sábado, 30 de agosto de 2014

O baile do Zé Macário

Há histórias cuja graça só consegue ser apreendida por quem conheceu as personagens reais que as protagonizaram. Explicar quem é o Zé Macário é uma redundância para muitos vilarealenses (eu sei que se escreve com dois "erres", mas por cá é assim, pronto!) do meu tempo, mas é uma necessidade para os muitos mais que nunca se cruzaram com essa figura quase mítica, tantos são os seus episódios curiosos, que marcaram o imaginário de algumas décadas da cidade. A família Macário (curiosamente há um Macário, de Vila Real, do conto "Singularidades de uma rapariga loura", de Eça de Queiroz) é bastante conhecida na cidade, quer na área comercial, quer na fotografia: o pai do Zé Macário era um fotógrafo habitual nos eventos citadinos, com especial destaque para o desporto. E a última atividade que conheci ao Zé foi precisamente a de fotógrafo, a par de ser um ás para o negócio imobiliário.

Creio que o Zé Macário deve ser basicamente da minha idade. Era uma figura aquilina, ligeiramente curvada para a frente, de passo rápido e olhar vivo. Sempre penteado a preceito, de risca ao lado, parecia-se muito com aquela imagem dos brasileiros dos anos 30, que o "amigo da onça" de Péricles consagrou, embora sem o bigode. Com uma lata estanhada, era um farrista emérito, disponível para aventuras de largo espetro, algumas incontáveis. Ao tempo da sua juventude - já não vejo o Zé há muito e dizem-me que vive hoje fora de Vila Real, depois de vários percursos afetivos - teve sempre um particular êxito com um certo tipo de pequenas, fruto de uma lábia bem ensaiada e de uns métodos requintados de engate em que se aprimorara. Vestia de forma galante, assenhorado, com uns históricos coletes que lhe davam um ar, simultaneamente, sério e divertido. Nunca fomos íntimos: eu sempre tive tendência em ironizar um pouco com ele e, imagino hoje, ele não devia "ir muito à bola" com a minha maneira de ser. Mas recordo-me de, não obstante algumas escassas tricas, sempre nos termos dado relativamente bem.

Guardo para sempre dele uma imagem com uma imensa bebedeira - uma "narça", como por cá se diz - que apanhou numa ceia da festa estudantil do 1º de dezembro, um rito alcoólico de iniciação por que todos passávamos. Ele estava sentado no chão, esbodegado, olhos vítreos, depois de muito tinto e alguma aguardente, quando um polícia se aproximou e, com ar complacente mas crítico, lhe atirou: "Você não tem vergonha de estar aí bêbado?" O Zé, entaramelando a voz, nessa noite do ano em que tudo nos era permitido, olhando enevoadamente o cívico, retorquiu-lhe: "E você não tem vergonha de estar aí polícia?"

Mas "este" Zé Macário era compatível com o afinado galã de bailes, ele que era um dançarino de primeira água, que cuidava em percorrer todas as damas disponíveis de uma sala, das mais girotas até aos estafermos inapresentáveis. O que ele gostava era de dançar! E corria, com critério, as melhores festas do distrito para aproveitar os bailaricos.

São aos montões as histórias divertidas que envolvem o Zé Macário, um homem que acabou por ter uma vida algo atribulada, com algumas tragédias pelo meio. Talvez por isso se torne interessante destacar o período mais divertido dessa sua existência agitada. 

Ontem, ao almoço, um amigo comum contou-me um episódio, ocorrido num baile no Casino das Pedras Salgadas, no final dos anos 60. Ele e o Zé tinham-se aperaltado a preceito para o evento. Desde a chegada ao baile, o Zé notara um sorriso prometedor, do outro lado da sala, de uma miúda bonitota, que trazia à ilharga uma mãe com ar austero. O Zé lançou-se numas danças com outras parceiras, mas foi mantendo olho na pequena, que sempre o mirava com ar convidativo. Curioso, decidiu tentar a sorte. Com aquele seu aspeto de quem "não parte um prato", educadérrimo, aproximou-se da mãe da rapariga e pediu, em termos irrepreensíveis, autorização para uma dança com a filha. A senhora anuiu, a pequena levantou-se da cadeira e foi então que o Zé notou que ela tinha um defeito numa perna e caminhava flagrantemente aos solavancos, numa coreografia que nos levara a crismar um conhecido professor de Matemática do liceu com o apodo de "chega-me isso", pela similitude da infelicidade ortopédica com o gesto de pedir algo para a frente.

Mas o Zé Macário não era rapaz para se deixar intimidar por uma surpresa, nem sequer daquele quilate. E, com imenso garbo, pôs-se a dançar com a pequena como se, também ele, sofresse dessa limitação no andar. Diz quem viu que, sem nunca se desmanchar, o Zé aguentou não uma mas três danças, sempre assumindo, mimeticamente, a mesma coreografia mancada, porventura adaptada habilmente à provável variação dos ritmos. No final da terceira dança, sempre de sorriso nos lábios, devolveu a pequena à mãe, agradeceu e beijou a mão da senhora, como era seu velho timbre, atravessou a sala para reencontrar o amigo com quem viera e, finalmente à vontade, de costas voltadas, desabafou: "Porra! Estou de rastos. Vamos embora!"

Grande Zé Macário! Onde estiveres, um forte abraço para ti.

9 comentários:

Anónimo disse...

Histórias curiosas de Vila Real. Mas o Senhor Embaixador, mesmo estando em férias, não nos quererá falar do Mundo, que nunca esteve não perigoso, já que, em Portugal, de Cavaco, Passos, Portas, Machete, Seguro e Costa não se ouve uma palavra, de esperança ou de prevenção, sobre ele? Da Ucrânia ao Iraque, passando pela insignificância da Europa (como sempre à espera da América) e das Nações Unidas, haverá certamente muita coisa a dizer. A guerra fria está à voltar, multiplicada por cem, e certamente teremos soldados portugueses a caminho de mais sítios. Haverá hoje um Conselho Europeu, porventura um dos mais importantes da História europeia. Que dizer? Que fazer? Um abraço do JPGarcia

Anónimo disse...

"para muitos vilarealenses (eu sei que se escreve com dois "esses","

Com dois esses não, mas com dois erres, talvez. Contorna-se o assunto escrevendo vila-realenses, e que se danem o Malaca e o Houaiss.

Zé Pinto

Anónimo disse...

Caro JPGarcia,

Felizmente que há vida para lá da política, caso contrário o mundo seria tão deprimente... E são as histórias dos "Zé Macários" que dão cor a uma realidade cada vez mais negra.

Quanto ao Conselho Europeu de hoje, dá vontade de dizer uma frase ao estilo da que disse o Zé Macário no fim do baile!!!

Isabel BP

Portugalredecouvertes disse...


Sr Embaixador permita-me que coloque 2 links de 2 vídeos que descobri sobre a ilha de Moçambique, talvez possam comentar o assunto na "Gomes", uma vez que é classificada património mundial pela Unesco

https://www.youtube.com/watch?v=pLXQ5TbNnHU

assim o primeiro diz respeito á inauguração da ponte em 1967, que liga Moçambique à ilha, com uma festa que poderia ser um cortejo etnográfico em qualquer cidade do norte de Portugal: desfile de bandas de músicos, escuteiros, ranchos, grupos de dança local, os carros alegóricos da zona, um até representa uma casinha dos locais, a bênção do Sr padre, e o final com o grande fogo de artifício! e grande quantidade de carros prontos para a estreia da ponte

https://www.youtube.com/watch?v=c_ruqrt9AEU

o 2o vídeo também interessante, diz respeito ao trabalho com muito mérito de um arquiteto francês que tenta trazer vida aos edifícios esquecidos e em vias de destruição, bem como algum conforto as populações locais também algo esquecidas, vemos o grande hospital do seculo XIX que atualmente só tem um medico e precisa de todo o equipamento necessário

Bem haja se pelo seu contributo a divulgação de muitas coisas
Angela

Anónimo disse...

Cara Isabel BP,

"Tout est politique"', não é?

E continuo na minha: O silêncio dos políticos portugueses é ensurdecedor quanto ao que se passa lá fora (e cá dentro muitas vezes), o que se passa lá fora é perigoso e gosto de ler o que o Senhor Embaixador escreve sobre estes assuntos e sobre as histórias curiosas de Vila Real.

JPGarcia

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Francisco

As estórias são (também) como as cerejas. Há muitas do Dr. Perneta, médico ortopedista, manco, em Coimbra e de... Coimbra.

No casino da Figueira da Foz estavam a jogar o brideje o bispo da diocese, D. Raimundo, O advogado Dr. Manuel Figueira, a Senhora Dona Arminda, esposa amantíssima do último e o Dr. Perneta.

Cá fora, sob a janela aberta por mor do calor, um ceguinho tocava (?) uma gaita de foles.

Inopinadamente diz o Dr. Perneta:Que pouca sorte!... Os parceiros olharam-se, Perneta ia ganhando tudo...

E o ortopedista manco, nada disso já me doí a cabeça da gaita. Um espanto, olhos acusadores, deu-lhe uma coisa, querem lá ver...

E o dr. Perneta percebendo a recriminação, já me doí a cabeça, vírgula, da gaita - ponto

Si non e vero

Anónimo disse...

Julgo que não conheço o senhor.
O meu pai, o Zé Macário, tem hoje poucas histórias para contar.
Muito obrigada. Gostei de o ler.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo, filho do José Macário. Espero que tenha retirado da historieta que referi todo o meu carinho pela figura do seu Pai. Ele faz parte da minha memória afetiva de Vila Real, tal como, aliás, toda a sua restante família (ainda há dias aqui contei um episódio "clássico" com um seu Tio). O seu Avô, além de fotógrafo muito conhecido, era um filatelista de grande mérito (onde terá ido parar a sua magnífica coleção de selos?). Conheci também a senhora sua Avó que, se não estou enganado, ainda é viva. O seu Pai foi uma figura curiosíssima, inventiva, metida em mil coisas e aventuras. Há histórias deliciosas com ele, contadas por vários amigos, que fazem parte do "património" de tradição oral da nossa geração. Era um "artista" nas relações com as mulheres, delicado e mesureiro, com um "beija-mão" que as derretia, tanto mais que, contrariamente a muitos de nós, vestia sempre impecavelmente, com uns coletes que fizeram história. Talvez não saiba, mas ele chegou a "dar uma aula" em Belas-Artes, em Lisboa! Não o vejo há muito, dizem-me que não estará muito bem, mas, em todo o caso, e se isso for possível, envie-lhe um forte e amigo abraço meu. Um outro para si.

Anónimo disse...

Muito obrigada pelas suas palavras!
O meu pai continua a ser um traquina, ainda que hoje tenha algumas dificuldades de mobilidade.
A minha querida avó, ainda é viva. Tem 94 primaveras!
Um beijinho para si!
Joana