quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Decisão

Aquele meu amigo tinha-se decidido. Finalmente. Adiara por meses mas, pressionado pela mulher e pela iminência da mudança de casa, avançou uma noite para os largos metros de livralhada que tinha por lá, disposto a fazer uma severa seleção dos volumes de que, sem a menor dúvida, tinha de ver-se livre, com alguma urgência. O novo local de vida não comportava toda aquela montanha de papel. Dentre as muitas e muitas centenas de livros, revistas, catálogos e tralha do género, havia que proceder a uma escolha criteriosa, afastar tudo aquilo que tinha a certeza que nunca mais leria ou consultaria, coisas já datadas, obras que correspondiam a tempos muito diferentes, definitivamente distantes dos seus interesses atuais. Sentia que, por uma vez, tinha de ser rigoroso consigo mesmo, ser bem realista quanto àquilo que poderia vir ainda a mobilizar a sua curiosidade. Assumira intimamente que não podia, de forma alguma, contemporizar com falsas expetativas de futura disponibilidade de tempo, até por saber que, nesse mesmo futuro, iria comprar novos livros, correspondentes a novas solicitações de atenção. Com os diabos! O passado era o passado! Adiante, pois! Satisfez-se também com a ideia de que, com esse gesto, teria condições de ser generoso com alguns amigos e conhecidos, partilhando com eles algumas obras interessantes que, por aquelas estantes, estavam estacionadas há muitos anos e que continuariam sem préstimo, se as não abandonassem. Confortou-o a ideia de que, por uma vez!, a sua biblioteca podia ter uma nova vida, para além de apanhar pó e bichos. Alguns títulos, pela sua relativa raridade, quem sabe se não poderiam ser bem vendidos, em algum "bouquiniste". Outros podiam mesmo ir parar a bibliotecas, sendo úteis para novos leitores. Entusiasmou-se com a ideia.

Deitou mãos à obra, constituiu pilhas de volumes, segundo critérios que assumiu como lógicos, do ensaio à literatura, das memórias às biografias, das obras de referência à imensa "trivia" que foi acumulando, passando pelos largos "coffee table books" e os livros de fotografias, muitos deles turísticos. Demorou bastante tempo, hesitou muito, repensou opções, para, finalmente, fazer o saldo de todo esse seu esforço, de tudo quanto, em definitivo, estava disposto a libertar-se, para sempre, sem contemplações nem o menor remorso ou pena. E lá pôs de parte... cinco livros!

Contou-me, ontem. Olhava para um livro e lembrava-se de quando o comprara, da ocasião em que começara a lê-lo, do que sentira ou com quem estava nesse preciso momento. Outro recordava-lhe debates fortíssimos em torno de causas que, embora já perdidas ou recicladas, tinham sido muito importantes para si. Aqueloutro tinha-lhe sido oferecido por alguém já desaparecido, da sua vida ou da própria. Títulos havia que, em si, representavam tempos marcantes, que convocavam amigos que, embora do passado, tinha muito presentes. Não havia nada a fazer...

Ouvi esta história com grande compreensão, mas também com uma imensa angústia. Daqui a pouco tempo vou estar na situação deste meu amigo. E, por várias e boas razões, não somos assim tão diferentes! Temo o pior!

14 comentários:

EGR disse...

Senhor Embaixador: lembro-me de um post,de aqui há meses, com uma fotografia dos livros que possui e para cuja arrumação vai ter de encontrar espaço.
E,a avaliar pelo que hoje nos conta-sendo certo que, em boa verdade, não fico muito surpreendido com a semelhança revelada-a tarefa que o espera será muito espinhosa.

jj.amarante disse...

Ouvi dizer que o Mário Soares comprou outro apartamento do prédio onde vive para guardar livros que já não cabiam na casa dele. As casas em Portugal estão bastante em conta, aproveite a oportunidade!

Isabel Seixas disse...

Oh, o apego é revelador da construção do ser humano das suas tendências e sensibilidades, bem filho de Deus maior, intenso emocional e interessante...
É o distintivo de quem pode ostentar passado.

Receio que só lhe reste chorar...

Isabel Seixas disse...

Estava a pensar...
Que os livros são o melhor refúgio para a liberdade do pensamento.

Catinga disse...

Prateleiras presas ao teto. É prático e até pode ficar bastante interessante, em termos de decoração.

Catinga disse...

Aqui vai um exemplo:

http://f00.inventorspot.com/images/ceiling-bookshelf.img_assist_custom.jpg

C.e.C disse...

Diz-se que os cheiros estão intrinsecamente ligados à memória. Honestamente, tal compreensão sempre me fez pensar nos livros.

Luis Miguel Correia disse...

Que Amigos fieis são os nossos livros...

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, o seu amigo ficou preso ao parar no nº 5... Para os chineses tem o valor de "não" ou "negação". Quando quiser mesmo abrir mão de alguns/muitos livros terá de pôr de lado uns 6 livros, que significa: "continuidade" ou "evolução". Deixei à biblioteca do Governo Regional da Madeira livros e livros, após a morte do meu irmão que os amava como se fossem filhos. Deveria ter distribuido alguns pelos amigos dele e meus; alguns ficaram zangados comigo, outros sentiram-se despojados de bens que costumavam ter à mão. Deixei passar o tempo... e, na hora de despejar a casa - entretanto vendida - não pensei na amizade que algumas das pessoas tinham pelos livros e na contrariedade de que fossem entregues a um Governo que não lhes agrada. Pense com calma e tome decisões a partir de montinhos de 6 livros, nunca de 5. Se é que alguma vez tomará uma decisão destas!

gherkin disse...

“Sounds familiar”, meu caro! Esse, o problema daqueles que, para quem, com diz a nossa amiga Dª Isabel Seixas, que “os livros são o melhor refúgio”, é difícil desfazermo-nos deles. Embora, embora, como tenho sido privilegiado, com obras para revisão, sempre gratuitas!, uma das grandes vantagens aqui na Inglaterra, e o meu espaço para livros é cada vez mais reduzido, caso contrário serei engolfado por eles, duas vezes por ano, não me limito a cinco, mas com grandes caixas cheias, especialmente das edições mais recentes, ainda em estado novo, depois de lidos, mas sem anotações, já com essa preocupação, rumo às casas de caridade como a Oxfam, que os aceita de braços abertos. Quanto aos que ficam – imensos - espero doá-los a quem os estime e aprecie. Abraço. Gilberto

patricio branco disse...

as coisas são mesmo assim, gostamos de quase todos, fazem parte da nossa vida. Uma situação corrente são os titulos repetidos, que se compram 2 e 3 vezes sem nos lembrarmos que já os temos. Talvez esses se possam descartar sem pena, mas não são assim tantos.
tambem há o contrario: tenho uma amiga que se desfez praticamente de tudo, uns 95% da biblioteca que tinha, e diz que nunca se sentiu tão bem como depois de liberta desse peso e que não se arrependeu.

patricio branco disse...

curioso e realista o comentario das 12,26

Fernando Correia de Oliveira disse...

Boa noite, caro Embaixador

Quanto aos livros, não me atrevo a candidatar-me, mas revistas e outra tralha que queira deitar fora... candidato-me com fervor. Passo tudo a pente fino, digitalizo o que me interessa, especialmente em termos iconográficos, e prometo que coloco depois tudo para reciclagem... ;-)

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Já lhe levo de avanço uns meses. E, digo-lhe, é tarefa para gente de barba dura, que se não comova à lembrança do bocado de si que cada livro lhe traz!