quinta-feira, agosto 30, 2012

Leituras

Não primava pela cultura, a mulher de um diplomata que o acaso protocolar colocou ao lado daquele conhecido escritor, num jantar oficial. Para o romancista, já de si pouco dado a este tipo de eventos, toda a conversa tinha sido penosa, dado que todas as referências da senhora se situavam nos antípodas dos seus interesses.

Conhecendo embora o seu nome, ela nunca lera nenhuma das suas obras, cujos títulos teve a honestidade de dizer que não conhecia. As suas leituras mais avançadas situavam-se no género "light" das sagas urbanas, com sexo, carros, restaurantes e viagens, feitas de "casos" cruzados, em linguagem coloquial modernaça. Se ela fosse portuguesa, nós já sabíamos alguns títulos...

O escritor, porém, cuidara em ser muito complacente, quando a senhora, com grande admiração, lhe referira algumas das "obras" do género que lera. É que havia alguns desses "colegas" que eram publicados pela sua editora...

Já no fim da sobremesa, a senhora, que continuava deserta de qualquer conversa substantiva, inquiriu, sentindo-se quase na obrigação de mostrar uma simpatia curiosa:

- E agora, o que é que anda a escrever? Diga-me lá...

- Nos últimos meses, fiz uma pausa nos meus romances, revelou o escritor. Estou a escrever uma autobiografia.

- Ah! mas que interessante! E trata de quê?

11 comentários:

  1. Anónimo07:29

    A vida não está para risos, Senhor Embaixador...
    Mas essa é simples e eficaz: absolutamente genial e merecedora da melhor gargalhada a plenos pulmões de há muito tempo!
    Bem Haja

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  2. Anónimo14:45

    Não faltará dizer que a Srª é loira? (estou a brincar, parecendo-me, também, que o Sr. Embaixador não quis melindrar as mulheres.
    É que há tantas anedotas de loiras parecidas com este episódio…)

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  3. Que grande lufada de ar fresco.

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  4. coisas que sucedem, a intenção até era boa

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  5. Anónimo19:14

    Pois é.... interessante como nas relações sociais os mais responsáveis, como neste caso o suposto intelectual, são ainda os mais intransigentes perante uma convidada como ele. Mas eu não sei.

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  6. Anónimo21:51

    "...nas relacoes socias os mais responsaveis..."

    ah brincalhao!


    bem haja

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  7. - Ah! mas que interessante!
    In FSC

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  8. Juro que não estou a ser espirito de cantradição(que ideia...), mas também se podia dar o caso da senhora estar mesmo mesmo distraida...

    Porque mesmo assim mais simpática estava a ser Ela.

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  9. Agora, Senhor Embaixador, falando de autobiografias gosto mais do género
    "Confissões", em prosa, poesia , prosa poética, irrelevante...

    Lá para os setenta vou pensar nisso com a ajuda de um "Ghostwriter" que seja o meu fio de prumo com análise séria e acutilante"a Minha querida amiga Helena Sacadura Cabral".

    Por enquanto não tenho assim nem duas ou três coisas na minha vida com originalidade sustentada para constituir um devaneiosito de impacto que justifique o investimento...

    Pff... Que tristeza...

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  10. Sr Embaixador, tem mesmo a certeza que isso foi verdade?!! Se sim, felizmente que não foi uma senhora portuguesa!

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