sexta-feira, julho 26, 2013

Ele aí está!

Ele explicou. Olhar frio, como se falasse de Saturno. Mas era de Portugal que ele falava. As coisas, para ele, eram muito claras. E "simples". Em linhas gerais, o nosso défice tinha três componentes: o serviço da dívida pública (isto é, o pagamento dos juros), os gastos correntes do Estado (em especial, os custos salariais da função pública) e as pensões de reforma. Ele esclareceu: o pagamento dos juros é incontornável, porque disso depende a nossa credibilidade externa; no caso da função pública, há limitações constitucionais para a sua redução e uma frente sindical que faz com que seja bastante elevado o custo político para impor mudanças com impacte quantitativo significativo; restam, assim, as pensões, área em que "forçosamente" terão de incidir os principais cortes. Não pode deixar de ser tido em conta o facto de se tratar de "uma categoria social com fraca capacidade reivindicativa", o que "compreensivelmente" converte os pensionistas no "alvo prioritário natural" para a redução da despesa pública. E ele disse mais. Sobre quão importante seria se pudesse haver mecanismos ("não constrangentes", concedeu) que fizessem com que muitas das pessoas reformadas se convencessem a regressar "à província", de onde grande parte delas é originária, onde o custo de vida é mais baixo e "mais compatível com as novas e mais reduzidas reformas que forçosamente passarão a ter no futuro". Para concluir, ele também disse: "faço parte de uma geração que não tem receio de dizer alto que não está disponível para pagar o preço de ter de sustentar as reformas que o atual sistema criou". Agora, ele aí está!

quinta-feira, julho 25, 2013

Eduardo Fortunato de Almeida

As ocasiões fazem os homens. Um dia de 1968, Mário Soares foi deportado para S. Tomé pela ditadura, já no estertor salazarista. Um jovem oficial do Exército, Eduardo Fortunato de Almeida, em serviço na colónia, procurou o político e afirmou-lhe a sua solidariedade. Mário Soares não esqueceu o gesto e registou-o. Anos mais tarde, na primeira vez que conheci Fortunato de Almeida, expressei-lhe a minha admiração por essa atitude de grande dignidade e algum risco. Falámos algumas vezes, a partir de então, nomeadamente no quadro de iniciativas que envolviam publicações a que esteve ligado.

Já o não via há mais de uma década. Acabo de saber que Eduardo Fortunato de Almeida morreu. Com justiça, das notas necrológicas a seu respeito faz parte o episódio atrás referido. É que certas ocasiões definem um homem.

Papel apanhado do chão

"Este governo, que agora se apresenta remodelado perante os portugueses, tem mais ministros do que antes. Só posso lamentar a opção que fiz, em 2011, ao criar um executivo muito pequeno. Tenho de reconhecer que tinham razão todos quantos, à época, consideravam tal modelo insensato e impraticável. Sou também responsável pela decisão, que hoje constato que teve bastante maus resultados, de criar dois "mega-ministérios", unidades que se verificou não serem geríveis, política e tecnicamente.  Durante estes dois anos, várias outras coisas não correram bem no tocante ao modelo do nosso governo, pelo que entendi ser chegado o momento de as corrigir. Assim, de retorno à lógica tradicional, o Emprego voltou ao lugar de onde nunca devia ter saído, isto é, junto com a Segurança Social e com o Trabalho. Não nego que pode ter havido algo de ideológico nesta nossa opção, mas os factos foram mais fortes e mostraram que ela era profundamente incorreta. Com o tempo, também ficou claro que não foi adequado colocar o Ambiente juntamente com a Agricultura, tal como a Energia no seio da Economia. A nossa inexperiência - porque é disso que se tratou, há que assumi-lo - levou-nos a cometer esses erros, de que agora sinceramente me penitencio perante o país. Uma última nota para a AICEP. Uma má avaliação fez também com que pensássemos que a tutela da diplomacia era o lugar certo para esta agência. Novo erro! Ao final destes dois anos, chegámos à conclusão que o seu lugar natural é sob o "chapéu" da Economia, embora articulada com o MNE, como já antes acontecia. Peço assim perdão aos portugueses pelo facto de ter feito este conjunto de más avaliações, que fizeram perder tempo ao país e afetaram seriamente a capacidade de execução das políticas do governo. Vamos agora tentar corrigir o que fizemos de errado. Mas, repito: uma palavra especial de desculpas é devida a quantos, em especial nos partidos da oposição, mas também em setores da maioria, me alertaram então para a inconveniência de tais decisões. Não lhes dei ouvidos. Fiz mal, reconheço."
  
Um papel com o texto acima publicado caiu há pouco de um automóvel, junto à calçada da Estrela. Parei o meu "Smart" e apanhei-o, movido pela curiosidade. À primeira leitura, fui levado a suspeitar de que se tratava de parte do discurso que o primeiro-ministro iria fazer esta semana, aquando da apresentação do novo governo na Assembleia da República. Mas, no segundo seguinte, pensei melhor: nós estamos em Portugal! Nenhum primeiro-ministro - de direita, centro ou esquerda - confessará, alguma vez, que se enganou. Ou, para usar uma expressão de um antigo chefe do governo, "arrepender-se é errar duas vezes". É isso: estamos em Portugal...

quarta-feira, julho 24, 2013

Associações

Embora Dennis Farina, que agora morreu, tivesse uma longa carreira no cinema e na televisão, o meu olhar de distraído e pouco cultivado cinéfilo ligaram-no para sempre à figura do tenente Mike Torello, na série "Crime Story", que fazia as minhas delícias nos idos de 80.

Embora Del Shannon tivesse muitos outros sucessos musicais na sua carreira, a verdade é que, para mim, o seu nome surge sempre associado a um grande tema de culto que é "Runaway", escrito nos anos 60.

Ora a série televisiva "Crime Story" escolheu uma versão do "Runaway" para seu principal tema musical, razão pela qual, sempre que vejo uma foto de Farina/Torello, essa música me vem de imediato à memória.

Ouçam aqui o "Runaway" na versão de apresentação da série ou aqui numa versão mais clássica.

Cargos

Rui Machete, que hoje entrará no governo como ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, assume, com este seu regresso, uma atitude muito rara na política portuguesa: ocupar um lugar inferior a outro já exercido na orgânica institucional do Estado. É que Machete foi já vice primeiro-ministro, num governo do "bloco central". Posso estar enganado (e não tenho à mão meios para confirmar esta ideia), mas iria jurar que, na historia política pós-25 de abril, só Freitas do Amaral passou por uma situação idêntica, quando entrou para o governo socialista, em 2005.

Contrariamente ao que sucede em alguns países, em Portugal raramente se vê alguém "baixar" de posição. Em França, Laurent Fabius e Alain Juppé foram ministros dos Negócios Estrangeiros depois de terem sido primeiros-ministros. Nos governos italianos, Andreotti teve vários cargos ministeriais, depois de chefiar o executivo.

Em Portugal, pelo contrário, só se "sobe". O que torna mais simpática a atitude de Rui Machete, a quem, a título pessoal, envio um abraço de parabéns e votos para que saiba e possa conduzir a bom porto uma "casa" da qual pode sempre esperar grande profissionalismo, uma inexcedível lealdade institucional e um raro espírito de serviço público. Aliás, ele sabe isso bem, porque por lá já passou como secretário de Estado, há muitos anos. 

terça-feira, julho 23, 2013

Comentários

Alguns amigos têm-me falado da dificuldade ao colocarem comentários no blogue, falando de um "percurso" complicado, com diversas exigências, em que por vezes se "perdem". 

Eu sou um "nabo" nestas questões informáticas mas julgo poder informar que a maneira mais simples para alguém colocar um comentário é escolher a opção "anónimo" (eventualmente, escolhendo essa opção no quadro "Comentar como"), escrevendo ou não o seu nome no termo do texto, e carregando depois em "Publicar o seu comentário". 

O texto será publicado depois de visualizado pelo proprietário do blogue. Este reserva-se naturalmente o direito de recusar comentários cujo conteúdo possa ser considerado ofensivo (quase sempre mais para terceiros do que para o autor do blogue, como já devem ter percebido) ou que passe pela utilização de um léxico menos próprio. 

Profissionalismo real

A operação mediática em torno do nascimento de um novo príncipe britânico, a exemplo do que ocorreu com o casamento de seus pais ou com o "jubileu" da raínha, está a ser feita com um imenso mas já tradicional profissionalismo. Se o interesse dentro do país é natural, acompanhado do "merchandising" de regra, já a exportação intensa, um pouco por todo o mundo, deste "glamour" acaba por ser muito curiosa, pelo facto de conseguir mobilizar, durante semanas, jornais, revistas e televisões de culturas muito diversas e nada similares à britânica.

O que será que torna a coroa britânica mais apelativa, face aos seus congéneres? Seria muito interessante fazer uma análise deste fenómeno, que leva a que a coroa londrina suplante, a grande distância, qualquer dos seus pares europeus. Ainda há dias, verificámos que a transmissão de poder real na Bélgica, tal como há semanas ocorrera no caso holandês, quase que passou despercebida, tal como o nascimento de um príncipe sueco ou luxemburguês apenas suscita algumas modestas linhas. Dir-se-ia que só as coroas monegasca e espanhola conseguem concitar algum interesse similar, mas sempre a uma imensa distância do caso britânico.

É claro que, nas últimas décadas, quase todas as coroas tiveram de viver, lado a lado com estes fatores simbólicos de sedução, com a revelação de crises familiares que as ensombraram, que vieram a provar (o que já ocorria, mas era um pouco disfarçado) que, afinal, a vida das realezas sofre dos mesmas problemas da do comum dos mortais - com os seus dissídios, traições, divórcios, corrupção e coisas análogas. Essa circunstância, se bem que algo debilitante do caráter "mágico" das coroas, pode contudo ter servido como um fator de aproximação da existência da coroa à vida vulgar de cada um de nós. No caso britânico, o fenómeno Diana trouxe mesmo uma figura com um final trágico a esta saga familiar.

Dito isto, só cabe desejar longa vida ao novo príncipe e, provavelmente, futuro chefe do Reino Unido da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, bem como chefe da Comunidade britânica. 

segunda-feira, julho 22, 2013

Que há-de ser de mim?

Afeganistão, 2013

"Deixem-nos trabalhar!"

Foto de MFPLCB

... e logo verão!

O Sporting ganhou ontem a Taça de Honra.

"Desassa!"

Lá pela minha terra, por Vila Real, havia em tempos um homem bastante forreta, que era conhecido por aproveitar todas as "borlas" que se lhe ofereciam. Um dia, estava à porta de casa, esperando a hora do jantar. A mulher tinha acabado de ir para a cozinha, dizendo que ia assar uma carne. Entretanto, um amigo passou pela rua e convidou o nosso homem para ir comer uns petiscos lá a casa. Entusiasmado, gritou para a mulher, uma frase que ficou famosa:

- Ermelinda! Desassa!

Ontem, ao ouvir o presidente da República, lembrei-me desta historieta. Porquê? Sei lá!

domingo, julho 21, 2013

Uma janela em Belém


O telefone do Rato


Renovação

Leio que Honório Novo, deputado do PCP, vai abandonar as lides parlamentares e ser substituído por uma colega mais jovem, regressando à sua profissão de professor. Os comunistas, mais do que qualquer outro partido, mantêm esta regra de jogar livremente com as unidades do "coletivo", numa leitura muito própria do sistema de representação parlamentar.

De há muito que conheço Honório Novo. Conversámos e divergimos sobre a Europa (mais nesses tempos do que hoje), tivemos mesmo um debate televisivo a dois muito vivo, ao tempo em que ele era parlamentar europeu e eu andava pela vida política. É um homem que estuda muito bem os dossiês, que usa uma argumentação forte, por vezes contundente, mas sempre com um quantum satis de saudável ironia. Sei que deixa uma imagem de seriedade e competência entre os seus colegas. É um amigo que, com pena, mas também com democrática naturalidade, vejo abandonar as bancadas de S. Bento.

Um abraço, caro Honório. Ver-nos-emos um destes dias pelo nosso norte. Quase que se pode dizer que você e o Gaspar passam agora a ter mais tempo um para o outro. Embora alguns portugueses desconheçam que Gaspar é (apenas) o nome do seu gato. 

'The powder room"

Uma cena do filme sobre Margareth Thatcher, na qual, depois de um jantar, as senhoras presentes são convidadas delicadamente a saírem, deixando os cavalheiros sozinhos, a fumar um charuto e a beber alguns álcoois fortes, trouxe-me ontem à memória uma cena passada, há umas décadas, numa embaixada portuguesa num país nórdico.

Tinha sido um jantar em "smoking" e vestido longo, com o qual o novo embaixador quisera ter um gesto elegante de cortesia para com algumas das personalidades locais que o haviam acolhido nesses primeiros meses, desde a sua chegada. 

Tudo correra a preceito e o ambiente, no final do jantar, era distendido e alegre. A primeira ronda de cafés fora servida. Forte da sua experiência em países anglo-saxónicos, o diplomata iniciou o ritual:

- Minhas senhoras, convido-as a passarem ao "living". "And the powder room is over there", - disse, apontando para a porta e na direção da casa de banho das visitas, que o embaixador cuidara em ter bem equipada, com escovas, perfumes e tudo quanto presumia necessário para as senhoras "retocarem" a sua aparência, depois da função gastronómica, enquanto aguardariam que os cavalheiros se lhes juntassem.

Mas estava-se num país nórdico. A maioria das senhoras não tinha a menor intenção de deixar os companheiros numa tertúlia masculina. Algumas, contudo, ainda anuíram por gentileza ao convite e fizeram menção de se levantar, mas outras permaneceram no seu lugar e reagiram de uma forma que desarmou o anfitrião:

- "Powder room"? Nem pensar! Eu vou ficar aqui! E, se o senhor embaixador não se importa, vou beber um cognac!

Uma outra disse mesmo que, pensando bem, lhe estava a apetecer um charuto e um "scotch". Outra, ainda, que vivera uns anos entre nós, pediu um Porto.

Toda a sala sorriu. E quem se havia levantado voltou a sentar-se. O embaixador tomou consciência, nesse instante, que tinha entrado num mundo diferente. E também noutro tempo, no modo como os homens e mulheres se comportam socialmente, de forma mais igualitária. Aquele seria o último jantar em que, por ali, as senhoras seria convidadas, no fim de um jantar, a passar pelo "powder room"...

sábado, julho 20, 2013

Livros

Distraído com outras coisas, dou-me hoje conta que a "Sá da Costa", a histórica livraria do Chiado, vai fechar nas próximas horas. Sinto-me especialmente triste pelo facto? Nem por isso, exceto na medida em que o encerramento de uma livraria é sempre uma machadada no património cultural.

Recordo, bem jovem, entrar naquele ambiente escuro e sentir, com alguma incomodidade, as conversas da tertúlia idosa que abancava no local suspenderem-se com o surgimento do intruso. Por alguns anos, a "Sá da Costa" intimidava-me, criava-me um certo desconforto, o que me levava a ser um visitante esporádico. Em certas alturas, tinha a sensação de que faziam um favor ao venderem-me algum livro. Nos últimos tempos, sentia, por vezes, alguma curiosidade em entrar naquele espaço decadente apenas para apreciar a estranha mescla de volumes que compunha as mesas laterais de entrada: "best sellers" misturados com obscuras edições de autor, estudos microscópicos sobre temáticas raras junto a volumes para turistas, prolongando a especiosa escolha que era feita nas duas montras. 

Nunca percebi a "Sá da Costa", a sua lógica e a sua filosofia. Reconheço que o defeito deve ser meu. E deve ser o mesmo que fez com que não tivesse sentido muito o fim da vizinha "Diário de Notícias" ou da "Portugal". Ou que me faz ser algo "neutral" face à "Bertrand", que apenas reconheço fazer parte da identidade da zona, hoje transformada numa espécie de Algarve lisboeta. Por mim, guardo saudades livreiras do Chiado apenas para a "Moraes" e para a "Opinião".

sexta-feira, julho 19, 2013

Equação

1. O ministro de Estado e das Finanças demite-se.
2. O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros demite-se.
3. Os mercados internacionais reagem muito mal à crise no seio do governo.
4. O primeiro-ministro anuncia ao país que a crise no governo foi superada e que propõe ao presidente da República uma remodelação do executivo.
5. O presidente ignora a proposta de remodelação e pede que os partidos do governo, com o principal partido da oposição, o Partido Socialista, procurem um entendimento programático.
6. O Partido Socialista aceita dialogar com os partidos do governo.
7. Os partidos encontram-se durante uma semana, anunciando, no final, que não foi possível chegarem a um acordo.
8. A culpa da crise de governabilidade em que o país fica é do Partido Socialista.

Fácil e claro, não é?

Algarve

Para o imaginário português (e não só), Algarve em julho (e agosto) é sinónimo de férias.

Há exceções. Eu fui uma delas. Por pouco mais de 24 horas, estive no Algarve, mas em trabalho. Com um tempo fabuloso, lá vi o mar. Mas ao longe.

quinta-feira, julho 18, 2013

FHC

Fernando Henrique Cardoso, que por dois mandatos foi presidente do Brasil, abrindo depois caminho ao presidente Lula, esteve alguns dias em Lisboa. Muito respeitado internacionalmente, é uma personalidade que honra o seu país, em cuja história democrática tem um lugar destacado. Tive o gosto de o encontrar, em excelente forma e bem disposto, no passado fim de semana, durante um almoço de amigos.

Ser uma figura pública tem, por vezes, o condão de proporcionar episódios curiosos. FHC, como é conhecido no Brasil, contou-nos duas histórias deliciosas.

A primeira foi passada numa rua de uma capital sul-americana, onde se deslocara, vários anos decorridos após a sua saída de funções. 

Um casal, ainda jovem, olhava para ele fixamente. Tinham ar de turistas, pelo que deduziu que fossem brasileiros. Não se enganou, ao ouvir o cavalheiro dirigir-se-lhe em português:

- Eu conheço-o! Deixe-me ver...

O presidente estava divertido com a hesitação dos seus compatriotas. Foi então que a senhora se decidiu:

- Já sei! O senhor trabalha na "Globo"! Não é isso?

- Trabalhava! Agora já não apareço mais na "Globo". O meu contrato acabou...

A segunda historieta é mais recente. Passou-se num elevador onde FHC seguia. Entram duas senhoras. Ambas o fitam. Uma delas, após alguma hesitação, pergunta:

- Desculpe! Não é o Fernando Henrique Cardoso?

O antigo presidente decidiu brincar um pouco:

- Não, esse é o meu irmão...

Ao que outra comentou:

- Pois é! O senhor é bem mais velho que ele!

quarta-feira, julho 17, 2013

O MES ainda anda por aí?

Foi um partido cheio de ambições. (Alguns não perceberão, outros não concordarão, muitos sabem "onde eu quero chegar" quando afirmo que as suas mais importantes ambições foram realizadas). Criado em 1974, dissolveu-se, "na boa", em 1981. Com uma jantarada, como deve ser!

Por ele passaram um presidente da República, vários ministros, um líder da oposição, muitos secretários de Estado e outros políticos, reitores e professores universitários, altos magistrados, embaixadores e várias figuras com saliência na sociedade portuguesa contemporânea.

Lembrei-me ontem do MES, ao ver Alberto Martins como negociador do "acordo de salvação nacional", exercício a cujas conversações assiste, em representação de Belém, David Justino. Para quem não saiba, ambos foram antigos militantes do MES.

Isto não quer dizer nada? Talvez não, mas não deixa de ter alguma graça.

Uma outra esquerda

A democracia portuguesa tem alguns fenómenos curiosos.

Um deles, bem conhecido, é o Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV), uma formação na qual nunca ninguém votou diretamente em qualquer eleição, porquanto aparece sempre incluída numa "frente", que em tempos já se chamou APU e que agora se designa por CDU, onde o PCP é, sem surpresas, o partido dominante. O aproveitamento constitucional de uma "quota" de representação política, que permite a criação de um outro grupo parlamentar, duplica assim os tempos de palavra e, como agora se vê, garante que, no âmbito da mesma CDU, possam ser suscitadas duas moções de censura. Durante muitos anos, o PEV tinha como face mais visível a minha amiga Isabel de Castro. De há já algum tempo para cá, é a inconfundível voz de Heloísa Apolónia que passou a fazer parte do património sonoro do nosso parlamento.

A mais enigmática formação neste âmbito é, porém, a "Intervenção Democrática", uma estrutura política cuja visibilidade e atividade quotidiana mereceria, estou certo, ser estudada numa tese de doutoramento. Desde sempre dirigida por um homem simpático, com quem tenho uma relação bem cordial, Corregedor da Fonseca, surgiu como que uma espécie de herdeiro do MDP-CDE, esse "alter ego" ou "compagnon de route" dos comunistas, que chegou a ganhar um lugar na história político-partidária portuguesa. Até 1988, a ID (é esta a sigla de uma formação a cujos comícios os portugueses nunca terão o privilégio de assistir) teve um grupo parlamentar e tudo. Desde então, surge apenas sazonalmente, numa espécie de "troika" com o PCP e o PEV no seio da CDU, criando a ideia de que forma uma aliança política, de incidência eleitoral, fruto da laboriosa conjugação dos três programas.

Se estas três organizações - PCP, PEV, ID - se mantêm independentes, uma lógica de razoabilidade deve levar-nos a pensar que têm doutrinas e programas próprios, os quais, tendo necessariamente pontos comuns que justificam a permanência da "aliança", também têm, com certeza, divergências que justificam a sua existência autónoma. Ora esse é, para mim, o grande mistério. Em que pontos se afastam? Qual a sua idiosincrasia própria? Que conflitos ideológicos alimenta a ID com o PC? Em que se opõe o PEV ao PCP? Que temáticas dividem "Os Verdes" da ID?

Estas são dúvidas com que vivo há anos. Serão bem-vindos comentários que me ajudem a atenuá-la. 

"Pas mal"...

A vista do meu lugar, na mesa de um almoço hoje, era esta. "Pas mal!"