11.12.12

Clubes parisienses

Contrariamente a Londres, onde a cultura dos clubes subsiste de há muito e se reproduziu até ao exagero, a vida parisiense tem escassos, embora belíssimos, locais desse género, usualmente muito frequentados por homens, mas com as senhoras a terem em alguns deles uma presença crescente.

Antes de chegar a Paris, foi-me recomendado vivamente, por vários amigos, que me inscrevesse no "Cercle de l'Union Interallié", um comodíssimo clube na rue du Faubourg St. Honoré, junto ao palácio do Eliseu, com um jardim magnífico, bela piscina e restaurantes de grande qualidade, onde é muito prático convidar para almoçar ou para jantar no verão. É um clube muito popular entre os embaixadores, cujo acesso ao vizinho "Nouveau Cercle de l'Union" já é mais complexo, mas que acabei por visitar nas reuniões do júri do "Prix des Ambassadeurs".

Poucos meses após a minha chegada, recebi um convite de pessoa amiga para me tornar sócio do "Travellers", clube irmão do seu homónimo britânico, de que já aqui falei. O "Travellers" parisiense fica no nº 25 dos Champs Elysées, no famoso "hôtel Paiva", um prédio com ligações a Portugal, também por muitos crerem que foi nele que Eça se inspirou para "desenhar" o mítico "202", que nos descreveu em "A cidade e as serras". Com os tempos, fui recebendo convites para me tornar associado do "Jockey Club", do "Automobile Club" e do "Polo de Paris". Confesso que nunca ninguém me sondou para o exclusivo "Le Siècle". Os embaixadores estrangeiros, de passagem por Paris, são "peças" sociais que têm alguma facilidade em terem acesso temporário a esses locais exclusivos. Alguns, mais deslumbrados, confundem isto com uma espécie de eterno "upgrading social", não se dando conta do caráter efémero desta sua "valorização", coitados!

Mas, enfim, a verdade é que esses clubes existem, são locais muito agradáveis e passar por eles, uma vez por outra, acaba por constituir uma experiência interessante, até sob o ponto de vista da sociologia de uma certa sociedade parisiense. Embora, diga-se, mais para quem quer alimentar relações pessoais, com maior ou menor impacto em negócios. Embora, para os diplomatas, os clubes acabem por se tornar locais confortavelmente "neutros", onde, num almoço ou num fim-de-tarde, se podem fazer "démarches" discretas ou sondagens com maior confidência, que seria menos prudente executar nos endereços das missões diplomáticas.

Falo disto com o à-vontade de quem tomou a decisão, desde a chegada a Paris, de, não vir a ser sócio de nenhum clube. Não por qualquer preconceito - vou sempre a esses locais, como convidado, com imenso gosto -, mas, muito simplesmente, porque nunca tive vida que me permitisse alimentar uma relação custo-benefício minimamente aceitável que justificasse o "investimento" nas jóias e cotas respetivas. Aliás, interrogo-me sempre quando ouço colegas gabarem-me as maravilhas do uso regular da piscina do "Cercle" ou os fins-de-tarde com uma bebida a acompanhar uma conversa no "Travellers" ou no "Automobile", na varanda sobre a place de la Concorde. No que me toca, nunca tive tempo para isso, aqui em Paris: em quase 90% dos meus dias (e não exagero!) saio do trabalho ao bater das "badaladas" das oito e meia da tarde! Mas deve ser defeito meu!

Porque falo disto hoje? Porque, a convite de um querido amigo e sem nenhuma agenda, fui ontem almoçar (e bem!) ao "Jockey Club". Em Lisboa, prometo retribuir-lhe com a gastronomia simples, mas bem portuguesa, do nosso Círculo Eça de Queiroz, o único clube do género de que, nos dias de hoje, me permito ser sócio.

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