sexta-feira, dezembro 10, 2010

No reino de Sherwood

Ponderando embora, com indulgência e simpatia, os corporativos argumentos que apresentei sobre o caso WikiLeaks, o meu amigo e deputado europeu Miguel Portas, com a sua compreensível, mas não convincente, vertigem jornalística, considera hoje, no "Sol", que Julian Assange é uma espécie de "Robin dos Bosques", destas novas eras do reino de sombras da informação.

Não tenho a autoridade moral de um frei Tuck ou a autoridade física de Little John para me colocar ao lado de Assange, mas, diga-se, também não sinto o tropismo do sheriff de Nottingham para o meter na cadeia. A menos que as queixas de Lady Marian e das suas amigas, sobre os alegados arroubos agressivos da personagem, tenham algum fundamento.

Françafrique

Foi simplesmente notável o documentário, de que a "France 2" ontem apresentou a primeira parte, dedicado à "Françafrique" - essa relação complexa da França com as suas antigas colónias africanas. 

Desde o final dos anos 50 à atualidade, o elaborado sistema de articulação entre a antiga metrópole e os novos países africanos, com as ligações pessoais e o tecido de dependências económicas, ficou exposto com clareza e frontalidade, apoiado em testemunhos credíveis e insofismáveis. Não é possível compreender a história contemporânea da França sem se conhecer esse magma, determinado por profundas razões de natureza estratégica.

Preso por ter cão...

A agência de notação "Moody's" colocou sob vigilância alguns bancos portugueses. O argumento foi a adoção de "medidas de austeridade por parte do governo e o seu impacto na qualidade dos ativos bancários".

Quererá isto dizer que, se não tivessem sido introduzidas as medidas de austeridade, o "rating" desses bancos se manteria? 

A economia cada vez se parece mais com a astrologia.

Craveiro Lopes (2)

A graça de um blogue está muito para além daquilo que um post acolhe. Às vezes, os comentários acabam por ter uma densidade própria e servir de valioso complemento informativo.

Em Agosto passado, publiquei um post sobre Craveiro Lopes (na foto, com a raínha Isabel II, em Fevereiro de 1957), que foi presidente da República entre 1951 e 1958. Ontem, um seu familiar juntou elementos interessantes, em jeito de comentários. A quem se possa interessar pelo assunto, recomendo uma visita aqui.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Haia ?

Foi há menos de 10 anos, em Sarajevo, a martirizada capital da Bósnia-Herzegovina. Era um jantar a que estava presente, como convidado e amigo do nosso representante diplomático, um membro do governo daquele país.

O equilíbrio político na Bósnia-Herzegovina, um país resultante da fragmentação da antiga Jugoslávia, é muito difícil, dado que, do executivo, fazem obrigatoriamente parte representantes de três diferentes etnias, com um complexo historial de conflito entre si: bósnios, croatas e sérvios. Não quero recordar a qual dos grupos étnicos pertencia o convidado local dessa noite.

O jantar tinha um carater relativamente informal, no jardim da residência. Como não podia deixar de ser, a conversa cedo derivou para a política.

A certa altura, veio-me à memória que, anos antes, numa das minhas visitas a Sarajevo, nos anos 90, tinha conhecido um membro do governo da Bósnia-Herzegovina, pertencente a uma dessas minorias. Era um homem agradável e cordial, com quem eu havia criado uma forte relação de simpatia. Voltaria a encontrá-lo mais tarde, por duas vezes, na Grécia, onde ambos tínhamos ido a convite pessoal de Georgios Papandreou, atual primeiro-ministro, de quem éramos amigos. Perguntei por esse antigo ministro da Bósnia-Herzegovina.

Notei que o nosso convidado ficou um pouco embaraçado, mas respondeu:

- Está na Haia.

Ao meu lado, uma pessoa menos dada a interpretar, com a rapidez da nossa profissão, este tipo de informações, perguntou:

- Como embaixador?

Não sei se fui eu que me adiantei ou se foi o ministro que esclareceu que "estar na Haia" significava estar detido sob ordem do Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia, que julga os crimes de guerra e que tem sede na capital dos Países Baixos.

Como dois diplomatas portugueses presentes bem se lembrarão, mudámos logo de conversa... 

Strauss-Kahn

A propósito da crise económico-financeira, o diretor-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, numa conferência em Genebra, afirmou que "a situação na Europa continua muito preocupante".

Aqui está um exemplo do que pode ser uma boa ajuda do FMI à imagem da economia europeia perante os mercados.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Lennon

Passaram ontem 30 anos sobre a data em que, como algumas vezes aconteceu na História, um louco matou um génio.

John Lennon foi, mais do que Paul McCartney, a grande figura dessa aventura musical sem par que foram "The Beatles". Eu sou dessa geração, já não pertenço à dos "Rolling Stones", que, a meu ver, ficam "anos luz" atrás dos "quatro" de Liverpool.

Porque não sou musicalmente sofisticado, revejo-me muito mais na simplicidade do tempo de "The Beatles" e muito menos no elaborado, embora sempre magnífico, Lennon posterior. Por isso, aqui fica o imortal "A hard day's night", um êxito de 64 da dupla Lennon-McCartney.

Mariza

A genialidade de Mariza foi premiada pela França, com a atribuição à cantora, através do meu colega francês em Lisboa, Pascal Teixeira da Silva, do grau de "Chevalier des arts et des lettres". 

Esta decisão do ministro da Cultura, Frédéric Mitterrand é um gesto que importa sublinhar. A voz de Mariza, bem como o nosso fado, já fazem hoje parte integrante do cruzamento de culturas que enriquece a diversidade francesa.

Para recordar a nova "cavaleira", aqui deixo o seu magnífico "Cavaleiro Monge".

terça-feira, dezembro 07, 2010

"Hard times"

No dia em que a revolucionária ideia do ex-futebolista Éric Cantona, de provocar uma corrida aos bancos franceses, se terá saldado por um  previsível insucesso, o centro cultural da Fundação Gulbenkian em Paris ouviu com atenção a palavra do vice-presidente do Banco Central Europeu, Vitor Constâncio.

Apresentado pelo presidente do BPI, Artur Santos Silva, Constâncio deixou claro que não parece haver espaço para uma reforma profunda do sistema financeiro internacional, atenta a continuidade previsível do dólar como principal moeda de referência. Contudo, o mundo entrou num novo tempo do processo de globalização e assiste-se hoje a uma sensível mudança do equilíbrio de poderes, favorecendo os países emergentes, que parecem fadados a anos de crescimento bem mais sustentado que o das economias dos mundo industrializado. Não obstante, o paradigma essencial do sistema de Bretton Woods não parece suscetível de ser subvertido.

No tocante à Europa, as perspetivas que Vitor Constâncio nos deixou, a médio e longo prrazos, em termos de crescimento económico, de saldo demográfico e de produtividade não foram de moldes a sossegar ninguém na sala, muito embora o conhecido europeísmo do orador procurasse dar uma nota de otimismo, na fase final da sua conferência.

Ao meu lado, o antigo diretor-geral do FMI e ex-presidente do BERD e do Banco de França, Jacques de Larosière, dizia-me, no final, que Constâncio "teve a coragem de ser realista".

Estes vão ser, de facto, "hard times", para utilizar a expressão de Dickens.

Acolhimento

Era uma Embaixada longínqua, não muito grande. O embaixador, acompanhado por toda a família, deslocava-se a Portugal uma única vez por ano, pelo que a sua partida e a sua chegada eram momentos marcantes na vida daquele posto.

Tradicionalmente, toda a embaixada se deslocava ao aeroporto, para se despedir. À chegada, repetia-se o mesmo tipo de presenças. Nessas ocasiões, quase por rotina, o embaixador, ao agradecer a deslocação do pessoal, deixava cair uma frase do género: "Mas para que se estiveram a incomodar?...". Via-se bem, contudo, o agrado com que aceitava o gesto coletivo.

Uma madrugada, o nosso embaixador regressava de Lisboa, depois de mais de um mês de ausência e, cumprindo a tradição, toda a Embaixada o esperava. Toda, não! O Albuquerque, o homem do arquivo, não aparecera, por uma qualquer razão.

O embaixador foi acolhido pelos funcionários, que saudou com simpatia. Como de costume, foi dizendo: "Ora essa! Então os meus amigos tiveram a maçada de vir ao aeroporto? Não deviam..." Um segundo volvido, lançou, para o encarregado de negócios: "O Albuquerque está bem de saúde?"

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Sobre a crise

Algumas vezes, a pontual notoriedade dos embaixadores só emerge por motivos que nós próprios bem dispensaríamos. Mas que, nem por isso, deixam também de ser a razão pela qual estamos em posto e nele nos compete defender a imagem e os interesses do país. É o caso de "prestações" televisivas como a que fiz, há dias, na BFM Business, o canal de televisão económico-financeiro, e, ontem, na LCI, uma espécie de SIC-Notícias francesa.

Como não podia deixar de ser, foi a difícil posição portuguesa no quadro da crise internacional que esteve no centro dessas duas aparições. No somátório de ambas, tive oportunidade de reiterar:

- a intenção do governo português de não recorrer aos mecanismos europeus de ajuda financeira;
- o carácter muito rigoroso das medidas orçamentais recentemente aprovadas;
- o facto dessa aprovação ter sido feita depois de um acordo que envolveu as duas principais forças políticas do país;
- o facto de, entre 2005 e 2007, já termos feito uma contração do nosso déficite de 5,9% para 2,8%, isto é, mais de 3% - a comparar com os 2% que nos propomos fazer entre 2010 e 2011;
- a realização atempada de uma profunda reforma no nosso sistema de segurança social, que lhe assegura condições de sustentação no tempo;
- a circunstância do nosso défice face ao PIB, da nossa dívida face ao PNB e da nossa taxa de desemprego não terem divergências dramáticas das médias europeias e, em especial, das de outros países que ainda aparecem poupados pelo nervosismo dos mercados;
- o anúncio de um ambicioso plano de privatizações entre 2011 e 2013, com impacto importante sobre a redução da dívida e, por consequência, sobre o peso do serviço da dívida no défice;
- o não sofrermos das "doenças" financeiras (estatísticas pouco fiáveis ou disfarçadas, "bolha imobiliária", crise bancária) que afetam outros países que também sofrem dificuldades de financiamento.
- os sinais positivos da nossa balança comercial recente.

Em ambas as entrevistas, foi-me colocada a questão, bem francesa, sobre se as medidas de austeridade aprovadas podem vir a gerar desregulações sociais difíceis de controlar. Embora sem poder prever o futuro, e não deixando de reconhecer que o desemprego e as dificuldades económicas conduzirão naturalmente a algumas situações de tensão social, fui de opinião que a experiência histórica portuguesa não aponta no sentido de convulsões com impactos políticos diretos.

Uma coisa tenho deixado claro: não alimentamos teorias conspirativas e entendemos que os mercados se movem pela raiz natural da sua lógica - o lucro, seja a que preço for. Teríamos gostado, no entanto, de ver a atitude desses mercados - e das agências de "rating" que, frequentemente, os antecipam - basear as suas avaliações em números e em factos, não em perceções algo impressionistas. Mas, provavelmente, isso seria querer demais.

domingo, dezembro 05, 2010

Carta de Paris

1.
Eu penso em você, minha filha. Aqui lágrimas fracas, dores mínimas, chuvas outonais apenas esboçando a majestade de um choro de viúva, águas mentirosas fecundando campos de melancolia,

tudo isso de repente iluminou minha memória quando cruzei a ponte sobre o Sena. A velha Paris já terminou. As cidades mudam mas meu coração está perdido, e é apenas em delírio que vejo

campos de batalha, museus abandonados, barricadas, avenida ocupada por bandeiras, muros com a palavra, palavras de ordem desgarradas; apenas em delírio vejo

Anaïs de capa negra bebendo como Henry no café, Jean à la garçonne cruzando com Jean Paul nos Elysées, Gene dançando à meia luz com Leslie fazendo de francesa, e Charles que flana e desespera e volta para casa com frio da manhã e pensa na Força de trabalho que desperta,

na fuga da gaiola, na sede no deserto, na dor que toma conta, lama dura, pó, poeira, calor inesperado na cidade, garganta ressecada,

talvez bichos que falam, ou exilados com sede que num instante esquecem que esqueceram e escapam do mito estranho e fatal da terra amada, onde há tempestades, e olham de viés

o céu gelado, e passam sem reproches, ainda sem poderem dizer que voltar é impreciso, desejo inacabado, ficar, deixar, cruzar a ponte sobre o rio.

2.
Paris muda! mas minha melancolia não se move. Beaubourg, Forum des Halles, metrô profundo, ponte impossível sobre o rio, tudo vira alegoria: minha paixão pesa como pedra.

Diante da catedral vazia a dor de sempre me alimenta. Penso no meu Charles, com seus gestos loucos e nos profissionais do não retorno, que desejam Paris sublime para sempre, sem trégua, e penso em você,

minha filha viúva para sempre, prostituta, travesti, bagagem do disk jockey que te acorda no meio da manhã, e não paga adiantado, e desperta teus sonhos de noiva protegida, e penso em você,

amante sedutora, mãe de todos nós perdidos em Paris, atravessando pontes, espalhando o medo de voltar para as luzes trêmulas dos trópicos, o fim dos sonhos deste exílio, as aves que aqui gorjeiam, e penso enfim, do nevoeiro,

em alguém que perdeu o jogo para sempre, e para sempre procura as tetas da Dor que amamenta a nossa fome e embala a orfandade esquecida nesta ilha, neste parque

onde me perco e me exilo na memória; e penso em Paris que enfim me rende, na bandeira branca desfraldada, navegantes esquecidos numa balsa, cativos, vencidos, afogados... e em outros mais ainda!

(Poema de Ana Cristina César (1952-1983), poeta brasileira)

sábado, dezembro 04, 2010

Debré

O nome Debré está fortemente associado à memória do gaullismo. Michel Debré foi primeiro-ministro do general e é considerado o "pai" da constituição da V República, que ainda hoje rege a vida política francesa.

Jean-Louis Debré, o actual presidente do Conselho Constitucional, é filho de Michel Debré e foi ministro do Interior do presidente Jacques Chirac, de quem é considerado uma das personalidades mais próximas. Do seu currículo consta igualmente a importante presidência da Assembleia nacional francesa.

Anteontem, num programa de rádio (e agora também de televisão) que, por vezes, raia o "politicamente incorreto" - o histórico "Grosses têtes", de Philippe Bouvard, de que já aqui falei - Debré foi entrevistado. Aí demonstrou como é possível conciliar a presença num lugar de responsabilidade institucional com o culto de um humor saudável, com uma liberdade de espírito de quem está de bem com a vida. Durante hora e meia, foi sujeito ao escrutínio irónico de grandes profissionais da "blague" e saiu-se desse exercício com garbo e "panache".

Além de outros livros, Jean-Louis Debré "ousa" ser escritor de romances policiais e possui uma graça refinada. Independentemente das ideias políticas que professam, confesso que me agrada ver as figuras políticas mostrarem-se capazes de sair para o mundo exterior e aproveitarem o melhor desse mesmo mundo.

Amaro da Costa

Adelino Amaro da Costa morreu há precisamente 30 anos, em 4 de dezembro de 1980, na queda do mesmo avião que vitimou o então primeiro ministro, Francisco Sá Carneiro.

Era ministro da Defesa do governo da Aliança Democrática e era considerado uma das mais brilhantes figuras da sua geração política. "Número dois" do Centro Democrático Social (CDS), era tido como o grande estratega da área conservadora portuguesa de então.

Foi agora publicada uma sua biografia, assinada pela sua irmã, Maria do Rosário Carneiro, e pela jornalista Célia Pedroso. Nela são acolhidos depoimentos de pessoas que privaram com Amaro da Costa, que o acompanharam desde os seus tempos de especialista em matéria de educação e de militante de grupos católicos até à sua ascensão ao poder político, passando pela difícil aventura que foi a implantação do CDS, no período posterior ao 25 de abril.

Não é uma biografia com a riqueza da que desenhou o percurso, pessoal e político, de Sá Carneiro, de que já falei aqui. Mas é um livro interessante - e até complementar do anterior - que ganha em ser lido no cruzamento com alguns outros testemunhos da época.

Na tese de quantos acham que o desastre de Camarate foi um atentado e não um acidente há uma quase certeza: o alvo seria Adelino Amaro da Costa e não Sá Carneiro, que apenas tomou a decisão de viajar no fatal avião muito pouco tempo antes. De acordo com essa leitura, o ministro da Defesa poderia estar a tocar em matérias sensíveis - desde a venda de armas a recursos financeiros confidenciais - que poderiam pôr em causa alguns importantes interesses. Será isso verdade? O livro fala do tema, mas não nos traz dados novos sobre o tema.

Pena é que a imagem de Portugal tenha ficado manchada pelo facto de nunca se ter conseguido provar, de forma incontroversa, as razões da morte de dois dos mais proeminentes políticos dessa época, bem como de seus familiares e outras pessoas. Entre os quais, aproveito para notá-lo, uma pessoa por quem tinha grande estima, António Patrício Gouveia.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Cimeira da OSCE

Na "Brasília do Casaquistão", Astana, teve lugar, em 1 e 2 de Dezembro, uma cimeira da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que reuniu os chefes de Estado ou governo (ou seus representantes) dos 56 Estados da organização.

aqui se falou, com algum pormenor, sobre a OSCE, nomeadamente à luz da experiência na presidência portuguesa, em 2002. Quem quiser ir um pouco mais além neste assunto, pode procurar também aqui.

Na sua história de cerca de 35 anos, a OSCE teve poucas cimeiras, uma das quais em Lisboa, em 1996, num momento importante do complexo percurso desta organização de segurança. Vale a pena notar que Portugal apoiou, desde o início, a pretensão do Casaquistão de assumir esta presidência anual e, mais tarde, a própria organização desta cimeira. 

Muitos se interrogaram sobre se haveria novas circunstâncias que justificassem que a OSCE fizesse agora uma cimeira - originalmente, as cimeiras deveriam ter lugar a cada dois anos, mas cedo se verificou que isso era algo insensato; não seria por acaso que há 11 anos elas não tinham lugar. Não estando maturadas as condições para promover novos saltos qualitativos em matéria de objetivos no seio da OSCE, atentas as profundas divergências que subsistem entre os seus Estados, houve quem legitimamente se perguntasse sobre se a realização de uma cimeira que viesse a terminar sem grandes resultados não seria mesmo contraproducente para a própria organização.

A importância específica desta Cimeira de Astana residia, a meu ver, no facto dela consagrar o culminar, não apenas uma inédita tentativa de mobilização da OSCE por um grande Estado da Ásia Central, mas, em especial, pelo facto de se tratar da primeira presidência anual exercida por um país "a leste de Viena" - como se costuma dizer no jargão da OSCE. A circunstância de caber a um antiga república soviética essa responsabilidade representava uma certa mudança de paradigma dentro da organização, por muito que, em termos práticos, pudesse não trazer algo de substancialmente novo no tocante às linhas divisivas que marcam, no essencial, as suas duas últimas décadas de história.

Lendo a "Declaração Comemorativa de Astana", acordada no dia 2 de Dezembro, constata-se que a "agreed language" ficou bastante perto da dos princípios constitutivos da OSCE, se bem que com dois ou três interessantes sublinhados de contemporaneidade. Deliberadamente, essa linguagem fugiu a encarar algumas das linhas mais divisivas no seio da OSCE, notando-se, por omissão, óbvias cedências mútuas. Era natural que assim acontecesse, até porque é ainda muito cedo para se poderem refletir na OSCE, em termos de segurança cooperativa, os possíveis efeitos do novo partenariado estratégico que ficou desenhado na cimeira da NATO, em 24 de Novembro, em Lisboa. Refiro-me, naturalmente, à posição russa. Aliás, o título do artigo que o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, publicou no dia 1 de Dezembro, no "Le Figaro", não deixava qualquer dúvida sobre o "estado da arte", na visão de Moscovo: "A OSCE deve deixar de dar lições". Por esse título, e por ora, a Leste nada de novo...

A OSCE vai assim fazendo o seu caminho possível, num ambiente geopolítico complexo e, por ora, ainda muito pouco claro. Realisticamente, há que concluir que talvez não possa fazer mais do que atualmente faz. Pode ser um defeito de perspetiva de quem andou pela organização, mas eu continuo a ter a sensação de que, se determinadas condições vierem a alterar-se, a OSCE pode ainda ter um papel importante em matéria de prevenção de crises e de geração de medidas de confiança, quem sabe se num cenário de "regionalização" de tarefas delegadas pela ONU. E quem sabe se, nesse contexto, não interessará especialmente a Moscovo revitalizá-la. A ver vamos.

Clima

Leio hoje que 2010 terá sido um dos três anos mais quentes desde 1850.

No meu tempo transmontano, no máximo de três em três anos, caía neve em Vila Real. Proporcionava "feriados" e garantia ao excelente fotógrafo Marius alguns postais ilustrados. Mas era uma raridade. Agora, praticamente todos os anos, as estradas nortenhas de Portugal são cortadas pela queda de neve.

Não conheço a relevância das "séries" estatísticas, não sou obcecado com o aquecimento global ou o buraco do ozono, mas uma simples leitura empírica diz-me que alguma coisa mudou, desculpem lá!

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Futebol

Foi pena que Portugal e a Espanha não tivessem obtido ganho de causa na sua candidatura à realização conjunta do Mundial de futebol. A posição consistente dos dois países no "ranking" mundial justificaria essa escolha e, tudo o prova, teria sido um fator com impacto positivo para a economia - por muito que os arautos do pessimismo e da descrença tenham, por antecipação, anunciado as tragédias que por aí vinham com uma eventual vitória.

Há, no entanto, dois pontos que - agora pode dizer-se - nunca me agradaram muito neste projeto. 

O primeiro era o flagrante desequilíbrio aceite pela autoridades federativas portuguesas na distribuição dos jogos entre os estádios de ambos os países.

O segundo - e admito ser um preciosismo da minha parte - foram as referências feitas à "candidatura ibérica".

"Ibéria" é um conceito que, na minha perspetiva, não rima nunca com a singularização política dos dois Estados que habitam a península. Não é por acaso que esse é o nome da principal companhia aérea espanhola.

Voos

Será que a confusão é minha?

A correspondência diplomática americana revelada pelo WikiLeaks refere-se, a certo passo, ao conhecimento dado às autoridades portuguesas, pelos seus homólogos americanos, de voos tendo como origem Guantanamo, levando a bordo detidos repatriados, sobre cujo futuro tratamento, nos países de destino, Portugal cuidou em pedir esclarecimentos, antes de dar autorização para a sua passagem por aeroportos nacionais.

O que eu não entendo é o que isso tem a ver com anteriores voos tendo como destino Guantanamo, que terão passado anos antes por Portugal, relativamente aos quais as autoridades portuguesas sempre afirmaram, sem que alguém tivesse conseguido provar o contrário, não terem sido informadas de que transportavam detidos? É que, sobre esses voos para Guantanamo, que eu saiba, não há uma única linha nos documentos do WikiLeaks.

Com tanta gente - em jornais, blogues e não só - a dar por certo de que se trata de uma e da mesma coisa, e nem sequer admitindo estar a haver má fé ou ignorância da parte de ninguém, só posso concluir que, afinal, devo ser eu quem está errado.

Ernâni Lopes (1942-2010)

Há dias em que um país entra de luto. Este deve ser um deles. A morte de Ernâni Lopes é uma perda imensa para Portugal, para a nossa lucidez, para o nosso patriotismo. É-o também para a nossa diplomacia, onde ele exerceu, com brilho muito raro, funções da maior importância, que ajudaram o país em momentos negociais delicados. É-o, igualmente, para a política portuguesa, onde a sua coragem e a sua visão souberam afrontar momentos de rara dificuldade.

Nas últimas duas décadas, cruzei-me bastante com Ernâni Lopes, que teve a simpatia de discutir abertamente comigo algumas coisas sobre a Europa em que ambos acreditávamos. E, também, sobre esse triângulo entre Portugal, o Brasil e a África, que tanto o entusiasmava e que ele desenvolvia nas iniciativas da SAER. Sobre alguns temas, nem sempre estive de acordo com a sua leitura das coisas, mas reconhecia nela uma genuinidade que era forçoso respeitar, pela seriedade que sempre lhe estava subjacente.

Longe de uma intimidade pessoal que nunca tivemos, reconciliei-me ao tratamento por tu que ele generosamente me impôs, como que a sublinhar a proximidade de algumas das ideias que partilhávamos. Recordo-me, muito em especial, os tempos que passámos juntos numa "task force" criada, em 2003, para assessorar o primeiro-ministro de então, na fase terminal do defunto Tratado Constitucional. Notava-se que o exercício estava a ser algo penoso para ele, a quem esse mesmo governo não tinha autorizado a apresentar, no termo da Convenção Europeia em que ele representara Portugal, e que lançara as bases desse malogrado tratado (inspirador, no essencial, do Tratado de Lisboa), uma declaração de voto em que, de forma frontal, clarificava o seu afastamento (e o que achava dever ser o de Portugal) quanto ao equívoco consenso que resultou do trabalho dos "convencionais". Talvez valesse a pena, para a história da nossa política europeia, conhecer-se, agora, o texto desse projeto de declaração de voto.

A palavra livre de Ernâni Lopes vai fazer muita falta a Portugal.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Caminhos para França

Há dias, num jantar em Paris, contei uma história de há quase 40 anos.

O Centro Nacional de Cultura, uma magnífica instituição hoje dirigida pelo meu amigo Guilherme Oliveira Martins, e que à época sofria uma profunda renovação de dirigentes e sócios (entre os quais eu me contava), organizou umas inéditas sessões de debate sobre temas políticos e sociais. Elas funcionavam como um teste para as margens de liberdade concedidas pelo marcelismo. Já não me recordo bem, mas creio que acabaram por ser suspensas, ao final de escassas realizações.

A suprema ironia é que esses encontros, com um orador convidado, tinham lugar na sede do Centro, a cerca de duas centenas de metros da polícia política da ditadura - que Marcelo batizara de DGS, na ridícula tentativa de fazer esquecer o nome da PIDE. Como a entrada era livre, algumas caras menos conhecidas, mas certamente oriundas desses "vizinhos", distribuiam-se pelos escassos lugares da sala.

Numa noite, o convidado foi o advogado Francisco Salgado Zenha, figura que se sabia pertencer ao movimento socialista clandestino e que, após o 25 de abril, foi ministro, candidato presidencial e, por algum tempo, a 2ª figura do Partido Socialista, depois de Mário Soares, com quem viria a incompatibilizar-se de forma irremediável. (Já agora, diga-se que Mário Soares estava presente no jantar em que contei este episódio).

Já não recordo o tema da palestra de Zenha, mas lembro-me que, a certa altura, ele citou uma frase que ouvira ao historiador de arte José Augusto França, que viria a ser diretor do Centro Cultural Gulbenkian, em Paris. Segundo este, desde há muito que os portugueses viviam divididos entre dois santos: São Bento, para quem era atraído pelo poder, e Santa Apolónia, para os que viviam na permanente miragem de Paris.

Foi nessa altura que se ouviu a voz forte, quase de tribuno, do advogado, jornalista e político Francisco Sousa Tavares, que estava na sala ao lado da sua mulher, a escritora Sophia de Mello Breyner, a interromper o orador: "O José Augusto disse isso? Essa agora!? Logo ele, que nunca usa o comboio, que vai sempre de avião para Paris!"

A sala desatou em gargalhadas. Nunca contei esta história ao professor José Augusto França. Espero que a aprecie.

Um livro e uma mesa (23)

O livro de hoje é "Le Sherpa - Mémoire d'un diplomate aux avant-postes de l'Histoire", de Philippe Étienne, ed. Tallandier...