terça-feira, fevereiro 02, 2016

"Primavera marcelista"

                                     

À conversa, veio hoje à baila, num grupo, a expressão "primavera marcelista". Os mais novos acharam graça, devendo ter pensado que era uma espécie de antónimo para o "inverno cavaquista".

Alguém esclareceu que não, que essa era uma fórmula comummente usada, no final de 1968 e início de 1969, para designar a esperança criada no país de uma possível abertura política, protagonizada por Marcelo Caetano, que havia sucedido a Salazar. A esperança foi fátua: a PIDE mudou a placa para DGS, a Censura travestiu-se de Exame Prévio, o oficioso "Diário da Manhã" passou a "Época" e até a União Nacional se crismou de Acção Nacional Popular. Houve coisas, porém, que não mudaram: a repressão, os presos políticos, a guerra colonial e falsificação eleitoral. 

Dos mais velhos, alguns com um pé na imprensa, ninguém se lembrou, na conversa, de quem teria utilizado pela primeira vez a expressão "promavera marcelista". Também não sei, mas sei como "nasceu" e expliquei. Foi o ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, na posse dos novos Governadores Civis, poucas semanas após a posse de Caetano, quem falou no seu discurso da nova "primavera política" que se inaugurava no país. O conceito evoluiu entretanto e ficou ligado nominalmente ao "presidente do Conselho".

Eu tinha então 20 anos, andava já metido em algumas "guerras associativas" e recordo que nunca tive a menor fé na "primavera marcelista". E tinha razão.

A partir de 9 de março, lá por Belém, haverá uma nova "primavera marcelista"? Convenhamos que não deve ser difícil...

Reflexão

No sistema político português, há uma tragédia que, por anunciada que seja, não deixa de se repetir: a vontade incontida de um presidente de...