terça-feira, 28 de junho de 2016

O "opt-out" final

(Na noite/manhã do Brexit, publiquei no Observador, a convite desse site, o texto que se segue. Dei-me agora conta de que, por lapso, não o reproduzi, como sempre faço, quanto mais não seja "for the record", neste blogue.)
David Cameron vai ficar na História do Reino Unido e da Europa. É mais do que um pé-de-página. É o titular de um dos mais tristes capítulos que um país com a responsabilidade global do Reino Unido inscreve no curso dos factos europeus.
O primeiro-ministro cessante, que os últimos meses consagraram como um irresponsável bombeiro pirómano, brincou com o futuro do seu país para tentar sarar uma ferida partidária que só acabou por agravar. Fez emergir, com uma evidência sem par, uma detalhada agenda eurocrítica que vai agora ser apropriada por setores em todos os Estados membros. Só partilho com ele a sua derrota.
O anúncio da saída britânica da União vai estimular pulsões referendárias noutros Estados membros e, em alguns outros, suscitar “condições” para a permanência no projeto comum, que passarão por alguma maior “flexibilidade”, isto é, pela aproximação e aproveitamento de alguns aspetos da integração diferenciada de que o Reino Unido já dispunha. As eleições presidenciais francesas estão à porta e o dia de ontem não podia ter corrido melhor a Marine Le Pen.
Alguns dirão: se mais de metade dos eleitores britânicos votaram contra a permanência do seu país na União é que, pela certa, alguma razão terão.
Claro que sim! Nenhum eleitorado fica insensível a uma campanha demagógica que colocou a União Europeia como a fonte de todos os males, como o bode expiatório de tudo quanto não funciona, dos migrantes à burocracia, da insegurança das ruas à do emprego.
E, particularmente, nenhum eleitorado consegue reagir a esta demagogia organizada se, ao seu lado, não tiver uma pedagogia assumida oficialmente em favor da Europa, da causa europeia, dos valores do projeto integracionista, dessa soma de vontades que trouxe décadas de paz, de estabilidade e de bem-estar a centenas de milhões de pessoas. E de esperança a muita gente, como os cidadãos das antigas “democracias populares”, que perceberam que era a este projeto de sucesso que queriam aliar-se, para a defesa da democracia conquistada, do desenvolvimento desejado, da segurança coletiva que nele vislumbram.
Cameron, ao invés, fez uma campanha através do medo, instilando a angústia do salto para o desconhecido, a isso juntando o sublinhar egoísta daquilo que supostamente tinha conseguido para o Reino Unido – aquilo que os outros não tinham! Até explicou, sob o silêncio vergonhoso mas não envergonhado dos líderes europeus que a isso o autorizaram, que podia vangloriar-se de ter limitado os direitos sociais ligados a essa imensa conquista (passada) que era a livre circulação de pessoas no espaço comunitário, complemento indispensável do mercado interno de que Londres é um dos maiores beneficiários.
O Reino Unido, contudo, já tinha quase tudo. Não estava na moeda única, pelo que detém autonomia monetária, isenta os seus bancos da supervisão do BCE, gere a seu bel-prazer a política de rendimentos e preços, não se preocupava com o Pacto de Estabilidade do senhor Theo Weigel nem com os limites do Tratado Orçamental. No orçamento, beneficiava do seu indiscutido “rebate” (ou cheque compensatório de volta), obtido por Margareth Thatcher. Pela City londrina passam 40% dos títulos emitidos em euros. Etc, etc., porque a lista das “exceções” britânicas é bem mais longa e, espante-se que não souber, nem a Carta dos Direitos Fundamentais lhe tinha escapado.
Em relação à Europa, os primeiros-ministros britânicos foram formatados num “template” tipo Alberto João Jardim, que empochava as conquistas obtidas, “taken for granted”, e, no minuto seguinte, logo reclamava novas vantagens e concessões. Ser ilha terá alguma coisa a ver com essa similitude?
A União Europeia nunca soube, desde sempre, lidar com o Reino Unido. Pressentia a importância de não perder a 5ª economia do mundo (e a 2ª no seu seio), com lugar na foto de família sorridente do G8, o seu poder militar mais significativo, uma voz internacional (com assento permanente e veto no Conselho de Segurança da ONU), com uma rainha que ciclicamente encena o sucedâneo coreográfico do império que é a Commonwealth.
Desde o dia 1 da sua entrada no clube europeu, o Reino Unido consagrou-se como um parceiro relutante, difícil, cioso da diferença. Estava, diga-se, no seu pleno direito, como estava no direito dos restantes parceiros terem resistido a esse tropismo endémico, em busca galopante do regime de “exceção”. Se, em tempo oportuno, lhes tivesse sido dito “se estão mal, mudem-se!”, talvez não tivéssemos entrado por este plano inclinado, politicamente obsceno, de “opt out” sistemáticos. Esse movimento descendente, erigido como política oficial, apontava, a prazo, para o destino deste “opt out” final.
O Brexit passou. Mas, volto atrás, a mais de metade da opinião pública britânica, que agora se revoltou contra a União Europeia, vai, com toda a certeza, pressionar – porque a democracia parlamentar no Reino Unido funciona – os seus deputados e governos por resultados concretos, exigindo tudo aqui que, afinal, não tinham por “culpa de Bruxelas”. E a outra quase metade, derrotada na sua aposta em ficar, vai exigir ao poder que sobrar em Londres que lhe garanta o que, com o tempo, se tornará mais evidente serem as vantagens que, afinal, advinham da pertença ao clube com sede em Bruxelas. Não vai ser fácil ser governo em Londres na próxima década.
No imediato, confesso que não posso esperar para ver a prosápia de Cameron, naquele “perpwalk” que vai ser a sua entrada – encenada, apressada, vigorosa – no Justus Lipsius, daqui a dias, lá por Bruxelas. Estou interessado em perceber como vai ele, como os britânicos quase sempre fazem, fazer da derrota uma imensa vitória. A menos que tenha a decência de “step out”, o que está longe de ser certo.
A questão britânica importa-me, naturalmente, mas interessa-me muito mais, confesso, o futuro europeu. E aqui, como dizem os ingleses, estamos em “unchartered waters”, isto é, no nosso poético dizer, “por águas nunca antes navegadas”. Até pode acontecer que, passada uma turbulência inicial, mais ou menos controlada politicamente, este “Lehman Brothers” europeu acabe por amainar, na ciclotimia dos mercados. E até há quem diga que, daqui a semanas, todos concluiremos que, afinal, este traumatismo tido por cataclismo não passou de um susto, como o “millenium bug”.
Mas não, não vai ser assim, quaisquer que seja o percurso dos primeiros tempos. O Reino Unido vai ter de votar, no plano parlamentar, o “leave” – e nós sabemos que a democracia britânica tem uma linearidade que, neste domínio, nos não trará surpresas. Antes ou depois disso, Londres vai ser forçado a invocar o Artigo 50º do Tratado de Lisboa e uma longa negociação de “divórcio” (litigioso, podem crer) vai iniciar-se.
Não é fácil lidar com os britânicos em terreno de negócios. Como alguém dizia, “os ingleses não têm amigos, têm interesses”. Às vezes, contudo, têm interesse em ter amigos, mas agora alienaram-nos. Vamos, a Europa que resta, ter grandes dificuldades pela frente, desde logo desmantelar todo o arsenal de acordos externos que a União (com os britânicos dentro) tem. São “só” 54 países! Londres tem os direitos dos nossos trabalhadores como reféns, pelo que isso será moeda de troca valiosa para o que viermos a exigir deles.
Este passo britânico vai ter efeitos muito deletérios no ambiente europeu. No passado, sempre falámos de “construção europeia”, agora iniciámos um tempo novo, o da “desconstrução”. Como disse, o tropismo em favor da generalização de “exceções” pode começar a “cogumelizar” (os ingleses têm para isso a bela expressão “mushrooming”, faça-se-lhes essa justiça!) por aí adiante. E isso, ao contrário do que alguns pretendentes caseiros à recuperação de soberania possam pensar, pode virar-se contra nós, contra Portugal.
Eu explico: no estado caótico em que o projeto europeu se encontra, sem lideranças nem visões de futuro, esta decisão britânica, por muito que demore a concretizar-se, abre um ambiente favorável a que germinem algumas ideias em torno de uma espécie de “refundação”, assente nesse saudoso núcleo duro que viveu as “trente glorieuses” (os trinta anos de sucesso económico), com mão-de-obra barata, protecionismo aduaneiro e outras delícias. Foi um tempo que permitiu estruturar o modelo social europeu, agora em risco por um endémico crescimento sofrível, fruto da perda de competitividade europeia, por uma má gestão da globalização, a que se soma uma crise demográfica que não é compensada, por razões políticas que este referendo deixou bem evidentes, por uma política racional de imigração.
E tenho para mim muito claro que qualquer modelo centrípeto dessa natureza implicará a formação de um “núcleo duro”, para a entrada no qual será preciso mais do que vontade, isto é, será essencial ter capacidade económica e sustentabilidade financeira, nos termos que a Alemanha vier a ditar. Nesse modelo, dificilmente Portugal estará presente. Esta é a minha convicção, mas adoraria estar enganado.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O Verão


Está por aí um calor que até assa canas, dizia-se na minha juventude. Cada vez mais! Tenho imagens fortes de dias abafados, nesses tempos, lá por Vila Real. Sem ar condicionado, algo que nem sonhávamos o que era mas que víamos na publicidade da "General Electric", na edição brasileira do "Reader's Digest", o calor matinal arrancava-nos da cama, as tarde passavam-se com janelas abertas "para fazer corrente" e só lá para o fim do dia nos aventurávamos para namorar "pela sombra" ou ir beber um "fino" na esplanada da Gomes.

Bem mais jovem ainda, dias havia em que eu me refugiava no Albertino dos jornais, cuja vizinhança da minha casa permitia o privilégio da consulta gratuita de tudo quanto tivesse letras e imagens, ou ia para o canto do balcão do Carvalho da drogaria, ouvindo-lhe as graças lúbricas às empregadas domésticas que por lá passavam a comprar água-raz ou benzina para as nódoas.

A cidade era então uma chatice inenarrável, onde não acontecia nada, onde muito pouco havia para fazer, onde não existia uma única piscina e até as árvores, sob a torreira, surgiam com uma auréola tremida, como nas miragens dos filmes. Às vezes, dou comigo a pensar que o conceito de "bons tempos", que frequentemente soltamos nas conversas, tem apenas a ver com o facto de então sermos novos.

(Olhe-se para Vila Real, nos dias de hoje! Para as "corridas", para a alegria nas ruas, para a oferta cultural e lúdica. É a noite e o dia!)

Há minutos, aqui em Lisboa, na minha rua irrespirável sob o sol forte, uma vizinha dizia para outra, que ia a caminho da praia: "Agarra o Verão, filha!".

Entrei em casa com a frase na cabeça. Como, com a idade, temos a mania do "déjà vu", achei que era isso. Cinco minutos depois, já não sei bem porquê, a memória deu um salto: "Agarra o Verão, Guida, agarra o Verão!"

É isso! Era essa a frase. Alguém se lembra do que era? Lembro eu: era o nome original de um texto de Luís de Sttau Monteiro que deu origem a uma das primeiras telenovelas portuguesas, "Chuva na areia".

"Para que te serve essa informação toda?", perguntava-me desdenhoso um amigo, sempre muito cético sobre o préstimo destes meus despretensiosos escritos. Ele é capaz de ter razão, e não sei se gostou da minha resposta: "Talvez não sirva para nada, mas sinto-me mais confortável tendo-a..."

Mudando de conversa

Se nos deixamos tomar exclusivamente pela gravidade da conjuntura, do Brexit às eleições nos nossos vizinhos, tornamo-nos bisonhos e distantes das coisas boas da vida.

É por essa razão, porque aligeirar os dias se torna importante, agora que o sol e o calor felizmente não dependem da generosidade da senhora Merkel, que chamo a atenção no meu blogue "irmão" deste, o "Ponto Come" (pode sempre consultá-lo clicando no lugar próprio, na coluna à direita), para duas notas de análise gastronómica que acabo de publicar.

A primeira foi escrita no lindíssimo número de Verão, recém editado, da "Epicur". Não comprar a "Epicur" é perder um dos "objetos" gráficos mais interessantes que se produzem em Portugal. Nele falo sobre esse meu "vício de estimação" que é o restaurante "Poleiro", na rua de Entrecampos, em Lisboa.

A segunda nota é uma crónica editada na passada sexta-feira na revista "Evasões" (distribuída com o "Diário de Notícias" e com o "Jornal de Notícias"), sobre o restaurante "Pedra Furada", um espaço clássico, muito perto de Barcelos, no Minho, que se tornou num ponto de passagem dos caminheiros internacionais na estrada religiosa para Santiago de Compostela.

Como dizem os guias turísticos da Michelin, cada um deles "vaut un détour".



domingo, 26 de junho de 2016

Da democracia na Europa



Do outro lado do mundo, um grande amigo exprimiu, num email que me endereçou, o seu contentamento pelo facto dos britânicos terem iniciado o caminho de saída da União Europeia. Esse amigo é uma pessoa responsável, a sua opinião não é « impressionista ». Trata-se de alguém que está de boa-fé, que conhece muito bem o Reino Unido, que tem uma grande experiência da União Europeia, que olha para esta questão com uma prudente serenidade e sem a menor acrimónia. E deixou clara, naquela sua comunicação, que a sua atitude não relevava de qualquer resistência face ao crédito anual na conta de Londres do cheque compensatório da sua contribuição orçamental (o « rebate ») ou  do seu tropismo obsessivo por « exceções » ou « opt-out », com que os diferentes governos britânicos historicamente atenuam as reticências da sua opinião pública face a Bruxelas.

O que irritava esse meu amigo – e que ele acha que o Brexit pode corrigir – é a atitude britânica de persistente denúncia do caráter não democrático da União, numa sobranceria afirmativa da superioridade representativa da sua ordem nacional. E, na sua ideia, mesmo que a UE não seja perfeita, ela não merece esse desprezo e desqualificação. Para ele, sem o Reino Unido, a União pode, com maior facilidade, encontrar um caminho menos turbulento para o seu futuro.

Que eu não estaria de acordo com a sua perspetiva era uma dado adquirido por esse amigo, que leu ou ouviu muito do que eu disse nos últimos dias sobre este assunto. Porém, com a lealdade frontal de quem sabe que eu só lhe agradeço o contraditório, ele quis transmitir-me o que pensava. E eu estou-lhe grato por isso.

De facto, não estamos de acordo. Também a mim me irrita, desde o primeiro momento, o sentimento britânico de que a Europa integrada tem deficiências notórias na sua responsabilização (a expressão anglo-saxónica « accountability » é insubstituível). Não porque isso seja falso, mas porque o Reino Unido, ao auto-excluir-se de muitas das suas políticas, acabou por ser co-responsável com a circunstância dessa deriva marcar hoje muito do funcionamento da União. Uma democracia tão poderosa como a britânica deveria, precisamente, ajudar-nos, colocando-se « in the heart of Europe », a colmatar esse défice democrático. E é por isso que, ao invés de rejubilar com este « opt out » final, preferiria que os britânicos se tivessem mantido no projeto comum. Mesmo que parceiros relutantes, eles ajudar-nos-iam a reforçar a magnífica diversidade que é uma das forças da Europa. Sem os britânicos, estaremos mais fracos. E, sem nós, eles também. O que não é uma boa notícia para a democracia na Europa.

(Artigo publicado no Jornal de Notícias em 26 de junho de 2016)

Futebóis


Costumo ser muito racional a ver futebol. Sou incapaz de gritar "penalti!", a favor da minha equipa quando isso não aconteceu, digo alto quando um jogador "dos meus" está em posição de "fora-de-jogo" ou merece um cartão. Já passei por momentos menos cómodos em estádios de futebol, por virtude dessa minha atitude. Julgo que esse vício "de justiça" advém de um curso de arbitragem que frequentei na Associação de Futebol de Vila Real, em meados dos anos 60 do século passado.

Este meu rigor de leitura das regras do jogo soma-se a uma sempre franca análise do modo como as partidas decorrem. Não tenho o menor problema em reconhecer que a minha equipa merecia ser derrotada e, sem o mínimo rebuço, sou capaz de reconhecer quando a vitória do adversário é justa. Quem me conhece sabe que sempre fui assim. E vou continuar a ser, claro.

Mas se esta minha frieza, na "análise concreta de uma situação concreta" (onde será que li isto?), é uma evidência, a verdade também é que, com frequência, dou por mim a subscrever uma frase que ouvi um dia ao Dr. Adriano Afonso, juiz de Direito, um histórico dirigente lampiónico, que disse uma coisa mais ou menos assim: "não me importo que a minha equipa ganhe, num golo marcado com a mão, em fora de jogo e já depois do tempo regulamentar".

Foi isso que me aconteceu ontem.

Portugal teve uma prestação medíocre (é a minha opinião, cada um tem direito a ter a sua). A Croácia, em "jogo jogado", merecia a vitória e o nosso golo foi marcado, claramente, "contra a corrente do jogo". Esta é a verdade, pelo menos para mim, que acho esta nossa seleção muito fraca, "descosida", com um meio-campo atarantado e, com frequência, à beira do desastre, quando os adversários se aproximam da nossa área. Não há patriotismo que me faça dizer aquilo que não vejo.

Mas, ontem, como sempre que vejo futebol com emoção, reencontrei-me com o Dr. Adriano Afonso no desejo veemente de que pudéssemos marcar um golo que nos garantisse a sorte que tanta vez não temos tido. Não lhes digo, por impublicáveis, algumas "instruções" e epítetos nada simpáticos com que, ao longo daqueles mais de 120 minutos, mimosiei os nossos jogadores. Mas, no final daquela partida que me angustiou, o meu contentamento ultrapassou, como é óbvio, qualquer juízo de justiça.

Esta é a diferença entre o mundo das emoções e o mundo da racionalidade. Quem vive eternamente no primeiro torna-se um ser mais digno de piedade do que de respeito. Quem se obstina no segundo é um ET desumanizado e fora do sentimento da tribo, que dá graça à vida. No equilíbrio razoável entre os dois reside essa coisa rara que é o bom-senso.

O primeiro dissídio

Que o divórcio britânico com a União Europeia não ia ser fácil já toda a gente sabia. Que, desde tão cedo, as divergências se instalassem entre Londres e os restantes parceiros, relativamente à metodologia de saída, já é um pouco inesperado.

O Reino (por ora ainda) Unido pretende, à luz dos seus interesses, e agora que a decisão de abandono do "clube" está tomada, fazer as coisas ao seu ritmo. De facto, no plano estrito do cumprimento dos tratados, nada obriga a que o resultado deste referendo tenha consequências legais imediatas. Mais do  que isso, não as pode ter antes que o Parlamento britânico (Câmara dos Comuns e dos Lordes), que, naquele país, tem poderes constitucionais permanentes, ratifique formalmente aquilo que o referendo decidiu, porquanto este, no plano dos princípios, não é vinculativo.

O objetivo evidente dos britânicos - e isso ficou claro nas palavras de David Cameron e de Boris Johnson, o que indicia uma unanimidade dentro dos conservadores - é que os "estilhaços" desta crise se não espalhem com fragor sobre o todo o sistema nacional. Para isso, torna-se importante tentar deixar "assentar o pó", de molde a criar um ambiente tão "business as usual" quanto possível, que afete da forma menos gravosa a sua economia e consiga a esvaziar a forte crispação interna provocada pela campanha do referendo. Neste último caso, isso é decisivo, na perspetiva de Londres, para evitar um ambiente emocional que facilite que a Escócia "cavalgue" de imediato o ambiente do referendo e reabra já, com estardalhaço recriador de novas tensões, a questão do referendo.

Para a Europa que fica na União, e que por via desta decisão britânica sofreu um abalo inédito e fortíssimo, cujas consequências está muito longe de poder medir, quanto mais cedo o divórcio possa consumar-se mais rapidamente, pelo menos em teoria, lhe será possível criar um novo equilíbrio interno. Por isso, ser-lhe-ia importante que os britânicos invocassem, desde já, o mecanismo de saída que existe no artigo 50° do Tratado de Lisboa, a fim de iniciar logo que possível a longa negociação que vai seguir-se.

Já se percebeu que estamos perante dois interesses e duas táticas diferentes e não conjugáveis. De uma certa forma, pode dizer-se que os britânicos têm "a faca e o queijo na mão". Porquê? Porque são eles e mais ninguém quem tem direito a invocar o Artigo 50°. E porque o conceito de "o resto da União", por muito que seja fortemente real, não tem existência no plano formal. Até que o "divórcio" esteja consumado, nenhum efeito jurídico pode ser retirado do resultado deste referendo, pelo que, quando alguém se pronunciar nesta matéria em nome da União Europeia deve fazê-lo tendo sempre em atenção que, até ver, Londres é membro pleno de todas instituições. A questão está assim, essencialmente, situada no plano político e é por aí que as facas se vão desembainhar.

sábado, 25 de junho de 2016

Isto anda tudo ligado?


Não há nada que dê maior prazer às mentalidades pequeninas do que as teorias conspirativas. E, quando à mistura surgem figuras polémicas da política, então o gozo aumenta.

Hoje à noite, num documentário de televisão, vi-me envolvido numa dessas teias de especulação e insídia. Nada que já não esperasse, confesso. O absurdo das insinuações é tal que me deixa numa serenidade total. Mas não deixa de ser curioso verificar como a seriedade de toda uma vida pode ser posta em dúvida, em breves instantes, de forma gratuita, arguindo coincidências. É o mundo em que o "não é por acaso" se cola ao "não há fumo sem fogo", tudo isso adubado por um justicialismo serôdio, com voz grossa e ar grave, onde o requisito de provas é despiciendo e até considerado uma atitude arrogante e suspeita. Se não fosse triste, até tinha a sua graça.

Ao ver o programa, veio-me à memória, apenas pela similitude da lógica "circular" usada, um episódio que fez parte dos momentos menos nobres do "Verão quente" de 1975.

Um conhecido militar negro, altamente condecorado pelas Forças armadas portuguesas na guerra colonial, tido como ligado a meios de extrema-direita, foi raptado um dia por figuras, creio que também militares, ligadas a um grupo radical de esquerda, já não sei bem por que razão. O que ficou provado é que foi barbaramente torturado numa residência particular do Restelo.

Uns dias depois, quando se começaram a conhecer pormenores sobre o assunto, um "aparatchik" do PCP, que trabalhava no mesmo departamento onde eu fazia serviço militar obrigatório, comentava, num grupo, sobre o assunto. Vale a pena lembrar que, na narrativa que o PCP alimentava à época, entre a extrema-direita e a extrema-esquerda (isto é, todos os grupos situados à sua esquerda e que o combatiam) havia uma espécie de cumplicidade objetiva, pelo que ambas não eram senão faces diferentes da mesma moeda, quase de certeza todos pagos pelo "imperialismo".

Ao descrever às pessoas à sua volta os vários passos do que tinha acontecido, esse rapaz da "António Serpa" (como à época se dizia do pessoal do PCP, por ser essa então a rua da sua sede partidária), embalado na sua teoria conspirativa, explicava que aquilo estava "tudo ligado". Até a casa onde as torturas tinham tido lugar pertencia a uma conhecida figura ligada a um "jornal ultra-reacionário".

A certo passo, deu-me uma de racionalidade simples e perguntei: "Mas, espera aí! Estás a dizer que um tipo de extrema-direita foi torturado por gente da extrema-esquerda, tendo estes tido como cúmplice o dono de uma casa que, pelos vistos, é um refinado reacionário? Mas que lógica é que isto tem?"

O tipo olhou para mim com um ar sobranceiro e "arrasou-me": "Olha-me para este! A querer ver lógica nestas coisas..."

Para quem acha que "isto anda tudo ligado", a lógica é um luxo dispensável.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Bye, bye!

O Brexit passou. Não vale a pena chorar sobre leite derramado, mas é importante perceber o que ocorreu, porque as razões que motivaram a escolha democrática britânica, sendo próprias e específicas, ligam-se a um "malaise" que se estende muito para além da ilha. E se esse mal-estar não for combatido, isto é, se as lideranças políticas não conseguirem definir rumos para encaminhar, de forma europeia e ordenada, os interesses e as expetativas dos cidadão em cada país, aí sim, o efeito deste referendo será viral, como a modernidade das redes sociais gosta de dizer.

O Reino Unido foi, desde o primeiro momento, um membro relutante das instituições europeias. Mesmo nos tempos em que, de Londres, vinham mensagens mais otimistas, de Edward Heath a Tony Blair, pressentia-se que isso era feito em contraponto com uma tendência de fundo, que se revelava sempre mais do lado conservador, mas que também tinha grande audiência no campo trabalhista. De "opt out" em "opt out", o Reino Unido ia acumulando "vitórias" e "exceções" que o distanciavam cada vez mais do centro do projeto europeu. A necessidade obsessiva de mostrar-se vencedor nas disputas com Bruxelas, criou uma espécie de contabilidade de ganhos que, dia a dia, se ia tornando menos compatível com o espírito europeu.

A ideia, nunca verdadeiramente contrariada pelos líderes britânicos, de que a raiz dos problemas nacionais residia na burocracia de Bruxelas - como se essa burocracia não estivesse fortemente infiltrada por britânicos e as suas decisões não contassem com o voto poderoso de Londres -, levou-os a descuidar o mínimo de pedagogia em torno de uma partilha de interesses comuns. O "No! No! No!" de Margareth Thatcher nunca deixou de ecoar no subconsciente britânico.

Agora, há que gerir as coisas, porque o que não tem remédio remediado está. Desde logo, tentar acalmar os mercados, evitando o efeito "fogo na pradaria". Isso compete às entidades bancárias de ambos os lados, somados à serenidade possível dos agentes políticos. O ideal seria que a invocação do Artigo 50 do Tratado de Lisboa pudesse ser feita com a normalidade possível, encetando o "phasing out" britânico com o menor dramatismo que for viável assumir.

No que a Portugal toca, e dado que muito do que pode afetar-nos, se as coisas correrem mal pela Europa, não temos condições para influenciar e poder evitar, há que estar muito atento, tendo a determinação política para deixar claro que nenhum grupo de Estados, da Europa "que fica", se pode arrogar o direito de definir o futuro coletivo, isto é, o dos outros. Este é o momento de ser firme, em especial se alguma reformatação de "núcleos duros" ou coisas similares surgir por aí. 

Numa conjuntura como esta, nem devemos ter tentações de recuos soberanistas, nem pulsões patetas para um futuro federal que já não existe - e que apenas poderá surgir travestido de diretório de potências armada em "salvar o projeto europeu". Por mim, continuo a pensar que devemos ser tão europeístas quanto os nossos interesses o justificarem. Nem mais nem menos. Andamos por aqui há nove séculos, já passámos por momentos bem mais difíceis e, nem por isso, "fechámos para obras". 

... e a Espanha aqui tão perto!


Passámos a semana a olhar para Londres, como se o nosso futuro dependesse dos humores britânicos, o que não deixava de ter alguma verdade. Mas, por detrás da bruma britânica, esconde-se uma instabilidade ibérica cujo desenlace não é menos relevante para nós. Bem pelo contrário !

Desde a nossa entrada comum para a União Europeia e, em especial, desde que a Espanha é membro da NATO, a variável distintiva da política externa portuguesa, que fazia com que Lisboa e Madrid pertencessem a sistemas distintos de alianças, diluiu-se.

O contexto de acrescida intimidade ibérica evidenciou as capacidades relativas de cada um e o resultado está à vista. A Espanha é a real ganhadora no terreno económico bilateral, como a concentração bancária ibérica o demonstra à saciedade. No âmbito NATO, a sua recentragem atlântica tornou-a num parceiro preferencial dos EUA, como o prova o menor interesse revelado pelas Lajes e o privilegiar das recentes facilidades concedidas em Sevilha.

As coisas são o que são. A relação Portugal-Espanha é, por natureza, desequilibrada, só que desapareceram alguns elementos que no passado nos permitiam gerir, de forma relativamente autónoma, essa equação. Pelo contrário, no estado atual da arte, há dois fatores que não controlamos mas que temos de sofrer, se se desregularem.

O primeiro é uma evolução do processo europeu no sentido do surgimento de uma diferente formatação da integração, que possa colocar a Espanha num futuro « núcleo duro », com Portugal de fora. Isso poderia acontecer num cenário de « refundação » europeia, à volta do euro, espurgado da Grécia e Portugal. Nada que alguns círculos alemães não tenham já abordado.

O segundo fator é, naturalmente, a questão da estabilidade interna da Espanha. E essa está em causa nas eleições do próximo domingo. Precisamente porque as nossas economias estão, e permanecerão, fortemente interligadas, uma crise prolongada no nosso único vizinho terrestre, importante investidor, destino de grande parte das nossas exportações e local de trabalho de muitos portugueses (coisa que, por já ter sido mais relevante, alguns tendem a menorizar), seria um elemento mais a somar-se ao pacote de debilidades que hoje nos afetam no plano económico.

O resultado do sufrágio anterior levou a um impasse. Se as coisas se reproduzissem de forma similar, criar-se-ia um cenário muito preocupante. Como não gosto de ambiguidades, deixo muito claro que o cenário do Podemos, com os seus aliados, poder vir a ser o partido mais votado é, a grande distância, o desfecho que considero mais perigoso para o futuro da estabilidade espanhola. Tenho esperanças de não ter de o comentar num próximo artigo.

A Espanha está próxima demais de nós para a podermos olhar como um laboratório político.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Ambivalências

Gostei de ver Cristiano Ronaldo arrancar um microfone a um jornalista? 

Não gostei.

Gostei de ver um microfone da CMTV ser atirado à água? 

Gostei imenso, embora achasse que aquele órgão de "informação" merecia que o sítio de depósito tivesse sido outro.

Ronaldo tem um calcanhar d'Aquiles: a sua agarotada e deseducada arrogância.

E tem um calcanhar d'aqueles, que lhe permite marcar um golo genial e criar uma alegria do tamanho de um país.

Uma coisa não vem sem a outra.

Somos assim, ambivalentes.

Eu também: gosto e não gosto.

A gravata britânica


Esta manhã, ao escolher uma gravata, comecei a pensar que cor deveria usar, neste dia muito importante de referendo britânico, uma decisão que, qualquer que seja o seu sentido, terá reflexos sobre a vida de todos os europeus. Como à tarde vou estar num debate sobre o Brexit e à noite tenho de ir ao Telejornal da RTP 1, isso poderia não ser indiferente. 

Uma gravata vermelha ("diz sempre encarnada", aconselham-me às vezes pessoas amigas, preocupadas com o meu estatuto) poderia ligar-me aos trabalhistas, uma azul aos "tories" e uma amarela aos "lib-dem", desaparecidos sem combate. Não me interessa a cor do UKIP. Lá fiz a minha escolha, sob um critério que não o político, esclareço.

Os britânicos têm um gosto bizarro para gravatas. Lembro-me de um dia, num Conselho Europeu durante uma presidência britânica, nos terem oferecido uma horrorosa gravata com umas garrafais estrelas da União em que, cada uma delas, representava um Estado membro. Já não sei o que nos calhou em rifa, mas os italianos treparam pelas paredes porque a estrela deles apresentava uma pizza... Ainda guardo esse inusável exemplar. Já pensei levá-la em idas às embaixadas britânicas, mas temo ter de passar o tempo a explicar porque me atrevia a usar aquilo.

Quem era famoso pelas suas nada convencionais gravatas era o jornalista televisivo Jeremy Paxman, que fazia o "Newsnight", na BBC 2. Tinha-as nos tons e desenhos mais fantásticos, muitas vezes exemplares pintados à mão. Paxman entrevistava com uma imensa displicência, embora sempre muito bem preparado sobre os temas, pelo que era temido pelos interrogados.

Uma noite de janeiro de 2000, fui convidado, em Bruxelas, a ir a um estúdio de televisão para ser entrevistado por Paxman, que estava na BBC, em Londres. O tema era complexo: as "sanções" à Áustria, por virtude do acordo de governo com um partido de extrema-direita. Eu passara horas a responder no Parlamento Europeu, em nome da presidência portuguesa, num agitado debate, onde alguns conservadores ingleses não me tinham poupado. Mas fora uma tarde bem estimulante, em que até troquei argumentos com Jean-Marie Le Pen!

Naqueles escassos minutos que antecederam a ida "para o ar" da entrevista, troquei umas palavras com Jeremy Paxman. Confesso que com o objetivo íntimo de o "amansar", elogiei-lhe a gravata que trazia e contei-lhe que, quando vivia em Londres, tinha sempre alguma expetativa quanto às que ele iria mostrar no "Newsnight". Fosse por via disso ou não, a verdade é que Paxman me tratou lindamente e a entrevista correu muito bem.

Não faço ideia se Paxman ainda está no ativo (não vejo a BBC), se as suas gravatas continuam notoriamente bizarras mas, reconheço, gostava que amanhã, ele e os seus concidadãos (estou a olhar para um "paperback" da sua autoria que tenho na minha estante, com o título de "The English, a Portrait of a People"), continuassem a fazer parte deste simpático clube de paz e de bem, que trouxe harmonia, bem estar e segurança a milhões de pessoas, durante décadas, que dá pelo nome de União Europeia.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Fim do dia

E não é que ia deixando escapar esta bela 4ª feira sem um post?

terça-feira, 21 de junho de 2016

País do quase

O título de um jornal de hoje é sugestivo: "Portugal a um empate dos oitavos".

É uma sensação magnífica sabermo-nos parte de um país marcado pela ambição, que dobrou Bojadores, a caminho da Boa Esperança, das Índias, da Taprobana, por especiarias, por fé, por glórias.

O mundo mudou, nós também. Consta.

E é por isso que amanhã, ali estaremos, uma "pátria em chuteiras", como diria Nelson Rodrigues, Asterix na Gália de César, sem poção mágica, lutando, com denodo, prestes a esmagar todos os magiares que se atravessarem entre nós e esse imenso e audaz objetivo: o ponto.

Que falta nos fazes, José Maria Eça de Queiroz!

A "pérfida Albion"


Agora que o referendo britânico nos atazana os dias, veio-me à memória uma cena penosa, numa noite de Bruxelas, à saída de um jantar de trabalho, há cerca de duas décadas.

Estávamos ainda à porta do local do repasto, eu e uma figura britânica relevante para o que aqui me traz, isolados do resto dos convivas. Enquanto os nossos carros não chegavam, voltei-me para o meu interlocutor, que eu já conhecia há alguns anos e com tinha alguma confiança pessoal, e disse-lhe:

- Espero que o Reino Unido, amanhã, no Coreper (o Comité dos Representantes Permanentes, que reúne os embaixadores junto da União Europeia), apoie a nossa proposta de declaração sobre Timor-Leste. Necessitamos de colocar pressão sobre a Indonésia.

O tema era candente. Tinham-se passado incidentes sérios em Timor-Leste e o nosso embaixador junto das instituições europeias, sabedor de que eu iria ter um jantar onde estava esse britânico, pediu-me que o tentasse sensibilizar. Se a declaração "passasse" no Coreper, a hipótese de vir a ser aprovada, dias depois, no Conselho de Ministros, estava assegurada. Os mais renitentes eram, ao que recordo, os holandeses, mas os britânicos também não estavam a ser fáceis. E era precisa unanimidade. Expliquei, como se isso fosse necessário, a gravidade do problema, ele foi dizendo que sim com a cabeça e, no final, respondeu-me:

- Podemos fazer um acordo. Na reunião agrícola de ontem, vocês colocaram objeções sobre a linguagem que tínhamos proposto sobre a BSE (a doença das vacas loucas). Se levantarem essas vossas reservas, posso assegurar que apoiamos o texto sobre Timor-Leste.

- Estás a brincar?! Estás a pôr uma questão de Direitos humanos ao nível das "vacas loucas"?!, exclamei, quase escandalizado.

- Isso mesmo!, disse ele com aquela espécie de gargalhada snobe que os britânicos fazem quando acham que conseguem fazer uma graçola de "nonsense".

Ouvi-me então a utilizar a expressão começada por "f" com o "you" no fim, que já não ensaiara desde que saíra de Londres, que tinha sido o meu último posto diplomático no estrangeiro, onde aliás me cruzara pela primeira vez com essa figura britânica. Nesse instante, dei razão ao Marquês de Ximénès, quando qualificou a Inglaterra de "pérfida Albion". Virei-lhe as costas, de forma ostensiva, e entrei no carro. Mas fiquei preocupado: tinha ido um pouco longe demais!

No dia seguinte, nos corredores do Justus Lipsius, cruzei-me com ele. Saudou-me como se nada se tivesse passado. A única coisa que não recordo é o destino que teve a declaração sobre Timor-Leste.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O Brexit num esfregar d'olho


Não obstante ser este o tempo das reflexões profundas sobre o Brexit, confesso que me não sinto tentado - embora tenha tido pedidos da imprensa para escrever - a perorar muito sobre a questão. Vou apenas alinhar aqui uns breves pontos:

- David Cameron foi um irresponsável ao ter libertado, por oportunismo eleitoral, os demónios que agora não consegue controlar. Hoje, no Reino Unido, os eurocéticos radicais têm muito mais força e visibilidade mediática do que alguma vez tiveram. E, no resto da Europa, há outros a esfregar as mãos.

- Os britânicos, que são dos grandes beneficiários da Europa comunitária, pagam agora anos em que se dedicaram a usá-la como bode expiatório para muitos dos seus problemas.

- Ao não fazerem um mínimo de pedagogia pró-europeísta, e a campanha pelo "sim" se ter limitado a uma agenda defensiva ou de criação de novos medos, os britânicos que querem ficar na Europa revelaram uma inabilidade rara. 

- Se alguém pensa que as mensagens ou as ameaças exteriores para condicionar a opinião britânica tem algum efeito. desenganem-se! Os britânicos pensam pela sua cabeça e quanto mais os tentarem convencer, com opiniões de fora, pior!

- O RU já tem quase tudo o que queria da Europa: está fora do euro, de Schengen, das regras da livre circulação, de muito do quadro da Justiça e Assuntos Internos, da observância da Carta dos Direitos Fundamentais. Antes, excluíra-se do protocolo social e recebia um "rebate" anual em forma de cheque. As concessões dadas pelos 27 há semanas foram a "cereja no bolo" da excecionalidade britânica.

- Há uma quase unanimidade, nos meios e analistas económicos, sobre o impacto negativo da saída da União para o Reino Unido. Mas com essa realidade podemos nós bem. A mim, confesso, nesta fase do campeonato, é o futuro da União que me preocupa, não a felicidade ou infelicidade britânica.

- Uma saída britânica induzirá um ambiente de instabilidade e imprevisibilidade no seio da UE que pode vir a desencadear um movimento centrípeto de "refundação" da Europa, com "purga" do euro. E nesse grupo, dificilmente Portugal terá condições para ficar. Sobre isto não tenho a mais leve dúvida.

- Há ainda um cenário que não excluo: é o RU vir pedir mais excecionalidades à Europa para não sair e esta, por temor, vir a concedê-las. A "caixa de Pandora" já está aberta e, não tarda, outros Estados (vá lá, com alguma legitimidade!) vão querer aproveitá-la.

- A negociação entre o Reino Unido e a UE, para organizar a sua saída, sendo embora algo de inédito e sem precedentes, não me parece uma tragédia. As ordens jurídicas, naquilo que importa, são as mesmas e Londres, sendo um negociador "tough" e às vezes bastante "rough", é um poder amigo.

- A UE, em caso de Brexit, tem na sua mão alguns trunfos muito importantes. Nesse contexto, devo confessar que não me parecem preocupantes - pelo menos muito mais do que já foi dado nas recentes concessões - os impactos sobre a situação dos portugueses que vivem naquele país.

- Na quinta-feira, se votarem a saída, o britânicos vão perder milhares de lugares numa máquina europeia onde têm uma posição dominante e decisiva - na Comissão, no Conselho, no Parlamento Europeu, nas missões diplomáticas europeias pelo mundo. Esse pessoal deve estar em pânico! E há muitos mais a esfregar as mãos...

- Se o Brexit tivesse lugar, o dia seguinte seria o dia 1 para um novo referendo para a Escócia. E, nesse caso, bom dia Catalunha!

- O meu "guess", no dia de hoje? O Brexit não passa. À boca da urna, a aposta no desconhecido é demais para um eleitorado que, no fundo, é esmagadoramente "conservador" - quero com isto dizer, que tem algo a conservar. E não é nada pouco! Mas se estiver enganado, o que pode acontecer com grande facilidade, "apertem os cintos"... E mesmo que os britânicos por cá fiquem, muita coisa será diferente no futuro.

domingo, 19 de junho de 2016

A homofobia em Portugal



Acho saudável o sobressalto suscitado pelo atentado terrorista que teve como alvo uma discoteca frequentada por homossexuais nos Estados Unidos. Embora pense que há outras dimensões dessa agressão que se devem considerar a nível idêntico da óbvia homofobia subjacente ao ato, creio importante que esse fator específico seja sublinhado, entendendo como natural que o acontecimento mobilize uma atenção particular para o tema. Porque ele é, cada vez mais, socialmente importante. Com a maior sinceridade, penso que só poderemos considerar-nos um país plenamente livre quando nos libertarmos, por completo, dos preconceitos residuais que o tema da homofobia ainda suscita.

Faço parte de uma geração que foi aculturada de uma forma muito peculiar quanto ao tema da homossexualidade. Não obstante, desde muito novo, ter convivido sem problemas com pessoas que deixaram entender publicamente essa sua opção sexual, não tenho o menor pejo em admitir que a aceitação "compreensiva" e formal dessa realidade ia estranhamente de par com o regular uso de uma linguagem jocosa e menorizante sobre o fenómeno. Ironias e graçolas, tendo como alvo os não heterossexuais, faziam parte de um discurso machista que eu próprio utilizei até muito tarde e com que, não raramente, me cruzo ainda em alguns circuitos sociais, onde o fator etário não é despiciendo.

Na cidade de província onde vivi até entrar para a universidade, a cultura dominante estava eivada de um ambiente profundamente discriminatório, que isolava e ridicularizava socialmente os homossexuais, que eram apontados a dedo pelas ruas, mesmo se tal era muitas vezes atenuado por uma espécie de tolerância sobranceira, mas que não escondia a ideia de fundo de que, no final de contas, se tratava de uma "anormalidade", mais ou menos admitida por uma espécie de liberalidade modernaça. Olhando retrospetivamente para esses tempos, posso imaginar a violência que esse ambiente social constrangente provocava, não apenas nessas pessoas, mas igualmente em quantos imagino que foram forçados a retrair a assunção pública da sua opção sexual.

Devo dizer que me dou conta de que esse ambiente paternalista está muito longe de dissipado nos dias de hoje e de que terão de passar ainda bastantes anos até que o respeito pleno pela liberdade de assunção de uma opção diferente da heterossexualidade seja comummente aceite de forma natural. Talvez o facto da cada vez mais famílias serem confrontadas com o "outing" de alguns dos seus membros possa ajudar a acelerar esta evolução.

Como cidadão, tenho a sensação de que este tema deu passos de gigante, nos últimos anos, em Portugal. E, devo dizer, sinto-me orgulhoso por fazer parte de um país que foi capaz, num prazo de tempo relativamente curto, de dar mostras de assumir uma postura de grande abertura nessa dimensão essencial da luta pela igualdade entre as pessoas. 

Há um teste que costumo utilizar para perceber se a aceitação da homossexualidade por parte de pessoas com quem convivo é real ou é apenas o resultado de um esforço intelectual para seguir o "politicamente correto": a questão da adoção de crianças por casais homossexuais. Independentemente de poder compreender quantos, por razões religiosas e até de uma certa leitura sobre a integração societal, achem que o crescimento de uma criança de deve fazer sob um quadro parental com um casal no modelo tradicional, estou profundamente convicto de que a grande objeção à adoção de crianças por homossexuais tem, "on the back of the mind", a ideia da "anormalidade" dessa opção e, no fundo, uma não assumida convicção de que se pode estar a expor as crianças a possíveis atos de pedofilia. Posso estar enganado neste meu raciocínio, mas é o que sinceramente penso.

sábado, 18 de junho de 2016

O olhar dos embaixadores

Desde que, há pouco mais de três anos, regressei a Lisboa, e por um conjunto cumulativo de razōes, tenho contactos frequentes com bastantes embaixadores estrangeiros acreditados em Lisboa. E tem sido muito interessante poder acompanhar a sua evolutiva curiosidade sobre a nossa situação política, muito em especial o modo como procuram recortar o perfil dos nossos atores políticos, as suas interações, as linhas predominantes dentro das formaçōes partidárias e, naturalmente, os cenários mais prováveis para o futuro próximo.

Quando aqui cheguei, em 2013, as grandes interrogações prendiam-se com a solidez da coligação então no poder, em especial sobre o tandem Passos Coelho - Paulo Portas. Vivia-se um tempo posterior às manifestações de 2012, num ambiente exausto dos efeitos das políticas da "troika". A Lisboa diplomática estava cheia de intrigas sobre as "traições" e "desconfianças" entre os líderes do PSD e do CDS, em dias "irrevogáveis".

A coreografia dos consensos promovida por Cavaco Silva obrigava os diplomatas a interrogar-se bastante sobre a personalidade de António José Seguro, sobre a sua eventual abertura a entendimentos com os ocupantes do poder. Iria Seguro ser sensível aos apelos de Cavaco? Convencidos de que eu "bebia do fino", muitos me interrogavam sobre as intenções do líder socialista. Alguns não acreditavam na verdade, isto é, que eu sabia tanto como eles.

Por algum tempo, o papel de Sócrates no tecido da esquerda, em especial depois das suas aparições televisivas, foi fator de interesse para esses olhares estrangeiros. A sua detenção reduziu o foco na personagem, embora mantendo-se a curiosidade (que era também a nossa) sobre o efeito que isso iria ter no futuro dos socialistas. Também a importância das tomadas de posição de Mário Soares suscitava questões sobre o modo como isso se iria repercutir no PS.

Um dia, surgiu a surpresa António Costa. Surpresa? Bom, ele era o chefe da municipalidade lisboeta com cuja bonomia os diplomatas se tinham habituado há muito a lidar. Mas o registo era agora outro. Costa era, de há muito, um potencial candidato a tudo - de S. Bento a Belém - mas o facto de agora surgir a concorrer à liderança, depois da "débacle" eleitoral das Europeias, afrontando Seguro, revelava um perfil algo diferente daquele que dele tinham desenhado. Curiosamente, muitos embaixadores haviam-se habituado, nos "dîners en ville" a ouvir a direita tecer loas a António Costa. Agora, de um momento para o outro, Costa parecia ser o "radical", perante um Seguro que lhes era mostrado, pelo Portugal conservador com que conviviam socialmente, como um socialista finalmente "aceitável".

Vieram as eleições e a grandes dúvidas, suscitadas pela radicalização da campanha. Até onde iria o PS? Romperia com a Europa, "à Siryza"? O que faria Costa se ganhasse? Foi um tempo de muitas conversas especulativas, onde algumas das posições de certos interlocutores revelavam, com ingénuo reflexo, os opinadores que frequentavam. Eles ouviam, "entre la poire et le fromage", aquilo que esses "experts" iriam debitar nas TV, horas depois. Às vezes, isso dizia-me respeito e eu ria-me intimamente.

A montagem da "geringonça" desorientou, de vez, a Lisboa diplomática. Não por uma necessária oposição ao modelo (embora fosse essa a atitude amplamente maioritária) mas porque pretendiam, muito legitimamente, tentar saber o que poderia sair dali, em termos de opções e escolhas políticas, em especial no terreno europeu. Todos nós, portugueses, também queríamos saber isso, convém recordar. Avaliar o grau de influência dos comunistas e do Bloco na orientação do executivo foi uma tarefa em que os diplomatas em posto em Lisboa se entretiveram por muito tempo, até estabilizarem, aparentemente, no dias de hoje, essa sua visão. Políticos, jornalistas e empresários carrearam para os ouvidos dos embaixadores informações que iam de dados concretos a meros "bitaites", tudo misturado com muito "wishful thinking". Tempos interessantes esses, que devem ter dado origem a curiosos telegramas.

As eleições presidenciais que se seguiram nunca mobilizaram muito os embaixadores em Lisboa. Maria de Belém era sobejamente conhecida, Sampaio da Nóvoa era quem suscitava as dúvidas conservadoras e Marcelo Rebelo de Sousa era... Marcelo!

Se surpresa houve, desde então, de que ainda se não refizeram por completo, essa tem sido a "lua-de-mel" do presidente com o primeiro-ministro. Entre o divertido e o espantado, desde logo com a inesperada informalidade inicial do chefe de Estado, os nossos amigos diplomatas estrangeiros em Lisboa olham-nos, nos dias de hoje, com uma pontinha de inveja institucional. Porém, infelizmente, ela logo se esbate quando olham o fio da navalha económico em que Portugal permanece. Mas em muitos deteto alguma amiga simpatia pelas nossas dificuldades.

Imagino que Lisboa deva ser um posto muito interessante para se estar como diplomata estrangeiro. Embora o sol deste junho só agora dê os devidos créditos ao nosso verão.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

"Com a NATO não se brinca!"



A NATO anunciou que vai reforçar militarmente os contingentes de que dispõe no Leste europeu, junto às fronteiras da Rússia.

Não é popular, no discurso português de segurança e defesa, discutir, ainda que minimamente, as opções americanas que sobredeterminam de forma decisiva as políticas da Aliança. No nosso país, o obsessivo interesse em sermos "bem vistos" do outro lado do Atlântico tem-nos conduzido a um acrítico seguidismo, teorizado por uma escola que faz do ultra-atlanticismo o seu "fond de commerce". No limite, lembremos, foi o que nos levou à vergonha da « cimeira das Lajes ».

Penso, com a maior sinceridade, que a NATO – esse heterónimo dos EUA - continua a justificar-se e que o nosso país tem um interesse estratégico em dela continuar a fazer parte. A Aliança mudou de natureza com o fim da Guerra Fria, mas persistem cenários de risco que a continuam a justificar.

A Rússia, não sendo um inimigo, não é um poder qualificável de plenamente democrático, por não oferecer garantias de se subordinar a um quadro de respeito estrito pelo Direito Internacional, pelo necessita de conhecer, com clareza, as "linhas vermelhas" que não deve ultrapassar, na observância do equilíbrio de poderes posterior à Guerra Fria. E só a NATO as pode definir.

O que escrevi levar-me-ia a louvar a NATO e o seu trabalho, não fora o facto da organização ter sido visivelmente "raptada", nos últimos anos, por uma agenda de pendor radical, que soma algumas tentações de proselitismo político-militar dos EUA com a paranóia de alguns países que o alargamento da NATO colocou junto às fronteiras da Rússia - a tal "nova Europa" que Donald Rumsfelt se gabava de pôr em choque com o resto do continente. O que se passou na Ucrânia, a reboque de uma União Europeia que teve a insensatez de se deixar arrastar para políticas claramente provocatórias, que de modo irresponsável se permitiram abalar equilíbrios geopolíticos que haviam provado ser marcos da segurança coletiva, mostrou que "brincar" com a História pode ter um elevado preço.

Portugal é um país frágil, nomeadamente em matéria de segurança e defesa. Depende bastante da NATO, pelo não quer ser visto nesse contexto, ainda que minimamente, como um "trouble-maker". Além disso, um governo como o atual, que é olhado com elevada suspeição pelos meios atlanticistas, está talvez mais condicionado do que qualquer outro, pelo que será sensível ao senso comum, prevalecente nos corredores das Necessidades e do Restelo, de que "com a NATO não se brinca".

Até posso estar de acordo com isso. Mas espero que Lisboa, no âmbito de uma NATO que parece embalada por um perigoso tropismo jingoísta, que olha Moscovo como se tratasse da capital da URSS, saiba ter coragem para dizer, alto e bom som, que com a paz também não se brinca.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A diligência


Àquele diplomata português, que exercia as funções de encarregado de negócios, na ausência do seu embaixador, fora pedido que executasse uma diligência "ao nível mais elevado possível" junto do ministério dos Negócios Estrangeiros do país onde estava colocado. Pedia-se-lhe que tentasse saber, a montante da informação pública que se aguardava para breve, qual a atitude que o governo desse país iria tomar numa determinada questão. Com toda a certeza, Lisboa estaria a definir a sua posição e importava-lhe conhecer a que esse país ia tomar.

É sempre difícil a um encarregado de negócios, isto é, a alguém que não chefia a missão diplomática, conseguir uma interlocução a um nível alto numa hierarquia diplomática local. Normalmente, o máximo que consegue é ter um contacto com o "desk" geográfico que cobre o país e, muitas vezes, até isso demora algum tempo. Às vezes, uma visão fácil e caricatural sobre a vida diplomática despreza a importância dos contactos pessoais, as relações de proximidade que os convites para almoço ou jantar proporcionam, o interesse em conseguir ter "oleados" canais de acesso a funcionários que nos podem ser úteis. É uma arte, não acessível a todos, conseguir uma "network" de conhecidos nas estruturas dos ministérios estrangeiros, saber trabalhá-las e cultivá-las por longos meses em que a sua utilidade é pouco mais do que nula, para as poder acionar nos momentos importantes.

Não sei se foi através desses seus contactos que o diplomata, ainda jovem, conseguiu a proeza de ser recebido a nível de um diretor-geral. Para Lisboa, tratava-se da prova da sua capacidade de "furar" na máquina diplomática local e, com toda a certeza, o "bem elaborado telegrama" (expressão clássica na "casa") iria ser apreciado. Desde que a informação pedida por Lisboa fosse obtida, claro.

A conversa não iria ser fácil, contudo. O diretor-geral recebeu o jovem diplomata com alguma sobranceria, ouviu a questão colocada e, desde logo, "fez-se" caro. Explicou que o assunto, se bem que decidido já internamente, não era ainda do domínio público.

O nosso diplomata, com elegância, retorquiu que, se o fosse, não tinha vindo ali incomodá-lo. Era precisamente por sabermos que a decisão estava já tomada e prestes a ser anunciada que pedíamos, à luz das excelentes relações bilaterais que tínhamos, que no-la dessem por antecipação, com o óbvio compromisso de a não divulgarmos a terceiros.

O diretor-geral manteve-se "em copas" e adiantou: "Olhe, meu caro. Posso dizer-lhe que, dentro de dois dias, a decisão será comunicada à imprensa. Aí ficará logo a saber. São só 48 horas!"

O jovem diplomata, com garbo, terá respondido: "Fico muito grato e, pode crer, vou mesmo recomendar ao meu governo para fazer uma assinatura dos jornais do seu país. É que, como está em curso uma reavaliação dos postos a fechar, por razões orçamentais, no âmbito da nossa rede diplomática, sair-nos-á bem mais barato deixar de ter aqui embaixada e fazer essa assinatura. Pelos vistos, a utilidade de termos diplomatas cá acreditados é muito escassa, por não quererem ter connosco um gesto mínimo de simpatia e amizade. Passaremos assim a seguir a vossa atividade pela imprensa".

Dos anais da "casa", reproduzido mesmo em livros publicados, consta que o diretor-geral terá entendido a mensagem e facultado a informação pedida.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Dois pontos perdidos

O meu dia não acabou bem. Olhando para trás, para os erros cometidos, é agora relativamente fácil pensar o que se não fez para evitar o que aconteceu. Mas é como "chover no molhado". Precipitação, avaliação incorreta dos riscos, nervosismo e, claro, cai-se na ratoeira. E houve um custo a pagar, claro, não tão pequeno como isso. Agora tudo vai ser mais difícil, sem esses dois pontos. Não se podem cometer muitos mais deslizes. Alguns dirão mesmo: "Se calhar até foi bom! Aprende-se a ter mais cuidado". Talvez. Aprende-se a não avançar no terreno sem prudência, a medir melhor o ritmo a imprimir no futuro. Foi uma lição.

Perdi dois pontos. Na carta de condução. Faz amanhã oito dias. Na A8.

Já 5000 !


Pois é, este é post nº 5000, desde que este blogue começou a ser editado, no dia 2 de fevereiro de 2009, sem nenhuma interrupção diária, creio eu.

Achei que valia a pena assinalar este número "redondo".

As armas da Venezuela


Mário Soares tinha por hábito não pernoitar nas embaixadas, preferindo quase sempre os hotéis. Apenas em Brasília, numa das vezes que por lá passou, o convenci a dar-me o gosto de algumas conversas pela noite dentro, que eu aproveitava para saciar a minha curiosidade em torno das suas inesgotáveis memórias, sempre marcadas por um rigor dos factos, datas e nomes. Muito aprendi sobre a história da oposição democrática e os bastidores da política doméstica no pós-1974.

Numa dessas visitas, juntei à sua volta, num jantar, o antigo presidente da República, José Sarney e o então vice-presidente da República, José Alencar. Sarney era um velho conhecido de Mário Soares, que as voltas da política tornara um aliado de Lula, e Alencar era um querido amigo pessoal meu, que achei que Soares gostaria de conhecer melhor.

O jantar começou muito bem, com a bonomia e as histórias mineiras do vice-presidente a deliciarem o nosso antigo presidente. Este tinha vindo, na véspera, da Venezuela, onde entrevistara o presidente Hugo Chavez para um programa televisivo. Estava visivelmente entusiasmado com o líder venezuelano, sentimento que eu sabia longe de ser partilhado pelos dois convivas brasileiros. Porém, Alencar mostrava-se mais parcimonioso do que José Sarney, que tempos mais tarde acabaria por assumir no Senado brasileiro uma oposição forte à entrada da Venezuela para o Mercosul.

A certo passo do repasto, sempre em torno da figura de Chavez, comecei a notar que o diálogo entre Soares e Sarney se estava a tornar um tanto tenso. Entre outras discordâncias, Sarney explicava a Soares que havia setores brasileiros muito preocupados com as aquisições de material militar que Chavez tinha recentemente feito, chamando em apoio das suas teses o vice-presidente da República, José Alencar, que, até meses antes, tinha acumulado o cargo com o de ministro da Defesa. Este, porém, pela sua solidariedade com Lula, mantinha-se discreto.

Soares, contudo, acreditava piamente na boa vontade de Hugo Chavez, creditava-o de boas intenções e de um real interesse em manter um relacionamento positivo com o Brasil. Num determinado momento, voltando-se para Sarney, disse-lhe: "Ó José Sarney! Eu conheço muito melhor o Chavez do que você! E, por isso, posso assegurar-lhe que nunca uma arma venezuelana que ele controle se voltará contra um interesse do Brasil".

Sarney fechou aquela cara de brasileiro que, do bigode ao cabelo negro com brilhantina, refletia uma imagem caricatural do brasileiro da sua idade a que o mundo dos anos 50 e 60 se habituara, e, longe de convencido, voltando-se para Soares, disse-lhe: "Ó Mário! Nem você nem eu já temos idade para acreditar nessas coisas! Não seja ingénuo!".

Mário Soares não gostou, retorquiu firme, mas com procurada elegância. Eu fiz um sinal a Alencar para me ajudar a amenizar a conversa. Isso foi conseguido, sem dificuldade, mas pode dizer-se que aquele que seria o último encontro entre os dois antigos presidentes não acabou em ambiente de grande euforia.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Rua Direita


Na minha terra, em Vila Real, há uma rua que funciona como uma espécie de "eixo" da cidade antiga. De facto, chama-se Rua Dr. Roque da Silveira, mas, na prática, todos lhe chamam Rua Direita, designação que aliás é comum a artérias do mesmo género existentes em outras das nossas cidades.

Há bem mais de uma década, o meu saudoso amigo Álvaro Magalhães dos Santos escreveu uma memória afetiva sobre aquela rua, historiando-a casa a casa, a que deu o nome "A Rua Direita - uma janela sobre Vila Real".

A Rua Direita, como todo o vilarrealense sabe, vai da Capela Nova, que também não se chama assim, até ao Cabo da Vila (leia-se "bila"), que obviamente não tem, em termos toponímicos, essa designação. Já foi a grande artéria comercial da cidade e, ainda hoje, restam por ali algumas poucas casas com merecido prestígio. Mas é, em termos económicos, uma sombra do que já foi e, ao que me dizem, contam-se pelos dedos de escassas mãos as pessoas que ainda por lá habitam. 

Ao encontrar esta imagem há pouco na net, lembrei-me, sei lá porquê, da Rua Direita.

A tragédia americana

O recente ato terrorista na América pode vir a ter consequências bastante mais graves do que as significativas perdas humanas que causou. A emergência deste tipo específico de violência, ideologicamente motivada, induz insegurança e vontade de retaliação. A resultante política destes sentimentos não é por ora clara, mas tudo indica que não deixará de projetar-se sobre o momento eleitoral que os EUA atravessam, influenciando os compromissos securitários dos candidatos, quer na ordem interna, ao estimular efeitos sobre a cultura cívica e de liberdades, quer no comportamento externo do país, onde facilitará uma atitude favorável à afirmação autónoma do interesse nacional americano, com condições para forçar novas clivagens e agravar riscos que podem afetar todo o mundo. Uma América provocada a sob tensão é tudo quanto não precisamos nos tempos que correm.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Privilégios

Aquele ministro e eu entrámos no avião, de regresso a Lisboa, ambos vindos de uma conferência numa determinada capital. A lotaria dos lugares tinha-o colocado duas ou três filas atrás da minha.

Nesse tempo dos anos 90, eu era secretário de Estado. Ao meu lado, por um azar das arábias, acabou por me calhar aquilo que os brasileiros designam por "um chato de galocha". Era uma figura portuguesa conhecida, palrador incessante, do género muito inquisitivo, dos que nos não deixam ler ou trabalhar. Por simpatia, lá fui aturando a personagem, que não "despegava" um minuto da conversa.

A certo passo, olhando para trás, descortinei o sorriso gozão do meu colega de governo, que, conhecendo-me e conhecendo a figura que o destino colocara como meu vizinho, devia pressentir o esforço que eu estava a fazer para aturar aquela imensa "seca".

Mais de metade do voo já era passada quando um assessor do ministro passou perto da minha fila e me estendeu um envelope: "o ministro manda-lhe isto".

Abri discretamente o envelope, não fosse a curiosidade do vizinho estender-se ao seu conteúdo. Dizia mais ou menos o seguinte: "Sabes qual é a diferença entre um ministro e um secretário de Estado? É que os ministros conseguem não ter de aturar chatos como o que vai ao teu lado..."

Contive a custo a gargalhada!

domingo, 12 de junho de 2016

We'll always have Paris!


Ocidente


A comunidade muçulmana de Marselha deve estar a sorrir. A cidade mostrou ao mundo os hábitos, costumes e valores da civilização ocidental.

"Blague"


Foi preciso Marcelo ir a Paris para que Hollande ressurgisse com o seu conhecido lado "blagueur".

Pena é que os franceses achem cada vez menos graça ao seu presidente.

Notas (bem dispostas) de um domingo de sol


- É chocante a força que o Bloco de Esquerda e o PCP impõem nas decisōes salariais tomadas pelo governo socialista. O caso mais recente foi o escandaloso aumento que conseguiram para os administradores da Caixa Geral de Depósitos.

- Espero que o "Prós e Contras" de amanhã nos traga Assunção Cristas e Mário Nogueira a discutir os méritos do ensino público na formação dos "holligans" britânicos que ontem se ilustraram na Côte d'Azur, onde duvido que a toponímia local preserve a Promenade des Anglais.

- Se Marcelo não surgir hoje de arco-e-balão nas ruas de Alfama, vão começar os rumores de que a sua presidência entrou em declínio.

- Ao preço a que anda a sardinha, mais de uma dúzia por família vai ser lido pelo fisco como sinal exterior de riqueza.

- A Justiça passou agora a mau-da-fita ao acusar jornalistas de quebra de segredo de justiça (uma evidente calúnia!) no caso Sócrates.

- Cavaco começa a ficar vingado. Há cada vez mais consensos: sobre o que o país pensa dele, sobre a recusa das sanções europeias e sobre o facto do Europeu serem "favas contadas".

sábado, 11 de junho de 2016

O acordão

Os aumentativos em "ão" são uma forma brasileira de mostrar uma saudável sem-cerimónia com a língua portuguesa, tornando mais "gráficas" as expressões. 

( Para quem não saiba, as rotundas, no Brasil, designam-se por "balões". Um dia, conduzindo em Minas Gerais, perguntei a alguém se ainda faltava muito para cruzar com uma determinada estrada. A resposta não podia ser mais brasileira: "É logo ali, chegando ao balãozão", para designar uma rotunda bem maior do que as habituais.

Também as pessoas são referenciadas assim, sem o menor embaraço. Numa remota cidade do Amapá, fui apresentado ao Prefeito, um homem imenso, muito largo. Com a imbatível simpatia dos brasileiros, identificou-se: "Meu nome é José Carlos. Mas me chame de "Marmitão". Todo o mundo me conhece assim." )

Ao ouvir falar de que há um "acordão" no Brasil, alguns portugueses podem ser levados a concluir que isso designa a revolta ética da respetiva população, o "acordar" coletivo face à revelação dos escândalos de corrupção e outros graves atropelos às leis, que geraram manifestaçōes, revoltas populares e tensões sociais, com impacto na classe política. 

Mas não é nada disso! O "acordão" que se regista, ou se prepara, no Brasil é, apenas e só, um entendimento entre os titulares de cargos políticos no sentido de criar uma barreira à ação da Justiça, que agora começa a ameaçar setores de topo do sistema que saiu recentemente ganhador da luta pelo poder. 

A Justiça - em especial o Ministério Público e a Polícia Federal - foram os "heróis" do sistema, enquanto a sua ação tinha por alvo o PT e os seus "compagnons de route", isto é, até ao afastamento prático de Dilma Rousseff. Mas agora que a máquina judicial se colocou em movimento e não parou, ameaçando setores dessa hidra política que dá pelo nome de PMDB, já por ali se fala em "acordão".

Olhando em perspetiva este mês de poder de Michel Temer, fica a sensação, porventura injusta mas que ressalta inevitavelmente como tal, de que praticamente só se tem tratado da (re)atribuição de lugares no aparelho político e das empresas públicas, de paralelo com a tentativa esforçada de muitos políticos, de topo e não só, de escaparem à possibilidade de virem a ser transformados em réus. A demissão de ministros que saíram dias depois da posse, por alegadas implicaçōes em improbidades ou práticas puníveis, não contribuiu para dar um crédito de confiança à nova equipa dirigente.

Um estudo ontem divulgado no Brasil, ordenado pelo governo, dá conta da má imagem que o governo Temer, com a exceção do setor financeiro do executivo, continua a manter no exterior do país. Dessa imagem faz também parte a permanência, no imaginário do mundo, de que o afastamento de Dilma Rousseff configurou um "golpe" constitucional, isto é, de que foi um pretexto juridicamente magnificado para, muito simplesmente conseguir colocar a chefe de Estado fora do poder. O novo Brasil oficial pode ter ganho a batalha contra a presidente, mas, por ora, perdeu francamente a guerra da sua imagem e da sua credibilidade.

E o "acordão" para tentar evitar a detenção do presidente do Senado, do antigo presidente Sarney e de outra figura grada do PMDB não irá ajudar a melhorar essa imagem. (Posso agora revelar que era ao anúncio destes mandados de detenção que eu me referia aqui.)