sábado, fevereiro 27, 2021

A noite em que passei a tratar o Sarmento de Matos por Zé


(Crónica hoje publicada em “A Mensagem de Lisboa”, jornal digital)

Ainda sou do tempo em que na rua Alexandre Herculano, quando já nos aproximávamos da Liberdade (reconheço que esta figura ambígua de retórica só me saiu assim-assim), existia uma pequena livraria, a Ática, que editava e vendia, com capa branca brilhante, a poesia de Fernando Pessoa. Descia-se um ou dois degraus, para entrar num espaço esconso. Era ali, nos finais desses anos 60, que jazia, pouco procurado, ao que me lembro, o essencial da glória editorial de Pessoa.

Fernando Pessoa de há muito que não era um desconhecido,longe disso. Na imprensa, no mundo académico e na lusofilia letrada, a sua genialidade estava bem consagrada. Isso não impedia, contudo, lá por Paris, que uma figura como Roland Barthes ainda achasse, poucos anos antes, que a obra de Pessoa tinha uma qualidade que a punha a par da de alguns seus contemporâneos da poesia portuguesa, de que ele, aliás,possuía boas referências - e citava, como exemplos, nomes como Álvaro de Campos, Bernardo Soares ou Ricardo Reis... A heteronímia ainda não viajava bem.

Se o Pessoa poeta, com muita obra por descobrir lá no célebre baú, já deslumbrava e muito quem o lia, a verdade é que o Pessoa objeto não tinha ainda nascido: a sua imagem de escriturário míope, a descer o Chiado de gabardine, ainda não passara a azulejo ou à estatuária turística, rivalizando com Santo António ou as sardinhas. E claro, não tomara ainda assento etéreo e metálico no alto da Garrett.

Tudo mudou, em poucas décadas. Pessoa entrou na moda. E de que maneira! Há hoje Pessoa por todo o lado, nesta que é, cada vez mais, a sua cidade. Desconfio que deve mesmo haver quem o leia!

Por isso, na Lisboa “pessoísta” (“pessoana” é uma outra coisa mais séria) como aquela em que estávamos a viver, nesse ano de 2013, não estranhei que alguém, um dia, me telefonasse a convidar para jantar num restaurante com o nome de Pessoa. Mas logo percebi que era uma indesculpável ignorância minha: o espaço tinha, já então, nada mais nada menos do que 164 anos!

O convite era curioso: uma associação de jovens queria ouvir-me falar sobre os lugares perdidos da Lisboa do convívio público - os restaurantes, os cafés, os bares.

Não sou totalmente inocente nesta ideia que se criou de eu ser um epicurista obsessivo. Escrever frequentemente sobre restaurantes e comidas, ser frequentador público de um bar de culto, contar em blogues e artigos historietas sobre ocasiões de convívio lúdico, em vários lugares, tudo isso deixa marcase alguma fama - e, vá lá, confesso, um certo proveito. Como costuma dizer um amigo meu: “O que te vale é teres um sólido currículo profissional. Se assim não fosse, estavas liquidado!” Se calhar, ele tem alguma razão.

O restaurante Pessoa, o tal que eu culposamente não conhecia,ficava (já não fica, porque fechou, entretanto) na rua dos Douradores, numa ampla sobreloja. Inquiri se, por um acaso,Fernando Pessoa podia ter alguma coisa a ver com o local. Não e sim, foi a resposta.

Claro que, ao tempo em que o restaurante fora criado, Fernando Pessoa ainda não era ninguém e o senhor Pessoa,que seguramente dera o nome à casa, só por milagre o tocava em linha familiar. Mas sim porque, ao que rezava a história e a biografia feita oficial, o poeta seria um frequentador habitual daquela que então se chamava “Antiga Casa Pessoa”. Ou não tivesse Bernardo Soares deixado registado: “Penso às vezes que nunca sahirei da Rua dos Douradores. E isto escripto então parece-me a eternidade”. A verdade, histórica e biográfica, faz-se destes pedaços de fantasia.

Voltemos à charla. Nela, eu faria par, foi-me dito, com um olissipógrafo que só conhecia de nome e de escrita, José Sarmento de Matos.

Aí, confesso, assustei-me um pouco. O que é que eu podia dizer, com alguma valia, ao pé de alguém que conhecia a cidade e a sua história de trás para a frente? Imaginei-me a fazer “uma triste figura”, uma expressão que trazia da infância, que o meu pai repetia muito, quase sempre acompanhada de um episódio que nos fazia rir, a propósito de alguém que fora apanhado numa sarilhada a cuja altura não tinha estado.

E lá fui eu, numa noite, para o Pessoa, com uma sala cheia de gente na casa dos vinte e trinta anos. Fui então apresentado ao José Sarmento de Matos, com quem logo esclareci as minhas limitações. Disse que apenas me propunha falar, num modo impressionista e muito pouco rigoroso, sobre o papel de socialização que alguns lugares da Lisboa, dos anos 60 e 70,tinham constituído para a minha geração. Abordaria, disse, com historietas pessoais à mistura, alguns desse refúgios da solidão, que era o que os cafés representaram, para quem, como eu, caíra algo desamparado na cidade grande. É que eu devia muito a esses espaços, havia conhecido por lá meio mundo, tinha assistido por ali a alguns episódios que achavacuriosos. Devia-lhes, assim, um gesto de memória. (Quando temos de justificar a razão por que não nos calamos, dizemos coisas deste género, já percebi há muito!)

O José Sarmento de Matos - o Zé, como passarei a referi-lo e logo perceberão porquê - adiantou que a sua abordagem seria algo diferente, começando nos lugares públicos de comes e bebes do século XVIII, até apurar o objeto da sua fala para os cafés do século XIX e início do século XX, referindo a sua importância na política e na literatura. “Un vaste programme”, reagi eu. E ele, com um sorriso: “Ah! Você conhece a expressão do De Gaulle!” (Vá lá! Tinha colhido uma coincidência sossegante).

Se eu estava já em séria dúvida sobre a valia do meu pobre testemunho, a perspetiva de me confrontar com a riqueza potencial daquela prestação deixou-me, antecipadamente, de rastos. Mas, pronto, não havia recuo, lá fomos jantar e, depois, viria a conversa. E logo se veria!

O Zé não desiludiu, claro. Fez uma intervenção magnífica, culta, bem humorada, com episódios e notas com imensa graça. Deixou, na conversa, coisas de arte, de literatura, até de arquitetura.

Um cavalheiro, já de uma certa idade, sentado sozinho numa mesa, que contrastava visivelmente com todo aquele ambiente jovem à nossa volta, fez-lhe algumas perguntas, ou comentou qualquer coisa, já não recordo bem, sobre a Lisboa dos cafés ao virar dos séculos. Falava do que sabia e, de forma evidente, sabia do que falava. No final, apresentou-se: era o arquiteto Campos Matos, talvez a pessoa que, em Portugal, mais conhece a obra, e tudo o que está à sua volta, de Eça de Queirós. Queirosiano amador, eu tinha pelas estantes muito daquilo que ele tinha escrito e organizado. E o Zé, claro, esteve bem à altura do interlocutor.

E eu? Bom, lá deixei as notas que trazia, a arriscar a “triste figura”, embora me digam que escapei a ela. Falei de alguns restaurantes (vício meu antigo) que, ali pela Baixa, onde estávamos, tinham entretanto desaparecido, do Oriental ao Múni e outros mais, da cozinha galega dos funcionários às mesas de fim de semana das famílias. Toquei no mundo dos bares, mais de ouvido do que de prática, do Lorde ao velho Belcanto, do Nina aos outros tempos da Tágide e mais poisos do copo, muitas vezes com “pequenas” tarifadas à mistura.

Mas concentrei-me mais nos cafés históricos onde tinha ainda bilharado, como o Palladium ou o Martinho (o antigo, não o da Arcada), outros onde tinha metido o nariz da curiosidade, como o Gelo dos surrealistas ou a Smarta de outras escritas. Mas também o Aviz dos sportinguistas e dos fascistas, porque, às vezes, mas não todas, essas dimensões se confundiam. A minha Lisboa geográfica preferida era, contudo, outra. Falei do Canas e do Értilas (que ninguém ali desconfiava ser um anagrama de Salitre), porque tinha (e tenho) Campo de Ourique como terreno de estimação. Mas era nas Avenidas Novas que eu assentava arraiais com mais frequência. De início, na Granfina e no Nova Iorque, ou, mais acima, no Luanda e na Suprema, muito pouco no Vává, alguma coisa no Trevi, no Londres ou na Mexicana, com descidas depois ao Colonial, já a caminho da Baixa. E, com mais persistência, no Monumental e, em especial, no Montecarlo. E tantos outros, de que caraterizei as “faunas”, algumas tertúlias, frequentadores mais ou menos conhecidos.

A conversa abriu-se. Afinal, com a idade próxima a ajudar, o Zé “entrou” por esses cafés comigo, começamos a cruzar nomes e histórias e, de repente, estávamos a perceber a existência de uma identidade geracional. A noite acabou divertidíssima, connosco a recortar algumas figuras da Lisboa desses tempos, embora nem sempre no mesmo registo de convivência.

O Zé Sarmento de Matos passou, depois dessa noite, a ser um amigo. Voltariamos a cruzar-nos, por alguns anos com uma regularidade quase semanal, numa tertúlia jantante muito divertida, numa tasca de Campo de Ourique, onde, curiosamente, o número de mulheres suplantou sempre o dos homens. Aí comemorámos, numa noite imensa de gente e boa disposição, os 70 anos do Zé. Ele viria a desaparecer, tempos depois.

Há dias, ao olhar uma estante, redescobri a extraordinária “A Invenção de Lisboa” do José Sarmento de Matos. Uma história amorosa da sua cidade. Recomendo vivamente que leiam!

Comecei este texto falando de Fernando Pessoa, acabo a falar do biógrafo da sua cidade. Ambos nasceram e morreram em Lisboa. Isto anda tudo ligado, dizia alguém da minha terra,que também escrevia e era poeta, que andava muito por bares, restaurantes e cafés, que se chamou Eduardo Guerra Carneiro,que era um amante de Lisboa e que, tal como Pessoa e o Zé Sarmento de Matos, também já lá vai.

Nada de confusões

Desejo que o Sporting ganhe hoje ao Porto, porque isso pode facilitar a nossa vitória no campeonato. Mas há que ter bem presente que, em matéria de adversários, o Porto permanece ao mesmo nível do Braga. O adversário histórico natural do Sporting tem um único nome: Benfica.

A Mensagem de Lisboa

 

Se ainda não conhece o mais recente jornal digital do país, carregue aqui: amensagem.pt

Vai ter por lá gente conhecida.



Olhares noturnos (4)


Por estes dias, esta casa, na rua das Janelas Verdes, tem um destino comercial que a si próprio, numa placa, se atribui o nome de Ramalhete. “Só ali, no Ramalhete, ele vivera realmente daquilo que dá sabor e relevo à vida - a paixão”, diz Eça de Carlos da Maia, que ali teria residido dois anos. Mas este está longe de ser o único edifício que a fantasia coloca como morada dos Maias.

Seja lá o “Ramalhete” onde for, era por ali que o meu colega Steinbroken, ministro da Finlândia em Lisboa, trauteava as suas árias em “Os Maias”. Para um diplomata dos dias que correm, não saber isso “c’est très grave, c’est excessivement grave!”

sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Inteligência gráfica

 


Estupidez gráfica


 

Bicho

Que bicho terá mordido alguns jornalistas (jornalistas mesmo!) económicos da nossa praça? Era gente serena, analítica, com equilíbrio e, em poucos anos, converteram-se em comissários políticos, fortemente ideológicos, alguns até já partidarizados, que temos de ler com um pé atrás.

Jesus!

Parece claro que Jorge Jesus não vai conseguir deixar de cometer o erro clássico de tentar voltar a ser feliz no país onde um dia se teve êxito. Talvez valesse a pena falar com o Mourinho.

Tvendo

Anda por aí um debate sobre a informação nas nossas televisões. Ninguém devia ousar entrar nesta discussão sem ser obrigado a passar umas horas a ver os noticiário da BBC, com um relógio na mão. Depois, deviam passar pelo "envergonhómetro". Só isso!

Não são saudades, é pena!


A casa tem hoje este aspeto desolador. Passei por lá, há poucas horas. Ninguém dirá, ao ver aquela ruína, que ali foi um dos restaurantes populares mais em moda na noite lisboeta.

No Painel de Alcântara, de início uma única sala, com uma cozinha muito simples à entrada, servia-se excelente comida. Na última metade dos anos 80, comecei a ser um cliente fiel da casa. E, até ao fim, continuei a sê-lo.

O Painel, nome que imagino derivado de um painel de azulejos com uma imagem de Lisboa que existia numa parede, onde a mão distraída do mestre-de-obras tinha cometido o lapso de colocar quatro azulejos ao contrário, dando um toque surreal ao conjunto, preponderava o meu amigo Cardoso.

Era um jovem nervoso, trabalhador incansável, que ia às cinco da manhã para a praça, com uma imensa atenção aos clientes. Na cozinha inicial esteve o Zé, que um dia foi chamado para a tropa e a quem uma moscambilha inocente conseguiu atrasar o recrutamento; ingrato, logo que liberto dessas lides, zarpou para outra casa, para imenso desgosto de quem usufruía da sua arte. No balcão das contas andava a Zezinha, uma jovem simpática, companheira do Cardoso, que um dia se cansou daquela vida, arranjou um emprego e deixou o homem inconsolável. Lia-se-lhe isso na cara.

O Cardoso teve muito sucesso com o Painel. Alargou a casa, comprou o espaço ao lado, ganhou fama e, sempre, mais clientes. Ali se ouviram fados! Chegou a ser difícil reservar mesa, mas eu nunca me pude queixar! O Cardoso, a certo passo, foi obrigado a ir ele próprio para a cozinha. Para assegurar a qualidade de uma oferta que nunca desiludiu. Viamo-lo desfazer-se em trabalho, com um ar cada vez mais cansado, magro e, sempre, agitado. Ganhou bom dinheiro, chamou irmãos para trabalhar com ele. Meteu-se em negócios e abriu outro espaço, ali perto. Também passei por lá. Mas algo não correu bem. 

Nas minhas passagens por Lisboa, nunca deixei de o visitar, de lhe dar um abraço, de amizade e de gratidão, pela imensa simpatia de que fui feliz destinatário. Via-o nervoso, cada vez mais nervoso. E triste. Entretanto, tinha casado, teve um acidente, esteve doente, a vida pessoal correu-lhe mal. O Painel, um dia, fechou e o meu amigo Cardoso desapareceu (*), dizem-me, vivendo lá para a Beira. 

As coisas não duram sempre, claro. Mas damos mais conta disso quando gostamos das coisas e das pessoas. Não são saudades, é pena!


(*) Depois de ter publicado este texto, soube que Adelino Cardoso morreu, em 2019.

Olhares noturnos (3)


Em 1954, Ferreira de Castro e Aquilino Ribeiro estiveram na origem da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE). Dois anos mais tarde, ela veio a ser autorizada pela ditadura. Em 1965, ao tempo em que era presidida por Jacinto do Prado Coelho, a SPE decidiu atribuir o Grande Prémio de Novela ao livro “Luuanda”, de Luandino Vieira, um militante nacionalista angolano então preso no Tarrafal. Dias depois, a SPE foi extinta, por despacho do ministro da Educação, Inocêncio Galvão Telles. Nessa mesma noite, um bando de legionários e fascistas correlativos assaltou e destruiu a sede da SPE. Só em 1972, já no marcelismo, a SPE viria a recuperar parte da sua memória, sendo então criada a Associação Portuguesa de Escritores (APE). Nos dias de hoje, a atividade mais relevante da APE parece ser atribuição de prémios literários, mas imagino que desenvolva outras ações a que eu tenha estado desatento. A sua sede fica na minha rua. 

quinta-feira, fevereiro 25, 2021

David Mourão-Ferreira


À meia-noite, na RTP Memória, produzido na RTP2 ("where else?"), teve início um excelente e já antigo documentário, com testemunhos sobre David Mourão-Ferreira, pedagogo e escritor, que morreu em 1996.

É minha impressão ou persiste, na sociedade cultural portuguesa, uma relativa falta de atenção em torno da figura e obra de Mourão-Ferreira? Ouve-se tanto incensar alguns outros escritores e tão pouco se fala de Mourão-Ferreira. 

Será a política? Será uma casta reação ao erotismo de alguma da sua poesia? É que pensei que um outro compreensível preconceito, fruto da competição por algumas senhoras, já teria ficado resolvido pelas inexoráveis leis do tempo.

Olhares noturnos (2)


Passei lá há pouco, nas minhas caminhadas noturnas. É a sede do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, em Lisboa.

O Centro foi criado em 1990, dedicando-se a promover a cooperação, em determinados setores, entre dois “mundos” separados por um fosso de desenvolvimento.

Pelo período de um ano, entre 2013 e 2014, fui diretor-executivo do Centro. Foi uma experiência interessante, que desempenhei “pro bono”, já após a minha aposentação do serviço público. Não me foi possível prolongar esse exercício, porque constatei que me ocupava demasiado tempo e obrigava a muitas viagens internacionais, mais do que aquilo que a minha nova vida profissional permitia.

Aproveito para aqui contar um episódio curioso.

Em inícios de janeiro de 2014, comigo ainda a chefiar o Centro, estive presente na sessão de cumprimentos de Ano Novo ao chefe de Estado português, como membro do corpo diplomático... estrangeiro acreditado em Lisboa.

As organizações internacionais apresentam-se, nessa cerimónia, imediatamente após os embaixadores bilaterais. Como “aquisição” recente, eu era, naturalmente, quase o último (senão mesmo o último) da fila dos diplomatas. 

No meu fraque (com colete claro, como é de regra para cerimónias diurnas, tal como o meu colega e “mestre” de Protocolo, José Bouza Serrano, sempre me recomendou), ali estava eu, naquele imenso salão de vidros e espelhos do Palácio de Queluz, aproveitando para uma conversa sempre divertida, em voz baixa, com o meu colega de fila, o meu querido e velho amigo (e vizinho!) Nazim Ahmad, representante em Portugal da Fundação Aga Kahn.

A certa altura, faltando ainda dois ou três diplomatas para o cumprimento a Cavaco Silva, este viu-me, à distância. Notei-lhe um olhar espantado: “O que é que este tipo está aqui a fazer?”, deve ter pensado. Nem se deve ter lembrado do Centro Norte-Sul! O qual, aliás, sempre fora dirigido por estrangeiros. Eu era o primeiro português a exercer essas funções.

Cavaco conhecia-me bem. Fora membro do júri do concurso em que fui admitido como diplomata, em 1975. Tinhamo-nos reencontrado numa visita dele à Noruega, em 1980, sendo ministro das Finanças, comigo ali em primeiro posto. Voltara a cruzá-lo, já como primeiro-ministro, em S. Tomé, em 1989, e, depois, em Londres, em 1992 e 1994, durante deslocações oficiais. Estava presente, como primeiro-ministro cessante, no dia em que fui empossado como secretário de Estado, em 1995. Em 2005, ocorreu ter sido o primeiro embaixador português a ser por ele recebido em Belém, logo após o início de funções como presidente da República. Algumas outras vezes por lá voltei, noscanos seguintes, acompanhando políticos brasileiros. E eu era embaixador português no Brasil quando Cavaco Silva ali se deslocou, em 2008.

Quando, nessa cerimónia em 2014, chegou a minha vez de o cumprimentar, e com o chefe do Protocolo, a seu lado, a entender que não valia a pena estar a explicar quem eu era, achei por bem esclarecer o que estava ali a fazer, integrado no corpo diplomático ... estrangeiro! Cavaco Silva sorriu imenso e ainda teve tempo para me perguntar como ia o Centro, que ele próprio tinha criado - como me lembrou - e com cujo futuro eu sabia que ele se preocupava.

Achei então que era capaz de ser excessivo revelar que fora eu quem, a pedido do ministério, nesse ano já longínquo de 1990, escrevera o discurso que ele tinha lido na cerimónia inaugural da abertura do Centro, creio que proferido no auditório do Monumento dos Descobrimentos (um local muito “na berra”, por estes dias).

Um diplomata, tal como Thomas More, é “a man for all seasons”. Aliás, naquele instante protocolar, eu era talvez a melhor prova provada disso mesmo!

quarta-feira, fevereiro 24, 2021

“A Arte da Guerra”




Na “Arte da Guerra” desta semana, falo com António Feitas de Sousa do novo tempo na Organização Mundial de Comércio, dos equilíbrios políticos na Catalunha depois das últimas eleições e da situação em Myanmar.

Pode ver carregando aqui.

Non grata

Um abraço amigo à Isabel Brilhante Pedrosa, embaixadora da UE na Venezuela. Está a ser uma "vítima colateral" da decisão europeia de impor sanções a figuras do regime.

A Isabel, contudo, que passou pela Líbia em guerra civil, está habituada a momentos bem complexos.

E difícil, isso sim!, é a situação do seu Benfica! Também haverá por lá "personas non gratas"?

Conselho amigo

Um conselho de amigo, com a maior e mais penosa autoridade: nunca transportem uma garrafa num tabuleiro!

Deputados

É sintomática do baixo nível a que isto chegou a linguagem que se vê usada por deputados, nas redes sociais, para criticarem colegas seus de outros partidos, bem como figuras do governo ou responsáveis da oposição. Nem sequer um mínimo de camaradagem política é respeitado.

Olhares noturnos (1)

 


Morte ao Acordo Ortográfico!

23- F


Recordo-me de que o seu nome era Flavia. O marido era herdeiro de uma família ligada a uma das mais conhecidas bebidas de Espanha. Era um casal divertido, extremamente agradável. Tínhamo-nos conhecido, dias antes, através do meu colega da embaixada espanhola em Oslo, Rafael (Rafa) Conde, em casa de quem passavam uns dias de férias.

Havíamos convidado os dois casais espanhóis para jantar, nessa noite, em nossa casa. Era o dia 23 de fevereiro de 1981. Os espanhóis, que gostam de crismar as datas com peso histórico, haveriam de chamar a esse dia o 23-F.

Pela tarde, chegaram notícias: um golpe militar estava em curso em Espanha. Hesitei em falar do assunto ao Rafa. Acabou por ser ele a ligar-me: “Já sabes o que se passa? Mantemos o jantar?”. Eu ri-me e disse-lhe: “Desde que não venhas fardado!” Ele esclareceu: “Sabes que os nossos convidados são ‘muy de derechas’!” Eu não era ingénuo: já tinha dado conta. E acrescentou: “A Flavia é sobrinha daquele que parece ser o chefe dos golpistas, o general Miláns del Bosch!”. Aí arrematei: “Não há problema! Traz ‘los fachos’ e depois logo se vê!”

A alegria da Flavia, naquela noite, era bem menos transbordante do que era seu costume. Pediu-nos, por duas ou três vezes, para poder telefonar para Madrid. O Rafa piscava-me o olho, com uma atitude contida, perante a coreografia que interrompia o jantar. Sempre que a Flavia regressava do hall onde estava o telefone, depois da consulta à família em sobressalto armado, perante um nosso “entonces?” mais curioso do que compungido, sentíamo-la cada vez mais chorosa.

Depois, na sala, os únicos canais de televisão que tínhamos, noruegueses e suecos, ainda davam um relato parco da cena nas Cortes. A heroicidade do trio - Mellado, Suarez e Carrillo - que não obedeceu ao berro fascista “Todos al suelo!”, do patético Tejero, só a viemos a saber muito depois.

A simpática Flavia viveu o resto da noite preocupada com o destino do tio. Eu, discreto, até à sua saída, como a educação de um anfitrião recomendava, aguentei com garbo a alegria que sentia com a prevista derrota daquele golpe de franquismo tardio. A certa altura, num instante de cumplicidade, atravessando a sala à distância, com um discreto esgar sorridente, eu e o Rafa tínhamos aproveitado para fazer um ibérico, democrático e silencioso brinde.

Só depois de todos os convidados saírem é que, já em família, se bebeu um copo à liberdade em Espanha. Tive pena, confesso, de não ter então à mão um álcool da produção do marido da Flavia...

terça-feira, fevereiro 23, 2021

A Mensagem de Lisboa


Já está nas bancas! Ou melhor, basta um clique e pode ler a Mensagem de Lisboa, uma bela e alegre aventura de jornalismo digital, alheia a politiquices e outras picuinhices, da lavra de Catarina Carvalho e José Ferreira Fernandes, com colaboração muito diversa. Promete! 

Carregue aqui.




Hortaliças de Estado

Há poucas semanas, soube da morte de Carlos Westendorp. Foi uma figura relevante da diplomacia espanhola: ministro dos Assuntos Exteriores, ...