quinta-feira, abril 02, 2020

Esta Lisboa


Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão

Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa)

quarta-feira, abril 01, 2020

Foi assim...


No longo corredor do terceiro andar da embaixada “portuguesa” (os angolanos nunca diziam “de Portugal”, sei lá bem porquê!) em Luanda, nesse ano de 1984, ia uma imensa agitação (um grande “restolho”, como se diz na minha terra). O Júlio Vasconcelos, um colega diplomata, aflorou à porta do meu gabinete: “O António está furibundo com um telegrama que chegou de Lisboa”.

O António era o António Pinto da França, o magnífico embaixador que nos tinha saído em rifa, que muito ajudaria a dar cor e graça aos dias dessa cidade com guerra à volta, com recolher obrigatório, praticamente sem lojas abertas e com uma vida tensa e muito difícil. “Mas o que é que diz o telegrama?”, perguntei. Aparentemente, anunciava que António Macedo, uma figura grada do PS, que constava ter uma ligação privilegiada com o MPLA, vinha a Luanda, enviado por Mário Soares, numa missão de “diplomacia paralela”, com vista a tentar atenuar as então difíceis relações bilaterais.

Mas o telegrama, assinado pelo secretário de Estado Eduardo Âmbar, dizia mais: pedia que, dado o “estado frágil de saúde” de Macedo, este ficasse instalado na residência e que o embaixador o acompanhasse nas diligências.

Quando entrei no gabinete de António Pinto da França, este estava numa imensa agitação. “Ó Francisco, você não acha um topete esta vinda do Macedo? Então vem para aqui fazer “diplomacia” partidária e pedem-me para o acompanhar! E nem posso ir de férias, que já estavam autorizadas pelo secretário-geral! E as obras, que foi tão difícil arranjar gente para as fazer? Já tinha mandado o pessoal da residência de férias...”

Havia pouco que dizer, para além de um: “Pois é, é uma chatice!”. Mas o António Pinto da França continuava inconsolável: “Não esperava isto do Jaime Gama, francamente! A favorecer uma operação de “diplomacia paralela”!”. Aí, entrei eu na especulação: “Não será por acaso que o telegrama é assinado pelo Âmbar...”. O embaixador largou o cachimbo e, tendo-me como expert nas tricas socialistas, interrogou-se: “Você acha?”.

Ainda eu não tinha iniciado a minha exegese imaginativa sobre mundo do Rato, quando o bigode do Tavares, o nosso simpático homem das comunicações, aflorou à porta do gabinete: “Senhor embaixador. Chegou outro telegrama. É do secretário-geral...”. “Dê cá, Tavares, dê cá!”, disse o António, talvez com uma vaga esperança de que tudo afinal se revertesse.

Aí, foi a “débacle”! António Pinto da França, homem pouco dado a humores irados, deu um berro: “Só me faltava mais esta!”. À sua volta, expectantes, continuavam os seus quatro colaboradores mais diretos: o José Stichini Vilela, ministro-conselheiro, o Fernando Andersen Guimarães, cônsul-geral, chamado do seu andar de trabalho ao improvisado “gabinete de crise”, o Júlio Vasconcelos e eu.

“Vocês querem saber quem é que vão mandar para cá como Conselheiro Cultural? O Reis Caldeira!”. Era, de facto, a “cereja em cima do bolo”! O embaixador tinha-se batido longamente para ter uma pessoa encarregada da área cultural, tendo mesmo adiantado sugestões de nomes. O Reis Caldeira - e eu até era, provavelmente, aquele que melhor o conhecia - era uma figura muito polémica na carreira diplomática, autor de um “infamous” livro sobre as intrigas da casa. “E o João Aurora nem uma palavra teve para comigo, antes de tomar esta decisão! Não lhe perdoo!” O João Aurora era o embaixador João Sá Coutinho, conde de Aurora, secretário-geral do ministério, o “chefe” da carreira.

A confusão já ia longe demais. O tabaco do cachimbo do agitado António Pinto da França estava espalhado pela secretária, sobre a papelada verde dos telegramas recebidos (os expedidos, como regra universal no MNE, eram imprimidos num papel róseo, da cor das paredes do palácio). A sua fúria, que já se tinha refletido no modo brusco como reagira à Luísa, a secretária, que lhe lembrara, a destempo, que o seu carro já estava à porta do prédio, para o levar ao almoço na residência, aconselhava a que fosse introduzida alguma acalmia na situação. Foi o que decidi fazer.

“Já imaginou se tudo isso fosse verdade? Que vinha por aí o Macedo e que tinha de passar a aturar o Reis Caldeira?” O embaixador olhou-me, esbugalhado, num súbito silêncio, feito de uma imensa perplexidade. Viu então a cara do Fernando Andresen Guimarães abrir-se num sorriso de cumplicidade revelada, o Zé Stichini deu uma gargalhada de quem percebia o que se passava e só o Júlio Vasconcelos ficou com um ar espantado, porque eu o tinha mantido “fora-de-jogo”.

”Hoje é o dia um de abril. Esses telegramas foram inventados por mim. E até chegaram cifrados! Deu-me uma imensa trabalheira, ontem à noite...”

Era assim o nosso grupo de Luanda, de outros tempos. Desse “team” diplomático só eu e o Fernando Andresen estamos hoje “por cá” para nos lembrarmos da história daquele dia um de abril de 1984. 

Morrer de saudades


Um colunista não é, necessariamente, alguém que sabe mais do que aqueles que o leem. É apenas uma pessoa que tem a pretensão de pensar que aquilo que coloca no papel pode ser interessante para ajudar à reflexão dos outros.

Nesta crise, em que vejo pouca televisão e me protejo da catadupa de notícias que nos chegam de toda a parte, tenho a certeza de que muitos dos leitores estão bastante melhor informados sobre o quotidiano do que eu.

Face às flagrantes hesitações de quantos são tidos por especialistas nestes assuntos, e que se recusam sabiamente a dar opiniões definitivas, ficou implicitamente autorizada a vinda à tona dos “técnicos de bancada”, dos que juntam dados colhidos em várias fontes e se atrevem a formular teorias sobre o vírus, a mandar bitaites sobre a tal “curva” e coisas assim. Muitos são antigos escribas de generalidades, outros são políticos em “pousio”, a maioria são os “tudólogos” do costume. Põem um ar grave e aí vai disto!

Há ainda os das redes sociais. Prolíficos nas sinistras “partilhas”, se acaso têm “uma prima no Curry Cabral” que lhes deu umas dicas em privado, passam a oráculos. Fujo deles a sete pés. Não me “infetam” com as suas teorias, sejam pseudo-científicas, sejam de natureza conspiratória (“sabia que há um site búlgaro que anunciou que o que ‘eles’ não querem é pôr cá fora a vacina que já existe?”)

Sou um cidadão comum. Nada sei de relevante sobre esta pandemia, pelo que entendo dever ter a humildade de me deixar guiar por quem, embora não sabendo tudo, e estando também a aprender dia-a-dia, sabe seguramente muito mais do que eu poderia alguma vez saber - mesmo que me desse ao trabalho de ouvir tudo (e não ouço), que andasse a coscuvilhar na internet sobre o muito que se especula pelo mundo (e não ando). Nesta matéria, vivo a serenidade de quantos confiam apenas no que as autoridades de saúde nos dizem para fazer, somado àquilo que o bom-senso me aconselha. E, como se dizia noutros tempos, o que for soará.

É sobre o bom-senso, a única coisa em que posso pronunciar-me, que gostaria de deixar uma nota. Imagino que as angústias da solidão, somadas às tensões do confinamento, leve uns tantos a uma ideia: se se passou uma quarentena de mais de meio mês, sem sintomas, o mais provável é que se não esteja infetado. Daí a pensar dar uma saltada à terra ou à casa da família mais íntima, para uma Páscoa discreta, o passo é pequeno e a tentação é grande. Não faça isso! Pode ser trágico. Vale mais morrer de saudades do que morrer.

O meu 1º de abril



Pronto! Hoje, decidi sair. Começa o mês de abril, mês novo vida nova (nunca ouvi dizer isto, mas soa bem). De manhã, tenho de dar uma saltada à Infante Santo para comprar "toner" e vou passar pela loja gourmet das Amoreiras. Há por lá um belo paté. Compro também um Sauternes, que liga muito bem com ele. Deixo as coisas em casa e vou almoçar com o pessoal do costume ao Nobre. Está-se a comer lindamente no Nobre, sabiam? Atravesso, em seguida, a Avenida da República e vou ao meu barbeiro, ao Sr. Pinto, no Apolo 70, que é "apenas" o melhor barbeiro do mundo. Bem preciso, com a trunfa com que já ando! Apanho o metro para o Chiado e vou beber um chá com scones no Grémio. Depois, ainda passo pela Férin e pela FNAC. Preciso do último "Spectator" e aparece sempre um livrito ou outro para comprar. Jantar? Está-me a apetecer voltar ao Pap'Açorda no Mercado da Ribeira. Estive lá há semanas e comi bastante bem. Para acabar a noite, talvez ainda vá ao Procópio para um copo. Há muito que o Luís já nem pergunta o que eu quero. E depois, claro, regresso a casa, que já se faz tarde.

E se chover? Bom, se chover é outra coisa! Nem saio de casa! Aliás, pensando bem, em casa é que se está bem. Olhem! Afinal, já decidi: quer chova quer faça sol, neste primeiro de abril, fico mesmo em casa. É verdade! No dia das mentiras!

terça-feira, março 31, 2020

Só para lembrar

Sinto haver por aí gente que, passado o período da quarentena que se auto-impôs, conclui que não está infetada e, com a aproximação da Páscoa, está a pensar fazer uma escapada para ver a família. A essas pessoas, só lembro uma coisa: vale mais morrer de saudades do que morrer.

Keynes

Com os apoios que o Estado está a dar - e muito bem! - ao setor privado, algumas escolas de “business” vão reconverter-se e passar a ter um retrato do Keynes no hall de entrada.

Homofonias

Resposta de um amigo, a quem perguntei como iam as coisas lá por casa: “So far so good!” A mim, soou-me: estar no sofá é tão bom...

Aspirações

Nunca esta casa andou tão bem aspirada. Confesso, porém, que tinha outras aspirações.

Petiscos em casa


Sempre houve louváveis exceções, mas a tendência maioritária da vida empresarial moderna é de que as refeições de trabalho sejam, quase sempre, para além do já quase inevitável “peixinho” dietético, coisas a caminhar para um sinistro mundo de “herbívoros” - sem vinho, sem açúcar, sem café, numa palavra, sem um mínimo de graça.

Numa empresa onde presto consultoria, dei-me um dia conta de que os almoços de trabalho eram sempre um “happening” de coisas bem saborosas, criativas, com gosto, regadas com álcoois interessantes. E, nem por isso, trabalhávamos menos.

Perguntei o nome de quem fazia aqueles petiscos: Marta Bártolo. Era uma arquiteta convertida em “chefe”, que não só serve refeições nas casas como dispõe de um espaço bem interessante, passível de aluguer, na rua dos Navegantes.

Passámos a ser clientes da Marta. E continuamos a sê-lo, mesmo depois do início da crise. Por estes dias, ela fez-nos já algumas refeições, trazendo-as a casa, com uma qualidade que muito nos atenua a solidão do confinamento. Seguramente que, em semanas futuras, pelo meio de outras experiências de “take away”, a ela recorreremos de novo.

Só por aqui faço publicidade àquilo que acho que merece. E a cozinha da Marta Bártolo merece-o bem. Consultem o seu site (www.amesacommartabartolo.com) ou telefonem-lhe (965080839). Ao contrário de outros fornecedores de refeições, ela serve em toda a Lisboa, mas também Cascais, Sintra e Praia Grande. Posso garantir que não se arrependerão!

Não devemos dar tréguas ao vírus! Vinguemo-nos na mesa!

segunda-feira, março 30, 2020

Ficar bem

Particularmente nestes dias de confinamento, gosto muito de ouvir isto: “A camisa que escolheste não “vai bem” com essas calças!”

Parlez-vous?

Um email de um amigo, esta manhã: “Partilhaste um texto em francês. Achas que alguém ainda percebe francês? O mundo, por cá mudou. Experimenta perguntar a um miúdo o significado de uma data em letras romanas...” 

Terá razão?

Ai o VAR...

Com os dias a passar, há coisas que, pouco a pouco, nos vão fazendo falta. Como o VAR, por exemplo. E as caras graves daquelas figuras que passavam horas a discutir se foi ou não fora de jogo, se o jogador estava “em linha”, se a carga foi ou não merecedora de amarelo...

A refeição imaginária


Nestes dias de confinamento, os “menus” caseiros dependem muito da criatividade culinária dos membros da família. Há quem seja mais dotado para a cozinha (e eu dou pleno direito a quem aplica com méritos esses predicados) e há quem pertença à muito estimável categoria dos que, não tendo tido a ventura de ser dotado de tais dotes, se distinguem, no entanto, pela importante tarefa de analisar aquilo que se degusta.

Faço parte desse último e distinto grupo. Todos os dias, lá vou dando a minha preciosa valoração: “Acho que esta tarte precisava de um bocadinho mais de apuro” ou “tens de ter mais cuidado com o demolho do bacalhau” ou “esta carne ganhava em estar mais ‘medium rare’ “. E, com estas judiciosas avaliações, sei que dou um contributo inestimável à vida da casa. E, claro, nunca me passou pela cabeça pedir para que alguém me agradeça estas observações, feitas com a sabedoria gustativa de muitos (vá lá, e bons!) anos. Temos de ser uns para os outros, não é?

Nestes estranhos dias, em que me apetecia sair de casa e não o faço, em que bem gostava de estar em almoçaradas com amigos, mas não estou, lembro-me de algumas belas refeições que tive. Mas também de outras que não pude ter.

Quando passei três sinistros meses no Curso de Oficiais Milicianos em Mafra, nos tempos da “outra senhora”, as refeições eram quase sempre péssimas, naquele espaço imenso do “refeitório dos frades”, dentro do convento. Cada pelotão tinha a sua mesa, onde, sob um chavascal de libertação de uma linguagem que não ia ao “exame prévio”, chegavam umas travessas metálicas, trazidas por uns “prontos” (nome dado aos soldados), para onde logo convergiam os apetites da maralha.

Lembro-me bem de que o Zé Maria Ribeiro da Cunha se queixava amargamente de que, nesses curtos mas longos meses, nunca conseguiu deitar ondente a um peito de frango, dada a rapidez glutona de alguns colegas, que já se sentavam estrategicamente onde sabiam, de ciência experiente, que iam assentar as vitualhas.

Mas, com esta conversa, quase me perdi. Não era sobre o que comíamos que eu queria falar. Era sobre o que não comíamos...

Antes do almoço, havia lugar a uma formatura. Relaxada, mas, mesmo assim, formatura. Era o momento em que nos chegavam as cartas da família e das namoradas (imagino que também dos namorados de alguns, mas essa não era uma conversa para esses tempos...). Aquilo durava aí uns dez minutos. Era então esse o período em que eu e o Carlos Seruya (não por caso, nos dias de hoje, ambos membros, por algum tempo não ativos, dos “trinta magníficos” da Academia Portuguesa de Gastronomia) levávamos à prática um jogo sádico, que irritava supinamente os restantes 28 membros do bando de verde escuro.

Ou eu ou o Carlos, aventávamos: “O que é que achas que vamos comer hoje?”. O outro respondia: “Disseram-me que é um bacalhau à Lagareiro. Mas, antes, vêm uns pasteis de massa tenra, com arroz de ervilhas. A sobremesa é que não agrada muito: é um pudim abade de Priscos, mas eles costumam não ter cuidado em dar-lhe o toque de toucinho necessário. É uma chatice! Um dia temos de dar uma palavra ao comandante de companhia” O pessoal do pelotão, que sabia que, minutos depois, ia afinal comer um rancho miserável, ficava furibundo com aquela nossa conversa e desatava a protestar: “Calem-se lá com essa conversa, p... Só abrem o apetite!” Mas nós insistíamos: “Pois a mim, o sargento de rancho garantiu-me que era um empadão de lebre. Antes, parece que são umas ameijoas à Bulhão Pato. Espero é que saibam pôr a dose certa de coentros! Mas, na sobremesa, eles não costumam fazer mal os papos de anjo, com um bom molho”. Por essa altura, já as ameaças à nossa integridade física surgiam de vários pontos da formatura, com o alferes Carvalho, que nos tinha sob tutela, a estranhar a nossa agitação.

Bons tempos? Bons tempos, uma ova! Se tivessem como perspetiva ir parar com os costados à guerra colonial, como aconteceu a muitos, não pensariam assim. Mas, se compararmos esse período com os dias cinzentos que atravessamos, com o vírus que pode surgir sabe-se lá onde, até eram uns tempos simpáticos!

Deixo aqui aqui um abraço amigo ao Carlos e ao Zé Maria, esperando que algum leitor, atento e amigo de ambos, lho transmita. Relembrando, aliás, que os três, com as “respetivas”, nos encontrámos há uns meses, com álcoois à medida, numa jantarada bem simpática nas Casas do Coro, em Marialva, para os lados de Foz Côa. É o que se leva desta vida, não é!

SEF

Nos dias que correm, o país dispensava bem um caso como este que envolve o SEF. 

Investigar tudo, com rigor e rapidez, divulgando rapidamente os resultados, daria confiança e garantiria a boa imagem internacional das fronteiras portuguesas e de uma instituição prestigiada como sempre foi o SEF

Rui Rio


Há pouco, Rui Rio deu uma entrevista à RTP. 

Em 2017, escrevi por aqui isto:

Numa postura de Estado que muito ajudou a formatar a sua imagem pública de rigor e seriedade, Rio nunca foi conduzido aos caminhos da política “politiqueira”, como a que, por exemplo, procurou explorar demagogicamente a tragédia dos incêndios. Por outro lado, foi sempre um defensor de pactos de regime, sobre grandes temáticas de interesse público, não favorecendo o confronto artificial com o outro lado do espetro político.

Em 2018, num artigo no JN, escrevi isto:

Rio deu, desde o primeiro momento, sinais de querer introduzir uma nova atitude no debate político: não fazer oposição só para mostrar que está contra o “outro lado”, criticar apenas quando tem razões para tal, apoiar quando entender que o adversário esteve certo, caminhar sempre que possível no sentido de compromissos de regime. Todos concordarão que esta atitude introduz uma clivagem clara no modo de estar dos líderes partidários portugueses - e não só no PSD.

Não me arrependo do que escrevi.

domingo, março 29, 2020

Restauração em tempo de crise


Em tempos normais, costumo deixar por aqui notas sobre restaurantes. Ora alguns restaurantes, felizmente, não fecharam e estão agora a fazer serviço de “take away”, enviando comida às casas.

Hoje, experimentei a Tasca da Esquina (919 837 255), de Vitor Sobral, um simpático espaço que existe em Campo de Ourique.

A comida que nos chegou estava excelente, a preço muito razoável.

Aqui fica a publicidade para quem a merece.

Patrick Davedjian


Há politicos que nos irritam. Há políticos cuja inteligência nos diverte. Patrick Devedjian, para mim, cumpriu sempre essas duas funções. Morreu hoje, de coronavírus, aos 75 anos.

Era uma figura que projetava alguma arrogância, como às vezes acontece a quem, como ele, era muito dotado. De ascendência arménia, como o apelido não traía, foi um dos “culpados” do reconhecimento parlamentar do genocídio turco na segunda década do seculo XX, que haveria de inquinar, ainda mais, as relações entre Paris e Ancara.

De extrema-direita da sua juventude, passou depois a liberal.

(Nada que, entre nós, não seja o pão nosso de cada dia. Alguns, aliás, dão ares de tentarem acumular ambas as vertentes - a primeira, porque lhes está na natureza, a segunda, porque está ou estava na moda).

Aderiu depois ao gaullismo, coisa comum na direita francesa, onde amor ao Estado se equivale, muitas vezes, ao da mais ortodoxa esquerda. Saiu mais tarde das bandas de Jacques Chirac para se juntar a Sarkozy. Não gostou que este abrisse o governo a algumas caras heterodoxas, como Kouchner e outros divertimentos. Foi nessa altura que proferiu uma das boutades por que ficou famoso: “Sou por um governo de abertura, inclusive aos sarkozistas...”.

Um dia, depois de ganhar uma eleição que todos esperavam que perdesse, cunhou esta pérola da ironia política, que deixo em francês, por ser assim mais saborosa: “Il y avait tellement de gens à mon enterrement que j’ai décidé de ne pas m’y rendre”. A frase ficou tão famosa que, estou certo, ele sabia que seria lembrada na hora da sua morte.

Um ror de livros!

Já fiz a promessa: só em casos muito excecionais, com o prévio aval de amigos leitores cujo critério muito preze, irei ler algum dos livros da avalanche que por certo ai virá, a partir do outono, com recordações ou ficções inspiradas nestes tempos de vírus. Vai ser uma praga!

A gravata de Paulo Tarso


Paulo Tarso Flecha de Lima foi um dos mais proeminentes diplomatas brasileiros. Membro do “staff” de Juscelino Kubitschek quando jovem, foi embaixador em postos como Londres, Washington e Roma, entre outros, bem como secretário-geral do Itamaraty. Foi sempre tido como um brilhante operador diplomático. A sua mulher, Lúcia, que teve cargos políticos de governo a nível de Brasília, viria a ser uma peça indispensável para o sucesso profissional do seu marido.

Atingido, nos anos finais da sua carreira, por uma doença que muito o limitou fisicamente, Paulo Tarso soube, com imensa coragem, enfrentar o infortúnio e, retirado das lides diplomáticas, viria a criar um gabinete de consultoria de investimentos.

Quando cheguei a Brasília, em 2005, uma das primeiras pessoas que fui visitar foi Paulo Tarso. Recordei-me de que, nos anos 90, quando ambos coincidimos em Londres, ele tinha sido de uma grande generosidade para com o então jovem conselheiro da embaixada de Portugal que eu era. O Paulo e a Lúcia acolheram-nos, por mais de uma vez, na residência brasileira em Londres, com imensa simpatia. Ambos tinham, à época, uma projeção muito rara no seio da vida político-social britânica, sendo Lúcia uma conhecida amiga íntima da princesa Diana.

Na visita que lhe fiz, no seu escritório empresarial em Brasília, Paulo Tarso, que desde há vários anos praticamente só se movia em cadeira de rodas, e com cuja família viríamos a ter um convívio regular nos nos quatro anos seguintes, notei que estava vestido impecavelmente, de fato (os brasileiros dizem “de terno”) e gravata.

Falou-me da vida que criara após a reforma, aconselhou-me a pensar na minha (eu estava então ainda a uma década de distância), recomendando-me que me mantivesse sempre atualizado face às grandes questões globais, que as fosse acompanhando, com leitura e boas fontes abertas de informação: “O conselho independente de um diplomata experiente, que tenha decantado bem aquilo por que passou ao longo da sua carreira, pode ser extremamente interessante para o setor privado, que tem necessidade de pensar a prazo e de ter quem o ajude a olhar o futuro. É o que eu faço aqui, com algum sucesso”. Nunca esqueci isto e segui exatamente o que me disse. Não me arrependi.

Mas não é sobre esse útil conselho de Paulo Tarso que hoje quero aqui falar. Foi sobre a gravata. Não posso jurar terem sido estas as suas palavras, mas a ideia era esta: “Quando se reformar, Francisco, não se deixe tomar pela preguiça na maneira de vestir. Quando em casa, não ande de pijama, roupão e chinelos. Nem vagueie pela rua em fato de treino, com ar falsamente desportivo. Esse é o primeiro passo para a decadência pessoal, mesmo que o não queiramos admitir. Faça a barba todos os dias, vista-se, mesmo que de modo informal, como se fosse encontrar com amigos ou eles o visitassem de repente. Como compreenderá, na minha situação física pessoal, bastante preso a esta cadeira de rodas, a tentação para o desmazelo é imensa. Luto contra ela a toda a hora. Faz parte da minha dignidade pôr terno e gravata sempre que posso”.

Nestes dias de confinamento, claro que não ponho gravata. Aliás, a gravata, neste caso, é apenas uma metáfora para significar o cuidado mínimo com a forma de vestir e de nos apresentarmps. Mas, confesso, sigo muito o espírito dos conselhos do Paulo Tarso Flecha de Lima, um amigo que admiro e estimo, agora com 87 anos. Já sem Lúcia, que se foi desta vida há uns anos, desejo-lhe o melhor, nestes tempos sombrios de um Brasil que tão bem soube sempre representar.

Tulipas, moinhos e cifrões


Como os últimos dias têm deixado evidente, os Países Baixos, em matéria de dinheiros, não brincam em serviço e, manifestamente, corre-lhes nas veias um sangue de cifrões. Sei o que é discutir questões financeiras com os colegas holandeses, aliás gente sempre muito bem preparada, altamente qualificada e que sabe como levar a água ao seu moinho - água e moinhos, como é sabido, não faltam na Holanda...

Algures no primeiro semestre de 1996, durante a presidência italiana da União Europeia, os quatro responsáveis governamentais pelos Assuntos Europeus que, simultaneamente, eram os negociadores-chefes dos seus países no trabalho de negociação do Tratado de Amesterdão, foram convidados pelo ministro francês Michel Barnier (um bom amigo, o principal negociador do Brexit e hoje infetado por coronavírus) para um jantar no esplendoroso Palazzo Farnese, onde está instalada a embaixada francesa em Roma. Era na véspera de uma reunião da Conferência intergovernamental para a discussão do novo tratado.

(Uma curiosidade: a França paga à Itália o equivalente a um franco antigo pelo aluguer do palácio romano Farnese e, em compensação, o Estado italiano "despende" o equivalente a uma lira, pela utilização, como embaixada em Paris, do deslumbrante Hôtel de la Rochefoucauld-Doudeauville, com a mais bela escadaria de mármore que alguma vez vi. Já ouvi franceses a dizerem que foi um "mau negócio", porque a lira se desvalorizou muito face ao franco...)

Além do anfitrião, o ministro francês para os Assuntos europeus, estiveram no jantar os secretários de Estado dos Assuntos europeus da Suécia e dos Países Baixos, respetivamente Gunnar Lund e Michiel Patijn, e eu próprio. Curiosamente, todos havíamos estado presentes nas reuniões do "grupo de reflexão" que, durante 1995, fez sugestões para a revisão do Tratado de Maastricht, o que havia criado entre nós uma forte relação pessoal. Lund viria, anos mais tarde, a coincidir comigo em Paris, sendo aí um dos meus melhores amigos no corpo diplomático.

O jantar, além de algum "small talk", era essencialmente de trabalho, pelo que cada um suscitou as prioridades do seu país para a discussão que então se iniciava. Para o que aqui nos interessa, gostava de dizer que, entre vários outros pontos, eu insisti bastante na necessidade de uma Carta da Cidadania Europeia, a ser apensa ao tratado, a fim de destacar o valor acrescentado que, para cada cidadão, a pertença à União representava, a somar à sua própria cidadania nacional. O meu colega holandês foi aquele que me pareceu, desde o início, o menos entusiasmado com a ideia.

Acabado o jantar, eu e ele regressámos ao hotel onde, casualmente, ambos nos alojávamos, perto da Piazza Navone - o Raphael, coberto de exótica vegetação. Era uma bela noite romana e, na esplanada, tomámos uma cerveja. Porque queria, no dia seguinte, lançar a ideia na reunião formal, e pretendia evitar que ele fosse dos opositores mais vocais, voltei a tentar convencê-lo, na conversa a dois, da bondade da minha ideia sobre a Carta de Cidadania. (“For the record”, a Carta não seria aprovada nessa altura, mas, anos mais tarde, foi possível consagrar uma Carta dos Direitos Fundamentais, o que acabou por ser um salto em frente face à limitada ambição da minha anterior proposta).

Michiel Patijn era um homem muito sorridente, com uma cordialidade que encontrei em muitos outros holandeses. E existia entre nós uma forte empatia pessoal. Mas também era sempre muito frontal - uma caraterística diplomática que tem a vantagem da clareza e a desvantagem da inflexibilidade. Não lhe interessava a “minha” Carta. Ponto. Sintetizou-me então, numa frase curta, as "prioridades" do seu país para o novo tratado: "Francisco, tens de compreender: para nós, a Europa significa dinheiro!" Não podia ser mais esclarecedor. (Mais tarde, durante as longas negociações da Agenda 2000, tidas entre 1997 e 1999, fixando o quadro financeiro plurianual da União para os sete anos seguintes, tive bastas provas dessa “fixação” holandesa)

Michiel Patijn tinha um irmão, Schelto, que foi presidente da municipalidade de Amesterdão. Foi ele quem um dia convidou António Guterres a visitar a importante Sinagoga portuguesa de Amesterdão, um edifício que simboliza o refúgio naquelas terras dos muito judeus fugidos às perseguições de que foram alvo em Portugal, em especial no século XVI. Nessa visita, em que acompanhei o então primeiro-ministro português, referi-lhe a amizade que tinha com o seu irmão: “Somos o oposto nas ideias políticas: ele é de direita, eu sou socialista. Mas damo-nos muito bem!” Imagino que não divergissem quanto ao dinheiro, algo que une os holandeses, talvez mais do que qualquer outra coisa.

Os Países Baixos são hoje dos maiores “ganhadores” do processo integrador. Com a unidade europeia, ganharam a paz, um lugar geopolítico privilegiado no continente, uma ancoragem à Aliança Atlântica que lhes trouxe sempre vantagens (com o Reino Unido e Portugal, os Países Baixos foram, durante muitos anos, dos mais fiéis defensores da relação transatlântica), as suas empresas têm sabido aproveitar como poucas o mercado interno europeu e as oportunidades abertas pela globalização, o porto do Roterdão é o principal canal de acesso comercial da União e, “last but not least”, têm um regime de imposto muito atrativo para empresas estrangeiras a quem os acionistas reclamam o máximo de “otimização fiscal”, somado a um leque de acordos, ímpar na Europa, para a eliminação da dupla tributação, o que o torna no “paraíso” para fixar empresas que queiram investir em países terceiros. Ah! E vão ser, com a Alemanha, dos principais beneficiários do Brexit! 

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...