quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Inquietação

Das caras e dos comentários das pessoas que vou encontrando ao longo do dia ressalta um sentimento difuso de inquietação. A crise política, que se soma à crise económico-financeira, tem agora uma expressão mais concreta. O dia de hoje está a ser visto, por muitos, como uma data que inaugura uma viagem para o desconhecido, para um mundo onde já nada é seguro, a não ser as dificuldades da vida - que ninguém, contudo, sabe ou pode medir em toda a sua plenitude. Para quem tem compromissos, para quem tem pessoas a cargo, para quem não tem emprego ou o vê já precário, para quem estuda não se sabe bem para fazer o quê  - estes dias devem ser angustiantes. Não se diga que a crise é para todos, porque os seus efeitos são assimétricos, pelo que diferentes são os graus de inquietação de quem a sente. E de quem a comenta, claro.

Pode parecer um sentimento estapafúrdio, mas acho que, se todas as coisas más têm um lado bom, talvez o dia de hoje tenha a virtualidade de levar muitos portugueses a refletirem um pouco mais no país, deixando, por uma vez, a ideia de que essas coisas da política são para os outros, de que há um "jogo" em S. Bento e em Belém para o qual somos convocados, de tempos a tempos, para dar uma opinião cruzada num papel branco.

E, contudo, somos um país feliz - e alguns leitores devem achar isto uma heresia. Somos felizes por sermos uma sociedade democrática, com instituições que, por mais de uma vez, deram provas de serem capazes de enquadrar fortes tensões económico-sociais. Somos felizes porque temos liberdade, porque podemos exprimir as nossas opiniões, porque temos o direito de escolher quem queremos que nos governe. Somos felizes porque, não obstante todas as suas inesperadas limitações, estamos inseridos na União Europeia, que nos trouxe muita prosperidade e nos fornece ainda algumas das chaves essenciais para abrir as portas do nosso futuro.

A inquietação e o desespero não são bons conselheiros. Pelo contrário: são o pasto dos demagogos e dos paladinos do finis patriae, dos promotores das soluções que radicam fora do sistema, como se um salto para o desconhecido nos pudesse trazer qualquer súbita panaceia salvadora.

Os tempos estão tensos, as pessoas tendem a radicalizar posições, os antagonismos podem aumentar. É nestas alturas que temos de ser mais vigilantes sobre nós mesmos, em que devemos parar para pensar, para decidir, para optar. É nos tempos difíceis que se mede a serenidade de um país, a sua maturidade como nação. Temos quase nove séculos, passámos por crises muito mais graves e, com esforço, fomos capazes de as superar. Este é talvez um dos momentos em que se pode aplicar a frase de John Kennedy: "não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que tu podes fazer pelo teu país".

11 comentários:

Planetas - Bruno disse...

Totalmente de acordo, não fosse a juventude uma coisa tão efemere e a crise uma coisa tão prolonada!
Cumprimentos

Anónimo disse...

Li, não me recordo onde, que Portugal já esteve, ao longo da História, sete vezes em bancarrota será exacto?). Fraca ou nenhuma consolação. Por favor, entendam-se.

António Mascarenhas

Anónimo disse...

Excelente comentário. Digno e conciso.

CSC

patricio branco disse...

uma mensagem de optimismo é sempre benvinda e agradece-se. Tem uma função terapeutica, suavizando as inquietações que as dificuldades crescentes de vida nos causam.

Cunha Ribeiro disse...

Nuito bonito o texto.
Mas lá vou eu desconcordar:
Eu até quero participar; produzir mudança. Mas, não tenho amigos do aparelho!
Nem faço por isso, é claro...
Mas se isto fosse por mérito, aí era capaz de meter o meu narizito... Passe a "aparente" imodéstia...

Margarida disse...

Sábias palavras, mas nem isto é a América, nem temos cá Kennedy algum...

Anónimo disse...

Mas para quê!...
Há pior,
E o Português tem Sempre sorte.
Isabel Seixas

Helena Oneto disse...

Excelente!

José Martins disse...

Senhor Embaixador,
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De facto não há bem que dure nem mal que ature...
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Mas os males dos portugueses, desde que lhes chegou a liberdade em 1974, nunca mais lhe chegaram os bens, sempre a praga do mal.
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Somos sim um país feliz e, ai de nós... Se nos faltasse o Vira do Minho, o Malhão-Malhão que vida é a tua; a música pimba e as romarias durante o verão.E mais felizes, vamos ser, com candidatura do nosso Fado a Património Mundial da Unesco. O fado que foi sempre o fado e a sina da nossa tristeza.
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Bem a democracia e a liberdade foi a coisa mais bonita inserida na sociedade portuguesa... Mas,mas as pessoas são como as árvores quando plantadas se não levaram uma vara espetada quando crescem, ficam tortas como um arrocho. Se forem estacadas já crescidas e com toro grosso jamais crescerão direitas.
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Os latinos, a etnia que pertencemos, a liberdade de expressão tem que ser condimentada como o sal... Eu era um miúdo de uns sete anos, à lareira, de minha casa tentei exprimir a minha opinião ao meu pai... Não cheguei ao resto da expressão, porque levei uma cota de mão na cara...
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Senhor Embaixador, foi do coração quando escreveu?: “Somos felizes...., estamos inseridos na União Europeia......para abrir as portas do nosso futuro.”

Fico à espera de ler aquilo que o senhor Embaixador Seixas da Costa, depois de dizer adeus à diplomacia e deitar fora aquilo que vive dentro dele.

Pelo nosso Portugal vai tudo mal... há gente a passar fome e esta (embora não me toque a mim) é cruel saber-se haver gente que recorre, com vergonha, às instituições de caridade pedir pão e sopa para comer.
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Há quase um século, para matar a fome, foi fundada a “Sopa dos Pobres”, que lhe dariam o nome na época a “Sopa so Sidónio”.
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A próxima que nome vai ter?
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Saudações de Banguecoque
José Martins

mpereiradecastro disse...

«não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que tu podes fazer pelo teu país»...
Também recordar em palavras de Fernando Pessoa:
« Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura »
E acrescenta Agostinho da Silva:
« Nós nascemos para o impossível »
mpereiradecastro

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Kennedy sabia muito...mas nós precisamos de mais do que de palavras.
Precisamos de um objectivo comum. E é isso que parece que ninguem está interessado em encontrar.