Por aqui, os jornais trazem, nos últimos dias, citações de frases que, no passado, foram pronunciadas, por responsáveis políticos franceses, por ocasião de encontros franco-argelinos. São expressões que, no respetivo contexto histórico,
pretenderam ter um significado próprio, por assinalarem uma linha política que era desejado destacar. E, de facto, juntar hoje essas citações ajuda a perceber melhor o esforço que, em cada época, foi feito para tentar melhorar as relações da França com a sua ex-colónia magrebina.
A profissão ensina-nos, contudo, a ter alguma prudência quando observamos o débito de um discurso político. É importante que se saiba que, a um certo nível elevado de responsabilidades, raro é o político que escreve os seus próprios discursos - ou porque não tem tempo ou porque não tem jeito ou por qualquer outra razão. A maioria dessas prestações públicas ou são colagens de contribuições diversas ou assentam no trabalho de um "ghost writer" ou, o que é mais comum, resultam da combinação de ambas as coisas. É claro que também há alguns raros políticos que, perante um projeto que lhes é apresentado, "trabalham" os textos, os reescrevem, em especial para certas ocasiões tidas por importantes. Mas já fui testemunha de figuras políticas a pronunciarem, sem alterarem uma vírgula, discursos preparados por outros. Algumas vezes sem sequer se darem ao trabalho de os lerem antes...
Não é este o caso dos "grandes" discursos, claro. Mas, mesmo nestes, no tocante às "grandes frases" que se pretendem deixar para a História, eu recomendaria a quem as ouve que relativize sempre a genuinidade da sua real paternidade. Porquê? Porque a história política prova que grande parte das citações que fixaram um lugar no imaginário público foram, de facto, escritas por outra pessoa que não o político que as pronunciou, isto é, são obra de um "ghost writer" ou, como se diz em francês, de um "nègre", às vezes possuidor de uma escrita genial, que ajuda muito um político a brilhar.
Mas a vida política também prova que não é possível fazer uma boa carreira apenas "às costas" dos discursos dos outros e que, por essa razão, os verdadeiros grandes políticos são aqueles a quem a História fez merecer as belas frases que alguém lhes colocou na boca.
Mas a vida política também prova que não é possível fazer uma boa carreira apenas "às costas" dos discursos dos outros e que, por essa razão, os verdadeiros grandes políticos são aqueles a quem a História fez merecer as belas frases que alguém lhes colocou na boca.
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