"A diplomacia de Salazar (1932-1949)" é um excelente trabalho de investigação feito pelo meu colega Bernardo Futscher Pereira, recentemente editado pela Dom Quixote.
O livro é redigido num estilo fluente e de muito agradável leitura, sem recurso a academismos pesados ou a um "oficialês" em que muitos de nós, diplomatas, por vezes incorremos. Quase diria que estamos perante uma escrita tributária de uma boa escola jornalística, fruto da passagem do autor por essa área, quando, de Nova Iorque, escrevia para o há muito desaparecido "O Jornal", ao tempo que o seu pai - um dos mais brilhantes nomes da nossa diplomacia - representou Portugal junto das Nações Unidas.
Este trabalho ajuda-nos a entender melhor o processo decisório de Salazar, no seio da tormenta política internacional dos anos 30 e 40 do século passado, ao tempo em que tinha como rede de trabalho um conjunto de excelentes profissionais da diplomacia, uns "de carreira" outros de origem política, que serviam a estratégia de um país que então procurava furar por entre as pingas dos conflitos europeus, da Guerra Civil de Espanha à Segunda Guerra mundial. Mas, mais do que isso, este é um livro que nos revela, de forma viva e fundamentada, as tensões dentro do regime, os seus conflitos de personalidades e de vaidades, num tempo ainda de maturação da ditadura.
Para quem se interessa pela prática diplomática, não deixa de ser interessante apreciar a condução do jogo tático a que o ditador se dedicava, na sua quase solidão de S. Bento. A gestão política dos regimes autoritários tem a "vantagem" de não ter necessidade
de viver sob o "peso" do escrutínio democrático, de poder ter à mão arbitrária a polícia política e a
repressão, como instrumentos que pode utilizar, de certo modo a seu
bel-prazer. Salazar orientava o país no plano externo, notoriamente preocupado em
preservá-lo dos efeitos dos conflitos, mas igualmente cuidando em salvar
o seu regime dos "riscos" de uma contaminação democrática que podia colocar em causa o seu próprio poder.
Não faço parte de quantos, nomeadamente nos corredores das Necessidades, sempre santificaram a habilidade do ditador, embora, como profissional, não deixe de apreciar o desenho tático da sua estratégia diplomática. Talvez isso aconteça porque herdei histórias de quem ouviu os fusilamentos matinais dos "rojos" espanhóis nos muros de Tui, devolvidos pela polícia portuguesa às forças franquistas, ou porque conheço o suficiente da tragédia pessoal de Aristides de Souza Mendes, sacrificado ao cinismo da realpolitik, a qual, pelos vistos, se sobrepunha à ética de um país que se pretendia dirigido pela moral cristã.
Como técnico da diplomacia, é-me muito interessante analisar os expedientes a que Salazar recorreu para fugir aos conflitos peninsular e mundial, mas, nem por um segundo, deixo de pensar que isso foi feito tendo como pano de fundo, por décadas, um regime sinistro. A diplomacia não é uma prática neutral, não está desligada dos princípios em que se apoia, e, em especial, não pode constituir-se numa mera lógica de fins.
