sábado, novembro 07, 2020

Até o Indian summer ajuda!


 

Uhf!

 


O carteiro



Hoje, no DN, li um carteiro queixar-se da sua categoria profissional não ter ainda sido destinatária de um agradecimento público, pelo trabalho que executam, com os riscos inerentes, neste tempo de pandemia.

Humanamente, percebo-os, mas também eles já devem ter entendido que a imagem dos CTT se degradou muito, com efeitos no seu reconhecimento público, a partir do momento em que a empresa foi privatizada. Privatizada, sublinhe-se, quando era lucrativa e esse lucro ia para o erário público. Privatizada, assim, por uma mera decisão ideológica, tornada mais evidente ao ter sido ainda dada, como brinde no negócio, uma licença bancária. É que se era para melhorar a rentabilidade ou a qualidade dos serviços, o resultado aí está, bem à vista. Os CTT de hoje pouco têm a ver com os “Correios” que conhecíamos no passado. O seu serviço desceu a níveis inimagináveis, com uma imprevisibilidade de entrega da correspondência que os torna praticamente inúteis em casos de urgência.

As suas lojas converteram-se numa espécie de tabacarias, com os pobres dos empregados, muitos deles com um ar embaraçado, a serem forçados a tentar impingir-nos lotarias e bugigangas. Essa mudança de cultura de negócio confere à imagem dos honrados profissionais, que têm a seu cargo essa coisa da maior responsabilidade que é levar uma comunicação privada ou uma encomenda de valor, um ar de banalidade feirante, de ânsia obsessiva pelo lucro, que reduz fortemente a confiança na seriedade do seu trabalho. E o “llega cuando llega”, agora associado à incerteza na entrega da correspondência, acaba por ser a cereja no bolo da sua descredibilização profissional. 

Sei do esforço, para produzir melhorias, que hoje existe, por parte de quem tem a responsabilidade de gerir os CTT. Mas essas pessoas, bem como os trabalhadores da empresa, não escapam a ser hoje as caras do “pecado original” que foi colocar em mãos privadas um serviço público essencial. E pagam, inevitavelmente, por isso.

Deixo-os com um carteiro de outros tempos: aqui.

Obscenidades políticas

Era só o que faltava que o PS pudesse argumentar, sem ninguém com boa memória se rir, que nos Açores deve governar o partido mais votado.

Mas o PS, e muito boa gente com ele, até do PSD, tem mais do que razão ao considerar obscena uma geringonça açoreana que inclua o Chega.

Saudades

Está a acabar um tempo delicioso em que me dava ao luxo de estar de acordo com gente com ideias bem opostas às minhas, só porque todos “não íamos à bola” com Trump. Vou ter saudades.

Uma certa América

 


Já agora...


Se Trump consegue interromper a contagem, não entendo por que não exigimos o mesmo.

sexta-feira, novembro 06, 2020

“Isto é pior que Braga, Topsius!”


Foi há 25 anos, nos primeiros dias de novembro. 

Estávamos nos sofás do King David Hotel, em Jerusalém. Mário Soares tinha acabado de ter uma conversa solta com jornalistas portuguesas. 

Por esses dias, viviam-se por ali tempos de imensa tensão. Três dias depois, o primeiro-ministro israelita seria assassinado. 

Era a primeira visita de um presidente da República portuguesa a Israel e, depois, a Gaza. Eu era o membro do governo, recém-empossado, que acompanhava o chefe do Estado.

Soares recordou que aquele mesmo edifício fora objeto, em 1946, de um ataque bombista de um grupo radical judeu, o Irgun, que havia vitimado cerca de uma centena de pessoas, entre as quais uma trintena de oficiais britânicos. Um dos responsáveis pelo ataque foi Menachem Begin, mais tarde primeiro-ministro de Israel. 

- Ó Mario, que conversa mais despropositada para quem vai dormir aqui! Bom, vou-me deitar, disse Maria Barroso, de quem os presentes se despediram.

O olhar atento de Soares seguiu-a até ao elevador, com um enigmático sorriso nos lábios. Quando a figura da sua mulher desapareceu do horizonte, com uma gargalhada, pediu:

- Ó Zé Blanco, agora que a Maria de Jesus já foi para o quarto, traga lá "A Relíquia" para nós recordarmos o que o Raposão dizia sobre a Terra Santa...

O meu amigo José Blanco e outros presentes na conversa recordar-se-ão.

... e Biden chegou à Penn Station


 

É isto!

 


quinta-feira, novembro 05, 2020

Ridículo

O estado americano no Nevada tem menos de um terço da população de Portugal. Passaram dois dias e ainda não conseguiram contar os votos por lá. Se isto não é ridículo, num país que se pretende a maior democracia do mundo, não sei o que o será.

Papéis

Nesta renhida jornada eleitoral americana, com as televisões e os sites a darem-nos, segundo a segundo, mudanças nos números, pergunto-me o que vão dizer os jornais em papel amanhã (isto é, daqui a pouco).

Diferenças

Nas percentagens eleitorais, devemos sempre lembrar-nos que uma diferença entre quem tem 52% e quem tem 48% não representa quatro pontos de diferença, mas apenas dois: subindo de 48% para 50%, empata-se, porque o adversário desce dois pontos. É elementar, mas muita gente esquece.

quarta-feira, novembro 04, 2020

Eleições presidenciais nos EUA

 


Trump e a Rússia


Há quatro anos, estive num fórum sobre questões estratégicas em Kiev, na Ucrânia. Faltavam poucas semanas para as eleições presidenciais americanas e o tema, como não podia deixar de ser, dominava o ambiente. 

Se a escolha de um presidente americano é sempre relevante para o mundo, muito mais o é para um país charneira como a Ucrânia, ainda atravessada por uma espécie de fronteira residual da Guerra Fria. 

Os ucranianos de Kiev não esqueciam o apoio que administração Obama dera ao afastamento do presidente pró-russo do país, num golpe político que, no entanto, acabou por ter, como preço, a perda da Crimeia e a fixação de um conflito “congelado” no Donbass, na zona leste do país. 

As estranhas declarações que Trump então já produzia, dando sinais, em caso de vitória, de ser favorável a um apaziguamento com Moscovo, punham os cabelos em pé ao poder ucraniano. 

Jogando pelo seguro, a organização do fórum tinha convidado americanos de ambos os lados do espetro. Por ali andavam nomes do republicanismo radical, como Karl Rove, Newt Gingrich ou John Bolton, mas também figuras do mundo democrático, como Leon Pannetta ou David Axelrod, até gente que tinha transitado de administração, como Robert Gates. 

Uma maioria achava provável uma vitória de Clinton, mas as hipóteses de Trump não eram descartadas. Recordo o vaticínio sossegante de Gingrich: “Estou certo que Trump, se ganhar, vai rodear-se de gente experiente, do ‘establishment’ republicano”. Como ele se iria enganar! 

Passaram umas semanas mais. As eleições americanas tinham tido lugar na ante-véspera. Eu participava de um seminário luso-alemão, em Berlim. Todos – repito, todos – os que por ali andavam estavam aturdidos com a vitória de Trump, embora à época, ele fosse ainda uma daquelas incógnitas que não prenunciam o melhor. 

Se a delegação portuguesa estava ainda sob o efeito desse choque, não pode imaginar-se o estado em que fomos encontrar os nossos contra-partes germânicos, gente do governo e da oposição. Vivia-se por ali um ambiente de tragédia anunciada, o que, à luz do que hoje sabemos, teria com certeza a ver, uma vez mais, com a questão das cumplicidades de Trump com a Rússia.

O mundo de dúvidas sobre a verdadeira natureza da estranha relação política entre Trump e Putin permanece até hoje. Não sabemos se o que vier agora a passar-se pode abrir caminho a que o assunto seja esclarecido ou se, pelo contrário, ajudará a enterrar ainda mais esse mistério. Fosse eu crente e diria: “God bless America”!

segunda-feira, novembro 02, 2020

Marcelo

Raramente tive tanto prazer em ver e ouvir uma (tentativa de) entrevista como aquela que António José Teixeira fez hoje ao presidente da República. Só de imaginar as imprecações que o discurso presidencial suscita em tanta gente, já ganhei o dia!

Os dias loucos da América

Os ataques públicos de Donald Trump ao Supremo Tribunal, por este ter mostrado abertura (embora ainda sem a nova juíza conservadora na sua composição, o que pode alterar o sentido do voto coletivo) para admitir uma contagem dos votos por correspondência durante mais alguns dias, subsequentes ao dia 3 de novembro (no passado, foi sempre impossível escrutinar esses votos no próprio dia, sendo que este ano a situação será, com certeza, muito pior, pelo facto desse tipo de voto se ter popularizado, em especial no campo democrático, com vista a evitar o voto presencial, devido à pandemia), parecem revelar que algum desespero começa a afetar a confiança no seu campo político. 

Nas últimas horas, Trump atacou também bem o FBI, por ter iniciado uma investigação sobre ameaças físicas organizadas contra a campanha de Biden. Trump apoiou essas ações, que considerou levadas a cabo por “patriotas”, segundo referiu num “tweet”. 

A mais recente “novidade” é a afirmação de Trump de que se considerará eleito se os resultados apurados até ao final do dia 3 de novembro lhe forem favoráveis, sem levar em consideração as dezenas de milhões de votos por correspondência por contar, parece ser um expediente para vir a criar um “fait accompli”, o qual, após consagrado, teria de ser contrariado por via judicial, o que implicaria uma longa batalha legal. 

Há, entretanto, sinais de que milícias armadas estão organizadas um pouco por todo o país para contestar uma possível vitória de Biden. Mas há também indicações de que, em caso de uma eventual declaração unilateral de vitória por parte de Trump, isso poderia suscitar reações violentas simétricas no outro campo. Biden, porém, já reiterou que aceitará qualquer resultado que resulte das urnas e que seja validado pela justiça. Resta, porém, saber o que farão os seus apoiantes.

O que irá passar-se? Se não houver aquilo a que os americanos chamam um “landslide”, isto é, uma vitória alargada e muito expressiva para qualquer dos lados, o que parece altamente improvável (em especial favorecendo Trump), a acreditar em muitas sondagens, a hipótese de haver fortes distúrbios nas ruas dos Estados Unidos é muito elevada. Mas há mesmo quem pense que, qualquer que seja o cenário político pós-eleitoral, os confrontos violentos são já inevitáveis. 

Neste quadro de potencial conflito público, que há poucos anos ninguém pensaria poder vir a ocorrer numa democracia como a americana, o que farão as forças armadas, que ali são vistas como uma espécie de “reserva moral” do país? Manter-se-ão neutras, perante o caos nas ruas? Ajudarão a um “golpe” institucional de Trump? Ou farão um sinal de advertência ao presidente, apontando-lhe a porta de saída, se a situação chegar aos limites do escândalo político e de confrontos públicos muito graves? Estamos no terreno de cenários-limite, é certo, mas vale a pena pensá-los, porque parece que tudo já pode acontecer nesta América.

domingo, novembro 01, 2020

América

É triste ter de constatar que praticamente nenhum canal de televisão americano que nos seja acessível oferece uma cobertura independente da eleição presidencial. Ao vê-los, temos sempre de descontar o viés político, seja pró ou contra Trump, que os sistematicamente os mobiliza.

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...