quarta-feira, abril 20, 2022

Belicista?

Sobre o caráter xenófobo do poder ucraniano, alegado pelo PCP, para explicar sua recusa a estar presente no discurso de Zelensky na AR, a discussão é possível. Mas apelidar de “belicista” o regime de um país hoje devastado pela agressão militar estrangeira é muita imaginação.

Iniciativa

A Rússia propôs um acordo à Ucrânia. Além da neutralidade, da aceitação do estatuto diferenciado para o Donbass e do “fait accompli” da Crimeia, que mais propostas trará? Que ideias avançará em matéria de desmilitarização e dimensão futura das forças armadas ucranianas? Kiev vai dizer que não, claro. Com o rearmamento intenso em curso, entende que o tempo joga agora a seu favor.

Uma boa notícia


Desde há uns anos, tinha ouvido falar de que existia, ali pela Borralha, em Vila Real, numa casa isolada, no meio de uma quinta, colada ao quartel do regimento de Infantaria 13, em Vila Real, um turismo de habitação. Olhando à distância, a partir de certa altura, pareceu-me que teria havido obras de melhoramento do edifício. Mas a minha curiosidade não foi mais longe do que isso. 

Constou-me, mais recentemente, que ali eram servidas refeições. E foi então - vício antigo! - que fiz algumas perguntas. Ontem, para me despedir da cidade, no fim da Páscoa, fui lá jantar com familiares.

Descobri então, para minha surpresa, que aquilo é hoje um pequeno hotel - o Borralha Hotel - com instalações modernas, com muito bom aspeto. A avaliar pelo preço dos quartos, é uma excelente opção para quem visite Vila Real, onde existe um imenso défice na hotelaria. 

O jantar? Refeição bastante agradável, com serviço atento e profissional (quiçá um pouco lento), num espaço confortável e arejado. O menu é bem construído, a lista de vinhos é adequada, com o Douro em natural destaque. Ah!, e o que é muito importante, a conta final foi equilibrada. 

Com os dias de sol a virem por aí, o espaço exterior promete ser ideal para um copo ao fim da tarde e um jantar ao ar livre. Está assim criada uma saudável concorrência, na mesma zona de Vila Real, ao “Lameirão” e ao “Chaxoila”! Cada um que puxe pelos seus brios, porque há freguesia para todos! 

O que quero, muito simplesmente, aqui deixar registado é que a existência do Borralha Hotel é uma boa notícia para a hotelaria e para a restauração da minha terra.

A diplomacia …


 … existe para ajudar a encontrar saída para isto.

terça-feira, abril 19, 2022

Vila Real, agora

 


Cozinhados políticos

Numa noite de 2006, tive o presidente Lula e sua mulher, Marisa, com outros convidados, a jantar na residência da embaixada em Brasília, que eu então chefiava.

A nossa cozinheira, a excelente Delfina, uma moçambicana mãe de trigémeos, de um dos quais tenho orgulho de ser padrinho, raramente era substituída na sua função. Porém, para essa noite, num dos poucos jantares numa embaixada a que o casal presidencial se dignava ir, eu havia decidido convidar uma jovem “chefe” brasileira que, além de ser nossa amiga, estava a fazer, por esse tempo, bastante sucesso em Brasília.

E o jantar esteve, de facto, muito bom. O presidente e a sua mulher fizeram tantos elogios à comida que, à saída, pedi à “chefe” para vir conhecê-los e com eles tirar uma fotografia. Notei que, quando apresentei e disse o nome da já reputada cozinheira, Lula fez um leve esgar, de uma aparente estranheza.

À despedida, junto ao carro, o presidente meteu-me o braço e, ao ouvido, inquiriu: “Ela chama-se mesmo Mara Alckmin?”. Sorri e sosseguei-o: “Não, presidente! É Mara Alcamim, não é Alckmin!”. Lula soltou uma gargalhada e disse: “Ah! Entendi mal! E até me assustei!”

Geraldo Alckmin era o candidato da oposição que, escassos meses depois, Lula viria a defrontar na reeleição. Um sufrágio em que Alckmin foi derrotado estrondosamente.

Ontem, ao ver confirmado que Geraldo Alckmin se prepara agora para ser o vice-presidente na “chapa”, chefiada de novo por Lula, que pretende ser eleita para o Palácio do Planalto, no próximo mês de novembro, dei comigo a pensar que este mundo dá mesmo muitas voltas!

segunda-feira, abril 18, 2022

O diabo veste farda

Hamilton Mourão, o general vice-presidente de Bolsonaro, que com ele se foi incompatibilizando, aparentava ser uma figura sensata e equilibrada. Por estes dias, resolveu pronunciar-se sobre o tempo da ditadura militar (1964/89). E então percebeu-se: não é melhor do que os outros.

Não vale tudo!

Desejar que Marine Le Pen seja derrotada por Macron é uma atitude de mera decência política. Mas é miserável, revelando falta de lisura em procedimentos que deviam ser isentos, ver as instituições europeias a divulgarem acusações contra ela, a poucos dias do sufrágio. Não, não vale tudo!

Tolerância, pois!

Constituem atos reveladores de medíocre xenofobia, indignos do país tolerante que às vezes pretendemos ser, as atitudes, que parece serem cada vez mais frequentes, contra os cidadãos russos que residem em Portugal.

PCP 2

A atitude do PCP, no conflito entre a Rússia e a Ucrânia, é de uma extrema simplicidade. Desde o fim da URSS, o PCP esteve sempre, em todos os cenários geopolíticos, no polo oposto àquele que foi a posição dos EUA. Não há nada de mais previsível do que os comunistas portugueses.

PCP 1

O drama do PCP: já terá percebido que a atitude de complacência com a agressão russa à Ucrânia desgastou a sua imagem a um nível nunca visto no passado, mas mantem a convição de que, afinal, é precisamente por ser “assim” que, há décadas, sobrevive no museu ideológico europeu.

A chuva vem por aí!


 

Um amigo russo

O conceito de amigo, na vida diplomática, tem frequentemente um significado um pouco específico. Começamos por conhecer alguém, cidadão de outro país, numa determinada cidade, onde ambos somos estrangeiros. Ali coincidimos por algum tempo, estabelecendo uma relação conjuntural, marcada por alguma convivência, às vezes mesmo com alguma proximidade. Depois, rodamos pelo mundo. Anos mais tarde, se acaso nos voltamos a cruzar com essa pessoa em qualquer outro lugar, é quase certo que cairemos nos braços um do outro, considerando-nos “velhos amigos”, como se aquele primeiro contacto tivesse necessariamente tido alguma intensidade afetiva. Será talvez a “solidão” da condição diplomática, ao voltarmos a encontrar-nos num terreno igualmente estranho a ambos, que leva a essa expressão automática de reaproximação, às vezes um pouco exagerada, mas que pode, ainda assim, acabar por ter laivos de uma verdadeira amizade. Comigo, isso aconteceu algumas vezes.

Quando, em 2002, fui para Viena, chefiar a nossa missão diplomática durante a presidência portuguesa da OSCE, sabia que, para ter sucesso, tinha de me “dar bem”, com os meus colegas americano e russo. Os EUA e a Federação Russa são os “donos” da OSCE! É claro que há também os chamados “major players” - a França, o Reino Unido, a Alemanha, com a União Europeia, depois do Tratado de Lisboa, a querer mostrar que existe. E, depois, existem os “key players”, um grupo com outros parceiros, onde estão sempre a Itália, os Países Baixos e a Turquia. Mas esse é um conjunto que vai variando muito, em função da qualidade pessoal e poder de influência dos respetivos embaixadores. Nesse meu tempo de Viena, os meus colegas da Suíça, da Bulgária, da Roménia e do Lichtenstein (isso mesmo!), só para mencionar alguns, integravam esse grupo de “influentes”. Mas, volto ao princípio: conseguir ter “a bordo” o americano e o russo era a condição “sine qua non” para que as coisas corressem bem na OSCE. Nos dias de hoje, como isso é impossível, tudo corre mal por ali.

Não esperava ter, como não tive, nessa altura, o menor problema com o meu novo colega americano. Mas, com o russo, o primeiro contacto não foi nada fácil. O meu anterior contraparte russo em Nova Iorque, cidade de onde eu vinha, o agora famoso Sergey Lavrov, com quem tinha uma relação de forte cordialidade, mas neste caso algo distante de um registo de amizade, tinha-me dito, quando dele me fui despedir, que o seu colega na OSCE era “excelente pessoa, mas um pouco desconfiado. Vais acabar por te dar bem com ele”.

No meu segundo dia de Viena, fui visitar Alexander Alekseev, assim se chamava o meu novo colega russo. Recebeu-me na sua residência, ao fim da tarde, num ambiente um pouco frio. Era um homem nervoso, de óculos grossos, que não olhava de frente. Tinha um sorriso que era quase um esgar e martelava as palavras. Disse para mim mesmo: “Vai se difícil eu dar-me bem com este tipo. Mas tenho de conseguir”.

A nossa primeira conversa foi quase brutal. Quase sem me deixar apresentar, lançou-se, de imediato, numa litania contra a atitude do mundo ocidental dentro da OSCE, ameaçando com o veto de Moscovo a propostas que carreassem críticas aos seus “protegidos” - e a Rússia protegia todos os países que o ocidente criticasse, em matéria de direitos humanos, de ataques ao Estado de direito, de infringimento das regras democráticas. A Rússia era, na OSCE, o protetor do mundo a que se chamava “a Leste de Viena”, na realidade, dos “trouble makers”: Bielorrússia, Ásia Central, alguns Balcãs.

Encaixei com bonomia o recado, percebia bem a razão de fundo daquele arrazoado e, confesso, não me impressionei minimamente com o tom em que a conversa se processou. Tendo sido antes bem informado, pelo meu antecessor, João Lima Pimentel, sobre o “estado da arte” dentro da organização, estava exatamente à espera daquilo que vim a encontrar. E, até porque vinha da ONU, um terreno bem mais complexo, trazia comigo uma grande autoconfiança. E, por isso, anotei o discurso de Alexander Alekseev, mas dei-lhe o devido “desconto”.

Para o que aqui importa, a minha relação com o meu colega russo, não obstante algumas “escaramuças” de percurso nos tempos seguintes, acabou por ser excelente, fomos criando mesmo, ao longo do tempo, aquilo que pode qualificar-se como uma boa amizade. Ele percebeu que eu era pouco pressionável, que Portugal funcionava como um “honest broker” e que, de mim, não viriam surpresas. Viajámos juntos uma semana na Geórgia, com visitas à Ossétia do Sul e à Abcásia, sempre numa relação franca e divertida. Antes, havíamos passado uns dias no Porto, numa cimeira da OSCE, com uma noite a testar vodkas, no bar do Sheraton. Depois, eu saí de Viena, para embaixador no Brasil. Ele foi para Moscovo, para vice-ministro dos Negócios Estrangeiros. Perdemo-nos de vista.

Passou uma década. Regressei a Portugal, reformei-me do serviço diplomático e, numa outra capacidade de trabalho internacional, no início de 2014, fui a Estrasburgo. Havia-me sido pedido que fizesse uma determinada diligência junto do embaixador russo no Conselho da Europa. (Há semanas, como é sabido, a Rússia abandonou o Conselho da Europa, na iminência de ser suspensa da organização). Quem era o embaixador? Nada mais nada menos que Alexander Alekseev.

O nosso reencontro foi muito agradável. Passámos uma hora à conversa, muito para além da questão que ali me levava. A certo ponto, ele disse-me: “Lembras-te do nosso primeiro encontro, em Viena? Não foi uma conversa fácil…”. Eu “fiz de conta”: “Essa agora! Foi facílima! Tu quiseste assustar-me, ameaçar com o veto russo, mas eu percebi logo que estavas a querer criar uma primeira impressão. E, como viste, tudo acabou por correr muito bem entre nós!” O Alexander deu uma gargalhada, como se o seu anterior “bluff” tivesse sido denunciado e desmontado pelos factos subsequentes. Despedimo-nos com o que interpretei como um sincero abraço.

Que será feito, neste estranhos dias de guerra, do meu amigo Alexander Alekseev, hoje diplomata russo aposentado? Devo dizer que a última coisa que me apetecia seria discutir com ele a invasão russa da Ucrânia. É que imagino que ele talvez pretendesse convencer-me de que aquilo não passa de uma mera “operação militar especial”. Se há coisa que, na vida, há muito aprendi é que não se deve nunca testar uma amizade metendo-lhe a política pelo meio.

domingo, abril 17, 2022

Páscoa


A “operação” já faz parte da tradição, que a pandemia limitou por algum tempo. Pela Páscoa, encomenda-se o cabrito na Dona Rosa, onde a qualidade é garantida, ali ao Arcabuzado, em Vila Real. Depois, à hora do almoço, processa-se um cuidadoso transporte do “material” - batatas, arroz e molho incluídos - até ao local de degustação. Segue-se a função, com líquidos tintos adequados, seguida dos doces da época. A tarde acaba num chá preto, dos de “a sério”, acompanhado dos folares diversos, ali sujeitos a testes de qualidade comparativa. Desta vez, fomos “só” 18…

Ainda vamos a tempo?

 


sábado, abril 16, 2022

Aleluia


No local onde agora estou, só se consegue ouvir os sinos de uma igreja se acaso o vento estiver muito de feição. Verdade seja que, usando sempre, nas férias em Vila Real, o “fuso de Caracas”, em termos daa minhas horas matinais, não consegui esclarecer se, num sábado de Aleluia como este, ainda se manteve o velho ritual dos sinos tocarem em uníssono, logo pela manhã. 

Mas será que isso importa alguma coisa, nestes tempos em que maioria dos sinos que se ouvem são uns “genéricos” em gravação, porque já não deve haver verba para contratar sineiros? (Os muçulmanos também padecem dos males do défice: ainda não há muito tempo, numa capital de tementes a Maomé, ouvi a convocação para orações, o azan, a ser feito pelo muezin da mesma forma). 

Noutras eras desta pátria, em que outros costumes se impunham, na Semana Santa, todas as rádios (televisão não havia) suspendiam as suas emissões à hora de almoço de quinta-feira, entrando em “black out” durante toda a sexta-feira, dias em que não passava pela cabeça de ninguém abrir as portas de qualquer loja comercial e, claro, em que o bacalhau e o peixe eram de regra nas refeições. Mas, mais do que isso: nesses tempos, em que não havia secadoras de roupa, até não era de “bom tom” estender roupa lavada a secar. Imaginem! 

O que Portugal mudou! 

Seramota


Sem o folar da Seramota, de Mirandela, a nossa Páscoa teria sempre muito menos graça. Passei ontem por lá, a abastecer-me de dois exemplares destes. É um dos melhores de Trás-os-Montes, podem crer!

A Dona Inês Seramota convoca, para além do folar, e de outros exemplares de excelente pão, uma dimensão política que, ao que me dizem, em nada diminui a sua popularidade comercial em Mirandela - e também já em outras localidades, onde os seus produtos se vendem. 

É que a simpática senhora, com quem ontem tive o gosto de conversar, é, há muito, uma fervorosa militante do PCP e, por isso uma regular frequentadora (e “alimentadora”) da Festa do Avante. Ontem, na padaria, lá estavam exemplares do “Avante!” e do “O Militante” à venda. No entanto, eu é mais pão…

A Ucrânia

 


Ver aqui.

A dignidade da República

O incidente na sala de um partido na Assembleia da República não é um "fait-divers". Sem a menor ironia, acho aquilo gravíssimo.  ...