sexta-feira, 14 de agosto de 2015

As presidenciais socialistas


Não vale a pena esconder que o Partido Socialista tem um problema com as eleições presidenciais. Esse problema existe há muito, emergiu noutros sufrágios e inscreve-se na matriz daquele que é o partido central da democracia portuguesa.

Cavaco Silva foi o único presidente eleito no atual regime que não contou com o apoio socialista. Num país sociologicamente com uma maioria eleitoral de esquerda, foi mais uma vez a dificuldade decisória dentro do PS que facilitou a sua eleição. Em 2016, isso pode repetir-se.

À parte o caso muito particular de Soares em 1986, onde verdadeiramente se jogou, pela última vez, a trincheira esquerda-direita, numa eleição que ajudou a fixar o perfil essencial do regime, apenas Sampaio correspondeu, com rara precisão, ao “candidato ideal” do PS: sem particulares anti-corpos à esquerda e com um forte potencial de entrada no eleitorado político do centro, e até de alguma direita urbana.

De certo modo, embora bastante menos afirmado à esquerda, Guterres aproximar-se-ia agora desse perfil. A sua ausência da contenda volta a soltar no PS os “demónios” da divisão.

Sampaio da Nóvoa é um candidato que emergiu na indignação anti-troika. Cavalgou com inteligência essa onda justa e, com o tempo, foi elaborando sobre ela um discurso culto. Em seu torno, desenhou-se entretanto uma espécie de “neo-pintasilguismo”, o que, simultaneamente, seduz uma certa esquerda mas irrita outras áreas socialistas, que o associam, creio que injustamente, a um projeto intervencionista anti-sistema, onde ressoam memórias do PRD. Os militares e os ritos organizados que andam à sua volta ajudam muito a essa suspeita. Para a direita, é uma “bête noire”, o que, devendo ser tomado à conta de um forte elogio, reduz o seu proselitismo no centro político e não facilita a eleição.

Maria de Belém é o Guterres possível. Mulher, incomparavelmente mais carismática do que seria o excelente e mais denso Oliveira Martins, tem uma certa fragilidade, que é tocante mas não deixa de ser uma fragilidade. O seu perfil atrai o pessoal dos altares, tem uma simpatia natural capaz de vir a gerar um certo “appeal” popular, mesmo em setores da direita, à qual não assusta. Com o tempo, perceber-se-á também que tem uma leitura muito bem sistematizada do país. Há, porém, quem ache que pode ser “pêra fácil” nos debates com Marcelo ou que verá a sua assessoria no grupo Espírito Santo ser explorada pelo justicialismo de Rio. Dentro de algum PS, a sua candidatura é vista como uma espécie desforra do “segurismo”, o que muito limitará a mobilização da máquina dominante.

Como se diz na minha terra, o PS, em matéria presidencial, volta a estar metido num “lindo molho de brócolos”.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

11 comentários:

Manojas disse...

Infelizmente, são principalmente alguns socialistas, por má fé e/ou estupidez, que estão a meter o próprio partido no tal "bonito molho e bróculos".

Anónimo disse...

O "pessoal dos altares" e os "ritos organizados"... Estás a comprar inimigos, ó Seixas

Maria Eu disse...

Falta "nervo" ao PS. Talvez porque queira sempre ficar a balançar-se em cima do muro, para ver qual o melhor lado para onde cair.
O problema é que se estrepa.

Anónimo disse...

Com um governo e um presidente como os actuais, as próximas legislativas e presidenciais deveriam ser um passeio para o PS. Se não tiver maioria absoluta nas legislativas e se o presidente não for da sua área, a culpa é exclusivamente dele.

JPGarcia

Manuel Silva disse...

Caro Senhor Embaixador:
O PS é, talvez, o partido mais fratricida (com o PSD a roer-lhe os calcanhares).
Há dias um deputado do PS de Leiria, de seu nome João Paulo Pedrosa, ao falar, precisamente, da eleição presidencial, declarou isto a um jornal de difusão nacional sobre os seus camaradas de partido: «Eu acho o [Sampaio da] Nóvoa um candidato apenas apoiado pelos comunistas, bloquistas e gajos do PS que vão aos comícios do Bloco».
Para começo de discussão política não há melhor, pela substância e densidade que introduz no debate político, pela elegância do discurso e das relações que os actores políticos deviam saber cultivar.
E é este senhor deputado da nação.
Não explicando tudo, isto talvez seja um sinal das razões por que o país está como está: nas mãos de credores, superendividado, e nós feitos num infinito molho de bróculos.
Mas a culpa também é, em parte, nossa, pois somos nós que aceitamos (e alimentamos) um sistema que elege deputados com esta falta de qualidade.

Joaquim de Freitas disse...

Os responsáveis socialistas portugueses encontram-se na mesma situação que os seus homólogos franceses, e não somente.

Incapazes de romper com o social liberalismo que os transforma em partido social democrata, no fundo , estão de acordo com aqueles que dizem que o capitalismo é, por essência, performante, mas não partilha suficientemente a riqueza produzida. Se a análise é correcta, e a denunciação justa, os actos não acompanham. Caiem assim no neo liberalismo que devasta a Europa., faz desaparecer o Estado e as suas funções de protecção da sociedade.

Basta ver como agiu o socialista Moscovici, ministro das finanças de Hollande, quando se transformou em Comissário europeu em Bruxelas . Frente a Tsipras, foi o mais agressivo!

Uma esquerda que não põe em causa a verdadeira natureza da globalização e das formas que esta tomou , e que , ao contrário, considera que a crise deve ser tratada quase exclusivamente como um problema de técnicas e de praticas bancárias e financeiras a reformar ou melhor controlar.

O povo interroga-se sobre a diferença entre os que lá estão, e os que querem lá chegar. E quando a diferença é nula ou ínfima, e que as "personalidades" não se impõem de si mesmas de maneira "indiscutível e incomparável", o risco de empate é grande.

Ora o verdadeiro socialismo não se pode satisfazer de continuar a gerir a economia como um partido social democrata ou mesmo social liberal, sem atacar com um espírito revolucionário a supremacia duma economia de renda, de desperdícios maciços, de especulação financeira desabrida e também de corrupção e de injustiças flagrantes.

Uma sociedade onde o dinheiro continua a beneficiar aqueles que o têm, em detrimento daqueles que não têm nada.

Anónimo disse...

A Maria de Belém não passou por Macau ao tempo do Melancia...?

Anónimo disse...

Embaixador, continua muita gente de forma errada a colocar a equação entre PS e PSD. Explico de forma simples esta minha afirmação; PS e PSD não são alternativa um ao outro, mas sim peças da mesma máquina, que é aquela que protege interesses. A alternativa a este Bloco, seria uma alternativa radical e de corte profundo, mas ai as pessoas bem instaladas nos vários poderes e na própria sociedade em si não querem isso. Para lhe dar um exemplo do que falo, dei o exemplo da nossa cidade(Vila Real), em que muitas vezes as trocas de favores se fazem entre pessoas destes dois partidos atrás citados.

Antonio Cristovao disse...

Com tanta galambice, o PS arrisca-se a estar em maus lençois, já em Outubro. Os cartazes são um mau fait divers, mas as incoerências e derivas quase diárias na TV, que como é evidente a seguir são ampliadas nas "redes", não se augura nada de positivo

inconfessável disse...

Só li este post depois de ter feito o comentário no post em cima. As minhas desculpas.

Anónimo disse...

A santinha é a mãe dos prec's 2015,furõesitos, narcisistas e genéricos indefinidos...

"O Guterres possivel"..... ! LOL.. (????!!!!!!), mesmos não concordando com o politico Guterres, era um homem respeitavel.