domingo, 16 de dezembro de 2012

Uma América

É uma ingenuidade pensar que uma tragédia como a que agora ocorreu nos Estados Unidos pode desencadear uma onda eficaz para a limitação do acesso às armas de fogo naquele país. E que, se acaso fosse possível (e não é), isso resolveria alguma coisa de essencial.

Os europeus têm de entender, de uma vez por todas, que a América não é uma espécie de Europa apenas um pouco "diferente". Os Estados Unidos são um país com uma matriz fundacional própria, o que lhes induz uma cultura mental e comportamental de uma outra natureza, com uma leitura da liberdade individual muito diversa da que prevalece deste lado do Atlântico.

A América é um mundo à parte, ou melhor, são muitos mundos à parte, alguns que rejeitamos profundamente, outros que muito nos seduzem. A América que persiste na pena de morte é a mesma América que elegeu um presidente negro, num país onde, até há escassas décadas, a segregação racial era lei. E, por muito que a América nos faça partilhar os custos de alguns dos erros estratégicos que pratica pelo mundo, essa é a mesma América que, nas praias da Normandia, morreu pela liberdade da Europa - a qual, claro, era também do seu interesse.  

Apesar de tudo, quando nós, europeus, olhamos em volta, somos obrigados a convir que a América continua a ser o melhor aliado que temos para a defesa de alguns - mas não de todos - dos valores que assumimos por essenciais. Embora isso não obste, claro, a que cada um de nós, no velho continente, acabe por ter o seu diferente "amigo americano".