segunda-feira, dezembro 03, 2012

Fortes



- Os portugueses chegaram aqui e construíram este forte, depois de terem circundado toda a África. Não é fantástico!

A expressão, de um responsável governamental do Oman, frente à fortaleza de Al-Jalali, o antigo forte de S. João, em Mascate, foi dita perante umas dezenas de pessoas, que logo me olharam, como se acaso os meus antepassados, de lá de Trás-os-Montes ou do Minho, pudessem reivindicar parte dessa glória. E eu, por tabela, como herdeiro natural das viagens que outros fizeram por nós.

- Pois na minha terra, no Benin, também construíram uma bela fortaleza, em Ouidah, disse uma voz, atrás de mim. Sorri silencioso, a lembrar-me do gesto estúpido do funcionário português que, em 1961, na iminência da sua expulsão de S. João Batista de Ajudá, deitou fogo a tudo, inclusivamente ao carro oficial, cuja carcaça hoje faz parte do museu no local.

A tanzaniana logo comentou: "Também construíram bastantes meu país", para logo o iraniano lançar: "há belos vestígios de Portugal na nossa costa", lembrando Ormuz.

Olhei em volta. O meu amigo do Qatar, que me fala sempre de ter nascido junto a um forte português, estava longe, ninguém do Bahrein andava por ali para lembrar o que também ficou por lá, a minha colega queniana não veio na viagem para lembrar Mombaça. Também não havia nenhum marroquino para citar a imponente Mazagão ou Safi, nem ninguém da Malásia para recordar Malaca, ou do Gana para recordar São Jorge da Mina. E, muito menos, algum indiano para citar o belo forte de Diu e o muito que aí ficou. Dos "Palop" não estava ninguém no grupo para inventariar a arquitetura militar portuguesa remanescente (do Cachéu a Luanda, da ilha de Moçambique ao forte de São Sebastião, em S. Tomé).

Naquele instante, tive pena de não ter, à minha volta, mais vozes internacionais para ajudar ao coro de glória histórica. Até que uma brasileira, casada com um europeu, adiantou: "E então no Brasil!? Conhecem as fortalezas portuguesas no Brasil? São fabulosas!". Mas nem ela se podia gabar de, como eu, de ter visitado a grande maioria delas - a começar por essa maravilha de dificílimo acesso que é o forte Principe da Beira, bem junto à fronteira com a Bolívia.

Isto passou-se ontem, numa viagem da UNESCO ao Golfo, a que me associei, no gozo das minhas últimas férias como embaixador.

O tempo das fortalezas militares já lá vai. Mas Portugal deixou, por aí, um prestigiante mar desses monumentos, marcos de um tempo histórico em que dava algumas cartas. E alguns tiros, porque o poder também se faz disso. E hoje, graças a essa herança, se há ainda coisa em que, pelo mundo, somos fortes é em fortes...

19 comentários:

  1. Anónimo00:14

    Já para não falar da Forteleza de São Julião da Barra, palco de muitas ilustres páginas da nossa história e de outras vergonhosas (como aquele que se vendeu a uma potência estrangeira por 4 mil cruzados - General Tristão da Veiga, a condenação à morte de Gomes Freire, pela função de cárcere de presos políticos, etc).


    PS. Lindíssima a fotografia.

    N371111

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  2. Anónimo08:10

    Até quando podemos viajar pelo estrangeiro nos encontramos perante um passado de Fortes, que nos atira à cara a nossa pequenez de hoje.
    José Barros

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  3. bonito, mas diferente no estilo este forte sem arestas nem formas poligonais ou estreladas, com corpo longitudinal e torreões redondos.
    quanto teria o não rico reino gasto com esta numerosa linha de fortes, desde lisboa a cascais, berlengas, madeira, açores, norte de africa, guiné, e por aí adiante, para a esquerda, direita, para baixo? a pimenta da india e o ouro e prata do brasil e os escravos de africa dariam?
    talvez comecem por aí os nossos problemas, piorados pela inquisição e outras formas de opressão e desgaste que entretanto sofremos e não deixaram diversificar a nossa economia e bom desenvolvimento. esgotamo-nos muito numa empresa para a qual tinhamos poucos recursos humanos e economicos? teorias pessoais empiricas, não li muito os historiadores.
    pessoalmente, à arquitectura militar que seguia os estilos francês e italiano, prefiro a arquitectura civil e religiosa, muito mais reveladoras duma identidade no urbanismo e nos edificios que se podem ver em cabo verde, brasil, goa, olivença, etc.
    mas nos fortes sentimos a nossa presença, expansão, colonialismo, e muitos são perfeitas construções com a beleza própria do que é militar.
    o forte de s baptista de ajudá sempre me pareceu um fossil da história da nossa expansão, essa fortaleza cuidada por uma familia de caseiros!
    bem, boas férias e muitas fotografias desses interessantes testemunhos portugueses.

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  4. Anónimo11:21

    Patrioteira que só ela e muito orgulhosa do passado
    ('viva portugal!')
    mas revoltada e transtornada com o presente
    ('porra de animal!
    que fiz eu de mal?),
    a velha senhora ditou-me, entre copos e palavrões:

    nós fortes em fortes
    entregues a fracos
    falhamos as sortes
    sofremos os cortes
    viramos cavacos

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  5. Anónimo12:17

    Não somos a Grécia!.

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  6. Anónimo12:50

    Estive um dia em s.Jorge da Mina (Elmina) no meio de turistas ingleses e holandeses. Ouvi com imensa atenção as explicações do guia nada abonatórias para os meus companheiros e muito elogiosas para os portugueses e não sei explicar aqui o sentimento absolutamente patriótico com que, no final , levantei o dedo e disse: eu sou português!
    João Vieira

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  7. Brava Dança dos Heróis
    Heróis do Mar

    Oh Grande tribo, nasces do cio
    De bélicas Deusas à beira rio
    Brava Dança dos Heróis
    Sagras a vida quando guerreias
    À luz macia das luas cheias
    Brava Dança dos Heróis

    Dos fracos não reza a história
    Cantemos alta nossa vitória (2x)

    Corpos caídos na selva ardente
    A terra fértil do sangue quente
    Brava Dança dos Heróis
    Dos feitos a glória há de perdurar
    Mesmo se a morte nos apagar
    Brava Dança dos Heróis

    Dos fracos não reza a história
    Cantemos alta nossa vitória (2x)

    Dos fracos não reza a história
    Cantemos alta nossa vitória...

    _____________________________________________

    Ou será...Dos Fortes reza a História
    Cantemos alto nossa memória ?

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  8. Anónimo16:02

    Inspirado e certeiro,este anónimo das
    as 12,21h

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  9. Anónimo16:19

    A presença portuguesa na Península Arábica ainda hoje é muitíssimo visivel: o cemitério português em Jeddah e o forte português de Al-Quatif (Arábia Saudia), o forte português do Barén e por aí fora (não vale a pena enumerar porque a lista é enorme).

    Nos dois anos em que tive a sorte de lá morar há duas coisas que não me esqueço:

    1. De ter encontrado canhões portugueses em fortes em pleno deserto.

    2. De as tribos de Musandam (enclave do Omã cercado pelos EAU), e das tribos de Ras Al-Kaimah torcerem pela selecção portuguesa por se considerarem ainda portugueses: por sangue e pelo seu dialecto que tem influência portuguesa.

    OMI

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  10. Magnifica foto. Boas férias!

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  11. Magnifica foto. Boas férias!

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  12. Senhor Embaixador
    Belo post. Gostei das fortalezas que deixámos mas detesto as que hoje nos faltam...

    Cara Velha Senhora
    É o viras...

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  13. Anónimo20:40

    Pois é... os fortes. Parece que as pedras com que eram construidos íam de Portugal já preparadas e faziam de lastro aos navios. Muito interessante e engenhoso. Mas.... eu não sei

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  14. Sr.Embaixador
    um texto com localização geográfica e temporal, útil sem dúvida porque cada vez segundo oiço dizer, há menos aulas de história e geografia
    assim será de pensar que em breve as grandes obras do passado serão essencialmente explicadas pela intervenção do extraterrestres ou mais da moda "alliens"

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  15. Ó Júlia que forte...
    "Ou será...Dos Fortes reza a História
    Cantemos alto nossa memória ?"JMV

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  16. Acabaram de me mostrar a fortaleza de Aguada. O farol é incrivel! Claro que de construcção bem mais tardia do que as que o Sr Embaixador aqui fala.
    Faz neste texto um belo roteiro de viagens a fazer!
    Acho que vou começar por Malaca.
    Um tio meu escreveu um livro chamado O bairro português de Malaca e sempre tive vontade de
    lá ir.

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  17. "Somos fortes é em fortes..." In FSC

    Quando a força da equidade da cidadania e do direito à opção pela identidade for o forte, aí seremos fortes...

    Quando a força do dar vida aos anos com Paz pão educação instrução habitação e saúde como direiros e deveres inalienáveis e valores a manter instituidos, mesmo que seja necessário, como diz o poeta, uma Revolução Constante,aí seremos fortes...

    Passe a beleza arquitetónica dos fortes em que somos fortes subjazem a necessidade premente de defesa...

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  18. Anónimo22:30

    E do outro lado do estreito com o mesmo nome temos Ormuz, uma obra incrivel de Afonso de Albuquerque!e Etambem temos a torre de Arzila onde d.Sebastiao passou a ultima noite antes da batalha final, e o Forte de S.Jose em Macapa, onde se cruzam exatamente as linhas do tratado de Tordesilhas e do Equador.E Colonia de Sacramento no Uruguai, talvez o mais bem conservado monumento portugues no estrangeiro.E o Portuguese Settlement de ayutthaya no antigo Siao! e o forte de Solor mesmo antes de Timor, onde fizeram feriado municipal quando os primeiros portuguese la foram em 2000 , depois da paz com a Indonesia. e tantos outros!

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  19. Anónimo00:34

    Boa noite
    "Dos Fortes Reza a História" é o título de um livro meu sobre o sistema de fortificações militares de Castro Marim e que foi editado pela "Gente Singular" dirigida pelo Prof. Dr. Rosa Mendes da Universidade do Algarve. Contem diversas representações planimétricas da vila e seus arredores e respectivas fortificações, algumas de grande beleza e precisão (Séc. XVIII e XIX).
    Cumprimentos
    António José Pereira da Costa

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