terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Fernando Pessoa


Fernando Pessoa morreu faz agora 80 anos. Foi uma figura complexa, de afetos e desafetos não lineares, como a sua poesia deixa transparecer. Sobre Salazar escreveu isto, que tem a sua graça: 


António de Oliveira Salazar
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
Água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu...

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.

Mas afinal é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

(Poema de Fernando Pessoa)

7 comentários:

Majo disse...

~~~
~ Muito interessante!

~ Grata pela partilha.
~~~~~~~~~~~~~~~

Anónimo disse...

E isto foi o que ele disse sobre a república e o trapo que nos serve de bandeira:

(...)É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira , não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na Monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na República não era possível, porque era perigoso insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa.
O sociólogo pode reconhecer que a vinda da República teve a vantagem de anarquizar o país, de o encher de intranquilidade permanente, e estas coisas podem designar-se como vantagens porque, quebrando a estagnação, podem preparar qualquer reacção que produza uma causa mais alta e melhor. Mas nem os republicanos pretendiam este resultado nem ele pode surgir senão como reacção contra eles.
E o regime está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que por direito mental devem alimentar-se.
Este regime é uma conspurcação espiritual. A Monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco socialmente, será nada nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com o nada absoluto que a República veio (a) ser.

António Azevedo disse...

Sim, é o Estado Novo, e o povo
Ouviu, leu e assentiu (...)
Há portos, e o porto-maca
Onde vem doente o cais.
Sim, mas nunca ali atraca
O Paquete 'Portugal'
Pois tem calado de mais.

Anónimo disse...

Mas nesses tempos ainda não havia a PIDE?...Grande Pessoa!

septuagenário disse...

Consta que Salazar tinha como um dos poucos passatempos que a vida lhe permitia, era ouvir e descontrair-se um pouco com as piadas e ditos que se diziam sobre a sua pessoa.

Muito original este post em memória de um tempo simples e de um homem simples, Pessoa.

Joaquim de Freitas disse...

Pessoa escreveu muito e bem. Por exemplo :

"A liberdade —a liberdade para si e
para os outros, para a humanidade inteira. Quer estar livre da
influência ou da pressão das ficções sociais; quer ser livre tal qual
nasceu e apareceu no mundo, que é como em justiça deve ser; e
quer essa liberdade para si e para todos os mais. Nem todos podem
ser iguais perante a Natureza: uns nascem altos, outros baixos; uns
fortes, outros fracos; uns mais inteligentes, outros menos... Mas
todos podem ser iguais daí em diante; só as ficções sociais o evitam.

Era preciso destrui-las... Mas não me escapou uma coisa:
era preciso destrui-las mas em proveito da liberdade, e tendo sempre
em vista a criação da sociedade livre. Porque isso de destruir as
ficções sociais tanto pode ser para criar liberdade, ou preparar o
caminho da liberdade, como para estabelecer outras ficções sociais
diferentes, igualmente más porque igualmente ficções

Aqui é que
era preciso cuidado. Era preciso acertar com um processo de acção,
qualquer que fosse a sua violência ou a sua não-violência (porque
contra as injustiças sociais tudo era legítimo), pelo qual se
contribuísse para destruir as ficções sociais sem, ao mesmo tempo,
estorvar a criação da liberdade futura; criando já mesmo, caso fosse
possível, alguma coisa da liberdade futura."

Isabel Figueira disse...

Muito obrigada pela partilha. Não conhecia este poema de Pessoa.