003, o número de mortos por causas violentas é muito discutido, mas em nenhuma das estimativas é inferior a 100 mil mortos. Vários estudos chegam a multiplicar este número por quatro ou mais.

Estas são as verdadeiras "armas de destruição maciça". Afinal, encontraram-nas.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Geografia

Numa sessão da Sociedade de Geografia francesa, durante a qual hoje falei dos "desafios" do Portugal contemporâneo, foi-me muito interessante verificar o generalizado fascínio dos respectivos membros pelo belíssimo (e muito pouco conhecido) edifício da nossa própria Sociedade de Geografia (na foto), em Lisboa. E soube bem notar o respeito e prestígio que mantém em França essa grande figura da ciência portuguesa que foi Orlando Ribeiro.

Há um Portugal, talvez ainda não suficientemente conhecido dos portugueses, que muitos estrangeiros já descobriram.

Líquidos

Ontem à noite, fui levar casa um amigo que habita na Rue des Eaux, aqui em Paris. A ironia maior é que ao fundo dessa mesma rua fica o Musée du Vin.

Isto fez-me lembrar a frase do José Cardoso Pires, no seu "Lisboa, livro de bordo", quando se referia ao aquífero chafariz que, em Lisboa, existe à porta do bar Procópio: "Um chafariz à porta de um bar é cá uma saudação que enternece o maior malvado".

domingo, 25 de outubro de 2009

Nova América

"Só no dia 28 de Junho deste ano é que tomei bem consciência de como as coisas haviam mudado nas relações entre os Estados Unidos e a América Latina: liguei a televisão e vi que os Estados Unidos estavam a vencer o Brasil em futebol. Nesse mesmo dia, nas Honduras, tinha havido um golpe de Estado e o meu país não tinha nada a ver com isso!".

Este é um comentário, irónico e verídico, feito por um responsável político da administração Obama.

Pedras ainda virtuais

"Vidago e Pedras Salgadas abrem em 2010", titulou na passada semana o "Expresso", com base em declarações da direcção da UNICER. O calendário é "definitivo".

O caso de Vidago não é para aqui chamado, embora só nos possamos felicitar pelo êxito daquela bela estância termal. Mas, por razões que já deixei explicadas, o que nos interessa é o caso da Pedras Salgadas (e os leitores deste blogue atentos a esta "novela" podem visitar os anteriores posts - aqui, aqui, aqui e aqui), uma vila em progressiva decadência, muito em especial devido ao fecho do respectivo parque termal, numa decisão unilateral da UNICER, em aberto incumprimento com o calendário a que se tinha comprometido.

Note-se então no que se diz no artigo do "Expresso", pela pena da jornalista Conceição Antunes, sobre as Pedras Salgadas:

- "Em Pedras Salgadas abriu este mês o Spa termal já renovado, mas só por um período experimental. A abertura oficial está agendada para Maio de 2010, altura em que será anunciado o projecto definitivo para o hotel de Pedras Salgadas, cujas obras irão arrancar em 2011".

- "Há muito que se anunciava a reabertura dos parques de Vidago e das Pedras Salgadas, cujos atrasos têm dado origem a protestos das populações".

- Presidente da UNICER em discurso directo: "Houve atrasos, porque o calendário inicial era impossível de cumprir. Obrigava a fazer a reconstrução dos parques em ano e meio" (Confesso que estranho, mas registo, esta confissão de irresponsabilidade por parte da empresa. Se era impossível de cumprir, por que razão a empresa assinou o contrato?).

- Presidente da UNICER: "Esta administração da UNICER teve de refazer não só o calendário mas toda a orçamentação, e para um investimento muitíssimo superior" (Trata-se de uma acusação pública de incompetência à anterior administração, presidida pelo Engº Ferreira de Oliveira. Teria talvez sido interessante o jornal ouvi-lo a este propósito).

- Presidente da UNICER: "Compreendo a impaciência da população, sobretudo de Pedras Salgadas, que há três anos não pode utilizar o parque termal. E posso garantir que o hotel vai ser uma realidade".

Basta cotejar a primeira nota e estas últimas palavras do presidente da empresa com o que ficou registado em anteriores declarações da UNICER para ter bem claro que muita coisa mudou, no prazo de pouco mais de um mês, no discurso da empresa. Terá isso alguma coisa a ver com a movimentação entretanto feita pela população das Pedras Salgadas? Cada um que tire as conclusões que bem entender.

Já agora, uma nota de apoio cultural ao presidente da UNICER: Vidago é, de facto, um parque romântico, mas não é "ligado ao surrealismo"! Surrealista é a situação que as populações das Pedras Salgadas têm vivido nos últimos anos, graças ao inacreditável comportamento da UNICER. Será talvez esse embaraço a razão do artístico lapso...

Ponderado tudo isto, pode-se concluir que a população das Pedras Salgadas continua a ter no horizonte, por ora, apenas um "hotel virtual", cujas obras a UNICER promete que irão arrancar em 2011 (para terminarem quando?) e cujo projecto definitivo será anunciado em Maio de 2010.

Atento o cadastro de promessas não cumpridas por parte da UNICER, todas as dúvidas sobre o seu comportamento futuro são, no mínimo, legítimas. Mas cá estaremos para ver se "esta administração" da UNICER cumpre, com rigor, o calendário que anunciou e a que agora se comprometeu publicamente.

Até lá, porém, urge saber se todo este imenso atraso é, ou não, compatível com os anteriores compromissos assumidos e se a AICEP considera que este flagrante incumprimento não obriga à assunção de compensações financeiras. É o que vai ser perguntado formalmente à AICEP, esperando poder contar com uma atenção do "Expresso" para as cenas dos próximos capítulos. É que estamos certos que o facto de não sermos fortes anunciantes nas páginas do jornal, como é o caso da UNICER, não limitará o seu interesse na auscultação de quem se contrapõe à posição da empresa incumpridora.

Estou também certo que estas questões serão acompanhadas com a maior atenção, agora sem dimensões de luta interpartidária a poluir a sua indiscutível dimensão cívica, pelos responsáveis eleitos, a nível local e distrital. E também pelos sectores relevantes do novo Governo, em cujo âmbito de competências o dossiê evoluirá.

Este é um tempo novo nesta questão, que agora vai começar. A seu tempo, haverá novidades...

Termino este post com uma saudação muito sincera de admiração pelo empenhamento do "movimento cívico" que, nas Pedras Salgadas, tem cuidado em manter esta questão viva, para evitar que a vila morra.

sábado, 24 de outubro de 2009

Aristides Sousa Mendes

Chamam-se Academias do Bacalhau e reunem, em torno de refeições cuja base gastronómica é óbvia, cidadãos das comunidades portuguesas no exterior. Começaram há mais de 40 anos na África do Sul, são hoje mais de meia centena em cinco continentes e têm como objectivo fomentar o convívio entre os associados, sublinhar os valores da cultura portuguesa e levar a cabo acções de solidariedade.

Na presença de descendentes, a figura de Aristides Sousa Mendes - o cônsul perseguido pelo regime salazarista, por ter decidido conceder vistos a refugiados estrangeiros - foi ontem homenageada numa sessão da Academia de Bacalhau de Paris, a que estive presente, em Drancy, no arredores de Paris.

O local não foi casual: em Drancy existiu, durante a Segunda Guerra Mundial, um campo onde as forças de ocupação alemã concentravam pessoas que eram posteriormente deportadas para campos de concentração.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

TV na Internet

Foi ontem à noite que o grupo Lusopress lançou, aqui em Paris, o seu canal de televisão na internet. É uma inovação* na comunicação social das comunidades portuguesas, com a vantagem de ter uma acessibilidade garantida a nível mundial, o que pode proporcionar um intercâmbio interessante com outros núcleos de portugueses espalhados pelo mundo.

Veja o novo site aqui.

*Em tempo: a acreditar num deselegante comentário que se publica, já existirão outros sistemas idênticos. O que ainda falta é boa educação...

Agradecimento

A Nossa Candeia concedeu a este blogue uma distinção - "Your Blog is just perfect to learn something every day"- que muito agradecemos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Solana

Javier Solana define-se a si próprio como um "optimista profissional". Só pode, como se diz no Brasil! Com uma Europa que, entre si, se divide sobre as relações com a Rússia, sobre o (eufemisticamente chamado) "processo de paz" no Médio Oriente, sobre a reforma do Conselho de Segurança, sobre a representação europeia no G20 e nas instituições de Bretton Woods, sobre a adesão da Turquia, sobre a amplitude de revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear - para apenas mencionar alguns dos muitos pontos de divergência intra-europeia - o chefe da diplomacia da UE faz um esforço notável para mostrar uma cara alegre.

Hoje de manhã, aqui em Paris, Solana respondeu, durante quase duas horas, a questões colocados por um auditório reunido em torno do Institute for Security Studies, dirigido por Álvaro de Vasconcelos. Com transparência e frontalidade, embora sempre com o tal oficioso "optimismo", o chefe da diplomacia europeia abordou os múltiplos desafios externos com que a União está confrontada.

De todas as intervenções, transpareceu a ideia de que a entrada em vigor do Tratado de Lisboa é um passo muito positivo no sentido do reforço da coerência da acção externa da União Europeia. Mas igualmente ficou claro que permanecem muitas interrogações sobre o modo como será possível compatibilizar o papel futuro do conjunto de "figuras" que o novo Tratado colocará no terreno, nomeadamente no tocante à respectiva visibilidade em nome da União. E que é na sábia escolha de algumas dessas personalidades que reside a chave do sucesso para uma futura representação externa - unificada e eficaz.

Malas

Há dias, ao transportar uma mala através de uma praça da província francesa, do hotel fronteiro para a estação do caminho de ferro, dei comigo a reflectir numa sábia recomendação que recebi de um antigo embaixador, já há umas dezenas de anos.

Falávamos precisamente da França, das suas belas estações ferroviárias e do prazer de viajar de comboio, que nos era comum. Foi então que o embaixador me comentou: "Você reparará que há quase sempre uns hotéis situados em frente às estações, algumas vezes colados a elas, em França com o nome frequente de "Hotel de la Gare". Siga o meu conselho: nunca se instale num desses hotéis!".

Intrigado, perguntei: "Porquê? Por causa do ruído dos comboios? Têm fraca qualidade?".

"Não, nada disso, homem!", responde-me o embaixador. "O problema é outro: são sempre demasiado longe para se carregar as malas e demasiado perto para se poder alugar um taxi!".

Os hotéis "de la Gare" já passaram um pouco de moda, as malas agora já têm rodas, o que infirma um pouco o raciocínio da época, mas, mesmo assim, com o tempo a pesar-me, cada vez tendo a dar mais razão ao meu velho embaixador.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Saudades do Meireles

A patética tragédia que envolveu a eleição autárquica na freguesia de Ermelo, em Mondim de Basto, fez-me recordar que, em Outubro de 1969, há precisamente 40 anos, fomos por lá fazer campanha eleitoral pela Oposição Democrática contra o Estado Novo.

Como já aqui foi referido, as listas eleitorais, ao contrário do que hoje sucede, eram então impressas sob responsabilidade das forças políticas promotoras (aliás, só havia duas: a "Situação" e a "Oposição"...) e entregues pelo correio ou directamente aos eleitores, neste caso num porta-a-porta mais seguro, mas nem sempre fácil.

Numa reunião da Comissão Democrática Eleitoral de Vila Real, dirigida por essa figura, para mim inesquecível, que foi o médico Otílio de Figueiredo, e que congregava o escasso número de quantos, no distrito, abertamente se dispunham aos riscos de enfrentar o regime, demo-nos conta que o concelho de Mondim de Basto era o único onde não dispúnhamos de nenhum contacto. Na discussão sobre o assunto, ao ser constatada esta lacuna, o Carvalho Araújo protestou: "Ora essa! Temos lá o Meireles! Já fez connosco o Norton e o Delgado. O Meireles é fixíssimo". (Um parêntesis para dizer que o nome "Meireles" me ficou na memória, mas posso estar enganado. Porém, para o que aqui importa, é irrelevante).

Convém esclarecer que o Carvalho Araújo era um homem já idoso, feroz republicano, que havia sido demitido da função pública nos anos 30, por actividades anti-regime. Tinha sempre um semblante grave e fechado, tratando-nos a nós, os mais novos que andávamos envolvidos na acção política da Oposição, com visível distância e até alguma desconfiança. Na verdade, não tínhamos andado com "o Norton" ou com "o Delgado": as eleições em que Norton de Matos havia sido candidato presidencial tinham tido lugar em 1949 (eu tinha nascido no ano anterior, o que, como se compreenderá, condicionou muito a minha participação na respectiva campanha...) e a idêntica aventura de Humberto Delgado fora em 1958 (altura em que as minhas prioridades se centravam na admissão ao liceu...). Porém, se o Carvalho Araújo assegurava o apoio do tal Meireles, era uma oportunidade que havia que aproveitar.

Assim, no dia seguinte, com a mala de um carro (creio que era um NSU do Délio Machado) cheia de envelopes já endereçados com boletins de voto, lá avançámos nós para Mondim. Aí chegados, com o Carvalho Araújo no comando das operações, fomos à procura do Meireles. Tarefa que se revelou menos viável, porque o Meireles havia falecido... já há sete anos!

Quando pensávamos que o Carvalho Araújo se ia deixar abater pela dura realidade, ele renasce: "Não há problema! Vamos à farmácia!". Olhámo-nos intrigados: "À farmácia? Para quê?". O Carvalho Araújo lança-nos, condescendente, a sociológica revelação: "Meus amigos, os farmacêuticos são sempre gente com espírito liberal, as farmácias são espaços de tertúlia, confiem em mim!". Verdade seja que as alternativas eram poucas e tínhamos necessidade de "despachar" as centenas de boletins de voto (os inscritos de então não eram muitos) que levávamos connosco.

O nosso homem tomou conta das operações, foi falar com o responsável da única farmácia local e, impante, regressou com o anúncio: "Eu não lhes dizia?! É um democrata, fica com os boletins de voto e encarrega-se de distribuí-los". Ficámos banzados! E a nossa admiração pelo sentido estratégico do Carvalho Araújo cresceu, de modo exponencial.

Semanas mais tarde, quando o nosso saldo eleitoral em Mondim de Basto se computou no magérrimo resultado de escassas dezenas de votos, o pior em todo o distrito de Vila Real, creio que tivemos a piedade de não comentar com o Carvalho Araújo a eficácia da sua "operação farmácia". E, mesmo sem o termos conhecido, sentimos fortes saudades do Meireles.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Aliados

A literatura lusófona tem, em França, um aliado seguro: as Editions Métailié. Há 30 anos que as letras do Brasil começaram a merecer a sua atenção e há 25 anos que os autores portugueses aí começaram a ser acolhidos.

(Devo confessar, em jeito de nota à margem, que cada vez sinto uma tentação para trabalhar na promoção da língua portuguesa através do conceito da lusofonia, sem com isso descurar a minha obrigação primeira de tratar do que é especificamente português.)

Hoje, ao final da tarde, na Gulbenkian de Paris ("where else?", diria George Clooney), a fundadora e directora da editora, Anne Marie Métailié, lado-a-lado com alguém que por aqui é um "embaixador" constante e teimoso do Portugal cultural, Pierre Léglise-Costa, falaram desses já longos anos de bom trabalho. Por aí estiveram também, em mesa-redonda, escritores como Lídia Jorge, José Eduardo Agualusa e Pedro Rosa Mendes - sendo este último o novo delegado da Agência Lusa em França, um "luxo" jornalístico-cultural de que poucos países se podem gabar.

Léglise-Costa é responsável na Métailié pela "Bibliothèque Portugaise", onde também já foram publicadas obras de escritores como Vergílio Ferreira, José Régio, Jorge de Sena, Mário Cláudio, Maria Gabriela Llansol, Eduardo Lourenço ou Agustina Bessa Luís.

O debate foi muito interessante, com Pedro Rosa Mendes a falar, entre outras coisas, do destino complexo da língua portuguesa em Timor-Leste, com Lídia Jorge a defender a importância da narrativa na literatura e com Agualusa a chamar ao português "uma língua com afeição a diversas geografias".

Portugal e Brasil

Depois do triste "affaire" Maitê Proença, talvez valha a pena lembrar que há quem, no Brasil, tenha uma visão bem mais interessante - e incomensuravelmente mais culta! - daquilo que liga os dois países.

É claro que não me dá jeito nenhum aceitar o amável convite que recebi para ir ao Leblon na próxima semana, mas este livro de Ângela Dutra de Menezes, agora em nova edição, é um excelente exemplo de como a realidade portuguesa pode ser lida de outra forma, bem mais carinhosa e elaborada, embora sem necessitar de ser pesada, e por mais provocatório que o título possa parecer à "sensibilidade" de alguns ouvidos portugueses.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Boaventura

Hoje, apetece-me contar uma historieta da minha terra, de Vila Real, que ouvia ao meu pai.

Na minha adolescência, vivia na cidade uma figura de porte imponente, sempre bem vestida e com um chapéu cinzento, que parecia apenas pousado no alto da sua cabeça, que dava pelo nome de Boaventura. Ao que se sabia, o senhor Boaventura vivia dos rendimentos de anteriores actividades comerciais no Brasil, que lhe garantiam a prosperidade que transparecia no seu quotidiano. Homem sociável, bem disposto e de trato agradável, parava pelos finais de tarde na Relojoaria Salgueiro, na "rua central", local para conversas soltas, sem agenda, entre amigos.

Estava-se nos anos 60, algumas crises sacudiam então o país, tentativas de golpes políticos tinham sido abafadas, ideias "avançadas" (como à época se qualificavam as ideias de esquerda) iam fazendo o seu clandestino caminho, Portugal dava ares de estar já cansado de "viver habitualmente", como o doutor Salazar desejaria.

Num desses fins de tarde de charlas, um dos amigos do senhor Boaventura não resiste, e lança-lhe, irónico e ousado: "Ó Boaventura, você tem de se 'pôr a pau', homem! Isto está a aquecer, um destes dias o comunismo vem 'por aí acima' e o meu amigo, que não faz nada na vida, vai ter que começar a trabalhar".

O Boaventura não se desmancha e responde: "Pode ser que sim. Mas uma coisa é certa: quarenta anos de boa vida já ninguém me tira!".

Contei hoje esta historieta a Lídia Jorge, à hora do almoço. O comentário dela foi de que não era por acaso que o nosso homem se chamava Boaventura...

Lourdes Castro

Se estiver ou for a Paris, não deixe de visitar, no Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian, a imaginativa exposição de Lourdes de Castro, intitulada "Grand Herbier d'Ombres", projecções em papel de plantas da Madeira, feitas em 1972.

A abertura foi no dia 13 de Outubro e o entusiasmo de Lourdes Castro contagiou quem com ela viveu esses momentos, em que recordou os tempos dos anos 50 em que veio para Paris e, com outros artistas portugueses, por aqui passou tempos que viriam a revelar-se marcantes para a história da arte contemporânea nacional.

A agenda de realizações da Gulbenkian, em Paris, sob a direcção atenta de João Pedro Garcia, constitui um contributo inestimável para a projecção da nossa cultura na capital francesa, conseguindo, com maestria, aliar temáticas cada vez mais diversas.

A Fundação Calouste Gulbenkian não necessita de nenhum reconhecimento do Estado português. Precisamente por isso, e como diplomata português, sinto-me livre para expressar a grande admiração que tenho pelo seu trabalho e a avaliação que faço de quanto Portugal lhe deve no seu prestígio externo.

domingo, 18 de outubro de 2009

Estrasburgo (3) - Português

Os meses que levo de funções em França ensinaram-me que a questão do ensino da língua portuguesa é uma realidade muito complexa, com uma variedade de situações que aconselham uma abordagem diferenciada.

Desta vez, analisei longamente, com diversos responsáveis da Universidade de Estrasburgo, bem como com docentes portugueses que aí operam, a importância de podermos caminhar para modelos de maior identificação da língua portuguesa no quadro do respectivo processo de ensino e formação. Portugal está disposto a conceder meios acrescidos para tal fim, desde que seja possível consensualizar novos formatos académicos, susceptíveis de abrirem as portas a uma frequência acrescida de alunos.

Neste domínio, há uma realidade e um mito que importa referir.

A realidade é que a promoção do português no plano internacional não deve ser vista, nos dias de hoje, como uma responsabilidade exclusiva de Portugal. Todos os países que se exprimem oficialmente em português têm hoje consciência que a difusão e o prestígio da sua língua comum são elementos constitutivos da sua própria relevância no quadro global. Por essa razão, Estados como o Brasil e Angola, com recursos capazes de poderem auxiliar a uma expansão da língua que nos é comum, estão hoje ao nosso lado numa luta que, no passado, parecia uma responsabilidade única de Lisboa. Com isso, ganhamos todos e ganha cada um.

O mito é a ideia de que o interesse em promover o ensino da língua portuguesa em França tem a ver, exclusivamente, com a vontade estratégica de Portugal de aculturar as novas gerações de luso-descendentes no cultivo da mesma língua. Quem assim pensa, esquece a importância crescente para a própria França de ter gente preparada para actuar em português, por exemplo, em mercados da importância do Brasil ou de Angola. E põe de lado, do mesmo modo, a consideração do interesse de um país como a França em sublinhar e promover a riqueza que constitui a sua própria diversidade interna, ao serviço de uma agenda de influência global. Daí que a continuidade das emissões em língua portuguesa na Radio France Internationale me parece que faz parte do quadro de interesses específicos da própria França.

Vamos ter muito que falar sobre a língua portuguesa em França.

Estrasburgo (2) - Europa

A racionalidade económica da manutenção de Estrasburgo como sede das instituições europeias é, muitas vezes, posta em causa e tida como um reflexo de uma velha teimosia francesa. Mas Estrasburgo é muito mais do que uma das sedes dos Parlamento Europeu, do que o local onde funcionam o Conselho da Europa ou o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. A capital da Alsácia, encostada à Alemanha, palco de históricas tragédias, é, em si mesma, a verdadeira representação daquilo que é a própria Europa.

No passado sábado, fiz parte de um painel de um colóquio, na majestosa "Salle de l'Aubette", da "Mairie" da cidade, sob o tema "De Nice a Lisboa - que futuro para a Europa?". Impressionou-me ver reunida e mobilizada uma audiência de mais de uma centena de pessoas para, durante hora e meia, ouvir e participar activamente, numa discussão franca e aprofundada, sobre as grandes temáticas europeias. A juventude do auditório e a vitalidade das suas contribuições foram para mim a prova provada de que o centro da Europa passa, definitivamente, por Estrasburgo.

Estrasburgo (1) - Elsau

Elsau é uma zona periférica de Estrasburgo, com sérios problemas sociais, enfrentados com coragem e capacidade de liderança por Eric Elkouby, um responsável político da "Mairie" da cidade. Questões étnicas, forte desemprego e outras tensões marcam o quotidiano complexo desse sector da cidade, que foi, curiosamente, o primeiro ponto de fixação dos portugueses, nos anos 70.

Hoje, os portugueses representam aí um importante factor de promoção da estabilidade, como me sublinhou, com entusiasmo, o deputado Armand Jung, uma das figuras mais activas do grupo parlamentar de amizade França-Portugal, na Assembleia Nacional francesa. Com efeito, a "Association Sportive de Strasbourg Elsau Portugais", dirigida por Alfredo da Fonseca, está hoje no centro de um magnífico projecto de integração, louvado por todas as comunidades, e que se constituiu um aliado essencial das iniciativas que procuram recuperar o tecido social daquela área da cidade.

É muito agradável para um responsável diplomático português ouvir, das autoridades francesas, rasgados elogios à contribuição dos nossos compatriotas para as soluções de integração de outras comunidades. Melhor prova não pode haver de que os portugueses são, já hoje, parte da solução para as questões inter-étnicas com que a França se debate. Da mesma forma que, em nenhum momento do seu passado em terras francesas, constituíram parte dos problemas que emergiram nesse terreno - nunca é demais lembrá-lo.

O francês

O óbvio declínio do estatuto da língua francesa no mundo é algo que, com grande frequência, tenho sentido como uma preocupação entre amigos franceses. E que é igualmente um motivo de tristeza para quantos, entre os portugueses da minha geração, se habituaram a ter o francês como a primeira língua estrangeira de cultura. Mas a vida é o que é e até os franceses têm hoje de se resignar com a prevalência do "soft imperialism" da língua inglesa.

Há duas semanas, o papel global relativo do português e do francês esteve em debate em Paris, durante um dia, numa iniciativa realizada na Maison de l'Europe, sob o impulso das delegações da Comissão Europeia em Lisboa e em Paris. Figuras interessadas de ambos os países animaram um debate onde se juntaram perspectivas bastante realistas com outras que, pelo menos no breve período a que pude assistir, relevavam muito de uma visão marcada apenas por um simpático voluntarismo sem visão prospectiva sólida. De qualquer forma, esta é uma temática que há vantagem em tentarmos continuar a seguir e a aprofundar, porque, em ambos os casos, tem muito a ver com questões culturais identitárias que se interligam e a que nos importa estar atentos.

A este respeito, descobri hoje na internet um texto de Guy Sorman, um autor francês. (Não conheço muito de Sorman. Por um mero acaso, comprei, há menos de um ano, numa livraria de Buenos Aires, uma sua obra, curiosamente em "contra-corrente" às ideologias do quotidiano mediático, intitulada, na versão argentina que tenho, "La economía no miente", onde se releva a importância dos mercados em tempos de crise). Sorman escreve agora, de Lisboa, um texto sobre a questão do francês no mundo, onde refere o estatuto de que hoje essa língua dispõe em Portugal.

No artigo, o autor nota, de passagem, que "le Portugal déteste se percevoir en petite nation". É uma nota curiosa, mas talvez Guy Sorman, com o tempo, venha a entender melhor que essa reacção se deve apenas à circunstância de, de facto, não sermos uma pequena nação - também por razões de natureza cultural e estratégica que não faria mal serem reflectidas pela própria França.

Leia o texto de Guy Sorman aqui.

sábado, 17 de outubro de 2009

Europa

Com apresentação e comentários, de grande profundidade, da responsabilidade de Eduardo Lourenço, Marcelo Rebelo de Sousa falou, na passada terça-feira, no Centro Cultural da Fundação Gulbenkian em Paris, sobre "A Europa depois da crise".

Esta excelente série de conferências sobre a temática europeia, que foi iniciada com Jorge Sampaio e Jacques Delors, constitui um importante contributo dado por Portugal, para auditórios franceses, na reflexão sobre os destinos do continente.

Marcelo Rebelo de Sousa esteve igual a si próprio: inteligente e perspicaz, académico e inventivo, polémico e prospectivo. Entre outras coisas interessantes que disse, para além de notas históricas que deixou das suas andanças no PPE, ao tempo que era líder do PSD, explicou, em detalhe, a sua leitura da opção europeia por Durão Barroso, em 2004.

Para o professor, o tipo de lideranças de Jacques Santer e de Romano Prodi já haviam tido lugar precisamente porque os líderes europeus se haviam assustado com a "força" de Jacques Delors. Quase só faltou que Marcelo Rebelo de Sousa citasse Steinbroken: Delors era "fort, excessivement fort!".

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Álvaro Guerra

Ontem à tarde, ao chegar a Estrasburgo, tive saudades do Álvaro Guerra.

Senti falta das nossas conversas depois dos opíparos jantares que a Helena por aqui preparava, quando ele era embaixador junto do Conselho de Europa. Gostava das nossas eternas discussões sobre os touros, vício vilafranquense que eu combatia com argumentos ideológicos, com ele a atirar-me à cara com o Hemingway. Um dia, ofereceu-me um livro de Jean Cocteau para me convencer da bondade natural da "fiesta".

O Álvaro era um homem com uma serenidade bem disposta, que tinha prazer genuíno em partilhar connosco leituras feitas, que nos ajudava a procurar na magnífica imensidão da Kléber. Nunca concretizámos uma viagem várias vezes planeada pela "route des vins", durante a qual me prometia que eu iria conhecer néctares que iam ser a alegria cimeira dos meus triglicéridos.

Teve uma vida cheia, do jornalismo à literatura, da política à diplomacia. Foi uma figura maior da intelectualidade portuguesa, que é importante não esquecer e dar a conhecer às novas gerações. Para o ano, na comemoração do centenário do estertor da chefia hereditária do Estado em Portugal, convirá relermos o seu "Café República".

Votações diplomáticas

A pretexto da despedida oficial de um amigo comum, tive a jantar na residência a nova directora-geral da UNESCO, a bulgara Irina Bukova.

Irina é uma amiga pessoal de há quase 15 anos. Foi secretária de Estado dos Assuntos Europeus e ministra dos Negócios Estrangeiros do seu país e era, até há pouco, embaixadora da Bulgária em França. Temo-nos encontrado frequentemente pelo mundo e, a título pessoal, fiquei muito satisfeito pelo facto dela ter ascendido ao posto mais elevado desta agência especializada da ONU.

Irina Bukova sabe e entende que Portugal não pôde votar na sua candidatura, por ter anteriores compromissos assumidos que relevavam de outros equilíbrios que não interessa aqui analisar, até porque se trata de temas fora da minha área de competência. E ela sabe, em especial, que Portugal é um país que honra sempre, com o maior rigor, os compromissos que assume no plano internacional - que um voto comprometido é, pela nossa parte, um voto garantido. Não são muitos os Estados que têm esta imagem na vida multilateral. Nós têmo-la, tal como temos a obrigação de mantê-la. Por isso, não obstante alguma polémica que envolveu, mesmo entre nós, o processo da eleição do novo director-geral da UNESCO, Portugal procedeu de forma perfeitamente consonante com os compromissos que, em tempo oportuno, havia assumido.

Na minha conversa com Irina Bukova, ao referirmos o facto de quase metade dos países membros da UNESCO não terem votado nela, recordei-lhe uma lição que recebi de Jaime Gama, no termo da nossa eleição, em 1996, para o Conselho de Segurança da ONU. Na altura, eu manifestava-me abertamente desagradado e disposto a tirar algumas consequências futuras do facto de alguns dos nossos aliados tradicionais nos terem abandonado, num momento em que necessitavamos deles, o que, contudo, não impediu a nossa vitória. Gama foi mais ponderado e recomendou-me que rectificasse a minha atitude: "Não se constrói uma política externa com base em ressentimentos". Tinha toda a razão.

Estou certo que a inteligência, simpatia e sentido de compromisso de Irina Bukova a farão caminhar no sentido da união de todos os países que compõem a UNESCO. E nós estaremos, ao seu lado, para a ajudar a dar vitalidade a uma organização a cuja actividade atribuímos a maior importância.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Palhaçadas

Nos últimos dias, a internet foi inundada por um vídeo no qual a actriz brasileira Maitê Proença revela ideias fortemente preconceituosas em relação aos portugueses. Trata-se de graçolas de quem, finalmente, tornou clara uma lusofobia que, com inegável sucesso, há anos que vinha a disfarçar bastante bem. Entretanto, fez já um acto de contrição, porque, afinal, o mercado português sempre lhe dá regular jeito à conta bancária.

Quando fui embaixador no Brasil, defrontei-me, por mais de uma ocasião, com situações idênticas. Algumas vezes em que achei oportuno, respondi a esses comentários. Outras, optei por não reagir.

Este é um problema que se coloca, de forma recorrente, a muitos embaixadores: avaliar se devem ou não actuar, em face de ataques públicos ao seu país ou aos seus cidadãos. Há que ponderar se tal reacção não acabará por ter um efeito desproporcionado, isto é, se não ajudará a chamar mais atenção para a questão, do que aquela que ela teve no momento em que ocorreu. E, depois, nos casos em que decidirmos intervir, há que ainda que escolher e medir o tom que essa intervenção deve ter. Podem crer que é uma questão nada fácil.

Também aqui em França, o problema se coloca. Um conhecido cómico de "stand-up comedy", Patrick Timsit, tem feito, num espectáculo público em exibição em Paris, comentários desagradáveis sobre os portugueses. Vários compatriotas sugeriram uma reacção a esse "sketch". Também acho que devemos tê-la: rir dele. Não é isso que os palhaços querem?

Ainda a solidão

A tragédia do cidadão português cujo cadáver foi descoberto, aqui em França, apenas dois anos após a sua morte, foi objecto de um artigo que hoje publico no "Correio da Manhã".

Pode ser lido aqui.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Madeira

Ontem, a Embaixada de Portugal em Paris encheu-se de "experts", para apreciarem a fantástica variedade dos nossos excelentes Vinhos da Madeira.

Quase duas centenas de escanções, enólogos, "restaurateurs" (detesto o português "restauradores", que, para além da praça, me faz sempre lembrar mobiliário), importadores, distribuidores, responsáveis por lojas "gourmet" e muitos jornalistas especializados andaram pelos nossos salões, tendo tido também o ensejo de petiscar algumas especialidades portuguesas da casa Canelas (passe a merecida publicidade).

Uma agenda de trabalho alternativa impediu-me, infelizmente, de partilhar os prazeres do Verdelho, do Malvasia ou do Sercial. Mas diz-me quem esteve presente que o êxito desta degustação foi bastante grande. Agora, só esperemos que as encomendas correspondam.

Em tempo: leia o que escreve a Radio du Goût.

Solidão

O corpo de um cidadão português de 62 anos foi ontem encontrado, numa casa, nos arredores de Paris, dois anos após a sua morte natural. Nenhum familiar, amigo, conhecido ou vizinho deu, entretanto, pela sua falta.

Pode haver algo mais triste do que isto?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Prós e Contras

O debate que ontem teve lugar no programa "Prós e Contras", que a RTP Internacional nos proporcionou, constituiu um interessante momento para a aferição de diferentes leituras sobre conceitos deontológicos da profissão de jornalista em Portugal.

Porque é muito raro ver aquela classe profissional dar-nos o privilégio de ver contrapostas tal diversidade de posições, afastando-se do monolitismo de defesa corporativa que parece ser uma sua endémica e sacrossanta regra, todos ganhámos muito com o que ouvimos. Nalguns casos, por razões bem alheias à vontade dos intervenientes. Foi um favor que ficamos a dever a Fátima Campos Ferreira.

Turquia

Está este ano a ter lugar a "Saison de la Turquie en France", uma iniciativa de cariz cultural que permitirá à sociedade francesa ter um olhar sobre a realidade turca que vá para além da caricatura com que a questão da aproximação deste país à União Europeia tem vindo a ser abordada, nos últimos anos, por vários sectores da opinião pública.

Este é um tema que sabemos não ser nada fácil em França e que aqui continua a suscitar fortes reacções e polémicas, com natural projecção nos agentes políticos. Por essa razão, considero ser muito saudável encontrar, no seio da opinião pública francesa, figuras de prestígio que, aproveitando estes eventos culturais, tentam recolocar o debate num ambiente de serenidade e maior racionalidade.

A carta que, no jornal "Le Monde" de hoje, surge assinada por figuras como Michel Rocard, Jacques Delors, Luc Ferry, Edgar Morin e Alain Touraine é um verdadeiro manifesto de responsabilidade cívica e um alerta para o erro que constitui a criação de uma espécie de "muro" civilizacional, que alguns parece pretenderem erigir entre o processo integrador europeu e a Turquia. Leia aqui o texto.

Vale a pena recordar que a Turquia foi convidada a ingressar nas então Comunidades Europeias ainda antes da Grécia e que foi plenamente reconhecido que aquele país preenche os chamados "critérios de Copenhague", que definem as bases para uma candidatura de qualquer Estado ao "clube" europeu. E também é interessante notar que o actual primeiro-ministro grego, Georgios Papandreou, se revelou um defensor da adesão turca à União Europeia, não obstante persistirem alguns temas de sensível conflitualidade entre os dois Estados.

Naturalmente que não podemos deixar de ter em conta a sensibilidade negativa que se sabe continuar a existir em vários países europeus, em face de uma futura adesão da Turquia. Por isso, compete-nos respeitar a dificuldade com que dirigentes de alguns desses Estados se defrontam. O que não nos parece aceitável é que se anuncie que se fecham as portas à Turquia à luz de preconceitos civilizacionais, assumindo uma espécie de fronteira religiosa, esquecendo o efeito deletério que isso pode ter na evolução da própria sociedade turca, assim potenciando o seu caminho num sentido que, a prazo, pode vir a revelar-se estrategicamente trágico para a Europa.

Como lembrou, há meses, o ministro português dos Negócios Estrangeiros, num artigo divulgado pelo jornal "Público", os europeus continuam a ter reflexos em torno das suas questões de segurança à luz de uma lógica que ainda é meramente tributária dos tempos da Guerra Fria, não entendendo a urgência de redimensionar essa mesma perspectiva estratégica sob o prisma de um mundo onde, entretanto, teve lugar a tragédia do 11 de Setembro. Não perceber as consequências de natureza cultural e civilizacional que este novo tempo acarreta constituiu uma cegueira que é indigna de um projecto que se pretende com ambições de projecção à escala global.

Portugal é um país que, em face dos processos de alargamento da União Europeia, esteve e está, desde sempre, muito à vontade. Para surpresa de muitos, nunca nos colocámos na postura egoísta que alguns de nós esperariam, como reflexo defensivo face à necessidade de partilha das vantagens financeiras que disfrutávamos desde a nossa própria adesão. Porque sempre assumimos esse mesmo projecto de abrangência como um esforço de reconciliação da Europa consigo própria.

Por isso, e tal como o presidente da República portuguesa claramente deixou definido na sua recente visita oficial à Turquia, encaramos de forma muito positiva o processo de aproximação de Ancara das instituições europeias e tudo faremos para, no âmbito da União, manter o nosso compromisso de solidariedade e responsabilidade assumido para com a nação turca.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Romance

A imprensa francesa, e não só, tem especulado muito sobre o livro de ficção que o antigo presidente da República, Valéry Giscard d'Estaing, acaba de publicar, no qual desenha um "affaire" entre um chefe de Estado francês e uma infeliz princesa britânica. A proximidade entre os perfis das personagens retratadas e as do autor do livro e da falecida princesa Diana têm alimentado imensos comentários.

Porque este género de literatura também faz parte da vida, decidi-me a ler o livro. Cheguei a duas conclusões. A primeira é que, não obstante ser membro titular da Academia Francesa, Giscard d'Estaing dificilmente será prémio Nobel da literatura. A segunda é que a obra pode ajudar a que, um destes dias, ainda possamos ter uma boa tradução gaulesa da expressão "wishful thinking".

Acabou!

O facto da sociedade portuguesa estar, desde há mais de meio ano, retida numa contínua campanha eleitoral, em especial num ano de crise económica, não terá sido uma coincidência muito feliz. Este é, contudo, o preço da democracia de que usufruímos e devemos felicitar-nos pelo facto de, neste tempo complexo da vida portuguesa, ter sido possível confrontar ideias e projectos.

Agora, desculpem lá!, é tempo de voltar ao trabalho!

Em tempo: não deixa de ser profundamente estranho que um país com menos de 10 milhões de habitantes demore longas horas para apurar os seus resultados eleitorais e o Brasil, com uma população quase vinte vezes superior, consiga ter os dados definidos pouco mais de uma hora depois do encerramento das urnas. Será que não poderíamos utilizar um sistema electrónico similiar ao brasileiro, que hoje não sofre qualquer contestação significativa?

domingo, 11 de outubro de 2009

Vote bem!

Castanhas

Há duas semanas, saído de uma mesa de voto, soube-me bem sujar as mãos com castanhas assadas, embrulhadas num papel de jornal que não "passava" num teste da Asae...

Comer castanhas pelas ruas, especialmente no Outono, é um hábito comum em cidades de vários países do mundo, como é o caso de Paris, mas, não sei bem porquê, tem sempre um especial gosto em Lisboa.

E, já agora, ouçam isto.

sábado, 10 de outubro de 2009

Correio

A propósito da polémica que aqui em França prossegue sobre a intenção de abrir ao capital privado o serviço dos correios, apeteceu-me relembrar uma música que sei que dirá alguma coisa a uma certa geração portuguesa. Ouçam-na aqui.