sábado, fevereiro 13, 2021

Um mau dia


Era preciso resolver aquele assunto, que já se arrastava há uns tempos. Se tentasse fazê-lo através do MNE, com ofício para cá e para lá, as coisas não iam funcionar. Provavelmente, um contacto com a pessoa certa seria suficiente para desbloquear o problema. E pessoa certa era o presidente da Câmara Municipal de ... Eu tinha-o conhecido, uns anos antes, e lembrei-me de lhe telefonar.

Era então embaixador em Brasília. Disse à minha secretária: “Ligue-me para Portugal, para a secretária do presidente”, acrescentando o nome da Câmara que o homem chefiava. Como mandam as regras de boa educação telefónica, disse que me passasse o secretariado, porque queria já estar no outro lado da linha, quando o edil viesse a atender.

Passaram uns minutos e a minha secretária disse-me que estavam a responder do gabinete do presidente. Era uma voz de senhora. Estranhei o tom que me chegou do outro lado, num registo muito baixo, quase sussurrante. Expliquei quem era e que gostaria de falar uns minutos com o “senhor presidente”.

Notei que a senhora, embora muito delicada, continuava um tanto atrapalhada. Começou por dizer: “Vai ser difícil!” Eu percebia que o homem podia estar em reunião, que não fosse possível interrompê-lo. Tantas vezes me acontecia a mim o mesmo. Perguntei a que horas podia ligar ou se seria possível ao ”senhor presidente” ligar-me de volta.

A atrapalhação, do lado da senhora, continuava. “Hoje vai ser mesmo muito difícil!”. Pronto, paciência, tentaríamos num outro dia! E preparava-me para desligar, dizendo à minha secretária para me relembrar o assunto, quando a minha interlocutora, sempre quase ciciando, adiantou as razões, bem fortes, para o impasse: “Sabe, o senhor presidente está ali ao lado, no gabinete, com a Polícia Judiciária, que veio, de surpresa, revistar as papeladas da Câmara! Hoje é um dia mau!”

Caramba, claro que era um péssimo dia! Não se falava mais nisso! Desliguei, disse que esperava que corresse “tudo bem”, já com pena do homem, embora não fizesse a mais leve ideia do assunto que o envolvia. E tive o pudor de não insistir, nos dias seguintes. Aliás, nunca mais liguei!

Anos mais tarde, na imprensa, vi que todas as imputações que tinham levado as autoridades da justiça ao seu gabinete, nesse malfadado dia em que eu tinha tido a extraordinária “pontaria” de lhe telefonar, não tinham o menor fundamento. Era um homem honestíssimo!

Por que é que me lembrei disto, agora? Porque, há minutos, numa notícia digital, já antiga, me surgiu o nome do homem. Ah! E o meu assunto? Sei lá! Pode ser que o tempo o tenha resolvido...

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

Forum Demos


Álvaro Vasconcelos anima o “Forum Demos”, onde regularmente se passam debates do maior interesse. Foi esse o caso hoje.

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

“Take away”


Não achas que pode ser um pouco chocante, neste tempo em que há mais gente desempregada, em que tantas famílias passam por dificuldades, estar a falar de serviços de “take away” de restaurantes, que não são propriamente baratos, a que nem todos podem ter acesso?”.

Há pouco, ao referir, ao telefone, a uma pessoa amiga, a minha intenção de dar nota de três restaurantes aos quais, nos últimos tempos, recorri, para encomendar refeições, recebi a resposta com que abro este texto.

E respondi assim: “E achas que as pessoas que trabalham nesses restaurantes não têm família para sustentar, não precisam de encomendas e não têm de fazer algum negócio para pagar as rendas e os seus empréstimos?” A pessoa amiga concordou.



Pronto, aqui vai o que quero dizer: mandei vir refeições dos excelentes “Salsa & Coentros”, do “Poleiro” e do “Nobre”.

Nos três casos, fiquei muito satisfeito com o serviço. E isto não é publicidade. Foi um serviço pago, a preços que não me pareceram excessivos. É só isto que queria dizer.



“Flatiron” à moda da Madragoa


 

quarta-feira, fevereiro 10, 2021

“Atlantic Talks”


Filipe Santos Costa é um jornalista cujas qualidades ultrapassam, em muito, a peculiar circunstância de partihar comigo as mesmas iniciais. Leio-o por aí com regularidade e, gostava de dizer, tenho pena de o não ler mais. Quem quiser perceber a política portuguesa de décadas recentes não pode deixar de conhecer a obra sobre o jornal “O Independente” que, há alguns anos, escreveu com Liliana Valente. Não sei mesmo se alguns já lhe perdoaram essa ousadia...

Há semanas, chegou-me, “por mão amiga” (já não se vê muito escrita esta simpática expressão antiga), um livro, editado pela Fundação Luso-Americana (FLAD), em que Filipe Santos Costa entrevista vinte personalidades portuguesas sobre a influência dos Estados Unidos da América em Portugal, nos últimos 35 anos, os mesmos que a FLAD leva de existência. O volume chama-se “Atlantic Talks” e traz-nos visões, frequentemente bastante informativas, sobre diversas áreas. As entrevistas podem ser apreciadas nos “podcasts” originais.

Os livros institucionais são, muitas das vezes, uma imensa chatice, servindo apenas para encadernar a rotina da casa que os edita e encher-nos as estantes. Não é, manifestamente, o caso de este. Rita Faden, presidente da FLAD, está de parabéns por esta bela iniciativa.

Não vou destacar nomes, dentre os entrevistados no livro, para que se não diga que, a contrario, estou a não querer relevar outros. Nem sequer vou colocar a fotografia da capa, indiciando alguns dos entrevistados, para não facilitar a vida aos medíocres preguiçosos do “Ah! O livro tem uma entrevista com essa? Ora aí está uma boa razão para não o ler!”.

Imagino que, no site da Fundação, possam saber mais sobre esta bela iniciativa.

Fomento de polémica

É chicana politiqueira a polémica sobre a escolha do presidente do banco de Fomento. Haverá, no mundo financeiro, alguém que tenha capacidade técnica para presidir a um banco e que, simultaneamente, não tenha passado por instituições bancárias onde tenha havido problemas?

RTP

Não deve haver órgão de comunicação cujas “bad news” sejam tão “saudadas” pelos seus “camaradas” de “métier“ como a RTP. A bisbilhotice sobre a vida da empresa tem mesmo os seus “especialistas“ quase diários, acolitados por compacentes “correspondentes”, que lhes alimentam o fel da má língua.

CDS

Acabam de me garantir que não tem o menor fundamento a ideia, posta a correr, em alguns meios maldosos, de que a crise que abalou o CDS, nas últimas duas semanas, teria sido criada com o único objetivo de garantir ao partido alguns títulos e artigos de imprensa, bem como tempo de antena nas TVs.

Brasil

Olhando o debate político no Brasil, fica a sensação de que o PT, ao insistir na aposta no nome de Lula e, no caso de ela falhar, no seu “genérico” Haddad (o nome menos ”poluído” dentro das ”cartas” que o partido pode apresentar), não terá aprendido suficientemente as lições do passado.

Ao pretender continuar a hegemonizar a liderança da esquerda, sem fazer um compromisso de modéstia com forças e personalidades mais ao centro, o PT pode estar, irremediavalmente, a afastar-se da possibilidade de voltar a ser uma alternativa de poder.

Em baixa!



A Baixa está bastante em baixo! Melhores fotógrafos e mais turistas virão! 

Um poder solitário


Há dias, ao ver o ministro russo Sergei Lavrov assumir uma atitude de arrogância para com o chefe da “diplomacia europeia”, Josep Borrell, travei, num segundo, a vontade de rir que a cena me deu. Era a União Europeia que ali estava a ser humilhada - e isso não deve regozijar quem se sente solidário com esse projeto. Naquele instante, contudo, tive uma melhor perceção do drama que, nos dias de hoje, atravessa o poder europeu, na sua expressão internacional.

Não vale a pena entrar muito pelo detalhe do óbvio, que já foi dito e redito: a União Europeia é um gigante económico e um anão político. Já foi mais gigante e já foi mais anão. Sob o impulso de alguns Estados membros e desajudado por outros, a União tentou, nas últimas décadas, afirmar-se no cenário internacional das potências. Quer o Brexit quer os anos Trump funcionaram, contudo, a contra-ciclo desse objetivo, a que o Tratado de Lisboa tinha procurado dar algum músculo internacional.

Onde está hoje a Europa, como poder, pelo mundo?

Com a Rússia, depois de, há anos, ter alinhado na aventura ucraniana da administração Obama, soprada pelo ódio anti-Moscovo que prevalece no Leste da sua geografia, a União tem a relação que ficou patente na cena Lavrov-Borrell. Há quem deseje um divórcio total com Moscovo, há quem veja a Rússia como parceiro incontornável mas, por ora, algo incontrolável.

Com os EUA, ignorada no primeiro discurso sobre política externa de Joe Biden, Bruxelas pode estar já a pagar o preço de um apressado “acordo de princípio” de investimento com a China, o qual, sendo uma afirmação legítima da sua “autonomia estratégica”, arrisca consequências nefastas no relacionamento transatlântico. Se o pendor multilateralista da nova administração americana abre um mundo de esperanças, há muito quem, na Europa, não esteja disponível a comprar a boa vontade americana a custo de uma subalternização e tutela política.

Com a China, a Europa não se decidiu ainda sobre o que fazer: como compatibilizar o aproveitamento das fantásticas oportunidades económicas sem perder o ensejo de se mostrar firme perante as posturas autocráticas, e estrategicamente desafiadoras, de Beijing.

E poderíamos continuar, por aí adiante. A verdade é que a União Europeia dos novos tempos é um compósito com contradições internas longe de superadas, espelha interesses frequentemente contraditórios e, o que é mais preocupante, não parece a caminho de afirmar uma unidade de propósitos estratégicos. Ora isso é que carateriza uma potência.

terça-feira, fevereiro 09, 2021

Medidas de contingência

 


A mulher coragem


É uma mulher com algumas vidas, com muitos livros, com imensos amigos, com uma coragem acima do mundo. À minha amiga Leonor Xavier, a existência tem pregado partidas, sustos e, às vezes, jogado com ela às escondidas. A Leonor, com aquela voz rouca e doce que, à primeira vista, poderia transportar um discurso naïf, é alguém que descobriu que as dificuldades se agarram de caras, que os problemas se resolvem combatendo em terreno aberto. É uma cabeça arejada, positiva, que olha as pessoas de frente, guiada por uma ética à prova de bala, com valores que caldeou ao longo dos anos. Quando saímos do seu convívio, das conversas sempre interessantes que com ela temos, fica-nos uma admiração imensa pela sua força e determinação. Posso dizer uma coisa muito sincera, sem correr o risco de se julgar que estou a fazer um ’número’?: saio sempre melhor do que me sentia, depois de falar com a Leonor, nem que seja apenas pelo telefone. Mas, claro, tenho saudades dos almoços lentos no Ribatejo, das ocasiões em que ela sabe juntar a gente certa, para horas divertidas, coisa que a pandemia interrompeu. Lembrarei para sempre aquele seu aniversário louco, com baile, na Barraca! E a poesia na igreja do Rato. E o debate sobre o Brasil no El Corte Ingles. E as histórias com Sérgio Godinho e Nélida Piñon no CCB. E também me fazem falta as noites na Dois, no Procópio, com a Leonor a dar a deixa para as gargalhadas da Alice. Em outros tempos, também com o Raul por lá, depois os tempos passaram a ser com alegres saudades dele. A Leonor faz sempre da vida uma festa - e, para nossa sorte, convida-nos para ela!

A Leonor publicou agora, renovada, uma carta que acho que devia ser lida por muita gente. Quando há tanto défice de esperança, há por aí gente, como a Leonor, que tem um admirável superávite de coragem. Como podem ler aqui.

Os Estados Unidos e a China


 Pode ler aqui.

A União Europeia e a Rússia

 


Leia aqui.

Deve haver uma sa-brosa...

 


Os estaleiros


Desde que, em criança, passei a ir de férias, todos os anos, para a terra do meu pai, Viana do Castelo, os “estaleiros” faziam parte do meu cenário da cidade. Rara era a pessoa conhecida que não tinha familiares que ali trabalhavam. Quando se atravessava o campo da Senhora da Agonia, para as tardes na Praia Norte, vinham dos estaleiros barulhos metálicos imponentes, com sirenes que soavam estranhas ao miúdo que eu então era. Os estaleiros eram parte integrante da personalidade da cidade, como a ponte Eiffel ou Santa Luzia. Para mim, que vinha de uma Vila Real quase sem indústria, aquilo e a vizinha doca comercial eram um luxo que dava a Viana um ar de grande urbe.

Veio o 25 de abril e surgiram muitas notícias dos estaleiros, falava-se de navios vendidos à Rússia. Depois, com o correr do tempo, os jornais trouxeram relatos sobre os altos e baixos daquela fábrica de barcos. Há uma década, viu-se Viana na rua, mobilizada pela polémica que envolveu a privatização dos estaleiros, um assunto que se transformou num caso nacional. Agora, de quando em vez, os estaleiros ainda voltam à baila.

Há pouco tempo, vi que a Câmara Municipal de Viana publicou um livro intitulado “O Estaleiro da saudade - gerações, cultura e desfecho”. Como expectável, é uma memória nostálgica assente no outro tempo dos estaleiros. É uma peça editorial bonita e bem documentada, que acolhe memórias e imagens, para mim inéditas, de outros tempos da empresa, com notas humanas das alegrias e tristezas de quem nela trabalhou. Curiosamente, o livro não se fecha apenas no passado, soube abrir a porta àquilo que aquela empresa hoje é, embora não escondendo nunca para que lado o seu coração pende.

Li, com gosto, “O Estaleiro da saudade”. Aprendi bastante sobre uma realidade que, embora sempre ali estivesse, por décadas, à frente dos nossos olhos, arrastava, por detrás das suas paredes, muitas vidas e muitas emoções.

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

Cassandra

Há por aí pessoas tão catastrofistas e com alma de Cassandra que passam a imagem de que estariam dispostas a sacrificar alguns anos da sua vida só para terem o “prazer” de poderem testemunhar, dando assim razão a si mesmas, na lógica do “eu bem dizia!”, o “fim do mundo” que, dia após dia, insistem em prever.

Conselho para reuniões

À volta de uma mesa de reuniões, é sempre bom lembrar a máxima de Pierre Desproges: "Il vaut mieux se taire et risquer de passer pour un con, plutôt que l'ouvrir et ne laisser aucun doute à ce sujet."

“Super Bowl”


Nunca me passou pela cabeça ver um “Super Bowl”. Mas há muitos milhões de doidos por aquilo! Há anos, em Nova Iorque, numa conversa, caí na asneira de dizer que, nessa noite, pensava ir ao cinema. Dois americanos olharam para mim com um ar que nunca mais esqueci...

Hortaliças de Estado

Há poucas semanas, soube da morte de Carlos Westendorp. Foi uma figura relevante da diplomacia espanhola: ministro dos Assuntos Exteriores, ...