sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Solidariedade


Devo dizer que fiquei com pena que Mário Centeno não tivesse aproveitado o encontro com os jornalistas, depois do Eurogrupo, em Bruxelas, para dizer algo parecido com isto:

"Aproveito para agradecer ao meu colega alemão a preocupação que demonstrou com a situação financeira portuguesa. É sempre confortável ouvir um alto responsável de um grande país amigo dar mostras de atenção e interesse específico sobre os nossos problemas, quando sabemos que outros Estados membros revelam fragilidades e dificuldades de cumprimento das metas orçamentais - como aliás aconteceu já com a própria Alemanha, no tocante ao Pacto de Estabilidade e Crescimento, o que mereceu então a compreensão de todos nós.

Esta é, contudo, a confirmação de que poderemos sempre contar com o governo alemão no caso do futuro poder vir a trazer algumas surpresas a um executivo português cuja legitimidade democrática tive o gosto de ver reafirmada quando vim pela primeira vez ao Eurogrupo, em palavras simpáticas do meu amigo Wolfgang Schauble.

Aliás, nada disso é novo. Em Portugal, nunca esqueceremos que Angela Merkel, em 2011, esteve, até ao fim, ao lado de Lisboa, apoiando o PEC IV, de cuja iniciativa foi a inspiradora, na tentativa de evitar o resgate. Sempre ficou muito claro que não foi por sua vontade que a "troika" foi chamada a intervir em Portugal. Mas não só! Os meus antecessores, Vitor Gaspar e Maria Luísa Albuquerque, puderam beneficiar sempre, e de forma constante, do apoio amigo de Berlim, para as políticas que, ao tempo, entenderam dever destinar aos portugueses. Aliás, os portugueses também não esqueceram isso, podem crer!

Mas não posso deixar de aproveitar este ensejo para expressar uma palavra de grande solidariedade portuguesa face aos gravíssimos problemas que a banca alemã atravessa. A crise que o principal banco alemão de investimento, o Deutsche Bank, sofre nos dias de hoje, a somar-se à preocupante situação que sabemos persistir na banca de alguns dos Länder alemães, obrigam a que estejamos atentos e, mais do que isso, profundamente solidários com os nossos amigos da Alemanha e as ameaças que possam impender sobre o seu sistema bancário. No que pessoalmente me toca, e em tudo quanto lhe puder ser útil no âmbito europeu, Wolfgang Shauble sabe que pode contar comigo!"

13 comentários:

Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

Cada vez melhor :)

Infelizmente deixou as funções públicas. A sua presença como MNE era fundamental.

Abraços

Anónimo disse...

Parabéns, Senhor Embaixador.

Também eu gostava de ouvir este discurso de um ministro português, de qualquer governo.

José Neto

hmj disse...

Senhor Embaixador,

parafraseando-o, poderia dizer que "é irritante, mas é sempre a posteriori" que a pessoa se lembra de uma bela resposta, como a que nos oferece aqui.
Pois, é pena que o Senhor Ministro não tenha tido a presença de espírito para responder, designadamente perante trogloditas daquele calibre e, pelos vistos, sem emenda. Aquela criatura é uma vergonha.
Helga Maria Jüsten

Bartolomeu disse...

Nunca se viu tanto cinismo em Bruxelas, como nestes últimos tempos.
Sinais preocupantes que podem traduzir grandes desatinos, conducentes a inesperados desfechos.

Majo disse...

~~~
Não me apetece nada...
~~~~~~~~~~~~~~~~~

Majo disse...

~~~
Shauble tinha obrigação de saber que o efeito dominó,
tão alertado no início da crise, era inevitável...
Contudo, preferiu tratar os países ''pobres'' como
gastadores levianos e tentar o que era impossível...

Incrível como a diplomacia obriga encolher os ombros
em relação ao passado recente...

WS nunca fala com ministros; tudo o que profere tem
a intenção de influenciar mercados.

Felizmente, contra todos os agouros, continuamos
com o apoio da agencia canadiana de 'rating'...
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Anónimo disse...

Era mesmo essa a resposta para aquele pesadelo em forma de gente.

Jaime Santos disse...

Eu gostaria de saber qual a exposição do Deutsche Bank a um eventual default de dívida portuguesa. Mas, contrariamente a Schaeuble, Mário Centeno é um cavalheiro, e não foi certamente por 'esprit d'escalier' que não se lembrou de dizer algo semelhante ao que sugere o Sr. Embaixador. Apesar do Governo de Berlim parecer dominado pela personalidade desbocada do Ministro das Finanças, que exibe bem o seu carácter suábio, quem manda ainda é Angela Merkel e Portugal faz bem, como Costa fez, em cultivar uma boa relação com os alemães. Eles sabem mostrar-se agradecidos quando é preciso... Mais, a recuperação do espírito europeu requer boa vontade de parte a parte...

Anónimo disse...

Mas que parvoíce! O Governo deveria era ter reagido de outra forma, mais enérgica, contestando a interferência da ALE.

ignatz disse...

o centeno não disse isso porque é bem educado e responsável. já eu, ignatz, carroceiro e não ministro poderia dizer isso e muito mais, desde que não fosse nas caixas de comentários dum blogue de gente fina e bem educada.

Menina Marota disse...

Pois...

OdeonMusico disse...

Parece que o ministro Santos Silva leu o seu post!

o Jaime S.

antonio luis disse...

YEEEEEESSSSSSS.....!!!!! BRILHANTE...!!!! FICOU A INTENCAO...!!!!