sexta-feira, outubro 18, 2024

O telefone preto


À minha casa, em Vila Real, na longínqua noite em que a então recém-criada RTP editou o seu primeiro Telejornal, faz hoje precisamente 65 anos, não chegava ainda o "sinal" da RTP. Nem sequer tínhamos aparelho de televisão, claro!

Demoraria uns bons anos até que a "antena do Marão" viesse a ser instalada e uma imagem a-preto-e-branco, cheia de grão, acompanhada de um som fanhoso, um dia trouxesse, para nosso júbilo, esse admirável mundo novo que era emitido a partir de Lisboa. 

Ao tempo, o noticiário que sempre era escutado com alguma atenção, lá por casa, muito antes do Telejornal poder ser visto, e que, depois, coexistiu com este, era o da velha Emissora Nacional, entidade que, nos dias de hoje, se chama RDP e que faz parte da empresa RTP.

A RTP, quando foi criada, e por muitos anos, chamou-se "Radiotelevisão Portuguesa". Hoje, é designada "Rádio e Televisão de Portugal", para quem possa ainda não ter notado. É que, além dos seus vários canais de televisão, tem inúmeros canais de rádio. 

(Já agora: conhece algum canal de rádio, além da Antena 2 da RDP/RTP, que, em Portugal, transmita música clássica? Pense nisto! E aproveite para refletir sobre a ideia governamental de retirar a publicidade ao canal 1 da RTP, tornando a empresa dependente da boa vontade financeira dos governos.)

Hoje de manhã, a propósito de um assunto que não vem aqui para o caso, fui convidado para uma conversa num desses canais de rádio. E foi então que me dei conta de que a casa estava a preparar os festejos dos 65 anos do seu Telejornal. 

À senhora das relações públicas, que me recebeu à porta da RTP, eu disse uma frase enigmática: "Espero que não se esqueçam do telefone preto!" Ela, claro, não podia perceber que eu me referia a um aparelho que, por muitos anos, figurou sobre a mesa, ao lado dos locutores (muitos não eram então jornalistas, mas simples debitadores de textos preparados por outros) que liam as notícias, nesse tempo em que o teleponto ainda não existia (já agora: começou a ser usado nas "Conversas em Família" de Marcelo Caetano, no final dos anos 60).

Para que seria o telefone na mesa, muita gente se interrogaria, tanto mais que visivelmente nunca era utilizado? Supostamente, seria para dar notícias de última hora. Que me recorde, só por uma vez assisti a um desses "grandes momentos", com o telefone a tocar, o país em "suspense" e o locutor a tomar curta nota de uma notícia "grave", que nos transmitiu de seguida. Gabo-me de ter boa memória, mas não me lembro qual teria sido o assunto.

A comemoração de hoje creio que terá esquecido o tal telefone (que julgo existir no Museu da RTP, uma exposição que, infelizmente, não é muito acessível ao público em geral). Deixo-o aqui à vista, numa imagem de Gomes Ferreira (não, não é esse homónimo em quem estão a pensar!) e de uma outra onde figuram Fialho Gouveia e Fernando Balsinha. Esta última fotografia tem (para mim) a curiosidade especial de eu estar, nesse mesmo instante, fardado, por detrás da câmara, nessa ocasião em que a minha unidade militar ocupou a RTP, num certo dia de Abril de 1974.

Parabéns, RTP, pelos 65 anos do seu Telejornal!




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