domingo, 31 de outubro de 2010

De maio a outubro

Há dias, alguém me perguntava - nessa ilusão de que um embaixador tem um ponto de vista privilegiado - como avaliava a natureza da mobilização estudantil das recentes manifestações sociais em França, comparadas com as de maio de 1968.

As observações diplomáticas valem o que valem, até porque, ao sermos obrigados a fazê-las com incessante regularidade, por dever de ofício, acabamos por multiplicar as oportunidades para nos enganarmos. Ou, pelo menos, quero viver nessa ilusão quanto à razão dos meus próprio erros.

A sensação com que fico é que, no meio do niilismo meio anarca do maio de 1968, caricaturado no simplismo imaginativo dos slogans e "affiches" nas paredes, havia ainda um sentido de alguma esperança e de algum otimismo, mesmo que este fosse produto virtual de ideologias redentoras.

Nos jovens estudantes que hoje saem às ruas francesas julgo notar, para além de uma difusa preocupação sobre o amanhã que os espera, a assunção de um pragmatismo que me parece demasiado frio para a sua idade, como se já se tivessem conformado a não terem direito ao usufruto das grandes ilusões. Nas declarações de muitos, por entre os sorrisos da idade, revela-se já alguma consciência de que não poderão ter garantias de virem a usufruir de um bem-estar idêntico ao dos seus pais.

Ora isto é uma novidade, embora não seja uma boa notícia. Até muito recentemente, os ciclos geracionais sucediam-se num registo de melhoria progressiva de condições de vida ou, pelo menos, de uma expectativa maioritária de que isso viesse a acontecer.

Alguns comentadores devem achar, com toda a certeza, que este meu tipo de observação é titulado por quem se habituou a viver num mundo mais seguro, não sendo legítimo pensar que as novas gerações vão ficar necessariamente marcadas por uma endémica inquietação, apenas porque o seu dia de amanhã pode ser mais incerto. Espero que tenham razão, porque, como alguém já disse, eu também tenho a sensação de que, no passado, o futuro era bem melhor.

6 comentários:

Margarida disse...

É verdade: no passado o futuro era melhor.

Anónimo disse...

Olhando para os meus filhos, sobrinhos e amigos deles, a impressão que me fica é que estão preparados, ou antes, resignados ao futuro que os espera, diferente do nosso, ainda que não, necessariamente, excessivamente preocupados. Encaram a vida de um modo totalmente diferente do nosso. Não se preocupam com carreiras como nós nos preocupavamos, não pensam em reformas, poupam q.b , preocupam-se em conviver, viajar, divertir-se e trabalhar naquilo que - naquele momento - lhes apetece fazer. Conheço casos de uns e umas que tiveram empregos, em minha opinião com potencial e para dali progredirem e, todavia, passados tempos, deixaram-nos para mudarem para outros...por vezes até menos bem remunerados! Num desses exemplos, uma rapariga, já licenciada, preferiu abandonar o trabalho que tinha por "não estar disposta a ter de estar a trabalhar anos a fio sentada a uma secretaria! E foi ganhar menos noutra actividade, mas onde se sente mais confortavel. Noutros casos, mudam de trabalho como quem muda de camisa e tanto servem à mesa num restaurante, como trabalham noutras coisas mais interessantes. E falo de exemplos, quase todos, de gente licenciada. Não poupam a pensar na reforma, mas para aquilo que lhes dá mais prazer, como viajar, investir, comprar e vender uma casa, comprar um carro e muitos deles são peritos em fuga aos impostos - não os condeno, detesto atirar pedras a alguém, sobretudo quando sabemos tão pouco para onde vão os nossos impostos, ou porque vaão para projectos, ou coisas erradas. Muitos deles terão, por comparação com as gerações anteriores, menos interesses culturais, mas em compensação possuem uma maior capacidade de se adaptarem e serem flexiveis a mudanças, quer de empreghos, quer de locais de trabalho e de cidades onde possam exercer uma profissão. E aventuram-se por esse mundo fora já sem aquele espírito de emigrante. Vão como cidadãos do mundo global de hoje, sem pensarem nas poupancinhas e casinha na santa terrinha que os obrigou a sair do país. E é aqui que reside a diferença também. Saiem porque aqui há menos hipoteses, mas não como emigrantes, mas a pensar neles, sem família a sustentar. E como podem estar em contacto com o mundo, através da net, tanto estão ontem no Gerês, como amanhã na Austrália, ou no México, ou em évora, ou em angola, etc, exemplos que conheci bem. Os meus filhos, ainda jovens de 20tes seguem esta linha de comportamento. Embora gostando disto por cá, não têm qualquer problema em sair para qualquer parte do mundo, mesmo que por meses, voltarem, arranjarem algo temporário por cá, voltarem para fora, deixarem de ter uma actividade e dedicarem-se uns meses surf, para voltarem aquilo que outros, como acima refiro, fazem. Uma mentalidade diferente da nossa. Que talvez os ajude a enfrentar o presente angustiante de hoje e o futuro incerto que os espera.
P.Rufino

Anónimo disse...

A reforma do desemprego pode ser o emprego.

a reprodutibilidade de fenómenos sociais, com quase uma imensidão de variáveis disfarçadas de diferentes só com as particularidades do tempo atual, quase nos permitem erigir-lhes um ciclo vital incorporado de uma teoria Do desenvolvimento psicossocial como por exemplo a de Erik Erikson.

É assim uma espécie de quase ciclotimia...

Isabel Seixas

Helena Oneto disse...

O Senhor tem razão e penso estarmos todos de acordo que dificilmente ainda haja quem pense o contrário e, olhando à minha volta, não conheço nenhum jovem que ainda acredite que amanhã a vida seja melhor para eles ou para nós.
Não há nada pior que viver sem esperança num mundo melhor.

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Helena O. os meus alunos já nem na curva da oferta e da procura acreditam... Vejo-me grega -literalmente - para lhes meter na cabeça a mais elementar noção de défice. Pensam logo que se trata do Orçamento. Porque os outros orçamentos só existem para os Pais deles. Quando existem!
Em contrapartida, meu estimado Senhor Embaixador, ao seu "no passado o futuro era melhor", ofereço a minha geração, da qual dizem ter tido "um passado prometedor".
Ai! Se não fosse o meu otimismo...

Julia Macias-Valet disse...

A juventude de Maio de 68 era uma juventude primaveril...com ideais capazes de renovar o mundo. A juventude de Outubro de 2010 é uma juventude outonal...é assim como uma "3a idade da juventude" : (

Tenta acreditar que vale a pena lutar mas ...
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