Distraído com outras coisas, dou-me hoje conta
que a "Sá da Costa", a histórica livraria do Chiado, vai fechar nas
próximas horas. Sinto-me especialmente triste pelo facto? Nem por isso, exceto
na medida em que o encerramento de uma livraria é sempre uma machadada no
património cultural.
Recordo, bem jovem, entrar naquele
ambiente escuro e sentir, com alguma incomodidade, as conversas da tertúlia
idosa que abancava no local suspenderem-se com o surgimento do intruso. Por alguns anos, a
"Sá da Costa" intimidava-me, criava-me um certo desconforto, o que
me levava a ser um visitante esporádico. Em certas alturas, tinha a sensação de que faziam um favor ao venderem-me algum livro. Nos últimos tempos, sentia, por vezes, alguma curiosidade em entrar naquele espaço decadente apenas para apreciar a estranha
mescla de volumes que compunha as mesas laterais de entrada: "best
sellers" misturados com obscuras edições de autor, estudos microscópicos
sobre temáticas raras junto a volumes para turistas, prolongando a especiosa
escolha que era feita nas duas montras.
Nunca percebi a "Sá da Costa", a sua
lógica e a sua filosofia. Reconheço que o defeito deve ser meu. E deve ser o
mesmo que fez com que não tivesse sentido muito o fim da vizinha "Diário
de Notícias" ou da "Portugal". Ou que me faz ser algo
"neutral" face à "Bertrand", que apenas reconheço fazer
parte da identidade da zona, hoje transformada numa espécie de Algarve
lisboeta. Por mim, guardo saudades livreiras do Chiado apenas para a
"Moraes" e para a "Opinião".
