Essa agora! Será que ninguém pode criticar, mesmo com severidade, o comportamento da deputada Joacine Katar Moreira, na Assembleia da República, sem arriscar ser crismado de racista? Ou anti-feminista? Está tudo doido, é?
domingo, janeiro 12, 2020
Bola
É ”nesta fase do campeonato” que os árbitros de futebol começam a pensar no futuro das suas carreiras. E, claro, os que se lixam sempre são os mexilhões do costume.
Gorjeta patriótica
Foi há mais de 15 anos, em Khujand, bem no norte do Tajiquistão. Não havia elevadores naquele modesto hotel, ainda tributário da era soviética. Era, no entanto, o melhor da cidade.
Eu chegara, como sempre (nunca aprendi a viajar "light"), com uma pesada mala. Quando me disseram que tinha de subir dois andares a pé, cansado como estava, depois de uma viagem longa e de um dia de trabalho relativamente intenso, "passei-me" e reclamei.
A rececionista, com pinta de "aparatchik" da era antiga, num país onde as coisas não tinham mudado assim tanto, confrontada com o meu mal-estar, sem me dar grande confiança, disse-me para eu ir indo para o quarto, que a mala lá iria ter.
Passados largos e irritantes minutos, bateram-me à porta. Ofegante, um homem, cuja idade tinha ultrapassado há muito os 80 anos, apresentou-se com a minha mala.
Senti-me incomodado. Então aquele senhor idoso tinha subido as escadas, com mais de 20 quilos na mão, para evitar o meu esforço? Para além de articular vários "spasiba", entendi dever dar-lhe uma boa gorjeta, que pudesse compensar o meu complexo de culpabilidade.
O homem mirou a nota de cinco dólares, revirou-a bem não fosse estar a ver mal e saiu, às vénias, desta vez sendo ele quem se desfez em coisas que entendi como profundos agradecimentos.
Sabia que a gorjeta tinha sido boa, mas não tinha ideia do que ela significava, à escala local. Quando, ao jantar, contei o episódio a um diplomata holandês que vivia no país, revelando-lhe o montante da gorjeta, o comentário foi, para mim, surpreendente: "Em moeda local, o que você lhe deu deve representar mais de metade da reforma mensal do homem!"
Na manhã seguinte, ao sair do quarto, deparei com o idoso, especado em frente à porta, já preparado para transportar de novo a minha mala. Deduzi que devia estar por ali já há algum tempo.
Com um imenso sorriso, num tom levemente interrogativo, como que a confirmar apenas o que já sabia, disse-me: "Portugaliya!?" Confirmei e lá descemos as escadas, ele ajoujado com a minha mala, comigo ao lado, descansado, apenas com uma pequena saca de pano ao ombro.
À chegada ao lóbi, recordo, como se fosse hoje, o olhar reprovador e prenhe de "righteousness" das minhas colegas de viagem, embaixadoras da Noruega e do Canadá, que condenavam, num silêncio grave, a minha atitude de vil e eurocêntrica exploração da terceira idade tajique. Como poderia explicar-lhes que estava a fazer um "favor" ao homem? Como reagiriam se lhes falasse dos cinco dólares da véspera?
À entrada para a carrinha, ainda hesitei: como a tarefa da manhã tinha sido "a descer", devia dar uma gorjeta inferior à da véspera? Mas, esmagado pela culpa, logo me decidi: voltei a dar ao homem outra nota de cinco dólares.
Sorriram-lhes os olhos e despediu-se com um forte e efusivo cumprimento de mão, sempre repetindo, enfático: "Portugaliya! Portugaliya!".
Por 10 dólares, a imagem do nosso país subiu, nesse dia, aos píncaros, nessa remota e pequena cidade da Ásia Central.
Por 10 dólares, a imagem do nosso país subiu, nesse dia, aos píncaros, nessa remota e pequena cidade da Ásia Central.
sábado, janeiro 11, 2020
PSD
Quem quer que ganhe no PSD, ficará sempre com mais de um terço do partido a jurar vingança e a intrigar no futuro. Além disso, a sombra que a já aguardada impugnação do ato eleitoral vai criar, ofuscará o brilho do vitorioso, em especial for Rio.
Quem se lembra de William Gilman?
Há dias, numa conversa com António Borga, um nome que os portugueses conheceram na televisão, veio à baila o nome de William Gilman, que ele conhecera em Londres, ao tempo que trabalhou no serviço português da BBC.
Aqueles que têm tempo de vida para usufruirem de alguma memória deverão recordar-se de uma voz, com um português com óbvio sotaque britânico, que, de Londres, por alguns anos, nos trazia as notícias da RDP.
Antes, Gilman, tinha trabalhado para o “Record” e foi correspondente da Anop, antecessora da Lusa. Escreveu também para o semanário “País” e, creio, terminou a sua relação jornalística com Portugal como correspondente do “Diário de Notícias”, em 1996. O Estado português condecorou-o em 1993.
Gilman tinha nascido em Portugal, em 1917, filho de um homem dos serviços de “intelligence” britânicos, colocado na respetiva embaixada, e de uma cidadã portuguesa.
“Gilly”, como era conhecido pelos amigos, era uma figura suave, com um agradável sorriso, casado com Joan, que, curiosamente, muitas vezes o acompanhava nas suas atividades profissionais. Era filha de um jornalista britânico, H. G. Greenwall, autor de um livro sobre Portugal, “Our Oldest Ally”.
Conheci William Gilman em Londres, ainda nos anos 80 e, mais tarde, quando fui viver para o Reino Unido, tornámo-nos amigos do casal. Estivémos por mais de uma vez na sua casa em Epson, no Surrey, e comemorámos com ambos e os seus amigos o seu meio século de casamento, num clube de golfe, para o qual ele me fez convite para ser sócio. O clube era de muito difícil admissão, ele tinha conseguido uma exceção para mim e, até hoje, tenho esperança de que a minha recusa em corresponder ao seu gesto tenha sido feita com uma gentileza à altura do mesmo. É que eu nem cartas jogo...
William Gilman (na imagem, à direita, tendo à esquerda Fernando de Sousa e ao centro Gilberto Ferraz) morreu em 2001, com 83 anos. Joan sobreviveu-lhe por escassos anos.
Cooperação e política externa
Proferi na quarta-feira, dia 8 de janeiro, na abertura do Seminário anual do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, a convite do respetivo presidente, uma intervenção sobre a cooperação para o desenvolvimento em face dos desafios da política externa portuguesa. O texto pode ser lido aqui
sexta-feira, janeiro 10, 2020
"Evasões"
A revista "Evasões" publica hoje o seu nº 250.
Trata-se de uma revista semanal com uma excelente qualidade de escrita e imagem, distribuída gratuitamente com o "Jornal de Notícias", à sexta-feira, e vendida separadamente nos restantes dias, por um preço extremamente acessível.
Sou um fã da "Evasões", confesso. Em especial, por nela escrever Fernando Melo, um dos mais sabedores críticos gastronómicos da nossa praça, cujas recomendações, de restaurantes e vinhos, nunca frustraram as minhas expetativas. Mas a "Evasões" tem-me ajudado a descobrir muito mais, nas minhas peregrinações pelo país.
Por alguns anos, eu próprio escrevi na "Evasões" uma modesta crónica de "gastrófilo". Depois, um dia, pedi escusa à minha "chefe", Catarina Carvalho, responsável pela revista, e saí discretamente de cena. O tempo não me chegava para tudo. Hoje sou apenas um leitor da "Evasões". Mas atento!
Um abraço de parabéns à equipa da "Evasões"!
Era uma vez, no Irão...
Em junho de 2000, durante a presidência portuguesa da União Europeia, coube-me chefiar uma missão de “diálogo político” a Teerão. Da “troika” (já as havia…) que me acompanhava, faziam parte um diretor do Quai d’Orsay (a França iria suceder-nos na presidência, dias depois) e um representante da Comissão Europeia. A delegação iraniana era chefiada por um vice-ministro dos Negócios Estrangeiros.
Sabia-se que o diálogo com as autoridades do Irão ia ser difícil. Cabia-me colocar-lhes todas as questões que a União Europeia via como polémicas, desde os direitos humanos à observância de princípios democráticos. Temas como a perseguição de opositores e os presos políticos, bem como o do tratamento de minorias e dos estrangeiros, estavam na nossa lista. Eles tinham os seus próprios agravos.
Num certo ponto da agenda, o vice-ministro iraniano acusou um Estado membro da União Europeia, que não identificou, de estar a levar a cabo “atos de espionagem”, em articulação com inimigos do país, contra a segurança do Estado iraniano. Interrompi-o e pedi-lhe para identificar o Estado em causa, dada a gravidade da acusação. Disse-me que não o faria, “para não piorar ainda mais as coisas”. Na ata, deveria ficar a acusação, nos termos genéricos em que a formulara.
Reagi: ou ele identificava o nome do país, também para efeitos da ata da sessão, ou retirava a acusação. O “diálogo político” não podia prosseguir sem uma dessas opções. Sugeri que o intervalo da reunião, que estava previsto para mais tarde, tivesse lugar de imediato.
O ambiente, naquela sala do ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, toldou-se. A delegação iraniana saiu da sala de cara fechada. Os membros da “troika” perguntavam-me se tinha medido bem o risco de dramatização que estava a fazer. Eu disse que sim, mas, interiormente, interrogava-me se o meu “bluff” iria resultar (porque era disso mesmo que se tratava).
Minutos depois, o chefe da delegação iraniana reabriu a sessão dizendo que, com vista “a facilitar os trabalhos”, propunha que, da ata, não constassem as referências que antes tinha feito sobre o “tal” Estado membro europeu.
Desde o início, todos sabíamos que a acusação iraniana se dirigia ao Reino Unido, país com o qual, de há muito, Teerão tem um particular contencioso. Ora, o vice-ministro iraniano, meu contraparte na chefia das negociações, havia-me revelado, em conversa antes da reunião, que, no final desse ano de 2000, deveria ir para Londres como embaixador (o que realmente veio a acontecer).
Ao exigir a revelação do nome do país, eu tinha tido isso em conta. Se acaso ele mencionasse o nome do Reino Unido, e ficasse na ata ter sido ele quem lançara essa atoarda não provada, o governo de Londres nunca lhe daria “agrément”.
A vida diplomática também se faz com alguns truques.
quinta-feira, janeiro 09, 2020
Não vale tudo
O presidente dos Estados Unidos da América ordenou a liquidação física, em território do Iraque, de um chefe militar do Irão.
Os EUA não estão em guerra declarada com o Irão, embora seja evidente, desde há muito, a sua hostilidade para com o seu regime. Se olharmos para trás, verificaremos que o derrube do líder iraniano que Washington tinha como seu aliado fiel, o Xá Reza Pahlevi, em 1979, iniciou um período de ininterrupta tensão entre os dois países. A invasão da embaixada americana em Teerão, nesse mesmo ano, por entidades iranianas dependentes das respetivas autoridades, espoletou naturalmente essa tensão, que nunca mais se desvaneceu e atravessou, em maior ou menor grau, todas as posteriores administrações americanas. Os EUA, a partir de então, passaram a apoiar quem se opusesse ao Irão, como foi o caso do Iraque, na devastadora guerra entre os dois países (1980/88).
Os evidentes e reiterados esforços do Irão para obterem a arma nuclear mereceram sempre uma forte rejeição da comunidade internacional, em especial dos EUA, do mundo ocidental em geral e dos adversários regionais de Teerão. Dentre estes, Israel (que possui armas nucleares, sem se submeter ao controlo da AIEA) é aquele que, reagindo às constantes ameaças do Irão face à sua existência como país, anunciou já poder vir a atacar as instalações nucleares iranianas, se a construção dessa bomba estiver prestes a concretizar-se (Israel fez isso contra o Iraque, pelos mesmos motivos, em 1981). Um grupo de importante de países ocidentais, incluindo os EUA (administração Obama), fez entretanto um acordo diplomático com o Irão, que previa um controlo vigiado do seu programa nuclear. Com Trump, os EUA afastaram-se desse acordo.
O Irão, não sendo um país árabe, é um Estado muçulmano que segue e promove o shiismo, uma das duas grandes obediências religiosas muçulmanas. A outra, o sunismo, tem como principal expoente a Arábia Saudita (mas também a Turquia ou a Irmandade Muçulmana do Egipto, embora com uma orientação divergente). Há países, porém, de que o Iraque é talvez o caso mais importante, onde o shiismo e o sunismo coexistem, com implicações no respetivo equilíbrio político interno, sendo o Irão regularmente acusado pelos seus adversários de promover núcleos shiitas em vários outros países, muitas vezes com fortes implicações político-militares, como acontece com o Hezzbolah, no Líbano, ou com as forças hutis, no Iémen.
O proselitismo shiita do Irão, nas suas expressões agressivas, e a sua obsessão com a arma nuclear converteram o país num “trouble-maker” da sociedade internacional. Com um regime autoritário sob uma liderança religiosa de traços medievais, o Irão é um país que se sente acossado pela sua vizinhança, adotando com regularidade um discurso jingoísta que torna difícil a interlocução diplomática. Mais recentemente, porém, por um interesse próprio que se conjugou com outros esforços internacionais, as forças de Teerão desempenharam um papel não despiciendo na luta contra o Daesh.
Se quisermos ser honestos, teremos de reconhecer que os EUA, com a sua agressão unilateral contra o Iraque, em 2003, foram, a grande distância, os principais culpados da desregulação securitária que se vive na região do Médio Oriente. Se algumas fortes tensões já ali existiam, a invasão do Iraque, levada a cabo sob pretextos deliberadamente falsos, conduziu ao estilhaçar daquele país, com as consequências que se viram.
Ao atuarem violentamente como agora fizeram, sem o menor mandato internacional, executando uma ação de guerra, uma liquidação seletiva de um líder militar estrangeiro, à revelia das autoridades do país que os “convidou” para ajudarem à sua segurança nacional, os EUA colocam-se, com total desplante, à margem da ordem internacional, arrogando-se direitos que negam a todos os outros. Todas as razões que possam ter contra o Irão enfraquecem-se com este seu comportamento, convidando à retaliação e arriscando uma escalada.
Os Estados de bem lutam por princípios, desde logo, seguindo-os. Essa deve ser a sua diferença.
quarta-feira, janeiro 08, 2020
As lições da General Motors
Se olharmos as relações externas de Portugal, nos últimos 70 anos, incluindo as últimas décadas da ditadura e o regime democrático, constataremos que há uma única prioridade que permaneceu inalterada na nossa agenda nacional: a importância da relação transatlântica. O empenhamento na NATO e a relevância atribuída aos EUA mantiveram-se na lista prioritária de todos os governos portugueses, mesmo os mais “esquerdistas”. Posso imaginar o “entusiasmo” com que o primeiro-ministro Vasco Gonçalves terá ido à cimeira da NATO, em 1975, mas, para o que interessa, esteve lá e, ao que consta, não fez nenhuma diatribe contra a organização. E isso não aconteceu por acaso.
A situação geopolítica do nosso país, onde a questão das Lajes teve sempre forte relevância, e, ainda antes, os imperativos ligados aos equilíbrios da Guerra Fria, fizeram com que a NATO e os EUA passassem a ser um pano de fundo constante na nossa ação externa. A ênfase desse vetor no discurso político pode ter variado com os ciclos de governo, mas o essencial nunca foi tocado.
Aquando da segunda Guerra do Golfo, em 2003, o executivo português de então levou o seu zelo seguidista a um extremo caricato, ao colar-se ao “amigo americano”, que anunciava um deliberado infringimento das regras internacionais. Lisboa usou então o mais enviesado dos argumentos: “ou estamos com os Estados Unidos ou estamos com o Iraque”. Como se uma agressão ilegal, que viria a ser fautora de centenas de milhares de mortos e de um caos regional sem precedentes, pudesse ser “absolvida” apenas porque o Estado que a praticava era um nosso amigo tradicional.
Mais recentemente, sob a presidência de Donald Trump, os EUA vieram a revelar um inusitado desprezo pelos aliados, criaram tensões no seio da NATO, provocaram fortemente os seus parceiros europeus, desprezaram com arrogância o mundo multilateral. Romperam mesmo um tratado laboriosamente feito com o seu acordo, que prevenia as possibilidades do Irão aceder à arma nuclear, cedendo às pressões de Israel. E, para facilitar a agenda eleitoral de Trump, o governo americano coloca agora o Médio Oriente, de novo, às portas de um conflito aberto, que, no passado, já nos brindou com o Daesh.
Há uns anos, um ignoto secretário de Defesa americano consagrou uma frase para a História anedótica: “o que é bom para a General Motors, é bom para os Estados Unidos”. Hoje, não sem alguma tristeza, pergunto-me: o que é (considerado por Trump ser) bom para os Estados Unidos é necessariamente bom para os seus aliados?
terça-feira, janeiro 07, 2020
segunda-feira, janeiro 06, 2020
A casa do tio Óscar
Tenho uma imensa pena pelo facto da minha capacidade de “desconstrução” das coisas ser muito limitada.
Contrariamente a uma amiga que, ao provar qualquer prato, consegue, no instante, identificar os componentes e condimentos utilizados na sua feitura, assumo-me como um perfeito “nabo” nesse domínio. O mesmo acontece nos vinhos, onde raramente sou dotado para conseguir notar os aromas e sabores que, com aparente facilidade, os enólogos ali descobrem, comigo numa inveja real face à riqueza daquele léxico específico, que tão bem arredonda as conversas numa mesa.
Mas o meu maior lamento, devo confessar, prende-se com os cheiros das casas. Trago na minha memória olfativa alguns odores que me remetem para locais quase sempre antigos, desde casas de infância a cenas da vida, espalhadas ao longo de décadas. Sou mesmo um inveterado colecionador desses marcantes aromas domésticos.
Hoje, ao entrar para o almoço num clube lisboeta de que sou sócio, neste caso o “Círculo Eça de Queiroz”, dei comigo a reconhecer por ali o cheiro da casa do meu tio Óscar, um militar que sempre vi na reserva e que já se foi desta vida há muito. Era casado com a tia Maria, irmã da minha avó materna, e foi uma das referências das minhas lembranças afetivas, de uma infância que guardei como feliz.
A casa deles era no Porto, na Ramada Alta, num primeiro andar com uma bela vista para a Boavista (se isto não for pleonasmo), que dali se via amplamente, de uma varanda traseira. Tinha um mobiliário clássico, com muitas madeiras e livros, tudo aquilo resultando num saudável conforto burguês, num sereno e pacífico ambiente. E, a envolvê-lo, havia um cheiro muito próprio, que me ficou para sempre.
Cheirava a quê? Sei lá! Talvez a cera, talvez a madeira, talvez a algumas plantas. Não sou, em definitivo, dotado de poderes de “desconstrução”, mas também não me parece que Jacques Derrida estivesse precisamente a pensar nos cheiros, quando acabou por consagrar cientificamente o conceito.
A única coisa que sei é que o Círculo Eça de Queiroz, ao final desta bela manhã de janeiro, onde quase por acaso me deu para vir almoçar, após uma movimentada manhã de trabalho em três locais bem distintos de Lisboa, tinha hoje o mesmo cheiro da casa do meu tio Óscar. E isto é um elogio para o meu clube, note-se.
Vaticanologia
Nunca tive grande interesse pelas cenas da vida do Vaticano, pelas suas intrigas e, muito particularmente, pelas confabulações sobre o processo de seleção dos papas. Como ateu, não acreditando, naturalmente, na ideia da intervenção divina a influenciar o sentido do voto cardinalício, olho sempre a escolha de cada chefe de Estado da Santa Sé como uma cuidadosa e ponderada decisão, feita pelo serralho dessa instituição espiritual multinacional, com vista a encontrar o homem mais adequado para ir prolongando, com eficácia, o respetivo sistema. Umas vezes, a escolha vai num sentido, outras vezes noutro, de acordo com “l’air du temps”. Às vezes resulta, outras vezes não.
Escrevo isto com o maior respeito, não apenas pelo papel histórico da instituição, mas igualmente pelos seus fiéis, que se lhe entregam com toda a confiança e fidelidade. Os muitos erros que em nome da Igreja Católica têm sido praticados ao longo dos séculos não devem fazer esquecer - em especial, aos ateus, como eu sempre fui - o património de valores morais e sociais positivos que ela encerra e que formatam as consciências dos povos, muito para além dos seus crentes.
É neste contexto de assumida distância para com aquela realidade que não posso deixar de recomendar o filme “Os dois papas”, que ontem vi na Netflix, com imenso agrado. É uma obra que, sendo claramente apologética e que se pretende simpática para a instituição papal, nos traz uma curiosa versão (porque é de ficção que estamos a falar) da relação entre os dois últimos papas, ao mesmo tempo divertida, bem construída e magistralmente interpretada.
domingo, janeiro 05, 2020
Um grande artista
A enquadrar aquele museu num certo país europeu, situado fora da área urbana, havia um magnífico espaço verde. Sobre ele, espalhavam-se vários objetos artísticos, da mais diversa natureza. O museu, por essa altura, albergava, para além da sua coleção permanente, uma muito rara exposição de um conhecido pintor clássico.
Eu e um outro colega havíamos convencido uma personalidade com quem viajávamos, numa deslocação oficial, da importância de não perdermos a oportunidade de ver reunido o essencial da obra desse grande artista da segunda metade do século XIX.
Louvando embora a ideia do "détour" que fazíamos, de carro, para visitar a exposição, a figura em causa tinha-nos explicado, ao longo do trejeto, que era muito mais dada à apreciação da arte contemporânea, aos novos modelos criativos, das instalações aos trabalhos em vídeo.
Às nossas dúvidas e à confissão da dificuldade de, por vezes, sermos sensíveis a algumas dessas ousadas expressões artísticas, essa pessoa contrapunha o seu pensamento cheio de contemporaneidade, com um intenso e esmagante "name-dropping" de criadores. Ao ouvi-la, verificámos que estávamos perante assinalável especialista.
E caminhavamos já para o museu, idos do parque de estacionamento, comentando à distância uma óbvia escultura de Moore, quando eu fiz notar:
- Conhecem os trabalhos de Rooney Kindley? É uma canadiano que está a ter imenso sucesso. É pouco conhecido na Europa, embora já tenha coisas no MoMa. Aquela peça, ali adiante, parece-me dele, disse eu apontando para um modelo de contentor pintado num forte azul, pousado sobre uma plataforma.
- Nunca tinha ouvido falar nele, disse a nossa personalidade. Nas vanguardas alemãs, que conheço melhor, há muito quem se dedique à criação deste género de objetos, como reproduções criativas de elementos extraídos do quotidiano, trabalhando-os na cor e nas vertentes de espaço. Este, aliás, parece-me bastante interessante, pela ligação do equilíbrio volumétrico e dos tons impositivos, que, no seu conjunto, provocam um contraste curioso com a paisagem. Por isso, necessitam, como aqui se consegue, de ter um cenário bastante aberto para a obra poder "respirar", permitindo distâncias para múltiplos ângulos de visualização. Como é que você disse que se chama o artista?
Fiz um sorriso irónico e esclareci:
- Esqueça! É apenas um contentor. Inventei o resto...
Durante o resto da viagem, o nosso homem nunca mais me olhou direito.
Indignações.com
Recebo, com regularidade, mensagens indignadas de leitores, pelo facto de eu não abordar, em intervenções nas redes sociais, situações e temas que a eles os indignaram. No fundo, pede-se que eu partilhe, talvez para as amplificar, as suas indignações.
Nas últimas horas, fui zurzido, em mensagens no Facebook e em comentários quase insultuosos para o blogue, pelo facto de me deter aqui em “episódios grotescos”, como alguém “ter garrafa” num bar, ou fazer notas gastronómicas e incluir fotografias de iluminações de Natal, passando ao lado do assassinato do general iraniano ordenado por Trump ou das agressões a profissionais de saúde.
Entendamo-nos: isto não é um órgão de comunicação social, é um espaço privado de escrita. Se, de momento, nada tenho a dizer sobre a criança maltratada nas urgências de um hospital privado ou sobre o cidadão cabo-verdeano assassinado em Bragança, isso não significa que não esteja indignado com esses factos. Apenas revela que não tenho nada de relevante a dizer sobre isso e não quero massacrar o leitores com platitudes adjetivadas.
Escrevo para dizer aquilo que muito bem me apetece, como e quando me apetece. E vou mais longe: só por infeliz acaso o que escrevo coincidirá com os estados de alma de quem por aqui passa o tempo a indignar-se, com tudo e com todos.
sábado, janeiro 04, 2020
Júlio Castro Caldas
Já o não via há muito tempo e, em especial, havia notado a sua falta ao almoço em que, há uns tempos, juntei em minha casa aquilo a que chamo o “grupo dos nove e meia“ - essa tertúlia “do bem”, para refletir sobre país, que, sob o estímulo de Miguel Lobo Antunes, reuniu por vários anos, às nove e meia da manhã (não conheço outras tertúlias matutinas), na Culturgest, tendo publicado alguns textos coletivos, ainda consultáveis aqui. O Júlio foi um dos últimos membros a aderir ao grupo, mas a sua participação, num estilo que lhe era muito próprio, era sempre muito informada e animada. Na fotografia dos membros dessa tertúlia, Júlio Castro Caldas é o único que se vê de casaco.
Um dia, numa conferência de imprensa no fim de um Conselho Europeu, nos anos 90, um jornalista perguntou a António Guterres se já tinha nomes para uma remodelação do governo de que toda a gente falava. Guterres disse que nomes não faltavam, se quisesse fazer uma mudança e exibiu um pequeno retângulo de papel com coisas rabiscadas. Eu estava ao seu lado e, quando ele pousou o papel sobre a mesa, saltou-me à vista a sigla JCC. Quando nos íamos a levantar, ousei perguntar-lhe: “Está a pensar no Júlio Castro Caldas?”. Notei que Guterres ficou um tanto surpreendido, e talvez desagradado, com a minha “espionagem” e pouco adiantou. Eu tomei nota da sigla.
A remodelação acabou por ter lugar e Castro Caldas não entrou no governo. Passaram uns meses e, um dia, vi Júlio Castro Caldas assumir o ministério da Defesa, pelo que concluí afinal tinha razão. Foi já com o novo ministro que, tempos mais tarde, me desloquei, em substituição de Jaime Gama, a uma reunião ministerial da União da Europa Ocidental (UEO), creio que em Bruxelas, tendo estabelecido com ele uma excelente relação. Lembro-me, meses depois, de ter estado com o Júlio, a convite de António Guterres, num almoço restrito com Mikhail Gorbachev, em S. Bento. Depois de sair do governo, fui para o estrangeiro, perdemo-nos de vista e só nos voltaríamos a reencontrar nessa tertúlia da Culturgest.
Júlio Castro Caldas era uma figura muito cordial, que rapidamente tratava as pessoas por tu, como comigo sucedeu, desde o primeiro momento. Além de ser um advogado de primeira linha, era um homem que gostava da vida e dos amigos. Tinha sempre histórias magníficas, sabia de factos que ninguém mais sabia, era intenso e definitivo na apreciação das coisas do mundo e da vida. Vida e mundo de que agora se despediu.
Ter garrafa
”Quer a sua garrafa?” perguntou-me ontem o dono do restaurante, quando eu escolhia o que ia almoçar. “Tens garrafa aqui?”, inquiriu um amigo, na minha mesa.
Estávamos em Vila Real. A garrafa era de vinho. Era a metade que tinha ficado do meu almoço do dia anterior, também por ali. A pergunta do meu amigo, contudo, trazia água no bico, comportando uma ironia que se ligava a tempos noturnos antigos, que ele também partilhara, lá por Lisboa.
“Ter garrafa”, há muitos anos, era um estatuto, em alguns bares. As garrafas a que o conceito se referia eram de whisky. Os “habitués” ”tinham garrafa”, com o seu nome manuscrito no rótulo. Compravam-na ao próprio bar, a um preço bastante mais elevado do que o preço do mercado, mas, ainda assim, compensando face ao somatório de todas as doses individuais de uma garrafa.
Mas o importante, nesta história de “ter garrafa”, era o estatuto: “Ó Meireles, passa-me aí a garrafa do senhor engenheiro”, pedia o empregado das mesas ao Meireles ou a qualquer outro Meireles que estivesse por detrás do balcão. Isto era dito em voz bem alta, com o “senhor engenheiro”, cujo nome nem sequer necessitava de ser explicitado, a ser o alvo dos olhares circundantes. Por essa simples frase, ficava-se a perceber que o “senhor engenheiro” era um cliente regular da casa, porque só esses podiam “ter garrafa”. Nos “bares de piquenas”, a posse de uma garrafa dava um sainete das arábias.
No Procópio, o único bar onde “tive garrafa”, ainda no longínquo consulado do Juvenal, um dos mais históricos barmans de Lisboa e um bom amigo, a coreografia era bem mais discreta, nunca com vozes alteadas para a plateia. Verdade seja que o Procópio nunca foi um “bar de piquenas”, muito longe disso! No meu caso, era apenas uma maneira de poupar algum dinheiro, nesses tempos em que os meus trigliceridos não se ressentiam dos excessos. Mas, ao que me recordo, acabei por só ter por ali uma única garrafa, que rapidamente se foi...
Ontem, por coincidência, à saída do restaurante, calhou passar perto da casa onde viveu o “Antoninho do Talho”, um abastado industrial de Vila Real, com interesses que iam muito para além das carnes, mas que também as incluíam, bem como aos respetivos pecados. Na minha juventude, a sua imagem de “bon vivant” era prestigiada por um rumor nunca confirmado: “O Antoninho do Talho tem garrafa do Pasapoga!”, sendo este, ao tempo, o cabaret mais famoso de Madrid. É tarde para testar se isso tinha fundamento, se acaso o facto interessasse para alguma coisa, salvo para ilustrar esta historieta.
sexta-feira, janeiro 03, 2020
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Carol
Era uma senhora alta, com pouco mais de 60 anos, de uma beleza que se percebia ter sido esplendorosa e uns olhos verdes sem idade. Conheci-a...















