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quarta-feira, agosto 01, 2012

Eurico de Melo (1925-2012)

Há poucas horas, ao receber a notícia da morte de Eurico de Melo, que há muito desaparecera da cena pública, pus-me a imaginar quantos, dentre as novas gerações, saberão, afinal, quem era aquele que chegou a ser um dos mais influentes políticos nacionais, e que, aliás, esteve na soleira da chefia do poder executivo. Muito leal a Sá Carneiro e a Cavaco Silva, Eurico de Melo era talvez o mais proeminente representante de um certo PPD de extração não lisboeta, fazendo parte daquilo que a nomenclatura política designava então como os "barões" do partido. Com a sua forma inconfundível de falar nortenho, por muito tempo sempre visto com um inseparável cigarro, a sua saída da cena política coincidiu, não por acaso, com um evidente declínio do peso do norte do país no equilíbrio das decisões nacionais. E a sua morte é mais um marco do termo formal de um tempo que foi muito importante na história da família política do centro-direita em Portugal, que entre nós se convencionou designar por social-democrata.

Em inícios de 1987, e por razões que não vêm ao caso, tive a meu cargo, por alguns dias, a organização da visita oficial de Aga Khan a Portugal. A exemplo do que acontece em alguns outros países, foi escolhido como interlocutor do líder ismaelita a figura governamental imediatamente abaixo do primeiro-ministro. Neste caso, era Eurico de Melo, ao tempo vice-primeiro ministro e ministro da Defesa. O programa da visita incluía um jantar no Ritz. Os representantes de Aga Khan no nosso país solicitaram que, por razões religiosas, não fossem servidas bebidas alcoólicas durante essa refeição. Aceitar ou não um tipo de pedido deste género é uma questão com alguma sensibilidade, porque acaba por ter certas implicações políticas. Entendi, por isso, que seria prudente consultar o gabinete do ministro, tanto mais que também pretendia obter orientações sobre o tipo de presente que ele queria oferecer ao ilustre visitante.

No contacto telefónico que fiz com o gabinete, e logo depois de expor o problema, tive a surpresa de ser confrontado com a informação de que o próprio ministro queria falar comigo. Recordarei para sempre que, com imensa simplicidade e simpatia, Eurico de Melo, com a sua pronúncia inconfundível, me deu as suas instruções: "Quántu ao binho, o sinhôre dâutuar faz o que entiender: si as razuéns de Estado obrigarem, o sinhôre máunda puôr lá binho! E táumbém cuidado com o prieço da priênda. Eles estáum habituados a ter o peso do homem em oiro e nós náum nos pudiemos alargar. Bai cuma baoua Bistalegrezinha é já é bem báum...". Lembrámos esta história, divertidos, num jantar que lhe ofereci, em Estrasburgo, bem como a outros deputados europeus, creio que em inícios de 1996. 

Espero que ninguém se lembre de levar a mal esta memória em transcrição fonética, porque ela representa, da minha parte, uma homenagem colorida a um governante que não se escondeu atrás da sua importância e decidiu disponibilizar-se para falar com um simples e desconhecido funcionário, do outro lado da linha. Um homem do norte, é o que é!

Júlio Isidro

Não sou íntimo de Júlio Isidro, longe disso!, mas conheço-o desde sempre. Da televisão pré-Abril, claro, onde me recordo de o ver fardado e ...