sábado, 8 de janeiro de 2011

No Partido

Há dias, fui à sede do Partido Comunista Português, na rua Soeiro Pereira Gomes. Só aí consegui adquirir a "Antologia Poética" de José Carlos Ary dos Santos, que um amigo brasileiro, há meses, insistentemente me pedia. Em todas as livrarias me diziam que a obra, das "Edições Avante!", estava há muito esgotada. Numa noite, ao ver na televisão uma declaração pública de um responsável do PCP, tendo como cenário de fundo o que me pareceu serem estantes de uma livraria, achei que essa poderia ser a solução para o meu problema. E foi.

Esta era a segunda vez que entrava numa sede do PCP. A primeira havia-me ficado bem gravada na memória.

Estávamos em Maio de 1974. Num jornal, apareceu a notícia de que o PCP iria abrir a sua primeira sede, numa certa noite, na rua António de Serpa (aquela que iria ficar eternamente crismada, na memória política portuguesa, como "a António Serpa", simplificando o nome do poeta). No texto, dizia-se que o partido, logo na ocasião da inauguração dessa sede, iria pôr à venda exemplares de documentos clandestinos editados durante a ditadura. Eu era, à época, um colecionador dedicado de publicações desse género, tendo já então uma apreciável coleção, a qual, naturalmente, ficaria muito enriquecida com o que o PCP viesse a disponibilizar.

Assim, ao princípio dessa noite, apresentei-me no nº 26, 2º E, da avenida António de Serpa. Atenderam-me com simpatia, dizendo-me que teria de aguardar por alguém, o responsável que ia pôr o material à venda. Os minutos foram, entretanto, passando. As salas, quase vazias de móveis, começaram a encher-se de pessoas, reconhecendo-se entre si. Eu tentava imaginar os encontros anteriores dessa gente, figurava as suas atividades no mundo clandestino dos comunistas, presumia alguns nas batalhas eleitorais em que se haviam envolvido, do MUD e de Norton de Matos a Humberto Delgado, de Ruy Luis Gomes à CDE. Mas, por muito que procurasse, nessas caras, figuras que tivesse encontrado no Congresso Republicano de Aveiro, na célebre sessão do Palácio Fronteira ou por ocasião da "Plataforma" de S. Pedro de Muel, eu não conhecia ninguém. E continuava sozinho. Até que, num certo momento, me dei conta do ridículo da situação.

Com efeito, ali estava eu, por um motivo mais do que fútil, numa festa que não era minha e que, para aquelas pessoas, era uma verdadeira ocasião histórica. Aquela era a data em que um partido que entrara na clandestinidade 48 anos antes, cujos militantes haviam sofrido como nenhuns outros a violenta repressão da ditadura, abria, na legalidade, a sua primeira sede. E eu era, nesse evento, um verdadeiro intruso. Começava a ter a sensação, porventura exagerada, que essa solidão já deveria estar a ser olhada com estranheza por alguns. Não procurava estabelecer contactos, com receio que alguém me perguntasse qual era a minha relação com o partido, que não era nenhuma. Discretamente, fui-me aproximando da porta de saída.

Foi então que dei, de frente, com uma cara conhecida, um antigo quadro do movimento associativo de Medicina, que eu cruzara em várias "guerras" universitárias, constando que estava ligado ao PCP. Olhou para mim, com algum espanto, sabedor que aquela não era a minha "praia" política, seguramente perplexo com a minha presença no seio dessa festa do "Partido" - como, à época, a maioria de nós designava o PCP. Imagino que devo ter feito uma risível figura, quando lhe expliquei: "Vinha aqui comprar "Avantes!" antigos, que li que iam ser postos à venda...".

10 comentários:

Santiago Macias disse...

Oxalá tenha conseguido comprar os exemplares do "Avante!" em falta.

Dois dados adicionais, que certamente conhece:
1.
As sedes do PCP são "centros de trabalho" e não "sedes". Alterações ou lapsos na designação levam sempre a que sejamos corrigidos (sei como é, porque me está sempre a acontecer).

2.
"O" Partido também é, para os da casa, O Glorioso. Desde 2009 ando baralhado, passei a ter dois Gloriosos...

Anónimo disse...

Não há como procurar qualquer livro de poesia (de Ary dos Santos, por exemplo) na Livraria Poesia Incompleta, Rua Cecílio de Sousa, à Praça das Flores.

Anónimo disse...

As Portas que Abril abriu…(Excerto)

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

.........
.....


Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

Ary dos Santos

Lisboa, Julho-Agosto de 1975

Citado com orgulho
Isabel Seixas

patricio branco disse...

tomo nota da boa informação de Anónimo. Quando fôr a lisboa visitarei essa livraria especializada em poesia.
se tiver algum outro endereço (não só poesia, mas literatura em geral, dificil de encontrar,etc) diga pf.

Interessante entrada memorialistica esta "no partido".
O andar na antónio serpa creio que foi sede ou lugar da legião portuguesa, até ao 25A.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Santiago Macias: não me recordo de, à época, o termo "centro de trabalho" ter sido utilizado para designar a primeira instalação pública do PCP em Portugal. A minha memória já não é o que era, mas quase juraria que o termo surgiu em momento posterior. Mas admito estar enganado. Estas são as dúvidas de quem não pertence à "tribo".

Anónimo disse...

Oh, Estimada Isabel Seixas,
O que eu gosto de ler os seus comentários e sobretudo a sua poesia!
Cordialidade a dobrar!
P.Rufino

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa,

Os partidos devem dar bom acolhimento a todos os cidadãos independemente das filiações ou simpatias político-ideológicas. E, na verdade, as edições "Avante" têm editado obras muito interessantes que todos os anos temos oportunidade privilegiada de consultar nas bancas que lhe são destinadas na Feira do Livro de Lisboa.

Os detractores do PCP esquecem-se frequentemente desse património de combate clandestino contra o regime do Estado Novo, da organização e capacidade de trabalho dos militantes do Partido que se destacam em muitas autarquias e da seriedade e convicção que norteiam os militantes comunistas.

A única acusação que, normalmente, os políticos de Direita lhes fazem é de que estagnaram no tempo, porque não perceberam o significado da queda do muro de Berlim como se as teses de F. Fukuyama fossem irrecusáveis...

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Anónimo disse...

Oh, Estimado P. Rufino por quem É...

Não consigo Ser indiferente ao seu alento, obrigada.

Isabel Seixas

Também adoro Ary dos Santos, protagonizo tão naturalmente o Seu "Poeta" castrado Não...
E sinto aquela pena mesmo pena de não ter conseguido conhece-lo e ficar-me pelos seus poemas que me enchem a alma... É um dos meus Pessoas contemporâneo(embora quando o leio com admiração e orgulho acho que ele feneceu como uma atitude de amor e desprendimento para Nos deixar Ser também. sendo que é impossível competir).

Ah! embora também não fosse do partido acho fundamental a Sua existência, agora nem pensem em privatizar o ARY, faltava essa...

Anónimo disse...

O painel de azulejos é espectacular!

Isabel BP

Anónimo disse...

Estou de acordo, Isabel Seixas, Ary foi um grande poeta e igualmente declamador.
Esse início de trecho poetico que aqui refere é notável.
Com estima,
P.Rufino
PS: e como bem diz, a qualidade não tem Partido. Em polos opostos temos vários exemplos. Pablo Neruda e Ezra Pound, por exemplo, entre tantos outros.