quarta-feira, 6 de março de 2019

Não como com hashi!


Sou muito pouco dado a comidas “étnicas”. Embora tenha andado um pouco pelo mundo, e tenha vivido ou frequentado algumas cidades (Londres, Nova Iorque, Paris, São Paulo) onde essa diversidade culinária estava muito bem representada, nunca fui um consumidor regular desses sabores. Estranho? Talvez, mas cada um é como é, não é?

Sou também de um tempo em que, por cá, os únicos restaurantes ”estrangeiros” existentes eram os indianos, na altura sem a sofisticação das suas várias declinações regionais - e uma certa Índia ainda era então “portuguesa”, não era? 

Creio que só depois é que abriram uns italianos (destes, as pizzarias foram as últimas, ainda nos anos 70), mais tarde uns auto-proclamados franceses, mas a proximidade de paladar destes com certa cozinha portuguesa faz com que não caibam, em definitivo, no meu conceito de “estrangeiro”, como é também o caso das diversas cozinhas espanholas.

Um pouco mais tarde vieram os chineses e, mais tarde, os japoneses. E, claro, passou também a haver mexicanos e gregos, brasileiros e marroquinos, russos e argentinos, peruanos e libaneses, tibetanos e belgas e moçambicanos, e agora também sírios e paquistaneses, e apenas dos que me lembro.

Serve isto para dizer que, desde o primeiro instante, me recusei a utilizar os “hashi”, os “pauzinhos” com que é suposto manifestarmos a nossa familiaridade com a forma asiática de comer. Admito que haja quem goste do ritual mas, por mim, achei sempre aquilo uma espécie de folclore a que nunca me sujeitei.

Por essa razão, quando confrontado com culinária asiática (e raramente o sou, pelo menos por minha iniciativa, note-se), ou mesmo “de fusão”, num qualquer restaurante, português ou estrangeiro, exijo sempre faca e garfo. Enfrento por essa razão, com toda a naturalidade, os olhares de reprovação que acompanham essa minha deliberada falta de adequação às regras do local. 

Porque refiro agora isto? Porque essa experiência sucedeu-me há muito pouco tempo e vi, comigo entre o divertido e o provocatório, o olhar espantado que as pessoas me dedicavam. E, apenas por isso, tive agora vontade de o escrever. OK?

17 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

E portanto, andei por là algumas dezenas de anos e nunca consegui habituar-me, mesmo quando o arroz era mais denso...Decoram muito bem as estantes quando sao de qualidade e bem lacados ...

Luis Filipe Gomes disse...

Eu aprendi a comer com o garfo na direita e o pedaço de pão na mão esquerda tudo o que não fosse passível de comer à colher ou à mão. O mal da comida asiática é fornecerem as hastes de bambu para comer em pratos rasos. É uma comida que é preparada para comer sem necessidade de faca e geralmente traz algum tipo de caldo ou molho que no final só de uma malga se pode sorver. Um português transmontano, ou seja lá de onde for já tem na sua alimentação tradicional, o mundo inteiro: desde o tipo de alimentos, a maneira de os preparar e conservar, e a maneira de os consumir. Não vale a pena falar dos cuscus transmontanos, ou dos têmperos dos fumeiros, ou do bacalhau. Se falarmos em doçaria nada espantará mais um europeu que um pastel de feijão, para eles feijão e doce não ligam bem, e no entanto um japonês sabe do que estamos a falar. Gosto da comida do mundo, como gosto da música folclórica do mundo. Uso os paus de bambu cá em casa quando, por exemplo, frito peixe. O seu efeito de pinça é muito eficaz para escorrer o óleo do frito sem molestar a crosta da fritura.
Agora nos restaurantes ficam a olhar para mim é quando eu uso a colher para comer. Suspendem o seu tricotar de faca e garfo e olham boquiabertos arriscando a que as ervilhas que longamente tocaram para o garfo lhes rebolem da boca e divirto-me.
No entanto uma coisa eu acho difícil comer arroz com as mãos, à maneira africana, sem untar a roupa nem projectar bagos para o lado dos parceiros que partilham a salva.

Luís Lavoura disse...

Faz o Francisco muito bem em não usar pauzinhos, que na generalidade são objetos de usar e deitar fora. Não poucas florestas têm sido dizimadas para as transformar em pauzinhos.

Manuel disse...

eu não gosto de beber um bom vinho em copos de plástico.

Anónimo disse...

Caro Francisco,

Comida ocidental, gosto de quase toda. Da América latina, só da brasileira. Médio Oriente e Maghreb nem pensar. Em África, só a moamba. Na Ásia, gosto muito da indiana e da tailandesa. E fico por aqui.

Um abraço

JPGarcia

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Também não faço a menoríssima do que seja usar tais artefactos, aliás também não sou muito dado a determinados exotismos gastronómicos.
Mas deve ser de rir ver o pessoal armado ao pingarelho com um ar muito chocado por se usar faca e garfo em vez dos pauzinhos.

Luís Lavoura disse...

Luís Filipe Gomes,
esparguete não é fácil de comer só com colher, nem à mão, nem com garfo numa mão e pedaço de pão na outra. Esparguete come-se bem com garfo na mão direita e colher na esquerda. É uma exceção à sua regra...

Luís Lavoura disse...

O Francisco não come com pauzinhos, come de faca e garfo. Mas se estivesse na mesa de uns americanos, veria que eles comem de forma ainda mais prática, somente com o garfo. Quando chegam à mesa usam a faca para cortar a carne toda em pedacinhos, depois pousam a faca, apoiam-se no braço esquerdo como os lavradores, e comem somente com o garfo na mão direita.
De onde se conclui que, tal como o Francisco considera aqueles que comem com pauzinhos uns pedantes, também um americano pode ter a liberdade de considerar o Francisco um pedante.

Anónimo disse...

Caro JP Garcia,
A “comida ocidental” é a comida originária daquela região que fica entre a região dos Urais até ao Cabo da Roca? Isto não é preciosismo ou mania de embirrar, é que não sei mesmo. O que é a cabeça da xara tem a ver com o salmão fumado com mostarda que se come na Noruega? Um dia destes,tenho de convidar os amigos para um prato de "comida ocidental" para os deixar confusos ;)

Anónimo disse...

Comida étnica é um conceito de marketing, sem grande utilidade. Toda a comida é étnica. Cada país e região tem as suas particularidades. Por exemplo, os canadianos são grandes produtores de lampreia. Agora, tentem lá que um canadiano coma lampreia… vão olhar para nós como quem olha para um vietnamita comedor de cobra.
Bem… há uma comida que não é étnica: os hambúrgueres.

Anónimo disse...

Ao anónimo das 18,09
Desculpe contrariá-lo mas o esparguete come-se unicamente com o garfo , enrolando com os dentes do garfo e só depois vai á boca ... Usar colher ? Isso só em Portugal e por quem não conhece as regras da comida italiana . Assim como não se deve nunca cortar o esparguete aos bocados com a faca ...
E a propósito dos americanos felizmente que há muitos que não colocam o cotovelo em cima da mesa .
E quem come o arroz com as mãos são os indianos .
E a propósito dos pausinhos para a comida oriental , que mal tem usá-los se a pessoa se sente confortável a usá-los ? Não vejo onde está o pedantismo ...

Anónimo disse...

luís lavoura, vá para Itália comer esparguete com garfo e colher, e verá a figura que faz.

rui

Luis Filipe Gomes disse...

Pedindo licença ao anfitrião do espaço para uma conversa que poderia ser longa; direi ao Luís Lavoura que em Portugal o esparguete se come com a colher. Um italiano com ironia dizia-me precisamente isso, por não deixarmos o esparguete "al dente" no ponto de cozimento em que eles o deixam e que para nós é sinónimo de "ainda está cru". Em Portugal o esparguete quebra-se antes de se colocar na panela. O verdadeiro "esparguete" português chama-se aletria e é um doce de comer com a colher. Os italianos que julgamos criadores de todas as apresentações de formatos de massa chamam-lhe "vermicelle" o que não abona em favor do prato ou de quem o come. Há uma teoria de que a aletria é herança da permanência muçulmana como os cuscus, mas é na China que se encontra a maneira de a preparar como nós fazemos com ovos e com açúcar. Para mim, para a minha intuição e ignorância, todo o alimento ao qual foram contra-intuitivamente adicionados ovos e açúcar em quantidade generosa indiciam um certo carácter português conventual. Por isso mesmo na China parece que é tolerado que a adição de açúcar e ovos poderá eventualmente ter sido contribuição portuguesa. Para terminar Luís Lavoura comer esparguete com a colher na mão esquerda, aos olhos de um italiano é no mínimo sinónimo de barbárie anglicana. O esparguete lá é para ser comido com a forquilha. Luís Lavoura receba um abraço.
Obrigado Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa.

Anónimo disse...

toa a comida japonesa e chinesa são preparadas para a utilização do hashi, pedaços sempre pequenos e bem costados para facilitar a utilização do hashi. Essa palavra serve para designar duas coisas pronunciada "Háshi", são os "pauzinhos" e "hashí" é ponte. Ir no restaurante japonês e comer de faca e garfo, é como tomar champanhe em copo de papel.

Anónimo disse...

Bem, a mim não me preocupa absolutamente nada a opinião que os italianos têm sobre a forma como os outros comem esparguete. Era o que faltava um italiano chamar-me a atenção sobre isso. Mas comer com colher?... Como é isso? Eu sempre me consegui alimentar a esparguete com garfo e faca.

Anónimo disse...

Anónimo das 08,51 ( Rui )
Bravo , é isso mesmo .

Anónimo disse...



Olhe, Senhor Embaixador, que cada um coma da maneira que lhe saiba melhor, certo?

Comer um bom funge com a mão é uma delícia. Ai que nojo! dirão alguns ... Pois parece, mas o funge é meu e a mão também ... lololol ... e vamos lá confessar: gostava o Senhor de um bom funge angolano, ou não? Hmmmmmm com um jindungo dos bons ...

E ali acima apareceu alguém preocupado com a devastação das florestas para o fazimento dos tais pauzinhos .... os ditos hoje já são de plástico lololol ...