quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

BBC em português

Acaba de saber-se que o "BBC World Service" vai deixar de transmitir os seus programas em português para África, no âmbito de uma profunda reforma motivada por cortes orçamentais. Creio que muitas pessoas desconhecem que o "BBC World Service" era suportado por verbas do "Foreign Office", o MNE britânico, que agora decidiu deixar de financiá-lo. Não é claro, por ora, se isso não afetará, em absoluto, o uso da língua portuguesa nos serviços da BBC.

O "serviço português" da BBC tem uma história importante, desde a sua criação, em 1939. Lembro-me de o meu pai contar como, durante a 2ª Guerra mundial, a voz, em "ondas curtas", de Fernando Pessa trazia aos democratas portugueses as notícias dos Aliados, quebrando o bloqueio informativo imposto pela censura salazarista. Mais tarde, no estertor da ditadura, recordo-me de, eu próprio, ouvir com regularidade a BBC, em português, com novidades da nossa política doméstica que o marcelismo procurava ocultar. Para além de Pessa, outros nomes que viriam a ser bem conhecidos na rádio portuguesa passaram pelo prestigiante "serviço português" da BBC. Lembro-me - e cito de cor - de Francisco Mata, Joaquim Letria, António Cartaxo, Hernâni Santos, Gilberto Ferraz, António Borga, Luís Amorim de Sousa, José Júdice, Fernando de Sousa, João Paulo Dinis e José Rodrigues dos Santos.

Interessa registar, como nota histórica, o papel desempenhado pelo "serviço português" da BBC como via de informação dos guerrilheiros de Timor-Leste, lembrado no seu blogue por essa figura incontornável nos "media" portugueses em Londres, que é o meu amigo Gilberto Ferraz.

Confesso que sinto com alguma tristeza este fim do "serviço português", deixando aqui um abraço ao Manuel Santana, que o dirigiu por bons anos. Tenho esperança que este exemplo negativo não venha a frutificar em terras francesas, onde o serviço em língua portuguesa da Radio France Internationale também já sofreu lamentáveis cortes e limitações.

Em tempo: o "Jornal de Notícias" faz referência a este assunto com esta "pérola": "Mas para Teresa Lima, responsável pela secção portuguesa na BBC, onde está há 12 anos, a notícia não é totalmente inesperada. "O serviço já teve para ser cortado várias vezes", explicou, em declarações à agência Lusa.". Já "teve"? Será "sotaque" de Lisboa? Ou mau ouvido? E ninguém "edita" isto no jornal?

10 comentários:

Anónimo disse...

Desta vez, o meu comentário nada tem a ver com o Post do autor do Blogue “Duas ou Três Coisas”. Tão só com o número de seguidores que este Blogue conseguiu obter até hoje! Mais de 320! Para quem começou timidamente (supostamente, o que só favorece o seu autor, ambição a mais, neste tipo de situações pode não resultar), é obra! E provenientes de mais de 140 países diferentes! Com mil Diabos! (como diria meu saudoso avô Duriense). Há, seguramente, razões para explicar este indiscutível sucesso “bloguista”, logo a partida o que caracteriza o Blogue - o seu estilo. Evita, e em minha opinião muito bem, temas que são recorrente em quase todos os outros Blogues, tais como política interna, escândalos nacionais, etc. Até porque, os contribuintes têm hoje, cada vez mais, uma razoável noção moral sobre os comportamentos de todos os intervenientes nesses casos.
Enfim, haja algo, diferente, que nos distraia, de forma saudável!
P.Rufino

Francisco Seixas da Costa disse...

Obrigado, P Rufino

patricio branco disse...

Apoio sem reservas que é bom que "haja algo diferente que nos distraia de forma saudável!" Diferença baseada no estilo, na independência, na escolha dos temas, a atenção ao presente e ao passado, a que se junta a simpatia, o humor, a clareza da linguagem, a surpresa, a exposição serena sem intenção de polemizar.
É blogue benvindo que se agradece.
E, como PR, não toquei no tema, a BBC em português, assunto sobre que muito se poderia dizer.

A.Teixeira disse...

Já que evocou o seu pai ouvindo a BBC durante a Segunda Guerra Mundial, “quebrando o bloqueio informativo imposto pela censura salazarista”, permita-me a mim evocar o meu, que recomeçou a ouvir a BBC em pleno Verão Quente de 1975, no auge do PREC, quebrando o bloqueio informativo que então existia nos órgãos de informação televisiva e radiofónica em Portugal.

Eram tempos posteriores aos da ditadura do Estado Novo, porém nem por sombras costumam ser tão referidos quanto os da “censura salazarista”, e em que houve um outro “bloqueio informativo” na comunicação social a que apenas escapavam alguns jornais, quase todos de criação recente.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro A. Teixeira: depois do 25 de abril não havia censura e sempre houve jornais contra o(s) governo(s). Só se comparam coisas comparáveis e as ditaduras só se comparam com outras ditaduras

Alberto Arons de Carvalho disse...

Fui também, desde uns anos antes do 25 de Abril, ouvinte diário da BBC em português, sobretudo de uma resenha do que na imprensa inglesa se dizia sobre Portugal. Entre os portugueses da BBC importa não esquecer António Figueiredo, que suponho ter tido um papel relevante, não apenas na estação, mas também na colónia portuguesa em Londres.

A.Teixeira disse...

Meu caro Seixas da Costa, a expressão “bloqueio informativo” fui-a buscar a si e, se ler o meu comentário com a devida atenção, aproveitei-a referindo-me especificamente aos “órgãos de informação televisiva e radiofónica em Portugal” no Verão de 1975.

Será que ainda se recordará do “pluralismo informativo” de que se usufruía, mesmo sem censura, quando se ouviam os Telejornais da RTP e os serviços noticiosos da Emissora Nacional, do Rádio Clube Português ou da Rádio Renascença (então ocupada pelos trabalhadores)?

E quanto ao caso imprensa, donde eu próprio excluí no meu comentário os jornais que eram então de criação recente (Expresso, O Jornal, Tempo, Jornal Novo, O País), será que ainda se lembra e me pode elucidar sobre o “espectro ideológico” por onde se distribuíam então os seguintes títulos: Diário de Notícias, O Século, Diário Popular, Diário de Lisboa, A Capital? Certamente ainda se lembra da luta pelo controlo d`”A República”…

Por tudo isto e ao contrário de si, meu caro Seixas da Costa, parece-me que para haver aquilo que designa por “bloqueio informativo” não se torna necessária a implantação de nenhuma ditadura. Mas aceito que a seguir a um “bom bloqueio informativo” se seguirá uma…

Foi nesse quadro que comentei a sua evocação dos serviços radiofónicos da BBC, e aquilo que posso designar pelo embaraço – raramente referido – de ter de a tornar a ouvir pouco mais de um ano depois uma Revolução que todos nós pensámos que a tornava dispensável…

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Alberto Arons de Carvalho: dentro em breve, vou lembrar Antonio de Figueiredo, uma figura que conheci durante o meu tempo londrino. Obrigado pela sua nota e um abraco.

Rubi disse...

O senhor Gilberto Ferraz é uma figura interessantíssima!

gherkin disse...

Oportuno e interessante apontamento, particularmente pela evocação da experiência pessoal do distinto autor e amigo. Acrescentaria tanto uma experiência pessoal que reforça o que diz durante as transmissões da Seção Portuguesa no chamado “Verão Quente” de 1975, em que o então Secretário de Estado da Informação me mostrou, no seu gabinete no Palácio Foz, o que já eu muito bem sabia por sondagens feitas, que as transmissões da BBC, em termos de audiência em Portugal superavam as da então RDP! Quanto ao segundo ponto, um apelo: Tal como o autor adverte e muito bem alerta, é muito provável – mas tanto eu como muitos outros estão a lutar contra isso – que a voz da Língua Lusa na BBC, que desde 1939 se fazia ouvir no mundo inteiro, PODE SER SILENCIADA PARA SEMPRE!AQUELES QUE DISCORDAM COM O POSSÍVEL ENCERRAMENTO, PEÇO E AGRADEÇO ESCREVAM, MAIS OU MENOS NA FORMA DA MINHA SUBMISSÃO ABAIXO, DIRECTAMENTE À Comissão Parlamentar dos Negócios Estrangeiros da Câmara dos Comuns: http://www.parliament.uk/facom

A submissão que mandei, e que foi aceite a fim de ser analizada e debatida no próximo dia 9, foi:

Chairman of the Foreign Affairs Committee
The House of Commons
London SW1A OAA



Dear Sir,


PROPOSED CLOSING DOWN OF THE BBC PORTUGUESE LANGUAGE SERVICE


The announcement of the closure of the Portuguese Language Service to Africa is lamentable and wrong for the following reasons:

1 As fairly new and still developing democracies, aggravated by the fact of the prevailing illiteracy whose peoples very much depend on the easy accessibility of radio, in which the BBC Portuguese Language Service has been a very important source of independent news, to stop it now is a clear dis-service to their own development:

2Apart from that, it has been a long tradition for those peoples to depend on the BBC as their only source of news;

3Considering the many different dialects, in which governments such as the Angolan one adopted the Portuguese language as a unifying factor, the BBC to stop its transmissions is not only a big mistake but also a sad departure from the traditional and long standing as well as most appreciated British solidarity.

4) TRUST AND WILL BE GRATEFUL THAT YOU CONSIDER THESE IMPORTANT POINTS AND TAKE THE DUE ACTION AT THE ANNOUNCED COMMITTEE REVIEW OVER THE PROPOSED CLOSURES AT THE BBC WORLD SERVICE.


Yours sincerely,

Gilberto Ferraz
(Retired member of the World Service, in which served for 30 years)

Nota: Peço imensa desculpa, particularmente ao distinto autor, pela minha intromissão neste espaço. Cumprimentos a todos do Gilberto Ferraz